(II Reis 17:24-41)

— Posso mostrar os slides, Senhor?

Sentado à cabeceira de uma mesa de reuniões comprida, Javé parece entediado e triste. Um anjo, em pé lá na frente, tenta atualizá-Lo sobre a situação do reino de Israel.

— É slide do que mesmo?

— Dos deuses que os assírios levaram para Israel.

— Precisa mesmo?

— Era bom, pra contextualizar.

— Tá bom, vai.

— Aqui estão:

— Puta que pariu… Mas é um sítio! Tem galinha, galo, cachorro, burro, cavalo, pavão… Esse Ashima aí é o quê?

— Eu… Eu não sei bem, Senhor. Um bode, talvez?

— Pode ser. Tá vendo porque eu não quero que as pessoas façam ídolos? Porque elas não têm imaginação! Elas pensam em seres celestiais, com poderes, e o que imaginam? Um monte de bicho de fazenda. Apaporra. E o que esses bichos fazem, ou deveriam fazer?

— O mais complicado é esse Sukkoth-Benoth…

— O nome da galinha é Tendas das Filhas???

— Pois é. Traduziram assim. Aí tem gente que diz que é porque o culto dos caras tem umas tendas onde colocam umas moças para… para…

— Enchem as tenda de puta.

— Isso. Mas a galinha com os pintinhos é um símbolo da constelação das plêiades. Eu acho que alguma coisa se perdeu no hebraico. Como se trata de uma divindade da Babilônia, e ligada à fertilidade, eu chutaria que é Zarpanit, a deusa-mãe, mulher do…

— Mulher do Marduk, o deus grandão deles lá. Metido a besta, casado com aquela vagabunda… — Javé nota o espanto do anjo — Não que essa galera exista, claro. O único Deus que existe sou eu. É que… é que eu leio sobre essas coisas aí, pra dar risada.

— Entendido, Senhor. Continuando… Nergal, esse galo aí, é o deus da cidade de Cuta, na região do Eufrates. É o deus babilônio do… deixa ver… do sol e da guerra. E da peste. E do fogo. E do deserto. E do submundo.

— Caralho. Esse aí acumulou mais do que eu. Deixa o Sindideus saber disso.

— Sindideus?

— Toca o barco. E o bode? Ashima, né?

— É. Deusa do destino de Hama, na Síria.

— Como deusa? É um cara!

— Senhor, a questão de gênero…

— Ai, meu saco. Anjo gosta desse negócio de trans, né? Tudo bem. É uma deusa. Ui, deusa! Ui, Senhora do Destino! E depois, o cachorrinho?

— Esse é Nibhaz e o burro que vem em seguida é Tartak. Os dois são deuses dos aveus, de Gaza. Anamelech é a deusa-lua e Adramelech é o deus-sol, marido dela. Os dois são adorados pelos sefarvitas, que oferecem seus filhos em sacrifício ao casal.

— Que palhaçada. E estão fazendo isso em Israel? Na Terra Prometida? Prometida por mim. Dada por mim. Protegida POR MIM. E AÍ VEM UM MONTE DE CORNO LÁ DA CASA DO CARALHO E COMEÇA A ADORAR O ZOOLÓGICO INTEIRO NA MINHA TERRA. É isso, meu anjo?

— É, Senhor. Infelizmente é isso.

— Cachorro, galinha, burro, pavão, égua… Tem um jogo do bicho inteiro ali. Tem leão?

— Xeu ver aqui, um minuto… Leão, leão, leão… Não, Senhor. Leão não tem.

— Pois vai ter…

*   *   *

A estratégia de Sargão, imperador da Assíria, era boa: levar os israelitas para o exílio e trazer gente de outros lugares para ocupar Israel. Longe da terra, o desejo de rebelar-se diminui, a pessoa se conforma, toca a vida. A religião de Israel naquela época não era bem monoteísta: estava mais para henoteísta, em que se serve a um só deus, sem negar a existência de outros. Naquele tempo e naquela região, todos os povos eram henoteístas, e acreditavam que seu deus tinha mais poder sobre aquele território. Os israelitas acreditavam que Javé era poderoso em Israel e Judá, mas não negavam que Marduk, por exemplo, podia ser mais poderoso na Babilônia. Então, além de longe de sua terra, os israelitas estavam longe de seu Deus. Javé continuava ali em Israel, o que seria um problema para os colonos.

*   *   *

Os colonos recém-chegados estão, como dizem os poetas e os sábios, com o cu na mão. Já é bem difícil sair da sua terra para um lugar desconhecido. Fica mais difícil se houver outras pessoas na mesma situação, e que são de outras culturas, falam outras línguas. Hama (ou Hamate) ficava na Síria. Babilônia (a cidade) e Cuta ficavam no atual Iraque. Os Aveus vinham de Gaza, que na época era a Filistia (soa como Palestina? Não é coincidência). Ninguém sabe direito onde ficava Sefarvaim, se no Iraque ou na Síria, mas o caso é: muita gente de vários lugares diferentes, o que deixava tudo mais complicado. E para complicar mais ainda, as pessoas começaram a aparecer mortas. De saudade de casa? Não. Mortas-matadas, com marcas de garras e dentes. Garras e dentes grandes.

— Foi um leão — conclui um colono ao ver mais uma vítima estraçalhada no chão.

— Um leão? Tá doido? Só existe leão na Áfr…

O leão, uma espécie que na época existia na África, sim, mas também da Grécia até a Índia, aparece e come os dois debatedores.

Sim, os leões tinham invadido Israel e estavam matando os colonos. A notícia chegou a Sargão II. O imperador, um henoteísta, logo desconfiou da causa dessa invasão felina e chamou um dos servos do palácio.

— No meio desses israelitas aí que nós trouxemos, tem algum sacerdote da religião deles?

— Ih, majestade… Difícil, hein? Aquilo ali tava uma zona quando a gente chegou. Virou Brasil, todo mundo seguia duas, três religiões. De qual religião o senhor está falando?

— A original mesmo, raiz. Aquela miséria de um deus só, que não aparece nunca…

— Aaaah, sei qualé. Tem um cara aqui, sim.

*   *   *

— HAHAHAHAHAHAHAHAAHA. CONTA OUTRA, PADRECO!

— É sério, caralho! Cês querem aprender a religião ou não?

— Claro que sim, sacerdote. Mas pega leve, pô. Pão caindo do céu?

— Quero ver na hora que eu contar do profeta que foi pro céu de carro.

— HEIN?

— Uma coisa de cada vez. Alguma dúvida até agora?

— Eu tenho! Aqui no Levítico diz que não pode usar roupa feita de dois tecidos diferentes, certo? Por quê?

— Como assim, “por quê”? Porque não pode, ué. Porque Deus mandou.

— Tá, mas porque esse deus aí… esse Javé que cês fala… se preocupa com isso?

— Eu… eu não sei.

— Porque veja, o Tartak, meu deus, nunca pediria nada idiota assim. E olha que ele é um burro…

— Cara, cê quer virar comida de leão? Não, né? Então tá aí o motivo da lei: misturar dois tecidos atrai leão. Satisfeito?

— …

— Então vamos adiante. Leis sobre a lepra

O trabalho do sacerdote foi difícil, mas ele conseguiu ensinar a religião israelita aos novos moradores da terra, e Javé mandou os leões de volta para casa. Só que o furdunço já estava feito. Ninguém larga sua religião tão fácil, então Samaria virou a capital do sincretismo. Os cultos a várias divindades se misturaram, Javé entrou nessa salada, e o povo adorava e sacrificava a todos esses deuses.

O autor do livro dos Reis condena com muita ênfase esse estado de coisas, é claro. Aqui há outro trecho longo recapitulando os pecados que levaram ao fim do reino de Israel, e agora também os pecados dos novos habitantes, que seriam conhecidos como samaritanos.

Os deuses que os colonos assírios levaram para Israel, em ilustrações do monge beneditino francês Antoine Augustin Calmet (1672-1757)

 

Essa treta entre Judá e Samaria continuaria forte mais de setecentos anos depois, nos tempos de Cristo. Conhece o Bom Samaritano? Um cara machucado na estrada, vários judeus passam por ele — poderosos, ricos, religiosos — e o ignoram. Quem o socorre, leva para casa e paga pelo tratamento todo é justamente um samaritano. Jesus inventou essa história porque tinha mandado amar o próximo e os discípulos, como sempre se fazendo de bestas, perguntaram “mas quem é o próximo?”. Jesus contou a parábola e no fim perguntou: “Quem é o próximo nessa história?”. Os discípulos nem conseguem falar em samaritano: dizem “aquele que ajudou o cara”. Era treta forte.

Em São Paulo tem um hospital católico chamado Hospital Samaritano. Fica no meio de Higienópolis, o bairro judeu. Puta sacanagem.

(II Reis 17:1-23)

Território da 25ª Dinastia do Egito, a Dinastia Etíope, ou Império Cuxe

Oséias, rei de Israel, entra no palácio real egípcio. Foi uma longa viagem. Ele talvez pensaria no caminho contrário feito por seus antepassados guiados por Moisés, mas tirando alguns sacerdotes e profetas meio amalucados, ninguém mais fala dessas lendas antigas nas Dez Tribos do Norte. Bom, Dez Tribos é forma de dizer: graças à incompetência do rei anterior, Peca, a Assíria já havia anexado boa parte do território. Israel era agora pouco mais do que a capital, Samaria, e as terras em volta. Oséias liderou uma revolta contra o rei enfraquecido, foi vitorioso e assumiu o trono. Corre o boato por Israel e pelas terras vizinhas de que ele teria sido colocado ali pelo próprio Tiglate Pileser, soberano assírio. Ele não confirma nem nega. Só quer livrar o próprio rabo. Então está ali, batendo as sandálias num degrau para tirar o grosso da poeira, sem pensar em Moisés, em Mar Vermelho, apenas na sede que tem e na missão que o traz aqui. Ele vê um homem passando. Negro retinto, alto, a cabeça raspada.

— Ô, rapaz!

O homem o ignora.

— Xiu! Negão! Ô, negão!

Nada. Oséias se lembra de uma velha piada egípcia.

— Ôôô… MÚMIA DE FITA ISOLANTE!

O homem se vira lentamente e dá de cara com aquele homem sujo de poeira, descabelado, os lábios rachados. Um mendigo? Um louco?

— Como disse?

— O escutador de samba tá quebrado?

— Hein?!

— TÁ SURDO, NEGÃO? Vim aqui falar com o rei… como é mesmo o nome dele?

— Sô.

— É o quê?

— O nome do rei, Sô.

— “O nome do rei, sô…” Cê é mineiro?

— O rei se chama Sô.

— Sô? Só Sô?

— Eu sou só Sô.

— Agora cê já tá falando língua de africano. Não sou da sua tribo não, filho. Cadê o rei… Sô? É de quê esse “Sô”? “Solange”?

— Pergunte a ele.

— Eu perguntaria se conseguisse saber onde encontro o corno.

— “O corno” sou eu.

Pela primeira vez Oséias nota de verdade o homem. As roupas dele são reluzentes. Muito ouro, pedras preciosas. É a primeira vez também que Oséias se dá conta da própria aparência. Talvez o negro tivesse o direito de tratá-lo mal, mas não o contrário. É evidente que é o rei que está na frente dele. Oséias cai de joelhos.

— VOSSA CRIOULÊNCIA! Perdoe este seu servo. Não sabia que o rei era afro-egípcio.

Oséias não sabia (nem eu, até ontem) que a 25ª dinastia egípcia foi formada por reis etíopes. Algumas traduções da Bíblia falam em Etiópia, outras de Cuxe (que era o nome de um dos filhos de Cam, filho de Noé, que seria o antepassado de todos os negros), outras ainda de Núbia. Não se trata da Etiópia atual, mas um pedaço de terra que corresponde mais ou menos ao atual Sudão. A terra de Cuxe tinha sido parte do império egípcio, mas conquistou a independência em 1.100 a.C. e foi se tornando um reino cada vez mais poderoso. A capital era a cidade de Napata, perto de onde fica hoje a cidade sudanesa de Karima. Em 732 a.C, enquanto os assírios estavam ocupados com a Síria e Israel, os etíopes conquistaram partes do Delta do Nilo. 1

Mas voltando à cena, está lá Oséias de cara no chão, tentando consertar e pensando “puta que pariu, eu que caguei na entrada”. Sô não tem tempo para salamaleques:

— Levanta daí, maluco. Quem é você? O que você quer?

— Sou Oséias, rei de Israel.

— Rei? Você é o rei de Israel? Eu sabia que Israel ia mal das pernas, mas nem tanto. Se o rei tá nesse estado, imagino o povo…

— Foi uma longa viagem, Vossa Negritude. Mas não vem ao caso. Estou aqui para pedir sua ajuda contra os Assírios.

— Ah, eles estão cercando Samaria, né? Tô ligado, mano. Cês são sangue ruim mesmo. O maior império do mundo cercando ali, e vocês firme. Foda.

— Pois é, mas não sei quanto tempo isso ainda dura. O poder deles é infinito, e nós somos só um pequeno reino.

— Peraí. Seu nome é Oséias, não é? Não era você que quebrava os dentes se o Tiglate Pileser levasse um chute no saco? Cê não era boneco do Pul? Que houve?

— Porra, esses boatos… O negócio foi o seguinte…

*   *   *

Oséias, o último rei de Israel

O rei anterior, Peca, tinha sido um desastre. Sob seu comando, Israel perdera boa parte de seu território. Então Oséias comandou uma revolta, matou o rei e tomou seu lugar. Isso foi em 732 a.C., quando Acaz já era rei de Judá havia doze anos. Oséias subiu ao trono e tratou logo de ficar pianinho com o Império Assírio. Pagava impostos, mandava presentes, enviava mensagens de bom dia no WhatsApp. Era tanta bajulação que logo o povo desconfiou que ali havia coisa. E com razão: documentos assírios da época dizem que Oséias tinha sido escolhido por Pul. Então tudo ia bem, daquele jeito.

Só que Pul morreu em 726 a.C. e Oséias achou que era uma boa oportunidade para revoltar-se. O cara quando é chegado numa conspiração, ninguém segura. E não foi só ele: muitas nações sob domínio assírio aproveitaram a transição para tentar a sorte — inclusive a Babilônia, cada vez mais poderosa. Só que o filho de Pul (chamado pelos revoltosos de filho da pulta), Salmaneser, não estava para brincadeira. Foi com seu exército até Samaria, cercou a cidade. Quando encontrou com Oséias, ele se fez de besta.

— Eeeeeu? Revooooolta? Magina, meu rei! Tô aqui de boínhas. Quê? O imposto não chegou? É esse Bradesco que é uma merda, majestade. O senhor tem conta em outro banco? Aceita Paypal? A gente dá um jeito nisso. Posso te fazer um cheque? Só não quero que a gente fique mal. Somos parceiros há tanto tempo! Seu pai foi um grande amigo, eu amo a Assíria, passo férias lá… Como prova de minha lealdade, lhe entrego esse presente.

— Hum. Que é isso?

— É uma garrafa com areia colorida formando uma paisagem. Linda, né? Obra de arte de muito valor…

— Isso aqui é uma quinquilharia.

— Bom, com o que a gente paga de imposto não sobra muito pra comprar presente…

— COMO É?

— É simples, mas é de coração. Aceite, por favor.

— Olha aqui, Ozônio…

— Oséias.

— OLHA AQUI, OZÔNIO…

— Eu mesmo, seu criado…

— Tem muito povo importante se revoltando império afora. Perto da Babilônia, Israel é um apêndice supurado, um siso cariado. Eu vou deixar passar, porque tenho coisas mais importantes e urgentes para resolver. Mas fique avisado: se eu desconfiar que você está tramando alguma coisa pelas minhas costas, eu vou EXTRAIR Israel do mapa. Entendido?

— Tramando? Pelas suas costas? Majestade! Sou seu servo fiel, estou aqui para apoiá-lo no que precisar. Pode contar comigo.

Salmaneser não ficou para suportar a lambeção de Oséias. Tinha mesmo problemas mais urgentes para resolver. E, assim que ele virou as costas, Oséias se empirulitou para o Egito. Ia pedir a ajuda de Sô.

*   *   *

— Bom, então você mentiu para o rei da Assíria.

— Digamos que omiti algumas informações estratégicas…

— Mentiu. E fez muito bem. Pode contar com minha ajuda, Oséias. Mas apenas financeira. Eu não vou me meter em conflito direto com esse Salmaneser aí, não. Não sei ainda qual é a dele, e aqui no Egito tá tudo tranqüilo. Não vou arrumar sarna pra me coçar. Tá bom pra você?

— Tá ótimo, meu rei de ébano… De quanto estamos falando mesmo?

*   *   *

O rei Sô fazendo a egípcia

De volta a Samaria com o bolso cheio de dinheiro, Oséias está confiante. Não vai mais pagar imposto nenhum à Assíria. Salmaneser que se lasque. O negócio agora é equipar o exército, reforçar as muralhas e…

 

— Rei Oséias?

— Quem é?

— Exército do Império Assírio. O senhor está preso por traição.

— Traição? Eeeeeu? Eu jamais trairia meu grande soberan…

— Calaboca.

— Pois não.

A notícia sobre a visita de Oséias ao Egito tinha corrido rápido, e Salmaneser logo tomou providências. Oséias foi levado para a prisão e Samaria foi cercada. Se Oséias tinha esperança numa intervenção do rei do Egito, podia esperar sentado. Vários outros povos tinham pedido ajuda ao Egito naquela época. Interessava ao Egito conter os avanços do Império Assírio, mas só nos bastidores, com agitação e financiamento. Quando o bicho pegava mesmo, não vinha do Nilo ajuda nenhuma. Ou seja: o faraó fazia a egípicia.

A intenção era resolver logo o problema, mas uma combinação de teimosia com dinheiro egípcio fez o cerco durar três anos. O que foi um problema para Salmaneser: desgastado por levar tanto tempo para subjugar um reino minúsculo e enfraquecido, ele foi assassinado. O usurpardor, Sargão II, mandou parar de frescura, cerco, guerra psicológica e não sei mais o quê: a ordem era invadir na força bruta, matar quem resistisse e deportar quem sobrasse.

Uma vez decidida, a ação foi rápida. Vinte e sete mil israelitas foram deportados para partes distintas do Império Assírio. Ficou em Samaria apenas a ralé, sem ânimo nem condições de resistir ao domínio estrangeiro.

*   *   *

As 12 tribos de Israel em 1.200 a.C. Judá e Simeão formam o Reino do Sul, Judá. As outras dez eram o Reino de Israel. Na época da conquista Assíria, Israel já era bem menor.

E assim, pouco mais de duzentos anos depois da revolta de Jeroboão que dividiu o reino em dois, chegava ao fim o reino de Israel. De lá para cá, muitas lendas surgiram sobre o destino das Dez Tribos perdidas de Israel. Em 2005, Israel reconheceu um pequeno grupo do nordeste da Índia, chamado Bnei Menashe, que se identificava com a tribo de Manassés.  Os 7200 integrantes da Bnei Menashe receberam vistos de entrada em Israel.

Existem lendas entre os pshtuns, grupo étnico do Afeganistão, de que eles seriam os remanescentes da tribo de Efraim. Cientistas começaram um estudo genético em 2010 para estabelecer esse vínculo. Não houve resultados conclusivos.

A comunidade tradicional judaica de  Bene Israel (“filhos de Israel”), na Índia, também alega ser descendente de uma das dez tribos. Nunca foi reconhecida por Israel.

A comunidade Beta Israel (“casa de Israel”), da Etiópia, acredita ser descendente da tribo de Dan Stulbach. Em 1977, o governo israelense decidiu que a Lei do Retorno se aplicava aos judeus de Beta Israel.

Os Judeus Igbo, da Nigéria, dizem ser descendentes de várias tribos: Efraim, Naftáli, Manassés, Levi (a tribo dos sacerdotes!), Zebulom e Gade. Até aí, eu também posso dizer que sou neto do Chuck Berry. Só que eu não posso provar. Eles também não, então não receberam nenhum reconhecimento.

Integrantes da tribo Bnei Menashe, da Índia, reconhecida por Israel como remanescente da tribo perdida de Manassés

Além desses grupos, há teorias malucas: as Dez Tribos perdidas de Israel teriam originado os índios americanos, os ingleses e até os japoneses. O mais provável, porém, é que eles tenham sido assimilados. Como diz Isaac Asimov, o incrível não é que as Dez Tribos tenham desaparecido, mas sim que as duas tribos que formavam o reino de Judá, tão pequeninas, tenham resistido à assimilação e chegado até os dias de hoje.

*   *   *

Toda essa história está nos primeiros seis versículos do capítulo 17 do segundo livro dos Reis. Os versículos de 7 a 23 são uma recapitulação: contam que Israel adorou outros deuses, desobedeceu a lei de Javé, e por isso foi destruído. Acredita-se que os livros de Josué, Juízes, I Samuel, II Samuel, I Reis e II Reis tenham sido escritos na volta do exílio de Judá, 47 anos  depois da conquista babilônia em 586 a.C. Trechos como esse, então, serviam de alerta: ou vocês seguem a religião direitinho, ou o bicho vai pegar de um jeito pior da próxima vez, como aconteceu com o reino de Israel.

— Reino de Israel? Que é isso?

— Exatamente — diz Javé, que ficou o capítulo inteiro sumido.

 

(II Reis 16)

— Doe ouro! Ouro para salvar o reino! Judá precisa de você! Doe ouro! Doe prata! Ouro e prata para salvar o reino!

Uma kombi velha percorre as ladeiras de Jerusalém. O povo sai das casas com anéis, brincos, pulseiras, e joga pela porta lateral aberta da perua. No vidro traseiro, um adesivo “Dirigido por mim, Guiado por Javé” em que “Javé” foi riscado e trocado por “Moloque”. A religião oficial de Judá, a religião do Deus que se revelou a Abraão e depois inventou a religião junto com Moisés, a religião de um Deus só e várias regras de higiene já não é mais tão popular. Graças ao rei Acaz.

Acaz está no palácio, andando em círculos ao redor de uma pilha de ouro e prata: vasos, pratos, castiçais, objetos de decoração e de culto tirados do palácio e do Templo.

— Tem que dar certo. Ele tem que aceitar. Se ele não aceitar, aí… Mas ele vai aceitar.

*   *   *

— Filho da PUTA!

Olhando na tela quebrada do tablet a imagem em tempo real de Acaz no palácio, Javé não se agüenta. Ele joga o tablet, uma tranqueira que roda Android 2.3, contra a parede do Universo. O aparelho se desfaz numa explosão nuclear. Um anjo traz outro.

— Não quero mais ver essa merda!

Deus bate no tablet, que cai no chão e trinca a tela. O anjo suspira. Lembra do tempo em que usavam iPads de última geração. Mas não valia a pena. Deus quebra um tablet por dia, e estava saindo caro. Além do mais, não pegava bem gente do céu usando tecnologia importada do inferno. Então o departamento de compras passou a apelar para o segundo pior fornecedor: a China.

— Esse MERDA tá tirando onda com a minha cara! Porra! Minha vida é só desgosto, não é possível. Eu escolhi esse povo, tirei da escravidão, entreguei uma terra boa para eles, mandei matar todo mundo que morava lá, que era para não irem atrás de outros deuses. E o que aconteceu? Hein? ME FALA!

— Israel… Israel voltou às religiões antigas.

— Isso! Moloque! Baal! A série B das divindades, um bando de entidade de segunda. E eu aqui, o verdadeiro Deus, criador da porra do Universo, deixado de lado! Mas Judá, não. Judá sempre foi legal. O reino se dividiu e Israel foi só ladeira a baixo, por isso que a batata deles tá quase queimando de tão assada. Mas Judá era uma belezinha. Davi, depois o Salomão, filho do Davi. Aí veio o tal do Jeroboão lá, o reino se dividiu, mas em Judá continuou a dinastia. Veio o Roboão, filho do Salomão, depois o… o… aquele filho lá do Roboão.

— Abias

— Foda-se, quem se importa? O negócio é que em Israel sempre foi aquela zona. Revolução, golpe, contragolpe, #NãoVaiTerGolpe, bate panela, “cadê as panela?”, outro golpista, uma putaria. Em Judá é sempre um descendente de Davi, bonitinho, organizadinho. Claro que de vez em quando aparece um ou outro rei feladaputa, mas eu logo dava um jeito. Agora me vem esse Acaz e… Filho da PUTA, eu não acredito que ele vai sair dessa! Resistir a uma invasão de Israel, vá lá. Israel é grande mas não é dois. Mas da Síria? A Síria é FODA. A Síria tem o pão sírio… Hmmm, vontadinha. Tem aí?

— Está em falta, Senhor.

— Puta que pariu, porque é que no céu nunca tem pão, hein? Bom, eu tava falando da Síria. Tem o pão sírio. Tem… tem o hospital Sírio-Libanês… tem aquela frutinha lá, o Damasco. Ô, anjo… Curte damasco seco?

— Eu… eu gosto, Senhor.

— Então cê aprecia dá-mais-cu seco, é? Hein? HAhaahahaha! Entendeu essa? Dá-mais-cu seco! Hahahhhahaha!

— …

— Próxima geração de anjo eu vou lembrar de fazer com senso de humor… Tem o damasco, tem o Sírio-Libanês, tem o… tem o Círio de Nazaré.

— Senhor, na verdade o Círio de Naz…

— NÃO ME CORRIJA! Tá pensando que tá no Twitter, desgraça???

— …

— Eu não acredito que o corno do Acaz vai sair dessa. Mas que grande, que imenso e incomensurável filho de uma grande e gorda prostituta tuberculosa perneta.

*   *   *

Moloque, em representação do século 18

Dá para entender a fúria de Javé. Primeiro porque tablet chingling rodando Android 2.3, provavelmente com aquela resolução 800×600, é uma puta sacanagem. E depois porque Acaz, rei de Judá, parecia fazer de tudo mesmo para provocar a ira divina. Ele chegou ao trono aos 20 anos de idade, com a morte do pai, Jotão, mais ou menos em 732 antes de Cristo. Acaz reinou por 16 anos. Papai Jotão (não confundir com Jotalhão) era um rei fiel à religião dos antepassados. Acaz, não: tratou logo de oficializar os cultos de fertilidade, clandestinos havia séculos. Ele oferecia sacrifícios e queimava incenso nos “lugares altos”, que eram locais ao ar livre para adoração de vários deuses (em alguns deles tinha espaço até para uma altarzinho dedicado a Javé — e a única coisa que poderia irritar o Deus dos judeus mais do que adorar outros deuses era considerá-Lo como um deles). A Bíblia diz também que ele sacrificava “embaixo de toda árvore frondosa”: alguns comentaristas dizem que isso era um eufemismo para orgias dedicadas aos deuses da fertilidade. Além da idolatria e da putaria, Acaz também chegou ao extremo de sacrificar o próprio filho, um costume muito querido entre os adoradores do deus Moloque.

Como castigo por sua ousadia, digamos assim, Deus mandou Rezim, rei da Síria (que na época se chamava Aram, onde se falava o aramaico, idioma que viria a ser falado na Palestina dos tempos de Cristo), e Remalias, rei de Israel, cercarem Jerusalém. A vitória era certa, mas Jerusalém resistiu. E no meio do cerco, Acaz teve uma idéia.

Anos antes, quando o rei da Assíria Tiglate-Pileser III (Pul para os íntimos) invadiu Israel, o então rei israelita Menaém deu a ele 34 toneladas de prata para aliviar pro lado dele e ir embora. Lembrando disso, Acaz resolveu raspar o tacho: recolheu todo o ouro e prata do Templo e do palácio, e mandou uma kombi reino afora para recolher até a última lasca de metal precioso.

— Tem que dar certo. — Acaz murmura pela milésima vez — Ele tem que aceit…

Entra um servo para dizer que a kombi está lotada. Acaz manda trazer tudo e juntar à pilha no centro do salão, e os servos o fazem. O rei se posta de costas para o tesouro e faz uma selfie.

— E agora, majestade?

— Agora é pegar a flanela e lustrar bem as bolas do Pul. Vou mandar a foto pelo Zap. Que que eu escrevo, você que é bom de bajular os outros?

— Obrigado, senhor. Eu começaria com “Digníssimo e muito piedoso Tiglete-Pileser III, soberano dos Assírios, Luz da Manhã, fogo sagrado que arde em nossos corações, Ó PUL, TU QUE ÉS TÃO PODEROSO E SUBLIME, QUE COM TUA SERENIDADE E JUSTIÇA LANÇA SOBRE OS POVOS A VERDADEIRA L…”

— CALMA. Calma. Eu não quero estourar o saco do cara. É mais uma alisada, sabe? Uma massaginha, um beijinho, aquela cosquinha no cu… Hummm… Já sei. “Miga, sua loka. Tô pas-sa-da com a Síria e Israel. Acredita que tão querendo me invadir, os arrombado? Cê sabe que cê é tipo um pai pra mim, né, miga? Te amo tanto… Tô aqui pra te servir, mas vai ser difícil se estourarem minha cara, né? Então conto aí com a nossa amizade. E como prova dessa amizade, tô te mandando uma lembrancinha. Tá aí na foto. Não sou eu, hein?” Cadê aquela carinha chorando de rir? Aqui. “Não sou eu. É essa pilha de ouro e prata aí. É todo o ouro e toda a prata do reino. Coisa pouca. Mais ouro do que isso, só se o Michael Phelps casasse com um bicheiro em comunhão total de bens. Muito mais do que aquelas 34 toneladas do outro lá, viu? Aguardo sua resposta.” Enviar, pronto. Seja o que os deuses quiserem.

— O que Deus quiser, majestade.

— Que seja. Escolhe um aí e reza. E já leva o presente lá pro Pul.

— Majestade… O reino vai ficar pobre.

— A alternativa é não ter mais reino. O que você prefere?

— …

— Arrombildo. Vai.

Mapa do Levante em 830 a.C. mostra Israel, Judá, o reino Arameu (Síria) e um pedacinho do Império Assírio lá em cima

*   *   *

O arrombildo foi, Pul aceitou o presente, e fez muito mais do que Acaz sonhava. Invadiu a Síria, tomou Damasco (a cidade, não a fruta) e executou o reizim Rezim. Isso aconteceu em 732 a.C., e só em 1941 Damasco voltou às mãos dos sírios. Durante quase 2.700 anos, a cidade passou de mão em mão, igual tua irmã outras cidades que sofreram cercos e invasões. O povo de Damasco foi levado para o cativeiro na cidade de Quir, em Moabe, que estava sob domínio do Império Assírio. Quir é hoje a cidade de Karak, na Jordânia. Além de grande cidade, daria também um bom nome para um DJ.

A notícia era boa demais para ser verdade, Então Acaz montou num camelo (o governo estava sem dinheiro para gasolina, então não dava para ir de carro) e foi até Damasco para se encontrar com Pul. Nem consigo imaginar a sessão de bajulação, de lustra-bolas, de puxa-saquismo que se seguiu. Só sei que Acaz chegou lá e viu um altar grande, bonito, ficou muito impressionado com o altar. Tirou uma foto e mandou para Urias, o sacerdote em Jerusalém: “Bafo esse altar. Quero um i-gual.”

Vocês vejam a situação de Urias: ele era sacerdote da religião oficial. Estava desmoralizado, coitado. O rei só queria saber de queimar criança e fazer suruba no morro, enquanto o pobre do Urias ficava no templo (agora bem mais pobre sem os adornos de ouro e prata) sacrificando a Javé o que sobrava. Ia fazer o quê? Falar “não, constrói você”? Então Urias fez o altar.

Quanta Acaz voltou a Jerusalém, ficou doido com o altar novo.

— Olha que beleza! Nossa religião está ultrapassada, Urias!

— Isso eu já não sei, senhor…

— Pois eu sei! Fica aquele templo lá, cheio de ritual, lugar lá que ninguém pode pisar, aquele altar hor-ro-roso. Estamos em 732 antes de Cristo…

— Antes de quem?

— Quê?

— Cê falou “732 antes de Cristo”.

— Falei? Nem vi. Tô meio doidão ainda. Os cara lá em Damasco usa uns negócio… Mano, depois te conto. Mas enfim, o negócio é que estamos agora, neste ano de agora, que tudo é… moderno e… avançado… sei lá, e nossa religião é, tipo, do século passado. Sabe? Chega disso.

— É a religião dos nossos antepassados, senhor. Do Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Do Deus que nos tirou do Egito e nos trouxe para uma terra que mana leite e mel.

— Que terra que mana leite e mel, Urias? Se não for as cabras e as abelhas, não tem leite nem mel pra ninguém, não. E que Egito? Eu nunca pisei no Egito, nem meu pai. Você já foi lá no Egito, tirou selfie com pirâmide? Não, né? Abraão, Isaque, Jacu, tudo coisa antiga. Isso que eu tô falando. ISSO QUE EU TÔ FALANDO, TÁ LIGADO.

— O que é esse pó branco no seu nariz, senhor?

— Afe, tem giz na lousa! ABAFA! Aquele altar horroroso nosso, lá. Que porra é aquela? Um monte de boi de cobre, aquela pia grandona lá….

— O mar de bronze sustentado pelos bois de bronze?

— “Mar” já é demais, né? E tem aquela porta lá para a entrada do rei… Eu lá quero uma porta só pra mim? Nem entro naquela porra. O negócio é religião moderna, Urias! Ao ar livre, na natureza, todo mundo pelado se comendo!

— Mas essa é a religião antiga, majestade!

— Antigo é verde, verde é bambu, bola na rede, pau no seu cu. Tá vendo? Seu argumento é inválido. Faz o seguinte: traz o altar de cobre lá do templo e coloca do lado desse aqui. Tira a pia grandona de cima dos boi, coloca numa base de pedra, sei lá. E empareda a tal da entrada real. Quando o rei da Assíria vier aqui visitar, eu quero que ele veja como o negócio aqui é modernidade. Meu Jesus…

— Quem?

— Hum?

— Nada. E aí vai oferecer sacrifício nos dois altares?

— Não, só no novo.

— Ué. E o antigo?

— Ah, sei lá. Vou ver. Talvez eu use pra macumba, pra adivinhação, não sei. Anda, Urias.

Urias, já de saco cheio do pior emprego do mundo, fez tudo que o rei mandou. E assim o rei de Judá, responsável pela proteção da religião oficial, profanou o Templo de Salomão.

Acaz morreu aos 36 anos de idade, e seu filho Ezequias subiu ao trono.

*   *   *

Uma última curiosidade sobre essa história… O autor do segundo livro dos Reis conta que na mesma época do cerco a Jerusalém, Rezim, o rei da Síria, invadiu a cidade portuária de Eilat (ou Elat), ao sul, expulsou de lá os judeus e levou sírios para viverem lá. Os sírios ainda viviam em Eliat quando o texto foi escrito, talvez uns duzentos anos depois.

Eilat foi onde os hebreus chegaram após a travessia do Mar Vermelho, quando fugiam do Egito. Davi reconquistou a cidade quando ela estava sob o domínio de Edom, e Salomão construiu o porto. Agora ela saía do domínio de Judá, e só seria repovoada por judeus em 1955. Nesse intervalo, passou de mão em mão igual tua irmã.

Eliat é hoje um balneário badalado no extremo sul de Israel.

Nada disso é muito importante. A curiosidade verdadeira é: essa é a primeira vez na Bíblia em que se usa a palavra “judeus” para referir-se ao povo de Judá.

A Eilat moderna

Antes, uma explicação.

Escrevi essa versão antes daquela que foi publicada. Texto comprido, muita informação num capítulo só. Escrevi do jeito que deu, cheguei a salvar como rascunho no blog. Fui ler e achei uma merda. Aliás, eu não achei nada. Os encostos acharam.

Pois vejam: eu ando muito self conscious ultimamente, parece que tem sempre meia dúzia de zoião me observando enquanto escrevo. Aí fico vexado. Escrevo uma frase e o pessoal que tá espiando já começa a palpitar: olha a voz passiva, olha a concordância, olha a ambigüidade, que porra é esse trema, cadê as aspas quando a gente fala.

Malditos encostos.

Fora isso, meu cérebro é um vazio. Quando preciso de uma idéia, olho lá dentro da cabeçorra e é só um descampadão, o vento assobiando. Escrevo mesmo assim, e o resultado sempre me desagrada. Pior: não reconheço como texto meu. Imaginem uma cadela que passou por uma cesariana. Ela acorda da anestesia, vê aqueles filhotes ali do lado dela e não entende porra nenhuma. Se não tiver ninguém por perto para impedir, ela mata tudo. Eu estou que nem essa cadela. Uma cadela gorda e careca.

Ah, que imagem linda.

Esqueçam a cadela. Imaginem uma pessoa que perdeu o sentido do paladar. Estou feito esse infeliz aí, que bota um negócio na boca e não sabe se é sorvete de morango um um filhote de cachorro.

Mas eu dizia que escrevi esse texto de agora e os encostos reprovaram. Desisti, fui fazer outra coisa, aí me veio a idéia de contar a mesma história naquele formato de diálogo. Pareceu uma boa idéia na hora, mas antes da metade do texto eu já sabia que não estava legal. A idéia era besta, a execução era mais besta ainda. Acabou ficando um negócio basbaque, artificial. Mas é claro que tudo o que escrevo ultimamente me soa artificial.

Então foi isso que aconteceu: escrevi dois textos e ambos me parecem a mesma coisa. Só que deram trabalho igual, então nada mais justo do que publicar os dois. Os encostos discordam: acham que eu não devia publicar era nenhum e desistir logo desse negócio de escrever. Mas, pô, é a única coisa em que eu consigo ser ao menos medíocre; em todo o resto eu sou ruim pra caralho.

Ó:

A ordem em Judá e a bagunça em Israel

(II Reis 15)

Este capítulo mostra bem a diferença entre os reinos do Norte e do Sul, Israel e Judá. Em Israel, os reis preferiam a putaria das religiões pagãs. No começo da história de cada um desses reis, o autor diz que eles fizeram “o que era mau aos olhos do Senhor e não se apartaram dos pecados de Jeroboão, filho de Nebate, que fez pecar a Israel”. Esses “pecados de Jeroboão” eram o de sempre: idolatria, desrespeito pela religião oficial, perseguição aos profetas. Javé se emputecia e toda hora mandava uma desgraça qualquer para acabar com a raça do rei. Em Judá, vez em quando ainda aparecia um rei que andava na linha e não irritava Javé.

Foi o caso de Uzias, que sucedeu seu pai Amazias na época em que Jeroboão II (nenhum parentesco com o Jeroboão original) era rei de Israel. Uzias (que também atendia por Azarias) seguiu a religião direitinho, respeitou os profetas e coisa e tal. Em retribuição, o Senhor Misericordioso (louvado seja) sapecou-lhe uma lepra. Para não se desfazer aos olhos dos súditos, Uzias se mudou pra uma casinha separada do palácio, deixando seu filho Jotão como rei de fato. Se Uzias tentava meter o nariz em assuntos do reino, Jotão bronqueava e devolvia o nariz ao pai. Era uma merda.

Uzias reinou por 52 anos, boa parte deles isolado em seu barraco de leproso. Quando não estava louvando ao Senhor por tantas bênçãos recebidas, sua diversão era apostar com as visitas que conseguia coçar a orelha com o dedão do pé — o que não era tão difícil quanto parecia, e só espantava as visitas.

Este capítulo também mostra muito bem como é difícil acompanhar a sucessão de nomes esquisitos e dinastias na Bíblia. Uzias-Azarias era da dinastia de Davi, que reinava ininterruptamente havia mais de 230 anos. O mesmo não acontecia em Israel. Quando o reinado de Uzias ia ainda pelo trigésimo-oitavo ano (ele já caindo aos pedaços), o rei de Israel Jeroboão II morreu, e seu filho Zacarias subiu ao trono. O reinado de Zacarias durou só seis meses. Um tal Salum juntou meia dúzia de descontentes, derrubou Zacarias e assumiu o trono. Zacarias foi o quarto e último descendente de Jeú a reinar em Israel. Terminava a quinta e mais longa dinastia israelita após a divisão do reino.

O reinado de Salum foi um sucesso: durou um mês. Um certo Menaém, morador da cidade de Tirza, não aceitou o novo rei. Ele não suportava usurpadores, e por isso foi até Samaria, matou o rei e assumiu o trono. Menaém era uma dessas pessoas de bom coração. Vejam só: os moradores da cidade de Tifsa se recusavam a reconhecê-lo como rei. Então ele invadiu a cidade, matou os moradores de toda a região e rasgou a barriga de todas as mulheres grávidas. Um docinho de pessoa.

Menaém, o Virtuoso, foi rei durante dez anos. Javé não ia com a cara dele, mas também não fez nada para derrubá-lo. Tiglate-Pileser, rei da Assíria, até tentou. Invadiu Israel e quase anexou o reino. Mas Menaém foi esperto: entregou trinta e quatro toneladas de prata à Assíria para que o império o ajudasse a firmar-se no poder. Tiglate-Pileser (que tinha o simpático apelido de Pul) aceitou a oferta e voltou para casa com seu exército. Menaém morreu de causas naturais, e seu filho Pecaías ficou em seu lugar, reinando por dois anos.

Agora, se rei israelita já pecava pra dedéu, imaginem um cara chamado Pecaías. Pior do que ele, só um outro cara chamado Peca, oficial do exército. Peca reuniu cinqüenta homens em Gileade e matou o rei quando ele ainda estava se acostumando ao trono. Peca foi o cabeça de Israel por vinte anos, só fazendo o que Javé não gostava — e bem nas fuças dEle. É que Javé tinha entrado numas de ser paciente: em vez de matar o cara logo de uma vez, dizia “tua batata tá assando” e deixava. Foi durante o reinado de Peca que o império Assírio voltou a botar as manguinhas de fora. Tiglate-Pileser, o Pul, anexou as regiões de Gileade, Galiléia e Naftáli, junto com outras quatro cidades, e levou seus moradores para a Assíria como prisioneiros.

Enquanto tudo isso acontecia, o leproso Uzias-Azarias seguia firme como rei de Judá. Quando ele finalmente morreu, seu filho Jotão tornou-se rei de verdade e reinou por dezesseis anos. Foi durante o reinado de Jotão que Peca, rei de Israel, e Rezim, reizim da Síria, atacaram Judá pela primeira vez. Era a nova política da vingança sem pressa de Javé, que já preparava o cenário para a entrada em cena de Acaz, filho de Jotão. Acaz seria provavelmente o pior dos reis de Judá, pior do que os piores de Israel.

Jotão ainda vivia quando uma última conspiração em Israel derrubou o rei Peca. Oséias, líder dos revoltosos, tornou-se rei. Se ele soubesse o que o esperava, teria aproveitado melhor a vida de rei. Comprado uns carros, umas odaliscas, sei lá. Ele não tinha como saber, é óbvio, mas seria o último dos reis de Israel.

(II Reis 15)

— … é que nóis é fiote!

[risos na platéia]

— Boa piada, muito boa… Bom, mas vamos ao nosso primeiro convidado de hoje. Ele é Criador do Universo, Deus Triúno e diz que foi um bom Ponta-Direita quando jovem. Boa noite, Javé.

— Olá, boa noite.

— Obrigado por aceitar nosso convite. Eu queria começar falando de Israel…

— Putz.

— Pois é, rapaz… Que que tá acontecendo lá, hein?

— Sabe que nem eu sei direito? Aquele lugar é o diabo. Tô pensando em acabar com aquilo tudo. Pra começar, Israel nunca teve um rei que prestasse. Bom, teve o Jeú.

— O Jeú? Não foi ele que mandou matar quarenta crianças e depois empilhou as cabeças na porta de uma cidade lá?

— Foi, foi. Mas eram crianças pagãs. Gostei daquele negócio, sacumé. Então cheguei e falei pra ele assim: “Jeú, mano velho. Quando você morrer, seu filho vai ser rei no seu lugar. E seu neto depois dele. E vai assim, até a quarta geração”.

— A quarta geração é o tataraneto dele, certo? O… Zacarias?

— Ele mesmo, aquele bosta. Esse Zacarias seguiu a mesma linha dos outros reis de Israel. Me traíram, os arrombados, todos eles. Eu tinha prometido ao tataravô dele esse negócio da quarta geração, então deixei esse corno ser rei. Mas só por um tempinho, também. Ele era rei fazia uns seis meses quando aquele tal de Salum fez a conspiração pra matar ele.

— O Salum não durou muito também, né?

— Um mês! Hahahaha. Veio aquele Menaém lá de Tirza, matou o cara e assumiu o trono. Cara legal, o Menaém.

— Peraí. O Menaém não foi aquele que matou todo mundo em uma cidade que não reconheceu ele como rei? E depois cortou a barriga de todas as grávidas?

— Ah, ele se empolgou um pouco. A juventude, sei lá. E fez pelos motivos errados; se fizesse em meu nome, o reinado dele era capaz de durar mais.

— Mas até que durou bastante, dez anos. E ele foi esperto quando os assírios tentaram invadir.

— Foi sim, muito esperto. Entregou lá umas toneladas de prata pro rei da Assíria, como era o nome dele?

— Tiglate-Pileser.

— Ele. Tina um apelido engraçado. Pul, Pus, sei lá. O Menaém entregou aquela caralhada de prata pro Pul, e ele voltou pra casa contente.

— Mas aí o Menaém morreu e o filho dele, Pecaías, se tornou rei.

— Pecaías. Se todo mundo já pecava pra dedéu, imagina um cara chamado Pecaías. HAHAHAHAHA. Pescou? PECAÍAS! RÁ!

— …

— Aí depois de dois anos veio um oficial do exército, matou o Pecaías e assumiu o trono. E cê lembra o nome do cara?

— Peca. Certo?

— PECA! O nome do cara era PECA! Vai pecar assim no inferno! HAHAHAHA!

— Bom. Mas eu ainda não entendi o porquê desse monte de conspiraçãoes…

— É que eu nunca fui com a cara de Israel, entendeu? Judá era legal, toda hora aparecia um rei pra me puxar o saco. Em Israel, era um pior que o outro, tudo feladaputa.

— Sim, eu sei. Mas por que você não acabou logo com a raça de todo mundo?

— Ah, é que eu resolvi adotar outra política. Os negos não tavam ligando mais pra doença, praga, fogo do céu, nada. Então eu olhava pro caboclo que dava mancada, mandava um “tua batata tá assando” e ia levando. Foi o que eu fiz com o Peca. Deixei ele lá… pfff… pecando. E aí mandei uma idéia errada pra cabeça do Pul e a Assíria invadiu aquela região grandona lá e levou todo mundo como prisioneiro.

— Pra quem não se lembra, o imperador Tiglate-Pileser…

— Pul, porra.

— … o imperador Pul anexou as cidades de Ijom, Abel-Bete-Maaca, Janoa, Quedes, Azor, e as regiões de Gileade, Galiléia e Naftáli.

— Só faltou Dudinka na lista do cara, diz aí. Mas então. Aí veio outra revolta, e foi assim que o atual rei chegou aonde chegou.

— O rei Oséias.

— Ele mesmo. Bom. Rei por enquanto, né?

— Por quê?

— A batata dele tá assando. Depois te falo.

— Tudo bem. E enquanto isso tudo acontecia em Israel, continuava tudo bem em Judá. Por quê?

— Ah, Judá é uma belezinha. Você veja que todos os reis até hoje são descendentes de Davi. E por que isso? Porque Davi era meu brother, cara. Eu mandava matar, ele ia lá e matava. Não tinha tempo ruim. Você veja o velho Uzias, por exemplo. Quando ele chegou ao trono, Zacarias nem sonhava em ser rei de Israel ainda. Pois o Uzias foi rei durante 52 anos! Ele ficou firme lá, enquanto em Israel vieram… me ajuda aí: Jeroboão II, o corno do Zacarias, Salum, Menaém, Pecaías, Peca e Oséias. Um time de society, cara!

— Muita gente.

— Pois é o que eu tô te falando! Em Judá os cara são ponta firme, então o cara chega no trono e vinga. O Uzias era um cara bom pra caralho!

— Mas teve lepra, coitado.

— É. Pô… É que eu gosto de lepra, sabe? Me divirto. Fico vendo o cara lá paradinho, com medo de se mexer muito e perder uma orelha. Pô, é divertido pra caralho!

— Cada um se diverte como pode, né… O rei Uzias passou boa parte da vida numa casinha separada, e o filho dele, Jotão, é que reinava de verdade.

— E o Uzias não se intrometia! Se ele inventava de meter o nariz nos assuntos do reino, o filho ficava bravo, reclamava e devolvia o nariz pra ele.

— …

— RÁ! Aí ele ficava lá no barraco dele, coçando a orelha com o dedão do pé.

— Puxa, como ele fazia iss… Humpf!

— RÁ!

— Bom, mas o rei Uzias também morreu e agora o rei lá é justamente o filho dele.

— O Jotão, sim. Gosto dele. Gente boa. Não sei se você viu a porta nova que ele mandou fazer no templo de Jerusalém. Coisa linda. Eu entro lá no Santo dos Santos, sento na Arca, acendo meu baseado e fico olhando aquela beleza. Coisa fina.

— Então o Jotão, pelo menos, pode ficar tranqüilo.

— Mais ou menos, né? Israel e a Síria já tão se armando pra atacar Judá.

— Mas o que o Jotão fez?

— Nada, nada! Mas aquele filho dele, Acaz… Sei não. Não vou com a cara do moleque. Vou botar a batata dele no forno desde já, que é pra não perder tempo.

— Bom, depois do intervalo o Javé aqui vai contar direito essa história do Acaz e aquela outra, do Oséias. E vai explicar também como é esse negócio de ser um só, mas ao mesmo tempo ser três…

— Não me pede pra explicar isso, cara!

— Javé, senhoras e senhores! A gente volta já.

(II Reis 14)

O capítulo anterior terminou com a morte de Jeoás, rei de Israel. Este capítulo recua catorze anos para mostrar outro rei: Amazias, que subiu ao trono de Judá quando Jeoás já ia no segundo ano de reinado em Israel. Amazias foi um rei mais-ou-menos, como costumavam ser os reis de Judá: não agradou a Javé completamente, mas também não fez nada que levasse o Grandão a sapecar-lhe um meteorito na idéia.

A primeira medida de Amazias assim que se firmou no trono de Judá foi matar os assassinos de seu pai, o rei Joás. Depois disso, entrou em guerra contra Edom, matando 10 mil edomitas e tomando a cidade de Selá. E aí veio uma combinação de tédio e arrogância que levou Amazias a comprar briga com Jeoás.

A briga começou de um jeito inocente. Jeoás ainda pensava na morte de Eliseu, que ele considerava um pai:

Jeoás01

Enquanto isso, Amazias queixava-se:

Amazias01

Amazias02

O tédio de Amazias divertiu Jeoás, e aí começou o furdunço:

Amazias_Jeoas01

(leiam de baixo para cima)

Jeoás já conhecia a fama de valentão de Amazias, então achou melhor contemporizar e mandar uma resposta em forma de parábola:

Jeoás02Jeoás03

Amazias não recebeu bem a parábola:

Amazias_Jeoas02

(de baixo pra cima outra vez)

Jeoás era pacífico, mas não era besta. Reuniu seu exército e partiu na direção de Judá. Amazias fez o mesmo e partiu na direção de Israel. Os dois reis e seus exércitos se encontraram em Bete-Semes, dentro do território de Judá. Israel era um reino muito maior, mais avançado, e Amazias não tinha chance nenhuma. Após uma batalha rápida, o exército de Judá debandou e foi cada um para sua casa. Os israelitas foram atrás. Jeoás destruiu um trecho de 200 metros da muralha de Jerusalém, saqueou o templo e o palácio, e voltou para Samaria levando ouro, prata e reféns.

Amazias ainda viveu quinze anos depois da morte de Jeoás, mas nunca mais quis saber de briga. A morte dele não foi das mais heróicas: soube de uma conspiração e fugiu para Laquis. Não adiantou nada: os conspiradores o mataram lá e mandaram o corpo para ser sepultado em Jerusalém. Uzias, filho de Amazias, foi feito rei em seu lugar. Era um garoto de dezesseis anos de idade.

Em Israel, Jeroboão II sucedeu Jeoás. Javé não ia com a cara dele: era um rei folgado, tinha outros deuses lá dele, estava nem aí para a religião oficial. Mas também era um grande estrategista e expandiu o território de Israel até as fronteiras originais. Quando Jeroboão morreu, seu filho Zacarias subiu ao trono.

E não, eu não vou fazer piada de Trapalhões.

( II Reis 13)

Relembrando: depois da morte de Salomão, Israel se dividiu. Ao norte, o reino de Israel, formado por dez das doze tribos originais e tendo Samaria por capital. Ao sul, o pequeno reino de Judá, das tribos de Judá (jura?) e Benjamim. O primeiro rei de Israel foi um usurpador chamado Jeroboão. Coube ao filho de Salomão, Roboão, apenas a porção sul do país que passou a ser o reino de Judá. Em Judá, os reis tentavam não irritar Javé, então era tudo meio parado por lá. Em Israel, porém, os reis seguiam os passos de Jeroboão: idolatria, assassinato, putaria. Javé vivia retaliando, e por isso Israel teve por muito tempo uma história bem mais interessante do que Judá — os profetas mais legais, Elias e Eliseu, atuavam em Israel. E tome ressuscitar gente, amaldiçoar o rei, fugir do rei, voltar. Em Judá, coitados, trabalhariam em alguma repartição pública.

Bom, pra variar estava tudo parado em Judá enquanto Israel pegava fogo. No dois capítulos anteriores, vimos o reinado e a morte de Joás, rei de Judá. Muito pouco, levando-se em conta que ele ficou quarenta anos no trono. Enquanto ele ainda ia pelo meio de seu reinado,  subia ao trono de Israel Jeoacaz, filho de Jeú (aquele decapitador de crianças). Jeoacaz fazia tudo o que Javé não gostava, então Javé ficou brabo: pegou seu tabuleiro de War e usou a Síria, Moabe e Dudinka para atacar Israel. Dois reis sírios — Hazael (aquele um que fora ungido por Eliseu) e seu filho Ben-Hadade depois dele — tomaram terras de Israel, mataram muita gente e arrasaram com o exército israelita. Jeoacaz, ainda muito longe de seu objetivo (a Europa e a África ou 24 territórios), suplicou a Javé que desse um tempo. Javé ficou com peninha e ajudou Israel, atacando a Síria com o decadente Império Assírio. Jeoacaz morreu depois de catorze anos de reinado e foi sucedido por seu filho, Jeoás.

Jeoás seguiu o comportamento padrão dos reis de Israel: emputecer Javé. Mas Jeoás também queria retomar os territórios ocupados pela Síria, o que seria impraticável com um exército todo estropiado. Então recorreu ao único israelita que ainda tinha moral com Javé.

Só que Eliseu já estava nas últimas. Doente, passava seus dias delirando e esperando a morte numa cama1. O rei estava triste por ver o profeta naquela situação, e também desesperado por não conseguir livrar-se dos sírios. Então ajoelhou-se ao lado da cama, chorando feito uma mãe de trombadinha.

— Ô, meu pai! Ô, que Israel tá tudo fudido! Ô, meu pai!

— Calma, majestade — tadinho do Eliseu, um quase nada de voz. — Pega aí um arco, umas flechas e vem pra cá.

Meio relutante, mas sem querer contrariar o profeta, o rei pegou o arco.

— Isso. Agora abre aquela janela e atira uma flecha.

O rei coçou a cabeça, olhou em volta, trocou o peso do corpo de uma perna pra outra. Olhou em volta de novo, viu que não tinha ninguém olhando, atirou a flecha pela janela e levou um susto com o grito do profeta:

— FLEEEEEEEEECHA DA VITÓRIA DE JAVÉ! FLEEEEEEEEEECHA DOS SÍRIO TUDO SE FODENDO! FLECHAFLECHAFLECHACLEFACHEFALEFALECHAFLECALECHA…

—Calma, Eliseu.

— Flecha?

— Caaaaaalma.

— Flecha… Pega as flechas. Pegou? Agora fura a terra com elas.

O rei, já cansado das doidices de Eliseu, pegou uma flecha, furou a terra três vezes e levou outro susto.

— POR QUÊEEEEEEEEEEEE, CARAIO? POR QUÊ CÊ SÓ FUROU TRÊS VEZ? TINHA QUE FURAR UM MONTE! FURASSE UM MONTE E OS SÍRIO IA TUDO PRAS PICA. FUROU TRÊS VEZ, AGORA VAI AGÜENTAR OS SÍRIO ATÉÉEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE… ATÉEEEEEEEEEEEEE… AT… COF! COF!

— Calma, Eliseu. Calma. Respira.

— A FLECHA.

Foram as últimas palavras de Eliseu. O profeta morreu e foi sepultado num buraco qualquer. Mas sua carreira ainda não chegara ao fim.

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Lembram que eu falei dos moabitas? Moabita era uma raça de gente encardida. Eram pior que traça, pior que gafanhoto, pior que problogger em evento com brinde e almoço grátis: por onde passavam, não deixavam nada. Pois era essa raça que vivia atormentando Israel. De quando em vez, sem nada melhor pra fazer, um olhava pro outro e resolviam: vamos azucrinar os narigudinhos. Perto do ano novo, quando o movimento do comércio era maior, aí é que os moabitas se assanhavam.

Então aconteceu de um sujeito morrer bem perto do ano novo. A família e os amigos tocaram o féretro até o lado de fora das muralhas de Samaria, com um olho no defunto e outro no horizonte, num andamento que estava mais para Allegro ma non troppo do que para o Gravissimo que o respeito à ocasião exigia. E iam nessa pegada, até que alguém viu uma nuvem de poeira no horizonte. “Moabitas!”, gritou um. As carpideiras mandaram um último buá, os enlutados engataram uma quinta, jogaram o finado no primeiro buraco e se empirulitaram pra não fazer companhia a ele. O buraco, é claro, era onde estavam os restos de Eliseu. Os moabitas vieram, passaram pela cova e seguiram seu caminho. Dali a pouco, uma cabeça se ergueu de dentro da sepultura, olhou em volta e saiu correndo para o lado oposto ao destino dos bárbaros. Eliseu operava seu último milagre e um filho de Israel ganhava uma última chance 800 anos antes de Lázaro.

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Jeoás só precisou de três ataques à Síria para recuperar os territórios perdidos. A se acreditar no delirante Eliseu, se ele tivesse furado a terra meia dúzia de vezes, a Síria não existiria e nós não teríamos Paulo Maluf.

Após 16 anos de reinado, Jeoás morreu e seu filho Jeroboão tornou-se rei de Israel. Entre uma investida e outra contra os sírios, Jeoás ainda arranjou confusão com o reino de Judá. Mas essa história fica para o próximo capítulo.

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1 Eliseu, o profeta que era um delírio na cama.

Desculpem.

(II Reis 12)

“Que merda”, pensava o rei Joás enquanto sangrava até a morte do lado de fora das muralhas de Jerusalém. “Mas que merda.”

Joás subiu ao trono de Judá graças à proteção de Joiada e dos outros sacerdotes. Reinou durante quarenta anos; durante quarenta anos viveu à sombra dos sacerdotes. Não valeu a pena.

A primeira fase do reinado de Joás foi um inferno para ele. Proclamado rei aos sete anos de idade, debaixo da asa de Joiada, Joás virou piada em Judá. Ele era o menino do templo, o pau-mandado da casta sacerdotal. Alguns falavam em pedofilia, o que era compreensível: no fim das contas, Joiada era um padre, Joás era um garotinho. Assim que atingiu a maioridade, Joás tentou virar o jogo e começar a controlar quem o controlava. Então chamou os sacerdotes para uma reunião no templo.

— Chamei os senhores aqui porque estou preocupado.

— Não se preocupe, Joás. Tá tudo sob controle. Não quer ir lá no templo comigo? A gente toma um copo de leite, depois eu te conto umas histórias de Jezabel, aí a gente brinca de Davi e Jônatas…

— ESSE TEMPO PASSOU, JOIADA! Tenho um trono tão lindo e nem posso sentar nele, por causa dessa brincadeira besta.

— Peraí, Joás, que negócio é esse?

— E VOCÊ NUNCA ME DEIXAVA SER O DAVI!

— Pô, mas que graça teria?

— CHEGA! Não estou para brincadeira. Esse tempo passou, entendeu? Não sou mais criança!

— Você sempre será uma criança para mim…

— CALABOCA! Chamei vocês aqui para falar sobre o Templo. Aquilo está uma vergonha! Goteiras no teto, infiltração nas paredes, cupins nos móveis. A Casa de Javé está parecendo a casa-da-mãe-joana. Vocês não têm vergonha?

— Bom…

— Foi uma pergunta retórica, imbecil! A partir de agora, vocês vão separar todo o dinheiro que receberem do povo para a reforma do Templo.

— Todo o dinheiro?

— Todo o dinheiro.

— Mas TODO o dinheiro? Nós temos outras despesas, você sabe. Precisamos comprar leite, bolachinhas, brinquedos…

— Bolachinhas…

— … lápis de cor, figurinhas dos reis de Judá. Eu lembro que faltava o Roboão na sua coleção. Tenho uma figurinha do Roboão…

— Sério???

— Sério! Vamos até o templo. Você completa sua coleção e a gente esquece isso.

— NÃO! A casa de Javé está caindo aos pedaços, e você vem me falar em figurinha? Voltem ao Templo e comecem agora mesmo a reforma.

— Sim, majestade. Xacomigo.

— Humpf. É isso aí.

Cinco anos depois, a situação do Templo só piorava. Se alguém pisasse mais duro, caíam pedaços do teto. As paredes estavam estufadas de umidade. Os cupins haviam comido madeira suficiente para construir uma capela. Joás chamou os sacerdotes ao palácio mais uma vez.

— Por que vocês não fizeram o que eu mandei?

— Vixe. É mesmo. Acho que esquecemos. Qual era a ordem mesmo?

— SEPARAR O DINHEIRO DAS OFERTAS PARA REFORMAR A PORRA DO TEMPLO!

— Ah, era isso? Entendemos que era para pegar o dinheiro e gastar como quiséssemos. Veja só. Um pequeno ruído na comunicação, hein? Que coisa… Bom. É só isso?

— Só isso um caralho! Agora vocês vão reformar o Templo, sem desculpinhas. Vou fiscalizar a arrecadação de perto.

— De perto?

— Bem de perto!

— Que nem Davi e Jônatas…?

— Er… Eu… Olha…

— Tenho uma idéia que talvez seja boa para nós dois.

— Diga, Joiada.

— Vou colocar uma urna de madeira ao lado do altar. Nessa urna vai todo dinheiro que o povo trouxer para pagar sacrifícios, impostos do Templo e ofertas. Quando a urna estiver cheia, pegamos o dinheiro e contratamos pedreiros, carpinteiros, pintores. Uma vez por mês, eu trago aqui um relatório de receitas e despesas.

— Parece bom. Mas você disse que ia ser bom para nós dois, não? Quando eu era criança, você sempre falava isso, e no fim era bom só para você.

— Aquele tempo passou! Vai ser bom para nós dois, eu garanto. Com esse dinheiro aí, nós reformamos o Templo, do jeito que o senhor mandou. Mas o dinheiro que o povo trouxer para aliviar a consciência fica todo para nós.

— Hum… Parece justo. Eu concordo. Mande fazer a tal urna, o novo esquema de arrecadação começa hoje.

— Pois não, majestade.

Por algum tempo, todo mundo ficou contente. Os sacerdotes repartiam entre eles o dinheiro que as pessoas ofereciam em troca do perdão de seus pecados. Todo o resto ia para a urna. Quando a urna estava cheia, o sumo-sacerdote chamava o secretário do rei para contar o dinheiro, separá-lo, comprar material e pagar os trabalhadores. O rei consolidava sua autoridade, os sacerdotes garantiam seus caraminguás, e o Templo voltava à glória de outrora. E então veio Hazael e cagou tudo.

Hazael, vocês devem se lembrar, era o rei da Síria que herdara uma mania besta de seu pai: azucrinar os países vizinhos. Hazael invadiu Gate, na Filistia, e soube que o rei de Judá andava mais preocupado com a reforma do Templo do que com a defesa da nação. Um momento perfeito para invadir Jerusalém.

Hazael tinha razão. Concentrado na arrecadação de ofertas e nas obras do Templo, Joás não tivera tempo para estudar estratégias de defesa. Não havia estoque de mantimentos nem água bastante para a cidade: se o rei da Síria cercasse Jerusalém, a rendição viria em poucos dias. Se o cerco viesse, Joás precisaria reforçar as defesas da cidade, negociar com Hazael e, em último caso, atacar o exército da Síria. Ele não sabia como fazer nada disso. Na verdade, ele só sabia mesmo controlar as contas do Templo.

Pensando bem, isso podia ser útil: o rei sabia a quantia exata que os reis anteriores haviam dedicado ao Templo, sabia quanto ele mesmo havia depositado. Ele sabia quanto ouro e prata havia por lá, e de quanto era a poupança dos sacerdotes. Então mandou raspar tudo e enviar a Hazael na forma de um suborno camarada. Funcionou: Hazael ficou contente com aquele dinheiro todo, e desistiu de atacar Jerusalém. No palácio, Joás se congratulava por sua astúcia.

— Você viu, Joiada? Beleza de estratégia, hein? Esse aí não vai nos encher o saco por um bom tempo.

— Majestade… O senhor deu ao rei da Síria todo o dinheiro que nós tínhamos!

— Nem todo, Joiada. Nem encostei no dinheiro da reforma. Não se preocupe, as obras continuam.

— Sim, majestade. Mas e o NOSSO dinheiro? Nós tínhamos uma boa grana lá, sabe? Estávamos pensando em construir um colégio e enchê-lo de garotinhos. Garotinhos belos e bronzeados correndo pelo pátio de calção, suando, as bochechas rosadas…

— Por que você está respirando assim, Joiada?

— E agora não temos nada. NADA!

— São coisas que acontecem, Joiada. Deixa isso para lá. O pior já passou.

O pior não havia passado. Aos 47 anos de idade, Joás foi vítima de uma conspiração. Dois oficiais do palácio, Jozacar e Siemate, inventaram uma história qualquer para levar o rei até a casa de um tal Milo, do lado de fora da cidade, e o mataram. Milo não estava em casa: trabalhava na reforma do templo.

(II Reis 11)

— Eu sou rei ou não sou?

— Claro que é, majestade.

— ENTÃO EU QUERO UM LEÃO, CARALHO!

— Majestade, essa linguagem não é adequada…

— CA-RA-LHO! CA-RA-LHO! CA-RA-LHO!

— Tudo bem, majestade, vou arrumar seu caral… digo, leão. Só vamos precisar construir um muro bem alto no pátio, senão ele come a girafa que o senhor também pediu. Fora isso, há mais alguma coisa que eu pos… majestade?

O rei tinha adormecido enquanto o sacerdote Joiada falava. Vendo seu senhor jogado daquele jeito no trono, a coroa tombada de lado, um fio de baba no queixo, Joiada questionou seus atos mais uma vez. Talvez a conspiração para levar Joás tivesse sido um erro. Bom, ele consolava-se, pelo menos tinha livrado o coitado da velha maluca.

A velha maluca era Atalia, mãe do rei Acazias e filha de Acabe e Jezabel. Com seus cabelos desgrenhados e olhos constantemente arregalados, ela era o terror e a diversão das crianças de Jerusalém. Quando saía à rua ou ao pátio do palácio, um bando de moleques — seus netos, inclusive — a acompanhava de longe, gritando ofensas e atirando pedras.

Então Acazias morreu e Atalia matou seus netos um por um, proclamando-se rainha de Judá.

Ela reinou por seis anos, malucando no palácio e ignorando a conspiração. Sua filha, Jeoseba, desconfiara ao ver a mãe se aproximando demais dos netos. Então pegou Joás e o levou para casa. Seu marido, o sacerdote Joiada, trancou o menino no templo enquanto pensava no que fazer com ele.

Joiada pensou, pensou, pensou.

Joiada ponderou, pesou prós e contras, consultou sua consciência.

Joiada falou com especialistas e pedagogos, e contratou uma consultoria de análise de risco.

E então Joiada finalmente decidiu: não podia se precipitar.

Então pensou mais um pouco, pesou os prós etc.

Depois de seis anos, resolveu que Joás era herdeiro legítimo do trono de Judá.

Bom, reconhecer que Joás merecia o trono era uma coisa; outra coisa era levá-lo até lá. Atalia era maluca mas não era besta. Sua fraqueza: ela trouxera para Judá a religião de seus pais. O culto a Baal era uma ofensa para os habitantes de Judá, muito menos adeptos da diversidade do que seus irmãos de Israel. Além disso, Atalia não era descendente de Davi. Para Joiada, dava samba.

No dia seguinte à sua decisão, Joiada convocou ao templo os generais do exército de Judá. Primeiro os fez jurar segredo do que veriam em seguida e lealdade a ele, ao Templo e a Javé. Os generais não eram bestas de bulir com Javé, então juraram, e Joiada mandou lhes apresentou Joás.

— Esse é Joás, descendente de Davi e legítimo herdeiro do trono de Judá.

O efeito foi melhor do que ele esperava. Os generais estavam cansados das maluquices de Atalia. Gastavam um tempo precioso todos os dias escrevendo relatórios sobre o andamento dos projetos de expansão da rainha. Na segunda-feira marchavam sobre o Mediterrâneo, na quinta atiravam flechas incandescentes sobre a Etiópia. Num dia informavam que tinham derrubado a lua, noutro reportavam um cerco ao sol. A rainha dava risinhos, dançava e batia palmas. Uma palhaçada. E agora vinha o sacerdote com o rei verdadeiro, da casa de Davi. Não precisava nem tê-los feito jurar: eles fariam qualquer coisa para que a vida voltasse ao normal.

Para aumentar o efeito, Joiada mandou trazer os escudos e lanças que haviam pertencido a Davi, e entregou as armas aos generais e seus soldados. As ordens eram claras: cercar o Templo, proteger o rei a qualquer custo e matar quem se aproximasse. Assim, de guarda, eles passaram a noite.

Na manhã seguinte, Joiada levou Joás para fora do Templo, colocou a coroa sobre sua cabeça e o proclamou rei. O movimento atraiu o povo. Ao atinar no sentido do que acontecia, os habitantes de Jerusalém começaram a cantar e gritar “viva o rei!” A rainha, de camisola mesmo como estava, veio ver o que estava acontecendo. Ao ver a cena, seus olhos se esbugalharam mais ainda e sua boca começou a espumar, enquanto ela gritava:

— TRAIÇÃO! TRAIÇÃO! PUDIM! TESOURA DE PODA! FEDORA COM PENA VERDE!

Joiada ordenou aos soldados que levassem Atalia para fora e a matassem. Eles, é claro, obedeceram. O povo, em êxtase, derrubou o templo de Baal e matou seu sacerdote, Matã. Joiada postou guardas no Templo e, junto com os oficiais, levou Joás ao palácio. Joás sentou-se no trono e deu sua primeira ordem:

— Eu quero uma GIRAFA!

Joás tinha sete anos quando se tornou rei de Judá.

(II Reis 10)

Baal! Baal!
É a festa de Baal
Baal é nosso deus
Um deus muito legal
Amanhã vai ter festança
Vou beber e passar mal
Vai ter música e dança
E um banquete animal
Sacrifício, holocausto
Muito luxo e muito fausto
Lá no templo de Baal
Baal! Baal!
É a festa de Baal…

A população de Samaria já não agüentava mais aqueles alto-falantes sobressaltando a cidade com o jingle em ritmo de funk, composto por Jeú especialmente para a ocasião. A kombi de pamonha alugada pelo rei wannabe estava de volta à capital, depois de vários dias percorrendo todo o Israel para divulgar a grande festa de Baal.

Alguns ficaram desconfiados quando Jeú mencionou a festa pela primeira vez. Ele havia chegado à cidade depois de uma caçada aos descendentes do finado rei Acabe, e muitos atribuíam essa chacina a um zelo excessivo pela religião de Javé. Porém, num rápido discurso feito logo após a matança, Jeú deixara suas motivações bem claras.

Apenas uma semana antes, setenta filhos de Acabe viviam em Samaria, sob os cuidados das autoridades locais. Jeú enviara de Jezreel uma carta aos líderes da cidade:

Prezados chefes de Samaria,

Sei que os senhores estão muito bem aí cuidando dos interesses dos filhos de Acabe. Sei também que vocês têm armas de sobra, cavalos e carros de guerra. Então faço uma proposta: escolham aí o príncipe mais capaz, coloquem o cara no trono, e se preparem para defender a cidade.

Abraços!

Jeú

Os homens fortes de Samaria ficaram apavorados. Jeú tinha acabado de matar dois reis adultos e experientes no campo de batalha; o que faria com um pobre garoto? O encarregado do palácio, o prefeito, os militares, juízes e sacerdotes, todos se reuniram para pensar em uma resposta. Que saiu assim:

Caro rei Jeú,

Somos seus servos, estamos às suas ordens. Não vamos colocar ninguém no trono, o senhor faça o que achar melhor.

Ao receber o bilhete lacônico dos líderes, Jeú sorriu. Aquelas poucas palavras transpiravam medo, e era esse mesmo o efeito que ele queria causar. Então mandou outra carta a Samaria, dessa vez com instruções detalhadas:

Prezados chefes de Samaria,

Fico feliz em saber que os senhores estão do meu lado. Agora quero que provem sua lealdade: se me apóiam mesmo, tragam a cabeça dos filhos de Acabe até Jezreel amanhã.

Jeú

As autoridades leram a carta, releram, discutiram. Seria uma metáfora, uma alegoria? Não, não podia ser. Jeú não era dado a altos vôos de pensamento: se ele pedia cabeças, era isso mesmo que ele queria. E eles acabaram decidindo que era melhor garantir a própria vida. Sendo assim, mataram os setenta príncipes e mandaram suas cabeças em cestos de vime caprichosamente decorados e embrulhados em papel celofane. Depois de alguns momentos constrangedores explicando a remessa ao funcionário do correio, conseguiram mandar as cabeças a Jezreel.

Jeú recebeu a encomenda na noite seguinte e ordenou aseus capangas que empilhassem as cabeças no portão da cidade e as deixassem lá até amanhecer. Ele saiu de manhã e fingiu estar tão surpreso como todo mundo ao ver a cena nas portas da cidade: duas pilhas de cabeças infantis e poças de sangue coagulado sobre os pedregulhos, rostos que guardavam a expressão de surpresa e dor do momento da morte, alguns olhos, orelhas e lábios já removidos pelos abutres do deserto, ossos expostos aqui e ali.

— Vocês estão vendo? Eu comandei a revolta contra o rei Jorão, matei ele e Acazias, mas e esses aí? Quem os matou?

Os jezreelitas reunidos ao redor das pilhas de cabeças mantinham-se em silêncio.

— Do que mais vocês precisam para acreditar no que Javé prometeu? Nosso Deus disse que os descendentes de Acabe seriam varridos da face da terra, e hoje as cabeças dos filhos dele apareceram misteriosamente à nossa porta. É um sinal! Matem todos os parentes de Acabe que moram na cidade, todas as autoridades e sacerdotes ligados a ele!

Levados pela fascinação que vinha em parte do carisma de Jeú e em parte do horror causado por aquelas crianças sem corpo, os habitantes da cidade cumpriram a ordem.

Feita a limpeza em Jezreel, restava a Jeú conquistar a capital, Samaria, e sagrar-se rei de uma vez por todas. Ele juntou seus homens e pegou a estrada. No meio do caminho, ainda encontrou um grupo de pessoas que caíram na besteira de se identificar como parentes do rei Acazias. Eram quarenta e dois; os soldados de Jeú mataram todos. Mais para a frente, encontraram um certo Jonadabe, filho de Recabe, que era simpático à causa de Jeú e se uniu à caravana.

Chegando a Samaria, Jeú tratou de matar os poucos parentes de Acabe que ainda restavam. Depois disso, reuniu o povo na praça principal da cidade e fez seu discurso:

— Vocês estão vendo bem o que aconteceu com a família de Acabe. Isso aconteceu porque ele não foi fiel a Baal, nosso deus. Eu, meus bons samaritanos, sou um servo de Baal, e juro servi-lo por toda a minha vida. Para começar essa nova fase em Israel, vamos fazer uma grande festa no templo de Baal. Todos os adoradores e sacerdotes de Baal estão convidados. Já fiz até uma musiquinha para divulgar a festa. Agora só preciso de uma kombi de pamonha…

E foi assim que, dias depois, todos os baalitas afluíram ao templo de seu deus, alegres e vestindo suas melhores roupas de festa. O templo ficou completamente cheio. Todos conversavam e riam, mas fizeram absoluto silêncio quando a figura de Jeú surgiu no lugar de honra do templo. Jeú desfrutou alguns instantes o efeito, limpou a garganta com um pigarro e disse:

— Atrás de Baal só não vai quem já morreu! [“ÊÊÊÊÊ!”, gritou o povo] Que venham os abadás!

Os sacerdotes de Baal entraram pelas portas laterais, trazendo os mantos sagrados de sua religião e distribuindo-os entre os presentes. Com todo mundo devidamente paramentado, Jeú convidou Jonadabe para juntar-se a ele no altar.

— Viva Baal!

— Viva!

— Todos vocês amam Baaaaaaaaaaaal?

— Sim!

— Alguém aí é servo de Javééééééé?

— Não!

— Quem quer Javééééééé?

— Ninguém!

— Quem quer Baaaaaaaaaaaaaaal?

— EEEEEEEEEEEEEEEEEU!

— VIVA BAAL!

— VIVA!!!

— Agora eu ofereço esses feixes de trigo a quem?

— BAAL!

— Jonadabe mata esses pombos para quem?

— BAAL!

— Nós sangramos esse touro para quem?

— BAAL!

— Esse bando de guardas trucida vocês para quem?

— BA… hein?

Era uma armadilha, e não havia como escapar. Um pelotão dos guardas de Jeú bloqueava as portas, enquanto o resto fazia cantar suas espadas no meio da multidão indefesa. Os soldados empilharam os corpos do lado de fora do templo e destruíram a imagem de Baal que estava no altar. Depois, Jeú transformou o local em um banheiro público.

Javé, desnecessário dizer, ficou inflado de orgulho com a astúcia de Jeú, o novo rei de Israel. Anos depois, porém, Jeú abandonou seu zelo exagerado. O final do capítulo sugere que ele chegou a adorar os bezerros de ouro feitos por Jeroboão. É de se pensar se ele não teria olhado para trás e percebido que, por baixo do verniz das justificativas religiosas, ele não passara de um assassino em série.

Após 28 anos ocupando o trono, Jeú morreu e foi substituído por seu filho Jeoacaz.