Jesus, me chicoteia!

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E aí, tudo bem com vocês?

Seguinte: tô sem a menor vontade de continuar o Velho Testamento. Depois de II Reis vêm os dois livros de Crônicas, que são bem chatos e repetem boa parte das histórias que eu já contei aqui. E aí vêm os livros de Esdras, Neemias e Ester, que são legais, e o livro de Jó, o mais legal de todos. Aí tem os outros livros poéticos (Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares de Salomão), que são muito bons mas não dão gancho para sátira (até dão, mas não estou a fim). Depois disso vêm os profetas todos, que me dão uma preguiça danada.

Então estou pensando em ir direto para os Evangelhos e contar a vida de Jesus Cristo. O que vocês acham?

A ordem em Judá e a bagunça em Israel (versão alternativa)

Antes, uma explicação.

Escrevi essa versão antes daquela que foi publicada. Texto comprido, muita informação num capítulo só. Escrevi do jeito que deu, cheguei a salvar como rascunho no blog. Fui ler e achei uma merda. Aliás, eu não achei nada. Os encostos acharam.

Pois vejam: eu ando muito self conscious ultimamente, parece que tem sempre meia dúzia de zoião me observando enquanto escrevo. Aí fico vexado. Escrevo uma frase e o pessoal que tá espiando já começa a palpitar: olha a voz passiva, olha a concordância, olha a ambigüidade, que porra é esse trema, cadê as aspas quando a gente fala.

Malditos encostos.

Fora isso, meu cérebro é um vazio. Quando preciso de uma idéia, olho lá dentro da cabeçorra e é só um descampadão, o vento assobiando. Escrevo mesmo assim, e o resultado sempre me desagrada. Pior: não reconheço como texto meu. Imaginem uma cadela que passou por uma cesariana. Ela acorda da anestesia, vê aqueles filhotes ali do lado dela e não entende porra nenhuma. Se não tiver ninguém por perto para impedir, ela mata tudo. Eu estou que nem essa cadela. Uma cadela gorda e careca.

Ah, que imagem linda.

Esqueçam a cadela. Imaginem uma pessoa que perdeu o sentido do paladar. Estou feito esse infeliz aí, que bota um negócio na boca e não sabe se é sorvete de morango um um filhote de cachorro.

Mas eu dizia que escrevi esse texto de agora e os encostos reprovaram. Desisti, fui fazer outra coisa, aí me veio a idéia de contar a mesma história naquele formato de diálogo. Pareceu uma boa idéia na hora, mas antes da metade do texto eu já sabia que não estava legal. A idéia era besta, a execução era mais besta ainda. Acabou ficando um negócio basbaque, artificial. Mas é claro que tudo o que escrevo ultimamente me soa artificial.

Então foi isso que aconteceu: escrevi dois textos e ambos me parecem a mesma coisa. Só que deram trabalho igual, então nada mais justo do que publicar os dois. Os encostos discordam: acham que eu não devia publicar era nenhum e desistir logo desse negócio de escrever. Mas, pô, é a única coisa em que eu consigo ser ao menos medíocre; em todo o resto eu sou ruim pra caralho.

Ó:

A ordem em Judá e a bagunça em Israel

(II Reis 15)

Este capítulo mostra bem a diferença entre os reinos do Norte e do Sul, Israel e Judá. Em Israel, os reis preferiam a putaria das religiões pagãs. No começo da história de cada um desses reis, o autor diz que eles fizeram “o que era mau aos olhos do Senhor e não se apartaram dos pecados de Jeroboão, filho de Nebate, que fez pecar a Israel”. Esses “pecados de Jeroboão” eram o de sempre: idolatria, desrespeito pela religião oficial, perseguição aos profetas. Javé se emputecia e toda hora mandava uma desgraça qualquer para acabar com a raça do rei. Em Judá, vez em quando ainda aparecia um rei que andava na linha e não irritava Javé.

Foi o caso de Uzias, que sucedeu seu pai Amazias na época em que Jeroboão II (nenhum parentesco com o Jeroboão original) era rei de Israel. Uzias (que também atendia por Azarias) seguiu a religião direitinho, respeitou os profetas e coisa e tal. Em retribuição, o Senhor Misericordioso (louvado seja) sapecou-lhe uma lepra. Para não se desfazer aos olhos dos súditos, Uzias se mudou pra uma casinha separada do palácio, deixando seu filho Jotão como rei de fato. Se Uzias tentava meter o nariz em assuntos do reino, Jotão bronqueava e devolvia o nariz ao pai. Era uma merda.

Uzias reinou por 52 anos, boa parte deles isolado em seu barraco de leproso. Quando não estava louvando ao Senhor por tantas bênçãos recebidas, sua diversão era apostar com as visitas que conseguia coçar a orelha com o dedão do pé — o que não era tão difícil quanto parecia, e só espantava as visitas.

Este capítulo também mostra muito bem como é difícil acompanhar a sucessão de nomes esquisitos e dinastias na Bíblia. Uzias-Azarias era da dinastia de Davi, que reinava ininterruptamente havia mais de 230 anos. O mesmo não acontecia em Israel. Quando o reinado de Uzias ia ainda pelo trigésimo-oitavo ano (ele já caindo aos pedaços), o rei de Israel Jeroboão II morreu, e seu filho Zacarias subiu ao trono. O reinado de Zacarias durou só seis meses. Um tal Salum juntou meia dúzia de descontentes, derrubou Zacarias e assumiu o trono. Zacarias foi o quarto e último descendente de Jeú a reinar em Israel. Terminava a quinta e mais longa dinastia israelita após a divisão do reino.

O reinado de Salum foi um sucesso: durou um mês. Um certo Menaém, morador da cidade de Tirza, não aceitou o novo rei. Ele não suportava usurpadores, e por isso foi até Samaria, matou o rei e assumiu o trono. Menaém era uma dessas pessoas de bom coração. Vejam só: os moradores da cidade de Tifsa se recusavam a reconhecê-lo como rei. Então ele invadiu a cidade, matou os moradores de toda a região e rasgou a barriga de todas as mulheres grávidas. Um docinho de pessoa.

Menaém, o Virtuoso, foi rei durante dez anos. Javé não ia com a cara dele, mas também não fez nada para derrubá-lo. Tiglate-Pileser, rei da Assíria, até tentou. Invadiu Israel e quase anexou o reino. Mas Menaém foi esperto: entregou trinta e quatro toneladas de prata à Assíria para que o império o ajudasse a firmar-se no poder. Tiglate-Pileser (que tinha o simpático apelido de Pul) aceitou a oferta e voltou para casa com seu exército. Menaém morreu de causas naturais, e seu filho Pecaías ficou em seu lugar, reinando por dois anos.

Agora, se rei israelita já pecava pra dedéu, imaginem um cara chamado Pecaías. Pior do que ele, só um outro cara chamado Peca, oficial do exército. Peca reuniu cinqüenta homens em Gileade e matou o rei quando ele ainda estava se acostumando ao trono. Peca foi o cabeça de Israel por vinte anos, só fazendo o que Javé não gostava — e bem nas fuças dEle. É que Javé tinha entrado numas de ser paciente: em vez de matar o cara logo de uma vez, dizia “tua batata tá assando” e deixava. Foi durante o reinado de Peca que o império Assírio voltou a botar as manguinhas de fora. Tiglate-Pileser, o Pul, anexou as regiões de Gileade, Galiléia e Naftáli, junto com outras quatro cidades, e levou seus moradores para a Assíria como prisioneiros.

Enquanto tudo isso acontecia, o leproso Uzias-Azarias seguia firme como rei de Judá. Quando ele finalmente morreu, seu filho Jotão tornou-se rei de verdade e reinou por dezesseis anos. Foi durante o reinado de Jotão que Peca, rei de Israel, e Rezim, reizim da Síria, atacaram Judá pela primeira vez. Era a nova política da vingança sem pressa de Javé, que já preparava o cenário para a entrada em cena de Acaz, filho de Jotão. Acaz seria provavelmente o pior dos reis de Judá, pior do que os piores de Israel.

Jotão ainda vivia quando uma última conspiração em Israel derrubou o rei Peca. Oséias, líder dos revoltosos, tornou-se rei. Se ele soubesse o que o esperava, teria aproveitado melhor a vida de rei. Comprado uns carros, umas odaliscas, sei lá. Ele não tinha como saber, é óbvio, mas seria o último dos reis de Israel.

A ordem em Judá e a bagunça em Israel

(II Reis 15)

— … é que nóis é fiote!

[risos na platéia]

— Boa piada, muito boa… Bom, mas vamos ao nosso primeiro convidado de hoje. Ele é Criador do Universo, Deus Triúno e diz que foi um bom Ponta-Direita quando jovem. Boa noite, Javé.

— Olá, boa noite.

— Obrigado por aceitar nosso convite. Eu queria começar falando de Israel…

— Putz.

— Pois é, rapaz… Que que tá acontecendo lá, hein?

— Sabe que nem eu sei direito? Aquele lugar é o diabo. Tô pensando em acabar com aquilo tudo. Pra começar, Israel nunca teve um rei que prestasse. Bom, teve o Jeú.

— O Jeú? Não foi ele que mandou matar quarenta crianças e depois empilhou as cabeças na porta de uma cidade lá?

— Foi, foi. Mas eram crianças pagãs. Gostei daquele negócio, sacumé. Então cheguei e falei pra ele assim: “Jeú, mano velho. Quando você morrer, seu filho vai ser rei no seu lugar. E seu neto depois dele. E vai assim, até a quarta geração”.

— A quarta geração é o tataraneto dele, certo? O… Zacarias?

— Ele mesmo, aquele bosta. Esse Zacarias seguiu a mesma linha dos outros reis de Israel. Me traíram, os arrombados, todos eles. Eu tinha prometido ao tataravô dele esse negócio da quarta geração, então deixei esse corno ser rei. Mas só por um tempinho, também. Ele era rei fazia uns seis meses quando aquele tal de Salum fez a conspiração pra matar ele.

— O Salum não durou muito também, né?

— Um mês! Hahahaha. Veio aquele Menaém lá de Tirza, matou o cara e assumiu o trono. Cara legal, o Menaém.

— Peraí. O Menaém não foi aquele que matou todo mundo em uma cidade que não reconheceu ele como rei? E depois cortou a barriga de todas as grávidas?

— Ah, ele se empolgou um pouco. A juventude, sei lá. E fez pelos motivos errados; se fizesse em meu nome, o reinado dele era capaz de durar mais.

— Mas até que durou bastante, dez anos. E ele foi esperto quando os assírios tentaram invadir.

— Foi sim, muito esperto. Entregou lá umas toneladas de prata pro rei da Assíria, como era o nome dele?

— Tiglate-Pileser.

— Ele. Tina um apelido engraçado. Pul, Pus, sei lá. O Menaém entregou aquela caralhada de prata pro Pul, e ele voltou pra casa contente.

— Mas aí o Menaém morreu e o filho dele, Pecaías, se tornou rei.

— Pecaías. Se todo mundo já pecava pra dedéu, imagina um cara chamado Pecaías. HAHAHAHAHA. Pescou? PECAÍAS! RÁ!

— …

— Aí depois de dois anos veio um oficial do exército, matou o Pecaías e assumiu o trono. E cê lembra o nome do cara?

— Peca. Certo?

— PECA! O nome do cara era PECA! Vai pecar assim no inferno! HAHAHAHA!

— Bom. Mas eu ainda não entendi o porquê desse monte de conspiraçãoes…

— É que eu nunca fui com a cara de Israel, entendeu? Judá era legal, toda hora aparecia um rei pra me puxar o saco. Em Israel, era um pior que o outro, tudo feladaputa.

— Sim, eu sei. Mas por que você não acabou logo com a raça de todo mundo?

— Ah, é que eu resolvi adotar outra política. Os negos não tavam ligando mais pra doença, praga, fogo do céu, nada. Então eu olhava pro caboclo que dava mancada, mandava um “tua batata tá assando” e ia levando. Foi o que eu fiz com o Peca. Deixei ele lá… pfff… pecando. E aí mandei uma idéia errada pra cabeça do Pul e a Assíria invadiu aquela região grandona lá e levou todo mundo como prisioneiro.

— Pra quem não se lembra, o imperador Tiglate-Pileser…

— Pul, porra.

— … o imperador Pul anexou as cidades de Ijom, Abel-Bete-Maaca, Janoa, Quedes, Azor, e as regiões de Gileade, Galiléia e Naftáli.

— Só faltou Dudinka na lista do cara, diz aí. Mas então. Aí veio outra revolta, e foi assim que o atual rei chegou aonde chegou.

— O rei Oséias.

— Ele mesmo. Bom. Rei por enquanto, né?

— Por quê?

— A batata dele tá assando. Depois te falo.

— Tudo bem. E enquanto isso tudo acontecia em Israel, continuava tudo bem em Judá. Por quê?

— Ah, Judá é uma belezinha. Você veja que todos os reis até hoje são descendentes de Davi. E por que isso? Porque Davi era meu brother, cara. Eu mandava matar, ele ia lá e matava. Não tinha tempo ruim. Você veja o velho Uzias, por exemplo. Quando ele chegou ao trono, Zacarias nem sonhava em ser rei de Israel ainda. Pois o Uzias foi rei durante 52 anos! Ele ficou firme lá, enquanto em Israel vieram… me ajuda aí: Jeroboão II, o corno do Zacarias, Salum, Menaém, Pecaías, Peca e Oséias. Um time de society, cara!

— Muita gente.

— Pois é o que eu tô te falando! Em Judá os cara são ponta firme, então o cara chega no trono e vinga. O Uzias era um cara bom pra caralho!

— Mas teve lepra, coitado.

— É. Pô… É que eu gosto de lepra, sabe? Me divirto. Fico vendo o cara lá paradinho, com medo de se mexer muito e perder uma orelha. Pô, é divertido pra caralho!

— Cada um se diverte como pode, né… O rei Uzias passou boa parte da vida numa casinha separada, e o filho dele, Jotão, é que reinava de verdade.

— E o Uzias não se intrometia! Se ele inventava de meter o nariz nos assuntos do reino, o filho ficava bravo, reclamava e devolvia o nariz pra ele.

— …

— RÁ! Aí ele ficava lá no barraco dele, coçando a orelha com o dedão do pé.

— Puxa, como ele fazia iss… Humpf!

— RÁ!

— Bom, mas o rei Uzias também morreu e agora o rei lá é justamente o filho dele.

— O Jotão, sim. Gosto dele. Gente boa. Não sei se você viu a porta nova que ele mandou fazer no templo de Jerusalém. Coisa linda. Eu entro lá no Santo dos Santos, sento na Arca, acendo meu baseado e fico olhando aquela beleza. Coisa fina.

— Então o Jotão, pelo menos, pode ficar tranqüilo.

— Mais ou menos, né? Israel e a Síria já tão se armando pra atacar Judá.

— Mas o que o Jotão fez?

— Nada, nada! Mas aquele filho dele, Acaz… Sei não. Não vou com a cara do moleque. Vou botar a batata dele no forno desde já, que é pra não perder tempo.

— Bom, depois do intervalo o Javé aqui vai contar direito essa história do Acaz e aquela outra, do Oséias. E vai explicar também como é esse negócio de ser um só, mas ao mesmo tempo ser três…

— Não me pede pra explicar isso, cara!

— Javé, senhoras e senhores! A gente volta já.

A guerra entre Judá e Israel

(II Reis 14)

O capítulo anterior terminou com a morte de Jeoás, rei de Israel. Este capítulo recua catorze anos para mostrar outro rei: Amazias, que subiu ao trono de Judá quando Jeoás já ia no segundo ano de reinado em Israel. Amazias foi um rei mais-ou-menos, como costumavam ser os reis de Judá: não agradou a Javé completamente, mas também não fez nada que levasse o Grandão a sapecar-lhe um meteorito na idéia.

A primeira medida de Amazias assim que se firmou no trono de Judá foi matar os assassinos de seu pai, o rei Joás. Depois disso, entrou em guerra contra Edom, matando 10 mil edomitas e tomando a cidade de Selá. E aí veio uma combinação de tédio e arrogância que levou Amazias a comprar briga com Jeoás.

A briga começou de um jeito inocente. Jeoás ainda pensava na morte de Eliseu, que ele considerava um pai:

Jeoás01

Enquanto isso, Amazias queixava-se:

Amazias01

Amazias02

O tédio de Amazias divertiu Jeoás, e aí começou o furdunço:

Amazias_Jeoas01

(leiam de baixo para cima)

Jeoás já conhecia a fama de valentão de Amazias, então achou melhor contemporizar e mandar uma resposta em forma de parábola:

Jeoás02Jeoás03

Amazias não recebeu bem a parábola:

Amazias_Jeoas02

(de baixo pra cima outra vez)

Jeoás era pacífico, mas não era besta. Reuniu seu exército e partiu na direção de Judá. Amazias fez o mesmo e partiu na direção de Israel. Os dois reis e seus exércitos se encontraram em Bete-Semes, dentro do território de Judá. Israel era um reino muito maior, mais avançado, e Amazias não tinha chance nenhuma. Após uma batalha rápida, o exército de Judá debandou e foi cada um para sua casa. Os israelitas foram atrás. Jeoás destruiu um trecho de 200 metros da muralha de Jerusalém, saqueou o templo e o palácio, e voltou para Samaria levando ouro, prata e reféns.

Amazias ainda viveu quinze anos depois da morte de Jeoás, mas nunca mais quis saber de briga. A morte dele não foi das mais heróicas: soube de uma conspiração e fugiu para Laquis. Não adiantou nada: os conspiradores o mataram lá e mandaram o corpo para ser sepultado em Jerusalém. Uzias, filho de Amazias, foi feito rei em seu lugar. Era um garoto de dezesseis anos de idade.

Em Israel, Jeroboão II sucedeu Jeoás. Javé não ia com a cara dele: era um rei folgado, tinha outros deuses lá dele, estava nem aí para a religião oficial. Mas também era um grande estrategista e expandiu o território de Israel até as fronteiras originais. Quando Jeroboão morreu, seu filho Zacarias subiu ao trono.

E não, eu não vou fazer piada de Trapalhões.

O furdunço com a Síria e a morte de Eliseu

( II Reis 13)

Relembrando: depois da morte de Salomão, Israel se dividiu. Ao norte, o reino de Israel, formado por dez das doze tribos originais e tendo Samaria por capital. Ao sul, o pequeno reino de Judá, das tribos de Judá (jura?) e Benjamim. O primeiro rei de Israel foi um usurpador chamado Jeroboão. Coube ao filho de Salomão, Roboão, apenas a porção sul do país que passou a ser o reino de Judá. Em Judá, os reis tentavam não irritar Javé, então era tudo meio parado por lá. Em Israel, porém, os reis seguiam os passos de Jeroboão: idolatria, assassinato, putaria. Javé vivia retaliando, e por isso Israel teve por muito tempo uma história bem mais interessante do que Judá — os profetas mais legais, Elias e Eliseu, atuavam em Israel. E tome ressuscitar gente, amaldiçoar o rei, fugir do rei, voltar. Em Judá, coitados, trabalhariam em alguma repartição pública.

Bom, pra variar estava tudo parado em Judá enquanto Israel pegava fogo. No dois capítulos anteriores, vimos o reinado e a morte de Joás, rei de Judá. Muito pouco, levando-se em conta que ele ficou quarenta anos no trono. Enquanto ele ainda ia pelo meio de seu reinado,  subia ao trono de Israel Jeoacaz, filho de Jeú (aquele decapitador de crianças). Jeoacaz fazia tudo o que Javé não gostava, então Javé ficou brabo: pegou seu tabuleiro de War e usou a Síria, Moabe e Dudinka para atacar Israel. Dois reis sírios — Hazael (aquele um que fora ungido por Eliseu) e seu filho Ben-Hadade depois dele — tomaram terras de Israel, mataram muita gente e arrasaram com o exército israelita. Jeoacaz, ainda muito longe de seu objetivo (a Europa e a África ou 24 territórios), suplicou a Javé que desse um tempo. Javé ficou com peninha e ajudou Israel, atacando a Síria com o decadente Império Assírio. Jeoacaz morreu depois de catorze anos de reinado e foi sucedido por seu filho, Jeoás.

Jeoás seguiu o comportamento padrão dos reis de Israel: emputecer Javé. Mas Jeoás também queria retomar os territórios ocupados pela Síria, o que seria impraticável com um exército todo estropiado. Então recorreu ao único israelita que ainda tinha moral com Javé.

Só que Eliseu já estava nas últimas. Doente, passava seus dias delirando e esperando a morte numa cama1. O rei estava triste por ver o profeta naquela situação, e também desesperado por não conseguir livrar-se dos sírios. Então ajoelhou-se ao lado da cama, chorando feito uma mãe de trombadinha.

— Ô, meu pai! Ô, que Israel tá tudo fudido! Ô, meu pai!

— Calma, majestade — tadinho do Eliseu, um quase nada de voz. — Pega aí um arco, umas flechas e vem pra cá.

Meio relutante, mas sem querer contrariar o profeta, o rei pegou o arco.

— Isso. Agora abre aquela janela e atira uma flecha.

O rei coçou a cabeça, olhou em volta, trocou o peso do corpo de uma perna pra outra. Olhou em volta de novo, viu que não tinha ninguém olhando, atirou a flecha pela janela e levou um susto com o grito do profeta:

— FLEEEEEEEEECHA DA VITÓRIA DE JAVÉ! FLEEEEEEEEEECHA DOS SÍRIO TUDO SE FODENDO! FLECHAFLECHAFLECHACLEFACHEFALEFALECHAFLECALECHA…

—Calma, Eliseu.

— Flecha?

— Caaaaaalma.

— Flecha… Pega as flechas. Pegou? Agora fura a terra com elas.

O rei, já cansado das doidices de Eliseu, pegou uma flecha, furou a terra três vezes e levou outro susto.

— POR QUÊEEEEEEEEEEEE, CARAIO? POR QUÊ CÊ SÓ FUROU TRÊS VEZ? TINHA QUE FURAR UM MONTE! FURASSE UM MONTE E OS SÍRIO IA TUDO PRAS PICA. FUROU TRÊS VEZ, AGORA VAI AGÜENTAR OS SÍRIO ATÉÉEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE… ATÉEEEEEEEEEEEEE… AT… COF! COF!

— Calma, Eliseu. Calma. Respira.

— A FLECHA.

Foram as últimas palavras de Eliseu. O profeta morreu e foi sepultado num buraco qualquer. Mas sua carreira ainda não chegara ao fim.

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Lembram que eu falei dos moabitas? Moabita era uma raça de gente encardida. Eram pior que traça, pior que gafanhoto, pior que problogger em evento com brinde e almoço grátis: por onde passavam, não deixavam nada. Pois era essa raça que vivia atormentando Israel. De quando em vez, sem nada melhor pra fazer, um olhava pro outro e resolviam: vamos azucrinar os narigudinhos. Perto do ano novo, quando o movimento do comércio era maior, aí é que os moabitas se assanhavam.

Então aconteceu de um sujeito morrer bem perto do ano novo. A família e os amigos tocaram o féretro até o lado de fora das muralhas de Samaria, com um olho no defunto e outro no horizonte, num andamento que estava mais para Allegro ma non troppo do que para o Gravissimo que o respeito à ocasião exigia. E iam nessa pegada, até que alguém viu uma nuvem de poeira no horizonte. “Moabitas!”, gritou um. As carpideiras mandaram um último buá, os enlutados engataram uma quinta, jogaram o finado no primeiro buraco e se empirulitaram pra não fazer companhia a ele. O buraco, é claro, era onde estavam os restos de Eliseu. Os moabitas vieram, passaram pela cova e seguiram seu caminho. Dali a pouco, uma cabeça se ergueu de dentro da sepultura, olhou em volta e saiu correndo para o lado oposto ao destino dos bárbaros. Eliseu operava seu último milagre e um filho de Israel ganhava uma última chance 800 anos antes de Lázaro.

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Jeoás só precisou de três ataques à Síria para recuperar os territórios perdidos. A se acreditar no delirante Eliseu, se ele tivesse furado a terra meia dúzia de vezes, a Síria não existiria e nós não teríamos Paulo Maluf.

Após 16 anos de reinado, Jeoás morreu e seu filho Jeroboão tornou-se rei de Israel. Entre uma investida e outra contra os sírios, Jeoás ainda arranjou confusão com o reino de Judá. Mas essa história fica para o próximo capítulo.

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1 Eliseu, o profeta que era um delírio na cama.

Desculpem.

Desafio aceito

Um rapazote com o simpático nome de Dayvid (Dayvid!) me mandou a seguinte mensagem:

Cara, vc tem um talento indiscutível, mas vc tá equivocado. Você não acredita né? então eu te desafio a ler Romanos 1:18 a 23. Enquanto isso eu vou orar por vc, e vc vai conhecer o que é o sobrenatural de Deus, aí eu vou te pedir um favor: leia Jo 3:16. Se nada acontecernos próximos 10 dias vc não precisa me falar nada, vc tá certo e eu me calo. Mas se vc notar algumas coisas estranhas acontecendo, por favor seja atencioso e honesto pra reconhecer, e aí eu vou ter a honra de conversar com vc e compartilhar os gigantes que eu mesmo vi, dos seres espirituais que eu vi, de outras coisas que Deus me falou e mostrou. Um abraço cara, e não tenha medo de experimentar, pois mais cedo ou mais tarde vc terá reconhecer que Jesus é o Senhor, estou te oferecendo o jeito mais fácil. Filipenses 2:9 a 11. Até breve!

Gostei da boa educação do Dayvid. Muito diferente dos crentes que aparecem por aqui querendo me exorcizar na base da bibliada na idéia, ele é um rapaz gentil e bem intencionado. O que não quer dizer que ele esteja certo, claro. Mas aceitei o desafio.

A primeira recomendação dele é que eu leia os versículos de 18 a 23 do primeiro capítulo da epístola aos Romanos. Oba. Gosto muito desse texto de Paulo. É uma carta que ele escreveu para a igreja de Roma (dã), onde um grupo de judeus aceitara Jesus de Nazaré como Messias, mas mantinha o rito judaico. Só que também havia gentios por lá, não-judeus, e os dois grupos viviam brigando: os judeus, povo escolhido a dedo por Javé, achavam que eram os pica-grossa. Os gentios queriam ter o mesmo status dentro da igreja, mas os judeus só aceitariam se eles se  circuncidassem. Paulo mandou uma carta mandando os dois grupos criarem vergonha, explicando que o Cristianismo era uma nova religião e que, portanto, judeus e gentios eram iguais. No começo, ele saúda a todos, diz que está ansioso para visitá-los em Roma e diz que não se envergonha do Evangelho. Depois, ele começa a falar da ira de Deus — provavelmente porque alguns dos gentios da igreja deviam praticar atos que matavam os judeus de ódio, como idolatria. Os versículos que o Dayvid (Dayvid!) falou para eu ler são:

18 Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça.
19 Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou.
20 Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis;
21 Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu.
22 Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos.
23 E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.

Eu sei que ele decidiu que eu deveria começar pelo versículo 18: é só a partir daí que o bicho começa a pegar; antes disso, Paulo faz suas saudações. Mas por que parar no versículo 23? Resolvi ler o resto do capítulo e entendi por que esse limite:

24 Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si;
25 Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém.
26 Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza.
27 E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro.
28 E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm;

29 Estando cheios de toda a iniqüidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade;
30 Sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães;
31 Néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia;
32 Os quais, conhecendo a justiça de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem.

Ah, o velho costume protestante de tirar trechos da Bíblia de seu devido contexto. Vejam que Paulo fala muito especificamente para um grupo de Romanos que tinha caído na putaria e na veadagem, queda que ele atribui à idolatria. Será que o Dayvid quer dizer que eu vou virar veado nos próximos dez dias? Minha marida é que vai achar estranho, tadinha.

Mas vamos adiante, que ele também me mandou ler João 3:16, o versículo que é como um resumo do que vem a ser o Cristianismo. Melhor ler o capítulo inteiro, que vale muito a pena. A primeira parte conta a história de Nicodemos, um fariseu de alto garbo e elegância, que um dia saiu escondidinho à noite pra ver qual era a daquele barbudão de quem tanto falavam. A segunda parte mostra João Baptista dizendo que sua missão está cumprida, porque o primo Jesus é muito mais foda do que ele. Vamos lá:

1 E havia entre os fariseus um homem, chamado Nicodemos, príncipe dos judeus.
2 Este foi ter de noite com Jesus, e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele.
3 Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.
4 Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?
5 Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.
6 O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.
7 Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo.
8 O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.
9 Nicodemos respondeu, e disse-lhe: Como pode ser isso?
10 Jesus respondeu, e disse-lhe: Tu és mestre de Israel, e não sabes isto?
11 Na verdade, na verdade te digo que nós dizemos o que sabemos, e testificamos o que vimos; e não aceitais o nosso testemunho.
12 Se vos falei de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais?
13 Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu.
14 E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado;
15 Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
16 Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
17 Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.
18 Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus.
19 E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más.
20 Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas.
21 Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus.
22 Depois disto foi Jesus com os seus discípulos para a terra da Judéia; e estava ali com eles, e batizava.
23 Ora, João batizava também em Enom, junto a Salim, porque havia ali muitas águas; e vinham ali, e eram batizados.
24 Porque ainda João não tinha sido lançado na prisão.
25 Houve então uma questão entre os discípulos de João e os judeus acerca da purificação.
26 E foram ter com João, e disseram-lhe: Rabi, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tu deste testemunho, ei-lo batizando, e todos vão ter com ele.
27 João respondeu, e disse: O homem não pode receber coisa alguma, se não lhe for dada do céu.
28 Vós mesmos me sois testemunhas de que disse: Eu não sou o Cristo, mas sou enviado adiante dele.
29 Aquele que tem a esposa é o esposo; mas o amigo do esposo, que lhe assiste e o ouve, alegra-se muito com a voz do esposo. Assim, pois, já este meu gozo está cumprido.
30 É necessário que ele cresça e que eu diminua.
31 Aquele que vem de cima é sobre todos; aquele que vem da terra é da terra e fala da terra. Aquele que vem do céu é sobre todos.
32 E aquilo que ele viu e ouviu isso testifica; e ninguém aceita o seu testemunho.
33 Aquele que aceitou o seu testemunho, esse confirmou que Deus é verdadeiro.
34 Porque aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus; pois não lhe dá Deus o Espírito por medida.
35 O Pai ama o Filho, e todas as coisas entregou nas suas mãos.
36 Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece.

Pouco tempo depois, João Batista seria preso e decapitado. Nicodemos acabou convencido pela lábia de Jesus. Tempos depois, ele defendeu o cara diante de seus colegas fariseus. Quando Jesus morreu, Nicodemos ajudou José de Arimatéia a preparar o corpo para o sepultamento. Ponta firme, o Nicodemos.

Mas então, Dayvid (Dayvid!): estão lidos os trechos que você me mandou ler. Eu li ontem, na verdade, mas não consegui postar nada porque fiquei sem internet, como expliquei no post anterior. Mas tudo bem, te dou um dia de vantagem. Dez dias pro bicho pegar pro meu lado, né? Então tá. Dia 31 de julho a gente volta a se falar.

Joás e os sacerdotes

(II Reis 12)

“Que merda”, pensava o rei Joás enquanto sangrava até a morte do lado de fora das muralhas de Jerusalém. “Mas que merda.”

Joás subiu ao trono de Judá graças à proteção de Joiada e dos outros sacerdotes. Reinou durante quarenta anos; durante quarenta anos viveu à sombra dos sacerdotes. Não valeu a pena.

A primeira fase do reinado de Joás foi um inferno para ele. Proclamado rei aos sete anos de idade, debaixo da asa de Joiada, Joás virou piada em Judá. Ele era o menino do templo, o pau-mandado da casta sacerdotal. Alguns falavam em pedofilia, o que era compreensível: no fim das contas, Joiada era um padre, Joás era um garotinho. Assim que atingiu a maioridade, Joás tentou virar o jogo e começar a controlar quem o controlava. Então chamou os sacerdotes para uma reunião no templo.

— Chamei os senhores aqui porque estou preocupado.

— Não se preocupe, Joás. Tá tudo sob controle. Não quer ir lá no templo comigo? A gente toma um copo de leite, depois eu te conto umas histórias de Jezabel, aí a gente brinca de Davi e Jônatas…

— ESSE TEMPO PASSOU, JOIADA! Tenho um trono tão lindo e nem posso sentar nele, por causa dessa brincadeira besta.

— Peraí, Joás, que negócio é esse?

— E VOCÊ NUNCA ME DEIXAVA SER O DAVI!

— Pô, mas que graça teria?

— CHEGA! Não estou para brincadeira. Esse tempo passou, entendeu? Não sou mais criança!

— Você sempre será uma criança para mim…

— CALABOCA! Chamei vocês aqui para falar sobre o Templo. Aquilo está uma vergonha! Goteiras no teto, infiltração nas paredes, cupins nos móveis. A Casa de Javé está parecendo a casa-da-mãe-joana. Vocês não têm vergonha?

— Bom…

— Foi uma pergunta retórica, imbecil! A partir de agora, vocês vão separar todo o dinheiro que receberem do povo para a reforma do Templo.

— Todo o dinheiro?

— Todo o dinheiro.

— Mas TODO o dinheiro? Nós temos outras despesas, você sabe. Precisamos comprar leite, bolachinhas, brinquedos…

— Bolachinhas…

— … lápis de cor, figurinhas dos reis de Judá. Eu lembro que faltava o Roboão na sua coleção. Tenho uma figurinha do Roboão…

— Sério???

— Sério! Vamos até o templo. Você completa sua coleção e a gente esquece isso.

— NÃO! A casa de Javé está caindo aos pedaços, e você vem me falar em figurinha? Voltem ao Templo e comecem agora mesmo a reforma.

— Sim, majestade. Xacomigo.

— Humpf. É isso aí.

Cinco anos depois, a situação do Templo só piorava. Se alguém pisasse mais duro, caíam pedaços do teto. As paredes estavam estufadas de umidade. Os cupins haviam comido madeira suficiente para construir uma capela. Joás chamou os sacerdotes ao palácio mais uma vez.

— Por que vocês não fizeram o que eu mandei?

— Vixe. É mesmo. Acho que esquecemos. Qual era a ordem mesmo?

— SEPARAR O DINHEIRO DAS OFERTAS PARA REFORMAR A PORRA DO TEMPLO!

— Ah, era isso? Entendemos que era para pegar o dinheiro e gastar como quiséssemos. Veja só. Um pequeno ruído na comunicação, hein? Que coisa… Bom. É só isso?

— Só isso um caralho! Agora vocês vão reformar o Templo, sem desculpinhas. Vou fiscalizar a arrecadação de perto.

— De perto?

— Bem de perto!

— Que nem Davi e Jônatas…?

— Er… Eu… Olha…

— Tenho uma idéia que talvez seja boa para nós dois.

— Diga, Joiada.

— Vou colocar uma urna de madeira ao lado do altar. Nessa urna vai todo dinheiro que o povo trouxer para pagar sacrifícios, impostos do Templo e ofertas. Quando a urna estiver cheia, pegamos o dinheiro e contratamos pedreiros, carpinteiros, pintores. Uma vez por mês, eu trago aqui um relatório de receitas e despesas.

— Parece bom. Mas você disse que ia ser bom para nós dois, não? Quando eu era criança, você sempre falava isso, e no fim era bom só para você.

— Aquele tempo passou! Vai ser bom para nós dois, eu garanto. Com esse dinheiro aí, nós reformamos o Templo, do jeito que o senhor mandou. Mas o dinheiro que o povo trouxer para aliviar a consciência fica todo para nós.

— Hum… Parece justo. Eu concordo. Mande fazer a tal urna, o novo esquema de arrecadação começa hoje.

— Pois não, majestade.

Por algum tempo, todo mundo ficou contente. Os sacerdotes repartiam entre eles o dinheiro que as pessoas ofereciam em troca do perdão de seus pecados. Todo o resto ia para a urna. Quando a urna estava cheia, o sumo-sacerdote chamava o secretário do rei para contar o dinheiro, separá-lo, comprar material e pagar os trabalhadores. O rei consolidava sua autoridade, os sacerdotes garantiam seus caraminguás, e o Templo voltava à glória de outrora. E então veio Hazael e cagou tudo.

Hazael, vocês devem se lembrar, era o rei da Síria que herdara uma mania besta de seu pai: azucrinar os países vizinhos. Hazael invadiu Gate, na Filistia, e soube que o rei de Judá andava mais preocupado com a reforma do Templo do que com a defesa da nação. Um momento perfeito para invadir Jerusalém.

Hazael tinha razão. Concentrado na arrecadação de ofertas e nas obras do Templo, Joás não tivera tempo para estudar estratégias de defesa. Não havia estoque de mantimentos nem água bastante para a cidade: se o rei da Síria cercasse Jerusalém, a rendição viria em poucos dias. Se o cerco viesse, Joás precisaria reforçar as defesas da cidade, negociar com Hazael e, em último caso, atacar o exército da Síria. Ele não sabia como fazer nada disso. Na verdade, ele só sabia mesmo controlar as contas do Templo.

Pensando bem, isso podia ser útil: o rei sabia a quantia exata que os reis anteriores haviam dedicado ao Templo, sabia quanto ele mesmo havia depositado. Ele sabia quanto ouro e prata havia por lá, e de quanto era a poupança dos sacerdotes. Então mandou raspar tudo e enviar a Hazael na forma de um suborno camarada. Funcionou: Hazael ficou contente com aquele dinheiro todo, e desistiu de atacar Jerusalém. No palácio, Joás se congratulava por sua astúcia.

— Você viu, Joiada? Beleza de estratégia, hein? Esse aí não vai nos encher o saco por um bom tempo.

— Majestade… O senhor deu ao rei da Síria todo o dinheiro que nós tínhamos!

— Nem todo, Joiada. Nem encostei no dinheiro da reforma. Não se preocupe, as obras continuam.

— Sim, majestade. Mas e o NOSSO dinheiro? Nós tínhamos uma boa grana lá, sabe? Estávamos pensando em construir um colégio e enchê-lo de garotinhos. Garotinhos belos e bronzeados correndo pelo pátio de calção, suando, as bochechas rosadas…

— Por que você está respirando assim, Joiada?

— E agora não temos nada. NADA!

— São coisas que acontecem, Joiada. Deixa isso para lá. O pior já passou.

O pior não havia passado. Aos 47 anos de idade, Joás foi vítima de uma conspiração. Dois oficiais do palácio, Jozacar e Siemate, inventaram uma história qualquer para levar o rei até a casa de um tal Milo, do lado de fora da cidade, e o mataram. Milo não estava em casa: trabalhava na reforma do templo.

Joás é ungido rei de Judá

(II Reis 11)

— Eu sou rei ou não sou?

— Claro que é, majestade.

— ENTÃO EU QUERO UM LEÃO, CARALHO!

— Majestade, essa linguagem não é adequada…

— CA-RA-LHO! CA-RA-LHO! CA-RA-LHO!

— Tudo bem, majestade, vou arrumar seu caral… digo, leão. Só vamos precisar construir um muro bem alto no pátio, senão ele come a girafa que o senhor também pediu. Fora isso, há mais alguma coisa que eu pos… majestade?

O rei tinha adormecido enquanto o sacerdote Joiada falava. Vendo seu senhor jogado daquele jeito no trono, a coroa tombada de lado, um fio de baba no queixo, Joiada questionou seus atos mais uma vez. Talvez a conspiração para levar Joás tivesse sido um erro. Bom, ele consolava-se, pelo menos tinha livrado o coitado da velha maluca.

A velha maluca era Atalia, mãe do rei Acazias e filha de Acabe e Jezabel. Com seus cabelos desgrenhados e olhos constantemente arregalados, ela era o terror e a diversão das crianças de Jerusalém. Quando saía à rua ou ao pátio do palácio, um bando de moleques — seus netos, inclusive — a acompanhava de longe, gritando ofensas e atirando pedras.

Então Acazias morreu e Atalia matou seus netos um por um, proclamando-se rainha de Judá.

Ela reinou por seis anos, malucando no palácio e ignorando a conspiração. Sua filha, Jeoseba, desconfiara ao ver a mãe se aproximando demais dos netos. Então pegou Joás e o levou para casa. Seu marido, o sacerdote Joiada, trancou o menino no templo enquanto pensava no que fazer com ele.

Joiada pensou, pensou, pensou.

Joiada ponderou, pesou prós e contras, consultou sua consciência.

Joiada falou com especialistas e pedagogos, e contratou uma consultoria de análise de risco.

E então Joiada finalmente decidiu: não podia se precipitar.

Então pensou mais um pouco, pesou os prós etc.

Depois de seis anos, resolveu que Joás era herdeiro legítimo do trono de Judá.

Bom, reconhecer que Joás merecia o trono era uma coisa; outra coisa era levá-lo até lá. Atalia era maluca mas não era besta. Sua fraqueza: ela trouxera para Judá a religião de seus pais. O culto a Baal era uma ofensa para os habitantes de Judá, muito menos adeptos da diversidade do que seus irmãos de Israel. Além disso, Atalia não era descendente de Davi. Para Joiada, dava samba.

No dia seguinte à sua decisão, Joiada convocou ao templo os generais do exército de Judá. Primeiro os fez jurar segredo do que veriam em seguida e lealdade a ele, ao Templo e a Javé. Os generais não eram bestas de bulir com Javé, então juraram, e Joiada mandou lhes apresentou Joás.

— Esse é Joás, descendente de Davi e legítimo herdeiro do trono de Judá.

O efeito foi melhor do que ele esperava. Os generais estavam cansados das maluquices de Atalia. Gastavam um tempo precioso todos os dias escrevendo relatórios sobre o andamento dos projetos de expansão da rainha. Na segunda-feira marchavam sobre o Mediterrâneo, na quinta atiravam flechas incandescentes sobre a Etiópia. Num dia informavam que tinham derrubado a lua, noutro reportavam um cerco ao sol. A rainha dava risinhos, dançava e batia palmas. Uma palhaçada. E agora vinha o sacerdote com o rei verdadeiro, da casa de Davi. Não precisava nem tê-los feito jurar: eles fariam qualquer coisa para que a vida voltasse ao normal.

Para aumentar o efeito, Joiada mandou trazer os escudos e lanças que haviam pertencido a Davi, e entregou as armas aos generais e seus soldados. As ordens eram claras: cercar o Templo, proteger o rei a qualquer custo e matar quem se aproximasse. Assim, de guarda, eles passaram a noite.

Na manhã seguinte, Joiada levou Joás para fora do Templo, colocou a coroa sobre sua cabeça e o proclamou rei. O movimento atraiu o povo. Ao atinar no sentido do que acontecia, os habitantes de Jerusalém começaram a cantar e gritar “viva o rei!” A rainha, de camisola mesmo como estava, veio ver o que estava acontecendo. Ao ver a cena, seus olhos se esbugalharam mais ainda e sua boca começou a espumar, enquanto ela gritava:

— TRAIÇÃO! TRAIÇÃO! PUDIM! TESOURA DE PODA! FEDORA COM PENA VERDE!

Joiada ordenou aos soldados que levassem Atalia para fora e a matassem. Eles, é claro, obedeceram. O povo, em êxtase, derrubou o templo de Baal e matou seu sacerdote, Matã. Joiada postou guardas no Templo e, junto com os oficiais, levou Joás ao palácio. Joás sentou-se no trono e deu sua primeira ordem:

— Eu quero uma GIRAFA!

Joás tinha sete anos quando se tornou rei de Judá.

Jeú cumpre sua missão

(II Reis 10)

Baal! Baal!
É a festa de Baal
Baal é nosso deus
Um deus muito legal
Amanhã vai ter festança
Vou beber e passar mal
Vai ter música e dança
E um banquete animal
Sacrifício, holocausto
Muito luxo e muito fausto
Lá no templo de Baal
Baal! Baal!
É a festa de Baal…

A população de Samaria já não agüentava mais aqueles alto-falantes sobressaltando a cidade com o jingle em ritmo de funk, composto por Jeú especialmente para a ocasião. A kombi de pamonha alugada pelo rei wannabe estava de volta à capital, depois de vários dias percorrendo todo o Israel para divulgar a grande festa de Baal.

Alguns ficaram desconfiados quando Jeú mencionou a festa pela primeira vez. Ele havia chegado à cidade depois de uma caçada aos descendentes do finado rei Acabe, e muitos atribuíam essa chacina a um zelo excessivo pela religião de Javé. Porém, num rápido discurso feito logo após a matança, Jeú deixara suas motivações bem claras.

Apenas uma semana antes, setenta filhos de Acabe viviam em Samaria, sob os cuidados das autoridades locais. Jeú enviara de Jezreel uma carta aos líderes da cidade:

Prezados chefes de Samaria,

Sei que os senhores estão muito bem aí cuidando dos interesses dos filhos de Acabe. Sei também que vocês têm armas de sobra, cavalos e carros de guerra. Então faço uma proposta: escolham aí o príncipe mais capaz, coloquem o cara no trono, e se preparem para defender a cidade.

Abraços!

Jeú

Os homens fortes de Samaria ficaram apavorados. Jeú tinha acabado de matar dois reis adultos e experientes no campo de batalha; o que faria com um pobre garoto? O encarregado do palácio, o prefeito, os militares, juízes e sacerdotes, todos se reuniram para pensar em uma resposta. Que saiu assim:

Caro rei Jeú,

Somos seus servos, estamos às suas ordens. Não vamos colocar ninguém no trono, o senhor faça o que achar melhor.

Ao receber o bilhete lacônico dos líderes, Jeú sorriu. Aquelas poucas palavras transpiravam medo, e era esse mesmo o efeito que ele queria causar. Então mandou outra carta a Samaria, dessa vez com instruções detalhadas:

Prezados chefes de Samaria,

Fico feliz em saber que os senhores estão do meu lado. Agora quero que provem sua lealdade: se me apóiam mesmo, tragam a cabeça dos filhos de Acabe até Jezreel amanhã.

Jeú

As autoridades leram a carta, releram, discutiram. Seria uma metáfora, uma alegoria? Não, não podia ser. Jeú não era dado a altos vôos de pensamento: se ele pedia cabeças, era isso mesmo que ele queria. E eles acabaram decidindo que era melhor garantir a própria vida. Sendo assim, mataram os setenta príncipes e mandaram suas cabeças em cestos de vime caprichosamente decorados e embrulhados em papel celofane. Depois de alguns momentos constrangedores explicando a remessa ao funcionário do correio, conseguiram mandar as cabeças a Jezreel.

Jeú recebeu a encomenda na noite seguinte e ordenou aseus capangas que empilhassem as cabeças no portão da cidade e as deixassem lá até amanhecer. Ele saiu de manhã e fingiu estar tão surpreso como todo mundo ao ver a cena nas portas da cidade: duas pilhas de cabeças infantis e poças de sangue coagulado sobre os pedregulhos, rostos que guardavam a expressão de surpresa e dor do momento da morte, alguns olhos, orelhas e lábios já removidos pelos abutres do deserto, ossos expostos aqui e ali.

— Vocês estão vendo? Eu comandei a revolta contra o rei Jorão, matei ele e Acazias, mas e esses aí? Quem os matou?

Os jezreelitas reunidos ao redor das pilhas de cabeças mantinham-se em silêncio.

— Do que mais vocês precisam para acreditar no que Javé prometeu? Nosso Deus disse que os descendentes de Acabe seriam varridos da face da terra, e hoje as cabeças dos filhos dele apareceram misteriosamente à nossa porta. É um sinal! Matem todos os parentes de Acabe que moram na cidade, todas as autoridades e sacerdotes ligados a ele!

Levados pela fascinação que vinha em parte do carisma de Jeú e em parte do horror causado por aquelas crianças sem corpo, os habitantes da cidade cumpriram a ordem.

Feita a limpeza em Jezreel, restava a Jeú conquistar a capital, Samaria, e sagrar-se rei de uma vez por todas. Ele juntou seus homens e pegou a estrada. No meio do caminho, ainda encontrou um grupo de pessoas que caíram na besteira de se identificar como parentes do rei Acazias. Eram quarenta e dois; os soldados de Jeú mataram todos. Mais para a frente, encontraram um certo Jonadabe, filho de Recabe, que era simpático à causa de Jeú e se uniu à caravana.

Chegando a Samaria, Jeú tratou de matar os poucos parentes de Acabe que ainda restavam. Depois disso, reuniu o povo na praça principal da cidade e fez seu discurso:

— Vocês estão vendo bem o que aconteceu com a família de Acabe. Isso aconteceu porque ele não foi fiel a Baal, nosso deus. Eu, meus bons samaritanos, sou um servo de Baal, e juro servi-lo por toda a minha vida. Para começar essa nova fase em Israel, vamos fazer uma grande festa no templo de Baal. Todos os adoradores e sacerdotes de Baal estão convidados. Já fiz até uma musiquinha para divulgar a festa. Agora só preciso de uma kombi de pamonha…

E foi assim que, dias depois, todos os baalitas afluíram ao templo de seu deus, alegres e vestindo suas melhores roupas de festa. O templo ficou completamente cheio. Todos conversavam e riam, mas fizeram absoluto silêncio quando a figura de Jeú surgiu no lugar de honra do templo. Jeú desfrutou alguns instantes o efeito, limpou a garganta com um pigarro e disse:

— Atrás de Baal só não vai quem já morreu! ["ÊÊÊÊÊ!", gritou o povo] Que venham os abadás!

Os sacerdotes de Baal entraram pelas portas laterais, trazendo os mantos sagrados de sua religião e distribuindo-os entre os presentes. Com todo mundo devidamente paramentado, Jeú convidou Jonadabe para juntar-se a ele no altar.

— Viva Baal!

— Viva!

— Todos vocês amam Baaaaaaaaaaaal?

— Sim!

— Alguém aí é servo de Javééééééé?

— Não!

— Quem quer Javééééééé?

— Ninguém!

— Quem quer Baaaaaaaaaaaaaaal?

— EEEEEEEEEEEEEEEEEU!

— VIVA BAAL!

— VIVA!!!

— Agora eu ofereço esses feixes de trigo a quem?

— BAAL!

— Jonadabe mata esses pombos para quem?

— BAAL!

— Nós sangramos esse touro para quem?

— BAAL!

— Esse bando de guardas trucida vocês para quem?

— BA… hein?

Era uma armadilha, e não havia como escapar. Um pelotão dos guardas de Jeú bloqueava as portas, enquanto o resto fazia cantar suas espadas no meio da multidão indefesa. Os soldados empilharam os corpos do lado de fora do templo e destruíram a imagem de Baal que estava no altar. Depois, Jeú transformou o local em um banheiro público.

Javé, desnecessário dizer, ficou inflado de orgulho com a astúcia de Jeú, o novo rei de Israel. Anos depois, porém, Jeú abandonou seu zelo exagerado. O final do capítulo sugere que ele chegou a adorar os bezerros de ouro feitos por Jeroboão. É de se pensar se ele não teria olhado para trás e percebido que, por baixo do verniz das justificativas religiosas, ele não passara de um assassino em série.

Após 28 anos ocupando o trono, Jeú morreu e foi substituído por seu filho Jeoacaz.

Jeú é ungido rei e mata geral

(II Reis 9)

Jeú era um idiota.

Amarelo e voluntarioso, atarracado e boquirroto, caspento e santarrão, tinha suas convicções gravadas em pedra, e ai de quem discordasse. Para ele, só pudim de leite era sobremesa, só Amélia era mulher de verdade e só Javé era deus. Pavê, Jezabel e Baal não eram meras divergências de opinião ou gosto: eram aberrações inadmissíveis e que deveriam ser punidas com a morte. Como nem mesmo a lei mosaica chegava ao absurdo de condenar ao apedrejamento quem comesse uma ambrosia, Jeú concentrava seus esforços em buscar maneiras de perseguir os adoradores de outros deuses.

Jeú, o idiota, era tudo o que Javé esperava do próximo rei de Israel.

__________

Com a sunamita de volta e toda propensa a discutir a relação, Eliseu achava mais prudente permanecer amocambado. Para passar o tempo, relembrava Elias, seu professor, e organizava os objetos pessoais deixados pelo velho profeta depois de abduzido por um redemoinho. Sentado no chão com as pernas dobradas, Eliseu lia mais uma vez a lista de coisas a fazer de seu mestre:

  • lavar a túnica
  • comprar leite
  • comprar azeite (o mais baratinho)
  • ungir Eliseu
  • ungir Hazael
  • ungir Jeú

— Puta que pariu!

Com sua partida repentina, Elias deixara algumas coisas por fazer. Além do mais, Hazael estava destinado a criar problemas para os israelitas, e Jeú, como todos sabiam, era um idiota. Talvez Elias tivesse esquecido de propósito de ungir os dois. Eliseu, porém, não tinha a mesma moral com Deus, então precisava cumprir suas ordens. Ungir Hazael nem fora tão difícil, mas ir anunciar àquele pedaço de asno que ele seria o futuro rei de Israel, ah, já era demais.

Sem vontade de ser cúmplice daquela palhaçada, mas também sem ter como evitar cumprir a ordem divina, Eliseu escolheu uma saída que o poupava da melhor forma possível: mandar um estagiário de profeta. Assim evitava o risco de ser interpelado pela mulher e não precisava perder seu tempo besuntando um imbecil.

— Moleque, vem cá!

— Sim, seu Eliseu.

— Conhece Jeú?

— Jeú…?

— Filho de Josafá, neto de Ninsi.

— Ah, sim. O babaca.

— Shhhhhhh… Não fala assim do nosso futuro rei.

— COMO É?

— Fala baixo, porra! Tenho uma missão para você. Você vai até Ramote-Gileade, vai procurar Jeú e levá-lo discretamente para um canto. Aí você vai derramar esse azeite aqui na cabeça dele e falar aquela papagaiada de sempre. Você já teve aula de unção?

— Tive, mas não fiz prova ainda.

— Fica valendo sua nota. Vai lá, fala pra ele que Javé o está ungindo como Rei de Israel, repete a maldição contra os descendentes de Acabe, seja bem específico naquela parte sobre o corpo de Jezabel ser comido pelos cachorros. Feito isso, saia correndo de lá, antes que algum alcagüete do rei o dedure. Entendeu?

— Mais ou menos. Vou precisar estudar mais esse lance da maldição dos cachorros e não sei o que mais.

— Tô fodido…

___________

O moleque até que cumpriu direitinho sua tarefa: foi a Ramote-Gileade, encontrou Jeú em casa reunido com os amigos, separou-o habilmente dos outros, fez seu discurso e saiu correndo. Jeú voltou à sala onde os amigos continuavam a conversa.

— Jeú! O que o estagiário dos profetas queria com você?

— Vocês sabem muito bem!

— …

— RAÇA DE INFIÉIS! O RAPAZ VEIO ANUNCIAR, EM NOME DE JAVÉ, QUE EU SEREI O NOVO REI DE ISRAEL E QUE VARREREI DO MAPA A ESCÓRIA IDÓLATRA QUE EMPESTEIA O AR DE SAMARIA, MOSTRANDO QUE SÓ JAVÉ É O SENHOR DOS EXÉRCITOS, SOBERANO E MARAVILHOSO, AMÉM?

— Ah, isso. Legal.

— VIVA O REI!

— Viva!!!

__________

— E aí, homem?

— Mesma coisa, majestade. Juntou-se a eles.

— Merda.

Já era o terceiro emissário que o rei Jorão enviava ao encontro dos misteriosos visitantes, e pela terceira vez suas ordens eram desobedecidas e o mensageiro unia-se à horda. O rei estava de cama, ainda recuperando-se dos ferimentos sofridos na batalha contra os Sírios, e recebia a visita de Acazias, rei de Judá. O guarda que estava na torre via o grupo se aproximando, agora já engordado pelos três empregados do palácio.

— O que você me diz, guarda?

— Sei não, majestade. Mas pelo jeito que o chefe deles dirige, eu acho que é Jeú.

— Jeú, o idiota?

— Esse.

— Ai meu cu…

— Pomadinha?

— CALE-SE! Acazias, o que vamos fazer com esse débil mental?

— O rei aqui é você, estou só de visita.

— Ah, é. GUARDA! Mande aprontarem meu carro. Eu mesmo vou até lá ver o que está se passando.

Saíram, então, os dois reis ao campo, cada um em seu conversível. Ao chegar mais perto, Jorão confirmou as suspeitas do guarda: era mesmo o chato do Jeú. Não era à toa que os mensageiros haviam se unido a ele: seu discurso inflamado e impregnado com a chama do fundamentalismo religioso era uma apelo muito forte para o povão.

— Jeú, você vem como amigo?

— AMIGO? COMO PODEMOS SER AMIGOS SE A IDOLATRIA CORRE SOLTA EM ISRAEL? O SENHOR NÃO SE DEIXA ESCARNECER, REI JORÃO! A IRA DE JAVÉ VISITA A INIQÜIDADE DOS HOMENS ATÉ A QUINTA GERAÇÃO! NOSSO DEUS É FOGO CONSUMIDOR!

— Hum. Não vem como amigo, então?

— NÃO!

— Corre, Acazias! Esse puto está aprontando pra gente!

Os dois reis deram meia-volta e saíram a toda. Mas Jeú tinha uma excelente pontaria, e acertou uma flechada nas costas de Jorão. A flecha varou-lhe o coração e o rei caiu morto ali mesmo, dentro do carro. Então Jeú disse a Bidcar (que era seu ajudante, mas também é um nome porreta para um site de leilão de automóveis):

— Jogue o corpo desse pecador no campo que pertenceu a Nabote.

Acazias ainda conseguiu despistar os soldados de Jeú por um tempo, mas acabou ferido na estrada. Conseguiu chegar até a cidade de Megido, onde morreu.

__________

A morte dos dois reis era a parte principal do plano de Jeú, mas não a que mais lhe causava ansiedade. Seu real objetivo desde o começo era Jezabel, a viúva de Acabe e mãe de Jorão. Ela estava em sua casa em Jezreel, chorando a morte do filho, quando soube que o traidor se dirigia à cidade. Então lavou o rosto, maquiou-se e saiu à janela. Sua intenção era não demonstrar fraqueza diante do inimigo, mas é claro que ela entrou para a história como uma biscate que, num último lance desesperado, tenta seduzir um justo. Ao ver Jeú se aproximando, não esperou que ele a encontrasse. Em vez disso, tratou de saudá-lo com sarcasmo:

— Olá, Zinri!

Era uma ofensa muito séria em Israel. Anos antes, Zinri assassinara o rei Elá para assumir o trono. Reinou por apenas sete dias e acabou morto por Onri, que viria a ser pai do rei Acabe. Chamar alguém de Zinri era fazer pouco de suas ambições e desprezar publicamente seu gesto de traição. Mas Jeú estava totalmente imbuído de sua missão purificadora. Isso e o fato incontestável de ser um idiota o tornava imune à ironia. Ele apenas gritou para dentro do palácio:

— SE ALGUÉM ESTIVER AO MEU LADO, QUE JOGUE ESSA MULHER DAÍ!

E, como a estupidez humana é a única força com que se pode contar sempre, três oficiais do palácio obedeceram a ordem e defenestraram a mulher indefesa. O impacto da queda foi tão forte que o sangue de Jezabel respingou nos cavalos. Jeú passou por cima do cadáver e ordenou que a enterrassem, apenas por deferência devida à filha de um rei. Mas os homens que receberam a ordem ficaram enrolando um pouco por ali e, quando saíram, encontraram pouco mais do que os ossos da defunta. Como prometido por Javé, seu corpo havia sido devorado pelos cães.

Ao receber a notícia, Jeú sorriu, satisfeito. Gostava do rumo que as coisas estavam tomando. E era só o começo.

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