Jesus, me chicoteia!

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A guerra entre Judá e Israel

(II Reis 14)

O capítulo anterior terminou com a morte de Jeoás, rei de Israel. Este capítulo recua catorze anos para mostrar outro rei: Amazias, que subiu ao trono de Judá quando Jeoás já ia no segundo ano de reinado em Israel. Amazias foi um rei mais-ou-menos, como costumavam ser os reis de Judá: não agradou a Javé completamente, mas também não fez nada que levasse o Grandão a sapecar-lhe um meteorito na idéia.

A primeira medida de Amazias assim que se firmou no trono de Judá foi matar os assassinos de seu pai, o rei Joás. Depois disso, entrou em guerra contra Edom, matando 10 mil edomitas e tomando a cidade de Selá. E aí veio uma combinação de tédio e arrogância que levou Amazias a comprar briga com Jeoás.

A briga começou de um jeito inocente. Jeoás ainda pensava na morte de Eliseu, que ele considerava um pai:

Jeoás01

Enquanto isso, Amazias queixava-se:

Amazias01

Amazias02

O tédio de Amazias divertiu Jeoás, e aí começou o furdunço:

Amazias_Jeoas01

(leiam de baixo para cima)

Jeoás já conhecia a fama de valentão de Amazias, então achou melhor contemporizar e mandar uma resposta em forma de parábola:

Jeoás02Jeoás03

Amazias não recebeu bem a parábola:

Amazias_Jeoas02

(de baixo pra cima outra vez)

Jeoás era pacífico, mas não era besta. Reuniu seu exército e partiu na direção de Judá. Amazias fez o mesmo e partiu na direção de Israel. Os dois reis e seus exércitos se encontraram em Bete-Semes, dentro do território de Judá. Israel era um reino muito maior, mais avançado, e Amazias não tinha chance nenhuma. Após uma batalha rápida, o exército de Judá debandou e foi cada um para sua casa. Os israelitas foram atrás. Jeoás destruiu um trecho de 200 metros da muralha de Jerusalém, saqueou o templo e o palácio, e voltou para Samaria levando ouro, prata e reféns.

Amazias ainda viveu quinze anos depois da morte de Jeoás, mas nunca mais quis saber de briga. A morte dele não foi das mais heróicas: soube de uma conspiração e fugiu para Laquis. Não adiantou nada: os conspiradores o mataram lá e mandaram o corpo para ser sepultado em Jerusalém. Uzias, filho de Amazias, foi feito rei em seu lugar. Era um garoto de dezesseis anos de idade.

Em Israel, Jeroboão II sucedeu Jeoás. Javé não ia com a cara dele: era um rei folgado, tinha outros deuses lá dele, estava nem aí para a religião oficial. Mas também era um grande estrategista e expandiu o território de Israel até as fronteiras originais. Quando Jeroboão morreu, seu filho Zacarias subiu ao trono.

E não, eu não vou fazer piada de Trapalhões.

O furdunço com a Síria e a morte de Eliseu

( II Reis 13)

Relembrando: depois da morte de Salomão, Israel se dividiu. Ao norte, o reino de Israel, formado por dez das doze tribos originais e tendo Samaria por capital. Ao sul, o pequeno reino de Judá, das tribos de Judá (jura?) e Benjamim. O primeiro rei de Israel foi um usurpador chamado Jeroboão. Coube ao filho de Salomão, Roboão, apenas a porção sul do país que passou a ser o reino de Judá. Em Judá, os reis tentavam não irritar Javé, então era tudo meio parado por lá. Em Israel, porém, os reis seguiam os passos de Jeroboão: idolatria, assassinato, putaria. Javé vivia retaliando, e por isso Israel teve por muito tempo uma história bem mais interessante do que Judá — os profetas mais legais, Elias e Eliseu, atuavam em Israel. E tome ressuscitar gente, amaldiçoar o rei, fugir do rei, voltar. Em Judá, coitados, trabalhariam em alguma repartição pública.

Bom, pra variar estava tudo parado em Judá enquanto Israel pegava fogo. No dois capítulos anteriores, vimos o reinado e a morte de Joás, rei de Judá. Muito pouco, levando-se em conta que ele ficou quarenta anos no trono. Enquanto ele ainda ia pelo meio de seu reinado,  subia ao trono de Israel Jeoacaz, filho de Jeú (aquele decapitador de crianças). Jeoacaz fazia tudo o que Javé não gostava, então Javé ficou brabo: pegou seu tabuleiro de War e usou a Síria, Moabe e Dudinka para atacar Israel. Dois reis sírios — Hazael (aquele um que fora ungido por Eliseu) e seu filho Ben-Hadade depois dele — tomaram terras de Israel, mataram muita gente e arrasaram com o exército israelita. Jeoacaz, ainda muito longe de seu objetivo (a Europa e a África ou 24 territórios), suplicou a Javé que desse um tempo. Javé ficou com peninha e ajudou Israel, atacando a Síria com o decadente Império Assírio. Jeoacaz morreu depois de catorze anos de reinado e foi sucedido por seu filho, Jeoás.

Jeoás seguiu o comportamento padrão dos reis de Israel: emputecer Javé. Mas Jeoás também queria retomar os territórios ocupados pela Síria, o que seria impraticável com um exército todo estropiado. Então recorreu ao único israelita que ainda tinha moral com Javé.

Só que Eliseu já estava nas últimas. Doente, passava seus dias delirando e esperando a morte numa cama1. O rei estava triste por ver o profeta naquela situação, e também desesperado por não conseguir livrar-se dos sírios. Então ajoelhou-se ao lado da cama, chorando feito uma mãe de trombadinha.

— Ô, meu pai! Ô, que Israel tá tudo fudido! Ô, meu pai!

— Calma, majestade — tadinho do Eliseu, um quase nada de voz. — Pega aí um arco, umas flechas e vem pra cá.

Meio relutante, mas sem querer contrariar o profeta, o rei pegou o arco.

— Isso. Agora abre aquela janela e atira uma flecha.

O rei coçou a cabeça, olhou em volta, trocou o peso do corpo de uma perna pra outra. Olhou em volta de novo, viu que não tinha ninguém olhando, atirou a flecha pela janela e levou um susto com o grito do profeta:

— FLEEEEEEEEECHA DA VITÓRIA DE JAVÉ! FLEEEEEEEEEECHA DOS SÍRIO TUDO SE FODENDO! FLECHAFLECHAFLECHACLEFACHEFALEFALECHAFLECALECHA…

—Calma, Eliseu.

— Flecha?

— Caaaaaalma.

— Flecha… Pega as flechas. Pegou? Agora fura a terra com elas.

O rei, já cansado das doidices de Eliseu, pegou uma flecha, furou a terra três vezes e levou outro susto.

— POR QUÊEEEEEEEEEEEE, CARAIO? POR QUÊ CÊ SÓ FUROU TRÊS VEZ? TINHA QUE FURAR UM MONTE! FURASSE UM MONTE E OS SÍRIO IA TUDO PRAS PICA. FUROU TRÊS VEZ, AGORA VAI AGÜENTAR OS SÍRIO ATÉÉEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE… ATÉEEEEEEEEEEEEE… AT… COF! COF!

— Calma, Eliseu. Calma. Respira.

— A FLECHA.

Foram as últimas palavras de Eliseu. O profeta morreu e foi sepultado num buraco qualquer. Mas sua carreira ainda não chegara ao fim.

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Lembram que eu falei dos moabitas? Moabita era uma raça de gente encardida. Eram pior que traça, pior que gafanhoto, pior que problogger em evento com brinde e almoço grátis: por onde passavam, não deixavam nada. Pois era essa raça que vivia atormentando Israel. De quando em vez, sem nada melhor pra fazer, um olhava pro outro e resolviam: vamos azucrinar os narigudinhos. Perto do ano novo, quando o movimento do comércio era maior, aí é que os moabitas se assanhavam.

Então aconteceu de um sujeito morrer bem perto do ano novo. A família e os amigos tocaram o féretro até o lado de fora das muralhas de Samaria, com um olho no defunto e outro no horizonte, num andamento que estava mais para Allegro ma non troppo do que para o Gravissimo que o respeito à ocasião exigia. E iam nessa pegada, até que alguém viu uma nuvem de poeira no horizonte. “Moabitas!”, gritou um. As carpideiras mandaram um último buá, os enlutados engataram uma quinta, jogaram o finado no primeiro buraco e se empirulitaram pra não fazer companhia a ele. O buraco, é claro, era onde estavam os restos de Eliseu. Os moabitas vieram, passaram pela cova e seguiram seu caminho. Dali a pouco, uma cabeça se ergueu de dentro da sepultura, olhou em volta e saiu correndo para o lado oposto ao destino dos bárbaros. Eliseu operava seu último milagre e um filho de Israel ganhava uma última chance 800 anos antes de Lázaro.

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Jeoás só precisou de três ataques à Síria para recuperar os territórios perdidos. A se acreditar no delirante Eliseu, se ele tivesse furado a terra meia dúzia de vezes, a Síria não existiria e nós não teríamos Paulo Maluf.

Após 16 anos de reinado, Jeoás morreu e seu filho Jeroboão tornou-se rei de Israel. Entre uma investida e outra contra os sírios, Jeoás ainda arranjou confusão com o reino de Judá. Mas essa história fica para o próximo capítulo.

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1 Eliseu, o profeta que era um delírio na cama.

Desculpem.

Desafio aceito

Um rapazote com o simpático nome de Dayvid (Dayvid!) me mandou a seguinte mensagem:

Cara, vc tem um talento indiscutível, mas vc tá equivocado. Você não acredita né? então eu te desafio a ler Romanos 1:18 a 23. Enquanto isso eu vou orar por vc, e vc vai conhecer o que é o sobrenatural de Deus, aí eu vou te pedir um favor: leia Jo 3:16. Se nada acontecernos próximos 10 dias vc não precisa me falar nada, vc tá certo e eu me calo. Mas se vc notar algumas coisas estranhas acontecendo, por favor seja atencioso e honesto pra reconhecer, e aí eu vou ter a honra de conversar com vc e compartilhar os gigantes que eu mesmo vi, dos seres espirituais que eu vi, de outras coisas que Deus me falou e mostrou. Um abraço cara, e não tenha medo de experimentar, pois mais cedo ou mais tarde vc terá reconhecer que Jesus é o Senhor, estou te oferecendo o jeito mais fácil. Filipenses 2:9 a 11. Até breve!

Gostei da boa educação do Dayvid. Muito diferente dos crentes que aparecem por aqui querendo me exorcizar na base da bibliada na idéia, ele é um rapaz gentil e bem intencionado. O que não quer dizer que ele esteja certo, claro. Mas aceitei o desafio.

A primeira recomendação dele é que eu leia os versículos de 18 a 23 do primeiro capítulo da epístola aos Romanos. Oba. Gosto muito desse texto de Paulo. É uma carta que ele escreveu para a igreja de Roma (dã), onde um grupo de judeus aceitara Jesus de Nazaré como Messias, mas mantinha o rito judaico. Só que também havia gentios por lá, não-judeus, e os dois grupos viviam brigando: os judeus, povo escolhido a dedo por Javé, achavam que eram os pica-grossa. Os gentios queriam ter o mesmo status dentro da igreja, mas os judeus só aceitariam se eles se  circuncidassem. Paulo mandou uma carta mandando os dois grupos criarem vergonha, explicando que o Cristianismo era uma nova religião e que, portanto, judeus e gentios eram iguais. No começo, ele saúda a todos, diz que está ansioso para visitá-los em Roma e diz que não se envergonha do Evangelho. Depois, ele começa a falar da ira de Deus — provavelmente porque alguns dos gentios da igreja deviam praticar atos que matavam os judeus de ódio, como idolatria. Os versículos que o Dayvid (Dayvid!) falou para eu ler são:

18 Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça.
19 Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou.
20 Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis;
21 Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu.
22 Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos.
23 E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.

Eu sei que ele decidiu que eu deveria começar pelo versículo 18: é só a partir daí que o bicho começa a pegar; antes disso, Paulo faz suas saudações. Mas por que parar no versículo 23? Resolvi ler o resto do capítulo e entendi por que esse limite:

24 Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si;
25 Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém.
26 Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza.
27 E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro.
28 E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm;

29 Estando cheios de toda a iniqüidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade;
30 Sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães;
31 Néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia;
32 Os quais, conhecendo a justiça de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem.

Ah, o velho costume protestante de tirar trechos da Bíblia de seu devido contexto. Vejam que Paulo fala muito especificamente para um grupo de Romanos que tinha caído na putaria e na veadagem, queda que ele atribui à idolatria. Será que o Dayvid quer dizer que eu vou virar veado nos próximos dez dias? Minha marida é que vai achar estranho, tadinha.

Mas vamos adiante, que ele também me mandou ler João 3:16, o versículo que é como um resumo do que vem a ser o Cristianismo. Melhor ler o capítulo inteiro, que vale muito a pena. A primeira parte conta a história de Nicodemos, um fariseu de alto garbo e elegância, que um dia saiu escondidinho à noite pra ver qual era a daquele barbudão de quem tanto falavam. A segunda parte mostra João Baptista dizendo que sua missão está cumprida, porque o primo Jesus é muito mais foda do que ele. Vamos lá:

1 E havia entre os fariseus um homem, chamado Nicodemos, príncipe dos judeus.
2 Este foi ter de noite com Jesus, e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele.
3 Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.
4 Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?
5 Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.
6 O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.
7 Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo.
8 O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.
9 Nicodemos respondeu, e disse-lhe: Como pode ser isso?
10 Jesus respondeu, e disse-lhe: Tu és mestre de Israel, e não sabes isto?
11 Na verdade, na verdade te digo que nós dizemos o que sabemos, e testificamos o que vimos; e não aceitais o nosso testemunho.
12 Se vos falei de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais?
13 Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu.
14 E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado;
15 Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
16 Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
17 Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.
18 Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus.
19 E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más.
20 Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas.
21 Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus.
22 Depois disto foi Jesus com os seus discípulos para a terra da Judéia; e estava ali com eles, e batizava.
23 Ora, João batizava também em Enom, junto a Salim, porque havia ali muitas águas; e vinham ali, e eram batizados.
24 Porque ainda João não tinha sido lançado na prisão.
25 Houve então uma questão entre os discípulos de João e os judeus acerca da purificação.
26 E foram ter com João, e disseram-lhe: Rabi, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tu deste testemunho, ei-lo batizando, e todos vão ter com ele.
27 João respondeu, e disse: O homem não pode receber coisa alguma, se não lhe for dada do céu.
28 Vós mesmos me sois testemunhas de que disse: Eu não sou o Cristo, mas sou enviado adiante dele.
29 Aquele que tem a esposa é o esposo; mas o amigo do esposo, que lhe assiste e o ouve, alegra-se muito com a voz do esposo. Assim, pois, já este meu gozo está cumprido.
30 É necessário que ele cresça e que eu diminua.
31 Aquele que vem de cima é sobre todos; aquele que vem da terra é da terra e fala da terra. Aquele que vem do céu é sobre todos.
32 E aquilo que ele viu e ouviu isso testifica; e ninguém aceita o seu testemunho.
33 Aquele que aceitou o seu testemunho, esse confirmou que Deus é verdadeiro.
34 Porque aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus; pois não lhe dá Deus o Espírito por medida.
35 O Pai ama o Filho, e todas as coisas entregou nas suas mãos.
36 Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece.

Pouco tempo depois, João Batista seria preso e decapitado. Nicodemos acabou convencido pela lábia de Jesus. Tempos depois, ele defendeu o cara diante de seus colegas fariseus. Quando Jesus morreu, Nicodemos ajudou José de Arimatéia a preparar o corpo para o sepultamento. Ponta firme, o Nicodemos.

Mas então, Dayvid (Dayvid!): estão lidos os trechos que você me mandou ler. Eu li ontem, na verdade, mas não consegui postar nada porque fiquei sem internet, como expliquei no post anterior. Mas tudo bem, te dou um dia de vantagem. Dez dias pro bicho pegar pro meu lado, né? Então tá. Dia 31 de julho a gente volta a se falar.

Joás e os sacerdotes

(II Reis 12)

“Que merda”, pensava o rei Joás enquanto sangrava até a morte do lado de fora das muralhas de Jerusalém. “Mas que merda.”

Joás subiu ao trono de Judá graças à proteção de Joiada e dos outros sacerdotes. Reinou durante quarenta anos; durante quarenta anos viveu à sombra dos sacerdotes. Não valeu a pena.

A primeira fase do reinado de Joás foi um inferno para ele. Proclamado rei aos sete anos de idade, debaixo da asa de Joiada, Joás virou piada em Judá. Ele era o menino do templo, o pau-mandado da casta sacerdotal. Alguns falavam em pedofilia, o que era compreensível: no fim das contas, Joiada era um padre, Joás era um garotinho. Assim que atingiu a maioridade, Joás tentou virar o jogo e começar a controlar quem o controlava. Então chamou os sacerdotes para uma reunião no templo.

— Chamei os senhores aqui porque estou preocupado.

— Não se preocupe, Joás. Tá tudo sob controle. Não quer ir lá no templo comigo? A gente toma um copo de leite, depois eu te conto umas histórias de Jezabel, aí a gente brinca de Davi e Jônatas…

— ESSE TEMPO PASSOU, JOIADA! Tenho um trono tão lindo e nem posso sentar nele, por causa dessa brincadeira besta.

— Peraí, Joás, que negócio é esse?

— E VOCÊ NUNCA ME DEIXAVA SER O DAVI!

— Pô, mas que graça teria?

— CHEGA! Não estou para brincadeira. Esse tempo passou, entendeu? Não sou mais criança!

— Você sempre será uma criança para mim…

— CALABOCA! Chamei vocês aqui para falar sobre o Templo. Aquilo está uma vergonha! Goteiras no teto, infiltração nas paredes, cupins nos móveis. A Casa de Javé está parecendo a casa-da-mãe-joana. Vocês não têm vergonha?

— Bom…

— Foi uma pergunta retórica, imbecil! A partir de agora, vocês vão separar todo o dinheiro que receberem do povo para a reforma do Templo.

— Todo o dinheiro?

— Todo o dinheiro.

— Mas TODO o dinheiro? Nós temos outras despesas, você sabe. Precisamos comprar leite, bolachinhas, brinquedos…

— Bolachinhas…

— … lápis de cor, figurinhas dos reis de Judá. Eu lembro que faltava o Roboão na sua coleção. Tenho uma figurinha do Roboão…

— Sério???

— Sério! Vamos até o templo. Você completa sua coleção e a gente esquece isso.

— NÃO! A casa de Javé está caindo aos pedaços, e você vem me falar em figurinha? Voltem ao Templo e comecem agora mesmo a reforma.

— Sim, majestade. Xacomigo.

— Humpf. É isso aí.

Cinco anos depois, a situação do Templo só piorava. Se alguém pisasse mais duro, caíam pedaços do teto. As paredes estavam estufadas de umidade. Os cupins haviam comido madeira suficiente para construir uma capela. Joás chamou os sacerdotes ao palácio mais uma vez.

— Por que vocês não fizeram o que eu mandei?

— Vixe. É mesmo. Acho que esquecemos. Qual era a ordem mesmo?

— SEPARAR O DINHEIRO DAS OFERTAS PARA REFORMAR A PORRA DO TEMPLO!

— Ah, era isso? Entendemos que era para pegar o dinheiro e gastar como quiséssemos. Veja só. Um pequeno ruído na comunicação, hein? Que coisa… Bom. É só isso?

— Só isso um caralho! Agora vocês vão reformar o Templo, sem desculpinhas. Vou fiscalizar a arrecadação de perto.

— De perto?

— Bem de perto!

— Que nem Davi e Jônatas…?

— Er… Eu… Olha…

— Tenho uma idéia que talvez seja boa para nós dois.

— Diga, Joiada.

— Vou colocar uma urna de madeira ao lado do altar. Nessa urna vai todo dinheiro que o povo trouxer para pagar sacrifícios, impostos do Templo e ofertas. Quando a urna estiver cheia, pegamos o dinheiro e contratamos pedreiros, carpinteiros, pintores. Uma vez por mês, eu trago aqui um relatório de receitas e despesas.

— Parece bom. Mas você disse que ia ser bom para nós dois, não? Quando eu era criança, você sempre falava isso, e no fim era bom só para você.

— Aquele tempo passou! Vai ser bom para nós dois, eu garanto. Com esse dinheiro aí, nós reformamos o Templo, do jeito que o senhor mandou. Mas o dinheiro que o povo trouxer para aliviar a consciência fica todo para nós.

— Hum… Parece justo. Eu concordo. Mande fazer a tal urna, o novo esquema de arrecadação começa hoje.

— Pois não, majestade.

Por algum tempo, todo mundo ficou contente. Os sacerdotes repartiam entre eles o dinheiro que as pessoas ofereciam em troca do perdão de seus pecados. Todo o resto ia para a urna. Quando a urna estava cheia, o sumo-sacerdote chamava o secretário do rei para contar o dinheiro, separá-lo, comprar material e pagar os trabalhadores. O rei consolidava sua autoridade, os sacerdotes garantiam seus caraminguás, e o Templo voltava à glória de outrora. E então veio Hazael e cagou tudo.

Hazael, vocês devem se lembrar, era o rei da Síria que herdara uma mania besta de seu pai: azucrinar os países vizinhos. Hazael invadiu Gate, na Filistia, e soube que o rei de Judá andava mais preocupado com a reforma do Templo do que com a defesa da nação. Um momento perfeito para invadir Jerusalém.

Hazael tinha razão. Concentrado na arrecadação de ofertas e nas obras do Templo, Joás não tivera tempo para estudar estratégias de defesa. Não havia estoque de mantimentos nem água bastante para a cidade: se o rei da Síria cercasse Jerusalém, a rendição viria em poucos dias. Se o cerco viesse, Joás precisaria reforçar as defesas da cidade, negociar com Hazael e, em último caso, atacar o exército da Síria. Ele não sabia como fazer nada disso. Na verdade, ele só sabia mesmo controlar as contas do Templo.

Pensando bem, isso podia ser útil: o rei sabia a quantia exata que os reis anteriores haviam dedicado ao Templo, sabia quanto ele mesmo havia depositado. Ele sabia quanto ouro e prata havia por lá, e de quanto era a poupança dos sacerdotes. Então mandou raspar tudo e enviar a Hazael na forma de um suborno camarada. Funcionou: Hazael ficou contente com aquele dinheiro todo, e desistiu de atacar Jerusalém. No palácio, Joás se congratulava por sua astúcia.

— Você viu, Joiada? Beleza de estratégia, hein? Esse aí não vai nos encher o saco por um bom tempo.

— Majestade… O senhor deu ao rei da Síria todo o dinheiro que nós tínhamos!

— Nem todo, Joiada. Nem encostei no dinheiro da reforma. Não se preocupe, as obras continuam.

— Sim, majestade. Mas e o NOSSO dinheiro? Nós tínhamos uma boa grana lá, sabe? Estávamos pensando em construir um colégio e enchê-lo de garotinhos. Garotinhos belos e bronzeados correndo pelo pátio de calção, suando, as bochechas rosadas…

— Por que você está respirando assim, Joiada?

— E agora não temos nada. NADA!

— São coisas que acontecem, Joiada. Deixa isso para lá. O pior já passou.

O pior não havia passado. Aos 47 anos de idade, Joás foi vítima de uma conspiração. Dois oficiais do palácio, Jozacar e Siemate, inventaram uma história qualquer para levar o rei até a casa de um tal Milo, do lado de fora da cidade, e o mataram. Milo não estava em casa: trabalhava na reforma do templo.

Joás é ungido rei de Judá

(II Reis 11)

— Eu sou rei ou não sou?

— Claro que é, majestade.

— ENTÃO EU QUERO UM LEÃO, CARALHO!

— Majestade, essa linguagem não é adequada…

— CA-RA-LHO! CA-RA-LHO! CA-RA-LHO!

— Tudo bem, majestade, vou arrumar seu caral… digo, leão. Só vamos precisar construir um muro bem alto no pátio, senão ele come a girafa que o senhor também pediu. Fora isso, há mais alguma coisa que eu pos… majestade?

O rei tinha adormecido enquanto o sacerdote Joiada falava. Vendo seu senhor jogado daquele jeito no trono, a coroa tombada de lado, um fio de baba no queixo, Joiada questionou seus atos mais uma vez. Talvez a conspiração para levar Joás tivesse sido um erro. Bom, ele consolava-se, pelo menos tinha livrado o coitado da velha maluca.

A velha maluca era Atalia, mãe do rei Acazias e filha de Acabe e Jezabel. Com seus cabelos desgrenhados e olhos constantemente arregalados, ela era o terror e a diversão das crianças de Jerusalém. Quando saía à rua ou ao pátio do palácio, um bando de moleques — seus netos, inclusive — a acompanhava de longe, gritando ofensas e atirando pedras.

Então Acazias morreu e Atalia matou seus netos um por um, proclamando-se rainha de Judá.

Ela reinou por seis anos, malucando no palácio e ignorando a conspiração. Sua filha, Jeoseba, desconfiara ao ver a mãe se aproximando demais dos netos. Então pegou Joás e o levou para casa. Seu marido, o sacerdote Joiada, trancou o menino no templo enquanto pensava no que fazer com ele.

Joiada pensou, pensou, pensou.

Joiada ponderou, pesou prós e contras, consultou sua consciência.

Joiada falou com especialistas e pedagogos, e contratou uma consultoria de análise de risco.

E então Joiada finalmente decidiu: não podia se precipitar.

Então pensou mais um pouco, pesou os prós etc.

Depois de seis anos, resolveu que Joás era herdeiro legítimo do trono de Judá.

Bom, reconhecer que Joás merecia o trono era uma coisa; outra coisa era levá-lo até lá. Atalia era maluca mas não era besta. Sua fraqueza: ela trouxera para Judá a religião de seus pais. O culto a Baal era uma ofensa para os habitantes de Judá, muito menos adeptos da diversidade do que seus irmãos de Israel. Além disso, Atalia não era descendente de Davi. Para Joiada, dava samba.

No dia seguinte à sua decisão, Joiada convocou ao templo os generais do exército de Judá. Primeiro os fez jurar segredo do que veriam em seguida e lealdade a ele, ao Templo e a Javé. Os generais não eram bestas de bulir com Javé, então juraram, e Joiada mandou lhes apresentou Joás.

— Esse é Joás, descendente de Davi e legítimo herdeiro do trono de Judá.

O efeito foi melhor do que ele esperava. Os generais estavam cansados das maluquices de Atalia. Gastavam um tempo precioso todos os dias escrevendo relatórios sobre o andamento dos projetos de expansão da rainha. Na segunda-feira marchavam sobre o Mediterrâneo, na quinta atiravam flechas incandescentes sobre a Etiópia. Num dia informavam que tinham derrubado a lua, noutro reportavam um cerco ao sol. A rainha dava risinhos, dançava e batia palmas. Uma palhaçada. E agora vinha o sacerdote com o rei verdadeiro, da casa de Davi. Não precisava nem tê-los feito jurar: eles fariam qualquer coisa para que a vida voltasse ao normal.

Para aumentar o efeito, Joiada mandou trazer os escudos e lanças que haviam pertencido a Davi, e entregou as armas aos generais e seus soldados. As ordens eram claras: cercar o Templo, proteger o rei a qualquer custo e matar quem se aproximasse. Assim, de guarda, eles passaram a noite.

Na manhã seguinte, Joiada levou Joás para fora do Templo, colocou a coroa sobre sua cabeça e o proclamou rei. O movimento atraiu o povo. Ao atinar no sentido do que acontecia, os habitantes de Jerusalém começaram a cantar e gritar “viva o rei!” A rainha, de camisola mesmo como estava, veio ver o que estava acontecendo. Ao ver a cena, seus olhos se esbugalharam mais ainda e sua boca começou a espumar, enquanto ela gritava:

— TRAIÇÃO! TRAIÇÃO! PUDIM! TESOURA DE PODA! FEDORA COM PENA VERDE!

Joiada ordenou aos soldados que levassem Atalia para fora e a matassem. Eles, é claro, obedeceram. O povo, em êxtase, derrubou o templo de Baal e matou seu sacerdote, Matã. Joiada postou guardas no Templo e, junto com os oficiais, levou Joás ao palácio. Joás sentou-se no trono e deu sua primeira ordem:

— Eu quero uma GIRAFA!

Joás tinha sete anos quando se tornou rei de Judá.

Jeú cumpre sua missão

(II Reis 10)

Baal! Baal!
É a festa de Baal
Baal é nosso deus
Um deus muito legal
Amanhã vai ter festança
Vou beber e passar mal
Vai ter música e dança
E um banquete animal
Sacrifício, holocausto
Muito luxo e muito fausto
Lá no templo de Baal
Baal! Baal!
É a festa de Baal…

A população de Samaria já não agüentava mais aqueles alto-falantes sobressaltando a cidade com o jingle em ritmo de funk, composto por Jeú especialmente para a ocasião. A kombi de pamonha alugada pelo rei wannabe estava de volta à capital, depois de vários dias percorrendo todo o Israel para divulgar a grande festa de Baal.

Alguns ficaram desconfiados quando Jeú mencionou a festa pela primeira vez. Ele havia chegado à cidade depois de uma caçada aos descendentes do finado rei Acabe, e muitos atribuíam essa chacina a um zelo excessivo pela religião de Javé. Porém, num rápido discurso feito logo após a matança, Jeú deixara suas motivações bem claras.

Apenas uma semana antes, setenta filhos de Acabe viviam em Samaria, sob os cuidados das autoridades locais. Jeú enviara de Jezreel uma carta aos líderes da cidade:

Prezados chefes de Samaria,

Sei que os senhores estão muito bem aí cuidando dos interesses dos filhos de Acabe. Sei também que vocês têm armas de sobra, cavalos e carros de guerra. Então faço uma proposta: escolham aí o príncipe mais capaz, coloquem o cara no trono, e se preparem para defender a cidade.

Abraços!

Jeú

Os homens fortes de Samaria ficaram apavorados. Jeú tinha acabado de matar dois reis adultos e experientes no campo de batalha; o que faria com um pobre garoto? O encarregado do palácio, o prefeito, os militares, juízes e sacerdotes, todos se reuniram para pensar em uma resposta. Que saiu assim:

Caro rei Jeú,

Somos seus servos, estamos às suas ordens. Não vamos colocar ninguém no trono, o senhor faça o que achar melhor.

Ao receber o bilhete lacônico dos líderes, Jeú sorriu. Aquelas poucas palavras transpiravam medo, e era esse mesmo o efeito que ele queria causar. Então mandou outra carta a Samaria, dessa vez com instruções detalhadas:

Prezados chefes de Samaria,

Fico feliz em saber que os senhores estão do meu lado. Agora quero que provem sua lealdade: se me apóiam mesmo, tragam a cabeça dos filhos de Acabe até Jezreel amanhã.

Jeú

As autoridades leram a carta, releram, discutiram. Seria uma metáfora, uma alegoria? Não, não podia ser. Jeú não era dado a altos vôos de pensamento: se ele pedia cabeças, era isso mesmo que ele queria. E eles acabaram decidindo que era melhor garantir a própria vida. Sendo assim, mataram os setenta príncipes e mandaram suas cabeças em cestos de vime caprichosamente decorados e embrulhados em papel celofane. Depois de alguns momentos constrangedores explicando a remessa ao funcionário do correio, conseguiram mandar as cabeças a Jezreel.

Jeú recebeu a encomenda na noite seguinte e ordenou aseus capangas que empilhassem as cabeças no portão da cidade e as deixassem lá até amanhecer. Ele saiu de manhã e fingiu estar tão surpreso como todo mundo ao ver a cena nas portas da cidade: duas pilhas de cabeças infantis e poças de sangue coagulado sobre os pedregulhos, rostos que guardavam a expressão de surpresa e dor do momento da morte, alguns olhos, orelhas e lábios já removidos pelos abutres do deserto, ossos expostos aqui e ali.

— Vocês estão vendo? Eu comandei a revolta contra o rei Jorão, matei ele e Acazias, mas e esses aí? Quem os matou?

Os jezreelitas reunidos ao redor das pilhas de cabeças mantinham-se em silêncio.

— Do que mais vocês precisam para acreditar no que Javé prometeu? Nosso Deus disse que os descendentes de Acabe seriam varridos da face da terra, e hoje as cabeças dos filhos dele apareceram misteriosamente à nossa porta. É um sinal! Matem todos os parentes de Acabe que moram na cidade, todas as autoridades e sacerdotes ligados a ele!

Levados pela fascinação que vinha em parte do carisma de Jeú e em parte do horror causado por aquelas crianças sem corpo, os habitantes da cidade cumpriram a ordem.

Feita a limpeza em Jezreel, restava a Jeú conquistar a capital, Samaria, e sagrar-se rei de uma vez por todas. Ele juntou seus homens e pegou a estrada. No meio do caminho, ainda encontrou um grupo de pessoas que caíram na besteira de se identificar como parentes do rei Acazias. Eram quarenta e dois; os soldados de Jeú mataram todos. Mais para a frente, encontraram um certo Jonadabe, filho de Recabe, que era simpático à causa de Jeú e se uniu à caravana.

Chegando a Samaria, Jeú tratou de matar os poucos parentes de Acabe que ainda restavam. Depois disso, reuniu o povo na praça principal da cidade e fez seu discurso:

— Vocês estão vendo bem o que aconteceu com a família de Acabe. Isso aconteceu porque ele não foi fiel a Baal, nosso deus. Eu, meus bons samaritanos, sou um servo de Baal, e juro servi-lo por toda a minha vida. Para começar essa nova fase em Israel, vamos fazer uma grande festa no templo de Baal. Todos os adoradores e sacerdotes de Baal estão convidados. Já fiz até uma musiquinha para divulgar a festa. Agora só preciso de uma kombi de pamonha…

E foi assim que, dias depois, todos os baalitas afluíram ao templo de seu deus, alegres e vestindo suas melhores roupas de festa. O templo ficou completamente cheio. Todos conversavam e riam, mas fizeram absoluto silêncio quando a figura de Jeú surgiu no lugar de honra do templo. Jeú desfrutou alguns instantes o efeito, limpou a garganta com um pigarro e disse:

— Atrás de Baal só não vai quem já morreu! ["ÊÊÊÊÊ!", gritou o povo] Que venham os abadás!

Os sacerdotes de Baal entraram pelas portas laterais, trazendo os mantos sagrados de sua religião e distribuindo-os entre os presentes. Com todo mundo devidamente paramentado, Jeú convidou Jonadabe para juntar-se a ele no altar.

— Viva Baal!

— Viva!

— Todos vocês amam Baaaaaaaaaaaal?

— Sim!

— Alguém aí é servo de Javééééééé?

— Não!

— Quem quer Javééééééé?

— Ninguém!

— Quem quer Baaaaaaaaaaaaaaal?

— EEEEEEEEEEEEEEEEEU!

— VIVA BAAL!

— VIVA!!!

— Agora eu ofereço esses feixes de trigo a quem?

— BAAL!

— Jonadabe mata esses pombos para quem?

— BAAL!

— Nós sangramos esse touro para quem?

— BAAL!

— Esse bando de guardas trucida vocês para quem?

— BA… hein?

Era uma armadilha, e não havia como escapar. Um pelotão dos guardas de Jeú bloqueava as portas, enquanto o resto fazia cantar suas espadas no meio da multidão indefesa. Os soldados empilharam os corpos do lado de fora do templo e destruíram a imagem de Baal que estava no altar. Depois, Jeú transformou o local em um banheiro público.

Javé, desnecessário dizer, ficou inflado de orgulho com a astúcia de Jeú, o novo rei de Israel. Anos depois, porém, Jeú abandonou seu zelo exagerado. O final do capítulo sugere que ele chegou a adorar os bezerros de ouro feitos por Jeroboão. É de se pensar se ele não teria olhado para trás e percebido que, por baixo do verniz das justificativas religiosas, ele não passara de um assassino em série.

Após 28 anos ocupando o trono, Jeú morreu e foi substituído por seu filho Jeoacaz.

Jeú é ungido rei e mata geral

(II Reis 9)

Jeú era um idiota.

Amarelo e voluntarioso, atarracado e boquirroto, caspento e santarrão, tinha suas convicções gravadas em pedra, e ai de quem discordasse. Para ele, só pudim de leite era sobremesa, só Amélia era mulher de verdade e só Javé era deus. Pavê, Jezabel e Baal não eram meras divergências de opinião ou gosto: eram aberrações inadmissíveis e que deveriam ser punidas com a morte. Como nem mesmo a lei mosaica chegava ao absurdo de condenar ao apedrejamento quem comesse uma ambrosia, Jeú concentrava seus esforços em buscar maneiras de perseguir os adoradores de outros deuses.

Jeú, o idiota, era tudo o que Javé esperava do próximo rei de Israel.

__________

Com a sunamita de volta e toda propensa a discutir a relação, Eliseu achava mais prudente permanecer amocambado. Para passar o tempo, relembrava Elias, seu professor, e organizava os objetos pessoais deixados pelo velho profeta depois de abduzido por um redemoinho. Sentado no chão com as pernas dobradas, Eliseu lia mais uma vez a lista de coisas a fazer de seu mestre:

  • lavar a túnica
  • comprar leite
  • comprar azeite (o mais baratinho)
  • ungir Eliseu
  • ungir Hazael
  • ungir Jeú

— Puta que pariu!

Com sua partida repentina, Elias deixara algumas coisas por fazer. Além do mais, Hazael estava destinado a criar problemas para os israelitas, e Jeú, como todos sabiam, era um idiota. Talvez Elias tivesse esquecido de propósito de ungir os dois. Eliseu, porém, não tinha a mesma moral com Deus, então precisava cumprir suas ordens. Ungir Hazael nem fora tão difícil, mas ir anunciar àquele pedaço de asno que ele seria o futuro rei de Israel, ah, já era demais.

Sem vontade de ser cúmplice daquela palhaçada, mas também sem ter como evitar cumprir a ordem divina, Eliseu escolheu uma saída que o poupava da melhor forma possível: mandar um estagiário de profeta. Assim evitava o risco de ser interpelado pela mulher e não precisava perder seu tempo besuntando um imbecil.

— Moleque, vem cá!

— Sim, seu Eliseu.

— Conhece Jeú?

— Jeú…?

— Filho de Josafá, neto de Ninsi.

— Ah, sim. O babaca.

— Shhhhhhh… Não fala assim do nosso futuro rei.

— COMO É?

— Fala baixo, porra! Tenho uma missão para você. Você vai até Ramote-Gileade, vai procurar Jeú e levá-lo discretamente para um canto. Aí você vai derramar esse azeite aqui na cabeça dele e falar aquela papagaiada de sempre. Você já teve aula de unção?

— Tive, mas não fiz prova ainda.

— Fica valendo sua nota. Vai lá, fala pra ele que Javé o está ungindo como Rei de Israel, repete a maldição contra os descendentes de Acabe, seja bem específico naquela parte sobre o corpo de Jezabel ser comido pelos cachorros. Feito isso, saia correndo de lá, antes que algum alcagüete do rei o dedure. Entendeu?

— Mais ou menos. Vou precisar estudar mais esse lance da maldição dos cachorros e não sei o que mais.

— Tô fodido…

___________

O moleque até que cumpriu direitinho sua tarefa: foi a Ramote-Gileade, encontrou Jeú em casa reunido com os amigos, separou-o habilmente dos outros, fez seu discurso e saiu correndo. Jeú voltou à sala onde os amigos continuavam a conversa.

— Jeú! O que o estagiário dos profetas queria com você?

— Vocês sabem muito bem!

— …

— RAÇA DE INFIÉIS! O RAPAZ VEIO ANUNCIAR, EM NOME DE JAVÉ, QUE EU SEREI O NOVO REI DE ISRAEL E QUE VARREREI DO MAPA A ESCÓRIA IDÓLATRA QUE EMPESTEIA O AR DE SAMARIA, MOSTRANDO QUE SÓ JAVÉ É O SENHOR DOS EXÉRCITOS, SOBERANO E MARAVILHOSO, AMÉM?

— Ah, isso. Legal.

— VIVA O REI!

— Viva!!!

__________

— E aí, homem?

— Mesma coisa, majestade. Juntou-se a eles.

— Merda.

Já era o terceiro emissário que o rei Jorão enviava ao encontro dos misteriosos visitantes, e pela terceira vez suas ordens eram desobedecidas e o mensageiro unia-se à horda. O rei estava de cama, ainda recuperando-se dos ferimentos sofridos na batalha contra os Sírios, e recebia a visita de Acazias, rei de Judá. O guarda que estava na torre via o grupo se aproximando, agora já engordado pelos três empregados do palácio.

— O que você me diz, guarda?

— Sei não, majestade. Mas pelo jeito que o chefe deles dirige, eu acho que é Jeú.

— Jeú, o idiota?

— Esse.

— Ai meu cu…

— Pomadinha?

— CALE-SE! Acazias, o que vamos fazer com esse débil mental?

— O rei aqui é você, estou só de visita.

— Ah, é. GUARDA! Mande aprontarem meu carro. Eu mesmo vou até lá ver o que está se passando.

Saíram, então, os dois reis ao campo, cada um em seu conversível. Ao chegar mais perto, Jorão confirmou as suspeitas do guarda: era mesmo o chato do Jeú. Não era à toa que os mensageiros haviam se unido a ele: seu discurso inflamado e impregnado com a chama do fundamentalismo religioso era uma apelo muito forte para o povão.

— Jeú, você vem como amigo?

— AMIGO? COMO PODEMOS SER AMIGOS SE A IDOLATRIA CORRE SOLTA EM ISRAEL? O SENHOR NÃO SE DEIXA ESCARNECER, REI JORÃO! A IRA DE JAVÉ VISITA A INIQÜIDADE DOS HOMENS ATÉ A QUINTA GERAÇÃO! NOSSO DEUS É FOGO CONSUMIDOR!

— Hum. Não vem como amigo, então?

— NÃO!

— Corre, Acazias! Esse puto está aprontando pra gente!

Os dois reis deram meia-volta e saíram a toda. Mas Jeú tinha uma excelente pontaria, e acertou uma flechada nas costas de Jorão. A flecha varou-lhe o coração e o rei caiu morto ali mesmo, dentro do carro. Então Jeú disse a Bidcar (que era seu ajudante, mas também é um nome porreta para um site de leilão de automóveis):

— Jogue o corpo desse pecador no campo que pertenceu a Nabote.

Acazias ainda conseguiu despistar os soldados de Jeú por um tempo, mas acabou ferido na estrada. Conseguiu chegar até a cidade de Megido, onde morreu.

__________

A morte dos dois reis era a parte principal do plano de Jeú, mas não a que mais lhe causava ansiedade. Seu real objetivo desde o começo era Jezabel, a viúva de Acabe e mãe de Jorão. Ela estava em sua casa em Jezreel, chorando a morte do filho, quando soube que o traidor se dirigia à cidade. Então lavou o rosto, maquiou-se e saiu à janela. Sua intenção era não demonstrar fraqueza diante do inimigo, mas é claro que ela entrou para a história como uma biscate que, num último lance desesperado, tenta seduzir um justo. Ao ver Jeú se aproximando, não esperou que ele a encontrasse. Em vez disso, tratou de saudá-lo com sarcasmo:

— Olá, Zinri!

Era uma ofensa muito séria em Israel. Anos antes, Zinri assassinara o rei Elá para assumir o trono. Reinou por apenas sete dias e acabou morto por Onri, que viria a ser pai do rei Acabe. Chamar alguém de Zinri era fazer pouco de suas ambições e desprezar publicamente seu gesto de traição. Mas Jeú estava totalmente imbuído de sua missão purificadora. Isso e o fato incontestável de ser um idiota o tornava imune à ironia. Ele apenas gritou para dentro do palácio:

— SE ALGUÉM ESTIVER AO MEU LADO, QUE JOGUE ESSA MULHER DAÍ!

E, como a estupidez humana é a única força com que se pode contar sempre, três oficiais do palácio obedeceram a ordem e defenestraram a mulher indefesa. O impacto da queda foi tão forte que o sangue de Jezabel respingou nos cavalos. Jeú passou por cima do cadáver e ordenou que a enterrassem, apenas por deferência devida à filha de um rei. Mas os homens que receberam a ordem ficaram enrolando um pouco por ali e, quando saíram, encontraram pouco mais do que os ossos da defunta. Como prometido por Javé, seu corpo havia sido devorado pelos cães.

Ao receber a notícia, Jeú sorriu, satisfeito. Gostava do rumo que as coisas estavam tomando. E era só o começo.

A volta da sunamita e a sucessão na Síria e em Judá

(II Reis 8)

— Conta outra, Geazi…

— Mas é verdade, majestade! Que Javé me fulmine com um raio se for mentira! Eu estava lá e vi tudo: o careca, digo, o Eliseu, deitou em cima do defuntinho e ele viveu de novo!

— Isso me cheira a pedofilia.

— …

— Geazi, você acha que eu sou… Pois não?

— O senhor é o rei Jorão?

— Não, sou um abacaxi. Daí a coroa.

— …

— Porra, o que você acha?

— Majestade, é ela! A mulher de Suném!

— Hum, que coincidência… O Geazi estava me contando uma história besta sobre a senhora.

— Eu não sei de nada! Eu só vim ver o negócio das minhas terras! Eliseu é só um amigo!

— Eita, calma! Só queria saber daquela história do seu filho.

— Meu filho? Que tem ele?

— O Geazi inventou uma história absurda sobre ele…

— GEAZI, EU JÁ TE FALEI QUE AQUELA CABRITA É…

— Não essa história. A outra. Eliseu, seu filho morto…

— Ah, essa história… Então. Foi isso. O menino morreu, o profeta chegou lá em casa, deitou em cima dele, e ele reviveu.

— COMO É POSSÍVEL?

— Eu não sei, majestade. Só sei que o moleque está comigo até hoje, saudável, feliz, livre do vício da zoofilia…

— A senhora está me achando com cara de idiota, né?

— Olha, agora que o senhor perguntou…

— CALE-SE! Humpf. Há quanto tempo foi isso?

— Há sete anos. O profeta falou que haveria sete anos de fome, então eu e o menino fugimos para a Filistia.

— Sete anos de fome? Xi, Eliseu ainda era amador nessa época… A gente passou um perrengue recentemente, mas não por sete anos, que Javé nos livre.

— COMO É QUE É? ENTÃO EU FIQUEI SETE ANOS NAQUELA TERRA DE GENTE BESTA POR NADA?

— Ô, minha senhora…

— NÃO ESTOU FALANDO COM VOCÊ, GEAZI!

— Calma, calma. É que… Espera aí, já resolvemos isso. Majestade, me permite resolver essa questão? Ah, muito obrigado. Pois então: você pode voltar à sua propriedade, e o reino vai te pagar o equivalente a tudo que foi produzido nela nos últimos sete anos. Está bem?

— Hum. Tá. MAS ISSO NÃO FICA ASSIM!

— A senhora pode resolver isso diretamente com o profeta. Quando ele voltar da Síria, digo.

— SÍRIA??? QUE PILANTRA!

— Er… A senhora está cansada da viagem, melhor ir até sua casa, repousar um pouquinho. Pode deixar, cuidamos de tudo por aqui.

— Eu vou. MAS ISSO NÃO F…

— Não fica assim, eu sei. Pode ir em paz. Até logo.

— Tchau.

— …

— …

— QUE PORRA FOI ESSA, GEAZI?

— Majestade, acredite: o senhor não quer se enrolar nessa história de Eliseu com a sunamita. Dizem que o moleque é filho dele.

— COMO É?

— Shhhhhhhhhhh… Melhor não comentar nada. Ele pode ficar sabendo.

— E daí?

— Lembra das ursas?

— Ah, é.

— Pois é.

— Shhhhhhhhhh…

_______________

De fato, Eliseu andava pelas bandas da Síria. Com os recursos que tinha à disposição, ficou sabendo dias antes da chegada da sunamita, e achou mais sábio empirulitar-se para o estrangeiro. Pagar pensão não estava em seus planos. Mas outro problema o esperava em Damasco. Não, a fruta não. A cidade.

Pois vejam, Ben Hadade, rei da Síria, andava muito doente. Sabendo que Eliseu passava uma temporada no país, mandou Hazael, um oficial de confiança, levar presentes ao profeta e perguntar sobre o que lhe reservava o futuro. Então Hazael, que era um tanto exagerado, carregou quarenta camelos com as mercadorias mais luxuosas da região e foi ter com Eliseu.

— Eliseu, o rei me mandou aqui para perguntar-lhe humildemente se ele vai sarar dessa doença.

— Hmmm… Xeu ver. Javé diz que… Não. Peraí. Não, é isso mesmo. O rei vai bater a caçoleta.

— Puxa…

— Ei, espera. Você vai voltar lá para o palácio?

— Claro, Eliseu. Preciso dar a má notícia ao rei.

— Diga a ele para não se preocupar, que vai ficar bom logo.

— Eita! Javé mudou de idéia?

— Javé não muda de idéia, Hazael. O rei vai morrer.

— Peraí. O homem morre ou não morre?

— Morre. Estica as canelas dia desses. Mas se você disser isso a ele, é capaz que ele mande recolher esses presentes todos. Então diga a ele que ele vai ficar bom. Entendeu?

— Mas… Mas…

— …

— Que foi agora?

— …

— Eliseu, por que está me olhando assim?

— …

— Pára com isso, pô. Tô cagado? Cê tá me deixando sem graça.

— …

— FALA ALGUMA COISA, DIABO! Eliseu? Cê tá chorando? Putz, cê tá chorando! Não sabia que você gostava tanto do rei…

— EU QUERO QUE SEU REI SE FODA! Estou chorando porque vejo tudo que você vai fazer ao meu povo lá em Israel.

— Eeeeeu?

— Sim, você! Você vai queimar nossas cidades, matar nossos jovens, esmagar nossas crianças, retalhar a barriga das grávidas.

— Pô, Eliseu, pega leve. Mesmo que eu quisesse fazer essas coisas, quem sou eu?

— Hoje você não é porra nenhuma, mas vai ser rei da Síria.

— Tá doido? Eu nem sou parente do rei! Eliseu… Eliseu? Ô! Volta aqui! Eu, hein. Bicho esquisito…

Hazael voltou ao palácio pensativo. O rei, que mal continha ansiedade, perguntou logo o que Eliseu dissera. Conforme combinado, o oficial disse que ele ficaria bem. O rei muito feliz e, pela primeira vez em muitos dias, conseguiu pegar no sono. Na manhã seguinte, quando ele ainda dormia, Hazael o sufocou com um cobertor molhado e usurpou o trono sírio.

_______________

Jorão seguia firme e forte no trono de Israel, enquanto os reis se sucediam em Judá. Primeiro foi Jeorão, filho de Josafá, que subiu ao trono. A mulher dele era filha do rei Acabe, ou seja, ele era cunhado de Jorão. Jeorão reinou por oito anos, fazendo tudo aquilo que irritava Javé: adorar outros deuses, desposar mulheres estrangeiras, masturbar-se, essas coisas. Seu reinado de oito anos foi medíocre, e ele conseguiu perder o território de Edom, que pertencia a Judá havia anos.

Com a morte de Jeorão, seu filho Acazias foi proclamado rei. O reinado de Acazias durou apenas um ano, mas deu pano para a manga: ele e Jorão, seu tio, se uniram para guerrear contra o rei Hazael, da Síria. O rei Jorão foi ferido seriamente em uma batalha em Ramote-Gileade, e precisou ser levado às pressas para Jezreel. Com o fim da batalha, Acazias foi visitá-lo. O que se mostraria uma péssima idéia.

A fuga do exército dos sírios

(II Reis 7)

No último capítulo, deixamos Eliseu em casa esperando pela chegada do rei, que vinha com o propósito de matá-lo. Só que, no fundo, o rei era um bom sujeito. Viera pensando na situação o caminho todo: o cerco a Samaria, a fome, a eterna briga com os sírios, e se deu conta de que Eliseu não podia ser apontado como único culpado. Então, quando chegou à casa do profeta, sua voz traía mais desolação do que raiva:

— O que eu posso fazer, Eliseu? Esperar pela ajuda divina? Javé mandou essa desgraça sobre nós. Você quer que eu acredite que ele fará algo para nos tirar dessa?

— Tenha fé, majestade. Javé manda dizer que amanhã você poderá comprar três quilos e meio do melhor trigo, ou o dobro disso de cevada, por uns dez gramas de prata.

O puxa-saco que viera com o rei não se conteve:

— Cê tá doido, Eliseu? Não há comida em Samaria, logo não haverá mais água, e você me vem com historinha? Mas nem que Javé fizesse chover trigo e cevada!

— Ah, é? Então eu lhe digo outra coisa: você vai ver isso acontecendo, mas não vai comer.

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No acampamento dos sírios, nas cercanias da cidade, reinava o silêncio. Já era noite havia algumas horas, e os soldados dormiam em suas tendas. Os encarregados da vigilância caminhavam com cuidado, para não acordar os colegas. Tudo estava muito tranqüilo, e a tomada de Samaria era questão de dias, talvez horas. Ou seria, se não soasse do céu uma voz tonitruante:

— Bu.

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Enquanto isso, do lado de fora dos muros de Samaria, quatro homens discutiam na escuridão. Procuravam, eles também, fazer silêncio, mas sem muito sucesso. Por mais que sussurrassem, as sinetas dependuradas em seus pescoços tilintavam ao menor movimento. Eram leprosos, e o acessório servia para avisar as pessoas saudáveis de sua chegada. E mesmo assim, vestidos em farrapos e totalmente excluídos da sociedade, ainda se achavam em situação melhor do que os samaritanos. Era essa, aliás, a razão da discussão: dois deles queriam entrar na cidade, os outros dois queriam ir ao acampamento sírio.

— Vocês estão loucos! Se a gente entra lá, os sírios matam a gente. Ainda mais se a gente chegar tocando sino, porra!

— E daí? Se entrarmos em Samaria, morremos de fome.

— E se ficarmos aqui fora, morremos de sede antes disso.

— Pois vão os dois. Nós vamos ficar aqui.

— Tá louco? Vão ficar aqui para morrer?

— Vocês acham mais bonito morrer nas mãos dos sírios?

— Tá bom, calem-se. Vamos deixar que a sorte resolva isso. Par!

— Ímpar!

— Ganhei. Ficamos aqui.

— Ganhou o caralho! Eu pedi ímpar, deu um, nós ganhamos.

— Mané um! Deu dois, é par. NÓS ganhamos!

— Peraí. Cê tá contando o dedo do chão também?

— É claro que sim! É MEU dedo!

— TODA vez você faz isso! Joga um dedo no chão, e aí ele vale ou não vale, dependendo do que for conveniente para você.

— Calúnia! Além do mais, agora é diferente…

— Por que é diferente, porra?

— PORQUE ERA MEU ÚLTIMO DEDO! Você acha que eu ia desperdiçar meu ÚLTIMO DEDO numa disputa besta?

— Ué, que diferença faz ter um dedo ou dedo nenhum?

— FAZ TODA A DIFERENÇA DO MUNDO! Como é que eu vou fazer pra coçar o…

— CALABOCA!

— Isso aí…

— OS DOIS! QUIETOS! Eu sou o líder, e digo que vamos ao acampamento dos sírios.

— Ué, desde quando você é o líder?

— Eu tenho sete dedos!

— Hmmm. É.

— É. Não dá pra discutir isso.

— Pois é. Tudo bem, vamos.

Esforçando-se ao máximo para não fazer barulho, os quatro leprosos se aproximaram do acampamento sírio.

— Está ouvindo alguma coisa?

— Nada. E você?

— Nada. Mas eu perdi a outra orelha anteontem, então não estou escutando muito bem.

— Que merda…

— Hein?

— NADA!

— Shhhhhhhhh…

— Shhhhhhhhh…

— Está muito quieto aqui, não?

— HEIN?

— MUITO QUIETO!

— SHHHHHHHHHHH!

— Pára de me mandar calar a boca, caralho! Olha em volta, idiota. Não tem ninguém aqui.

— Ué. Cadê os sírios?

— SÍRIOS!

— CALABOCA!

— Calaboca já morreu! SÍIIIIIIIIIIIRIIIIIIIIIIIIOOOOOOOOOOOOOOS!

— …

— …

— Taí. Ninguém.

— Diacho… Que será que aconteceu?

— Acho que eles ouviram as sinetas e saíram correndo.

— Com medo da gente?

— Só pode ser… Ei, isso quer dizer que somos heróis!

— É verdade! Vamos até a cidade para dar a notícia.

— Sim, sim. Mas antes, vamos comer.

Os quatro comeram e beberam até se fartarem, depois recolheram todo o ouro e prata que encontraram. Depois de esconder seu tesouro, voltaram a Samaria.

— Guarda! GUARDA!

— Ô, diabo. Que horas são? Quem está aí?

— Temos notícias dos sírios!

— Que badalo é esse? Putz, leprosos. Diz aí, cês querem uma mão? Hehehehe.

— Atomanocu, viado! Enquanto você se caga de medo aí, nós fomos até o acampamento dos sírios e expulsamos os putos. O acampamento está vazio, saíram correndo.

— Vocês expulsaram os sírios?

— Sim!

— Como, porra? Jogaram dedos neles?

— APAPORRA! Nós só temos onze dedos, caralho! Ao todo!

— Sei, sei… Vou mandar averiguar.

O guarda contou a história a seu sargento, que foi até a casa do tenente, que acordou um capitão, que telefonou para o coronel, que correu para procurar o general, que prontamente foi ao palácio dar a notícia ao rei.

— Sumiram, é? E se for mentira dos leprosos?

— Cortamos a língua deles. Aliás, basta dar um peteleco na nuca, eu acho.

— Hmmm… Sabe o que eu acho? Eu acho que eles saíram do acampamento para armarem uma emboscada. Sabem que estamos com fome aqui, uma situação desesperada. Quando sairmos atrás da comida, eles nos pegam e bum, era uma vez Samaria, Israel, tudo.

— Majestade, com todo o respeito… Estamos aqui há semanas, a situação não muda. Se ficarmos aqui dentro, morremos do mesmo jeito. Não é melhor ir lá conferir? Se for verdade, estamos livres. Se for mentira, ainda podemos contar com a piedade dos sírios. Só não dá para esperar piedade da fome.

— É, você tem razão… Quantos cavalos ainda temos?

— Cinco.

— No palácio?

— Na cidade toda.

— Puta merda… Bom, mande buscar esses cinco cavalos para que levem cinco de seus homens mais valentes.

— Sim, senhor.

— Não! Melhor: mande os cinco mais frouxos.

— Er… Sim, senhor.

— Bah, tanto faz. Faça uni-duni-tê, mande cinco homens para lá. Eles dão uma olhada em volta, verificam tudo. Se voltarem, nós abrimos os portões. Se não, será uma pena para as famílias, mas elas nem vão ter muito tempo para lamentar.

Os cinco homens foram até o acampamento e o encontraram vazio, como os leprosos haviam dito. Foram mais adiante, até o rio Jordão, e por todo o trajeto encontraram armas e utensílios largados pelos inimigos durante a fuga desordenada. Então voltaram à cidade e contaram a novidade ao rei, que ordenou que os portões fossem abertos. Os habitantes avançaram sobre o acampamento, e encontraram mantimento mais do que suficiente para saciar a fome que já durava dias. O restante foi vendido na cidade a preços baixíssimos, como previra Eliseu.

Foi um dia de alegria, exceto por uma baixa: o puxa-saco do rei fora colocado como encarregado dos portões. Na corrida para o acampamento após a abertura, a multidão o pisoteou e ele morreu. Ou seja: viu o milagre acontecer, mas não usufruiu dele. Mais uma vez, como previra Eliseu.

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Depois de toda a confusão, os leprosos ainda discutiam com o guarda da muralha:

— E nós? O que nós ganhamos?

— Porra nenhuma! E joguem suas mãos para o céu!

— FELADAPUTA!

Guerra contra os sírios e a fome em Samaria

(II Reis 6)

Geazi acordou, caiu da cama, passou um pente pela cabeça. A lepra fora apenas um susto; estava novamente a serviço de Eliseu. Precisava aliviar a bexiga e foi saindo. Da porta, viu ao redor da casa uma tropa de soldados com cavalos e carros de guerra. Espreguiçou-se. Esfregou os olhos. Os soldados continuavam lá.

— Bom dia…

— Bom dia — respondeu um que parecia ser o chefe.

— O que fazem aqui em Dotã tão cedo?

— Cerco.

— Hum…

— Pois é.

— Dia bonito, não?

— Muito.

— Os senhores são de onde?

— Síria.

— Hum.

— É.

— Tão cercando quem?

— Eliseu.

— Ah.

— Conhece?

— Eu? Nah.

— Hum.

— Minutim.

Geazi acenou para os soldados, e calmamente voltou para dentro. Assim que se viu fora do alcance da vista dos sírios, disparou para o quarto de Eliseu.

— Patrão! Fodeu, patrão! Vamos fugir, o bicho tá pegando!

— Porra é essa, Geazi? Calma. O que acont… Geazi, cê tá mijado?

— Hein? Puta que pariu, bem que eu vi que tinha esquecido alguma coisa… Bom, foda-se. Patrão, os sírios tão lá fora querendo te pegar.

— Sírios, é?

— SIM! SÍRIOS! Você sacaneou os caras e agora são trocentos deles contra nós dois.

— Nós dois e a galera, né, Geazi?

— Que galera, patrão? Endoidou?

— Javé, mostra pra ele.

— Tá falando com q… PUTA QUE PARIU DE ROSCA! E-esses caras são…

— Anjos. Sim. Uma anjaiada brava, boa de briga. Vamos lá ver esses tais sírios.

                           

Deslocar tamanha tropa para pegar um só homem ia contra o senso estratégico e econômico do exército da Síria. Mas é que Eliseu andava muito abusado. Tinha passado por um período de marasmo, era verdade. Durante esse tempo, ajudara na construção de uma casa para o Clube dos Profetas de Israel às margens do Rio Jordão. A coisa mais empolgante a acontecer durante a construção foi a queda do machado de um dos operários no rio, machado este que Eliseu fez flutuar. De resto, só moleza.

Aconteceu, porém, que o rei da Síria, que andava até muito amigo de Israel, decidiu que era hora de tentar invadir o reino vizinho novamente. Armou acampamento em um lugar estratégico para pegar o exército israelita de surpresa. Só que Eliseu continuava com suas experiências de sair do corpo: viu onde os sírios se entocavam e avisou o rei de Israel, que mandou mensageiros à região alertando para a presença inimiga. O exército sírio mudou de acampamento e foi descoberto outra vez. Mudou mais uma vez, e mais uma vez viu frustrados seus planos. Repetida a situação diversas vezes, Ben-Hadade, rei da Síria, chegou à conclusão óbvia: havia um traidor entre seus oficiais. Na hora da acareação, um dos oficiais contou ao rei sobre Eliseu e seus poderes mágicos. Era o fim da picada. Era preciso eliminar o profeta.

                           

— Espera, patrão. Não seria melhor…

— Deixa de ser bunda mole, Geazi. Vamos lá. Bom dia, meus caros sírios. É uma honra tê-los em meu quintal.

— É você o tal Eliseu?

— Quem quer saber?

— Eu, o comandante da tropa.

— Olha só, que engraçado!

— O que é engraçado, rapaz?

— Uma tropa só de cegos!

— Cegos? Cê tá louco? Homens! Prep… GAAAAAAAAAAH! Estou cego!

— Estou cego!

— Não estou vendo nada! Socorro!

— Eu estou cego também! Não. Peraí. Ah, não. Putz. ESTOU SIM! ESTOU CEGO!

— ACALMEM-SE, CEGUETAS! Vocês vieram bater à porta errada. Se quiserem, posso guiá-los até onde Eliseu está.

A proposta não fazia muito sentido, mas os soldados não tinham escolha. Estavam cegos em uma terra desconhecida, e era melhor confiar naquele guia estranho do que não ter guia algum. Foram, pois, seguindo Eliseu.

— Chegamos — disse o profeta, e os sírios imediatamente voltaram a enxergar. Não estavam na casa do profeta, claro: estavam em pleno centro de Samaria, com o rei de Israel diante deles e o exército israelita ao redor.

— O que eu faço, Eliseu? — perguntou o rei — Mato os felasdaputa?

— Claro que não, majestade. O senhor por acaso mata seus prisioneiros de guerra? Dê comida e água a esses homens, que estão assustados e já aprenderam sua lição. Depois eles voltarão para casa e contarão o que lhes aconteceu.

O rei seguiu a recomendação de Eliseu, dando uma grande festa para os soldados sírios. No dia seguinte, de ressaca, eles voltaram para sua terra. Durante algum tempo, Síria e Israel viveriam em paz.

                           

A paz só durou alguns meses, na verdade. Um dia Ben-Hadade acordou de mau humor e decidiu que ia resolver de uma vez por todas a questão israelita. Então mandou todo o seu exército para cercar Samaria. Depois de algumas semanas de sítio, a comida começou a escassear na capital israelita. Nas feiras, uma cabeça de jumento era vendida por um valor correspondente a quase um quilo de prata.

Diante da situação, o rei de Israel ficava cada dia mais deprimido. Seu exército não era páreo para as forças sírias, e uma solução diplomática estava fora de questão. O rei passava os dias caminhando pelas muralhas da cidade, um pouco para pensar, um pouco na esperança de ser atingido por uma flecha e acabar logo com tanto sofrimento. Foi em uma dessas caminhadas que o rei se viu interpelado por duas mulheres.

— Majestade, me ajude!

— Deixe de bobagem, minha filha. Se Javé, que é deus e não sei que mais, não te ajuda, como é que eu vou ajudar?

— Por favor, majestade! Temos uma questão a ser decidida, e só o senhor pode ser o juiz.

A questão das mulheres despertou a curiosidade do rei. Era uma cena digna do lendário Salomão.

— Pois digam.

— Dia desses essa aí deu a idéia de comermos nossos filhos.

— Que horror!

— Pois é, veja só! Ela deu a idéia, então cozinhamos meu filho e comemos o pobrezinho. Aí no dia seguinte eu falei pra ela que era a vez do moleque dela, mas ela escondeu o bebê. Como é que se resolve essa situação, majestade?

O rei não sabia o que dizer. Primeiro pensou tratar-se de um trote. Seus olhos saltaram de uma mulher para a outra, mas ambas pareciam preocupadas apenas no aspecto jurídico da questão. Horrorizado, triste, com raiva, o rei rasgou suas roupas e caiu num choro convulsivo. Precisava culpar alguém por aquela situação insustentável, então se lembrou do episódio ocorrido meses antes.

— Que Javé me mate se hoje mesmo eu não cortar a cabeça do desgraçado!

O desgraçado, claro, era Eliseu, que naquele momento estava em casa reunido com alguns líderes do povo. Os visitantes estranharam quando o profeta interrompeu sua fala no meio de uma frase.

— Epa. O rei está mandando alguém aqui para me matar.

— C-como?

— Sim, estou vendo. Quando o mensageiro chegar, não abram a porta. O próprio rei virá depois dele.

O profeta ainda estava falando quando o mensageiro bateu à porta. Minutos depois, chegava o rei.

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