Eu sempre odiei aquela banheira sobre rodas impulsionada pelo hálito de Belzebu que é o Corcel II. Nunca tive nenhum motivo concreto para detestar isso que chamam de carro. Meu pai não teve uma carroça dessas, nem fui atropelado por uma delas quando criança. Meu contato mais próximo com a banheira foi uma vez em que eu, meu irmão, Risadinha e Zezinho pegamos carona num Corcel II. Eu estava resfriado, o banco do motorista estava rasgado e o Zezinho aproveitou para estofar o banco com toneladas de lenços de papel ranhentos. Nenhum motivo aí para odiar o carro, só para achá-lo ridículo — o que é inevitável.

Destino merecido

Destino merecido

Pois bem: voltando da casa de meus pais há duas semanas, fui entrar à esquerda numa rua de mão única. Um sujeito vinha subindo na contramão todo apagado e bateu na lateral do porta-malas do meu Corsinha sofrido. Eu gritei “ô!”, encostei na guia, liguei o pisca-alerta e só tive tempo de ver a rabeira do maldito Corcel II azul sumindo. Fui até a esquina, ele já tinha ido embora. Fiquei lá parado, abrindo os braços e falando “Ô. Feladaputa. Ô.” Voltei pro carro, vi o estrago (um amassadão, pára-choque meio caído, friso do pára-lama também) e fui dar uma volta pelas redondezas. Não sei pra quê. Se eu achasse o cara, ia fazer porra nenhuma. Então fui embora.

Com o estrago feito, o negócio era procurar o conserto mais barato. No primeiro lugar que eu levei o carro, fizeram um orçamento de 800 reais. 800 reais! Não é à toa que o cara bateu e fugiu: se ele tivesse 800 reais sobrando, comprava uma frota de Corcel II.

Corno.

Continuei pesquisando. Os caras olhavam a cagada, retorciam a boca, coçavam a cabeça, passavam a mão pela lataria e mandavam a cacetada: 750 reais aqui, 950 ali. 600 reais foi o preço mais baixo que eu achei. Já ia fechando com o sujeito quando meu pai me lembrou do Seu Mello.

Seu Mello arrumou as barbeiragens que eu fiz no Corsa quando estava tentando aprender a dirigir (depois de um tempo, desisti de tentar). Faz um serviço bom, mas é impossível conversar com ele. Fala aos soquinhos: duas sílabas inaudíveis, uma sílaba berrada. No fim das contas, você entende um terço do que ele fala e se vira pra deduzir o resto. Mas o serviço é bom, como eu disse, então me armei de paciência e fui até a oficina. Seu Mello olhou o estrago, ficou passando a mão pela lataria (deve ser fetiche de funileiro, sei lá) e falou:

— …car …peça …-choque …nhentos …ais.

— Quanto?

— …centos …ais.

— Trezentos e cinqüenta?

— …tenta.

— Trezentos e setenta em duas vezes?

— Tá bom.

Precinho camarada, do Seu Mello. Se alguém quiser, dou o endereço. E espero que o corno leproso dono do Corcel II azul-suvinil responsável por essa merda toda tenha seu cu incendiado no dia da greve dos bombeiros. Amém.