15 de maio de 1975 – 9h50min 9h45min(*).
Estou no meu aconchego de sempre, flutuando no líquido em que me sinto tão confortável. De repente, uma movimentação estranha. O líquido se agita e eu acordo. Pela primeira vez sinto mais que uma centelha de consciência de mim mesmo. Mas não tenho tempo de definir a sensação: Ouço vozes lá fora. O lugar onde estou é aberto e mãos gigantescas querem me arrancar lá de dentro. É inútil lutar, as mãos são muito grandes e fortes. Me tiram de meu habitat de forma desajeitada e cortam minha conexão com o lugar que foi minha casa por nove longos meses.
Aqui fora é tudo estranho. É muito seco, há luzes demais, vozes, barulhos. Desligado de minha fonte de nutrientes, sinto uma fome descomunal e reajo da única forma que sou capaz: Choro. Muito alto.


(*)Minha mãe acaba de me ligar. É óbvio que reconheço a voz da minha mãe de primeira, mas sempre sacaneio:
— Quem tá falando, porra?
— A que te pariu há 28 anos.
— Ah…
— Parabéns!
— Valeu, véia.
— Ô seu corno, você nasceu numa quinta-feira também, sabia?
— Sabia, mãe. Todo ano cê fala isso.
— Às 9h45min
— 9h50min, mãe.
— 9h45min.
— Na minha certidão de nascimento tá 9h50min.
— Porque enfiaram 5 minutos no cu. Vai querer discutir comigo?
— …
— HUMPF