Autocrítica
Pára de kibagem, Marcurélio…
Seja bem-vindo, fique à vontade, esparrame-se. Se não gostar de alguma coisa que ler por aqui, a Internet é grande: vá para outro canto e não me encha o saco.
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Enquanto não publicas o próximo episódio sagrado, fica a sátira bíblica feita pelo Eça de Queirós, que encontrei ao ler “A Relíquia”. – É de rir.
E seguindo a passo para o Jordão (enquanto o alegre Pote nos fazia cigarros do bom tabaco de Alepo), Topsius contou-me essa lamentável história. Maqueros, a mais altiva fortaleza da Ásia, erguia-se sobre pavorosos rochedos de basalto. As suas muralhas tinham cento e cinqüenta côvados de altura; as águias mal podiam chegar até onde subiam as suas torres. Por fora era toda negra e soturna; mas dentro resplandecia de marfins, de jaspes, de alabastros; e nos profundos tetos de cedro os largos broquéis de ouro suspensos faziam como as constelações de um céu de verão. No centro da montanha, num subterrâneo, viviam as duzentas éguas de Herodes, as mais belas da terra, brancas como o leite, com crinas negras como o ébano, alimentadas a bolos de mel, e tão ligeiras que podiam correr, sem lhes macular a pureza, por sobre um prado de açucenas. Depois, mais fundo ainda, num cárcere, jazia Iocanã – que a Igreja chama o Batista.
— Mas então, esclarecido amigo, como foi essa desgraça?
— Pois foi assim, D. Raposo… O meu Herodes conhecera em Roma, Herodíade, sua sobrinha, esposa de seu irmão Filipe, que vivia na Itália, indolente e esquecido da Judéia, gozando o luxo latino. Era esplendidamente, sombriamente bela, Herodíade!… Antipas Herodes arrebata-a numa galera para a Síria; repudia sua mulher, uma moabita nobre, filha do Rei Aretas, que governava o deserto e as caravanas; e fecha-se incestuosamente com Herodíade nessa cidadela de Maqueros. Cólera em toda a devota Judéia, contra este ultraje à lei do Senhor! E então Antipas Herodes, arteiro, manda buscar o Batista, que pregava em vão do Jordão…
— Mas para quê, Topsius?
— Pois para isto, D. Raposo… A ver se o rude profeta acariciado, amimado, amolecido pelo louvor e pelo bom vinho de Siquém, aprovava estes negros amores, e pela persuasão da sua voz, dominante em Judéia e Galiléia, os tomava aos olhos dos fiéis, brancos como a neve do Carmelo. Mas, desgraçadamente, D. Raposo, o Batista não tinha originalidade. Santo respeitável, sim; mas nenhuma originalidade… O Batista imitava em tudo servilmente o grande profeta Elias; vivia num buraco, como Elias; cobria-se de peles de feras, como Elias; nutria-se de gafanhotos, como Elias; repetia as imprecações clássicas de Elias; e como Elias clamara contra o incesto de Acabe, logo o Batista trovejou contra o incesto de Herodíade. Por imitação, D. Raposo!
— E emudeceram-no com a masmorra!
— Qual! Rugiu, pior, mais terrivelmente! E Herodíade escondia a cabeça no manto para não ouvir esse clamor de maldição, saído do fundo da montanha.
Eu balbuciei, com uma lágrima a amolentar-me a pálpebra:
— E Herodes mandou então degolar o nosso bom São João!
— Não! Antipas Herodes era um frouxo, um tíbio… Muito lúbrico, D. Raposo, infinitamente lúbrico, D. Raposo! Mas que indecisão!… Além disso, como todos os galileus, tinha uma secreta fraqueza, uma irremediável simpatia por profetas. E depois arreceava a vingança de Elias, o patrono, o amigo de Iocanã… Porque Elias não morreu, D. Raposo. Habita o céu vivo, em carne, ainda coberto de farrapos, implacável, vociferador e medonho…
— Safa! – murmurei, arrepiado.
— Pois aí está… Iocanã ia vivendo, ia rugindo. Mas sinuoso e sutil é o ódio da mulher, D. Raposo. Chega, no mês de Esquema, o dia dos anos de Herodes. Há um vasto festim em Maqueros, a que assistia Vitélio, então viajando na Síria. D. Raposo lembra-se do crasso Vitélio que depois foi senhor do mundo… Pois à hora em que pelo cerimonial das províncias tributárias, se bebia à saúde de César e de Roma, entra subitamente na sala, ao som dos tamborins e dançando à maneira de Babilônia, uma virgem maravilhosa. Era Salomé, a filha de Herodíade e de seu marido Filipe, que ela educara secretamente em Cesaréia, num bosque, junto do Templo de Hércules. Salomé dançou, nua e deslumbrante. Antipas Herodes, inflamado, estonteado de desejo, promete dar tudo o que ela pedisse pelo beijo dos seus lábios… Ela toma um prato de ouro, e tendo olhado a mãe, pede a cabeça do Batista. Antipas, aterrado, oferece-lhe a cidade de Tiberíade, tesouros, as cem aldeias de Genesaré… Ela sorriu, olhou a mãe; e outra vez, incerta e gaguejando, pediu a cabeça de Iocanã… Então todos os convivas, saduceus, escribas, homens ricos da Decápola, mesmo Vitélio, e os romanos, gritaram alegremente: “Tu prometeste, tetrarca, tu juraste, tetrarca!” Momentos depois, D. Raposo, um negro de Iduméia entrou, trazendo numa das mãos um alfanje, na outra, presa pelos cabelos, a cabeça do profeta. E assim acabou São João, por quem se canta e se queimam fogueiras numa doce noite de junho…
Escutando, embevecidos e a passo, estas cousas tão antigas, avistamos ao longe, na areia fulva, uma sebe de verdura triste e da cor do bronze. Pote gritou: “O Jordão! O Jordão!” E arrebatadamente galopamos para o rio da Escritura.