Ana Júlia, vocês já deviam saber, é minha sobrinha de 6 anos. Ontem eu fui à casa dela e estávamos conversando sobre os recentes acontecimentos. E ela:

— Tem uma coisa que Deus me contou. É meu último segredo.

— Quando Deus te contou?

— Quando eu tava dormindo.

— Ah, foi sonho.

— Não! Ele me conta as coisas quando eu tô dormindo.

— Tá bom. Qual é o seu último segredo?

— É assim: quando alguém tá no médico, no hospital, e a gente fala “vai viver”, a pessoa morre. Se a gente fala “vai morrer”, a pessoa vive.

— Ué. Mas por que é assim, ao contrário?

— Porque sim, ué. Todo mundo falou que o vovô ia viver, ele morreu. Todo mundo falou que o Vilazo ia viver, ele morreu.

— Mas quando a Ana Carlota foi internada, eu falei que ela ia viver e ela viveu mesmo.

— É que não funciona sempre. Às vezes a máquina quebra.

— Ah, tem máquina disso também? Achei que era só a máquina de fazer cabelo. Aliás, meu cabelo continua a mesma coisa.

— É que a máquina não tá funcionando ainda.

— Como é a máquina de fazer cabelo de Deus?

— Quando você morrer… — aqui ela corrigiu às pressas — quando qualquer pessoa morrer, aí vai ver. Só que eu já vi no meu sonho. Ela é preta, azul, verde, vermelha, amarela e branca. Aí a pessoa põe uma touca de homem que tem um cano que liga na máquina. Aí vai fazendo o cabelo.

— Ah… E só tem essas máquinas no céu?

— Nãaao… Tem máquina de fazer bicho, de esquentar o sol, de tudo.

Deve ser legal, o céu.