Sentada à mesa de jantar, Alice olha de esguelha para Joel, e tamborila os dedos impacientes sobre o tampo de vidro. Jogado em sua poltrona, o namorado assiste ao futebol. Está como que abobalhado pela luz que vem da TV. De quando em quando estende o braço vagarosamente e apanha um punhado de batatas fritas da tigela sobre a mesinha. Mastiga com lentidão irritante, e farelos caem-lhe sobre a barriga. Depois leva a lata de cerveja à boca, sorve um gole comprido. As bochechas se inflam e ele arrota com visível satisfação.
Alice já sabe o que vem a seguir: lá pela metade do primeiro tempo, ele levará a lata aos lábios e fará uma cara de surpresa patética ao constatar que está vazia. Não vai pegar outra, é claro: não pode perder um lance sequer da partida. Ainda tentará beber duas ou três vezes, e em todas demonstrará a mesma surpresa. No intervalo (depois da exibição dos melhores momentos, nunca antes), ele vai se levantar para pegar mais cerveja. De passagem, fará algum comentário sobre o jogo, comentário dirigido menos a ela do que a si mesmo.
Ela acha exasperante essa previsibilidade, essa constante sensação de déja-vu. Tenta se lembrar das razões que a levaram a chamar Joel para morar com ela, seis meses atrás. Não encontra nenhuma razão convincente. Conheciam-se fazia pouco tempo, mas ela resolvera arriscar. Joel lhe transmitia então vagas sensações de bem estar: era tranqüilo, não gostava de discussões, não era ciumento. Como poderia ela adivinhar que essas características seriam o germe do monumento à apatia que agora assite ao jogo e constata (pela segunda vez) que tem nas mãos uma lata de cerveja vazia?
Quer livrar-se disso, dar um basta a esse relacionamento sem sentido, retomar sua vida. Quer sair, ver os amigos, e não passar os fins-de-semana assistindo ao namorado assistir a intermináveis partidas de futebol. É claro que poderia sair sozinha; Joel provavelmente nem notaria. Poderia, sim, mas não quer: os amigos todos estão casados ou namoram, e teria graça ser a única sozinha do grupo, explicando a todo momento que o namorado não pôde vir porque tinha jogo na TV, sabe como é. Não: quer livrar-se de Joel, apagá-lo de sua vida como quem expulsa da cabeça uma música ruim. Mas sabe bem que não pode fazê-lo.

Isso é um negócio que eu escrevi no ônibus indo para o Rio de Janeiro no final do ano passado. Continua? Não sei. Espero que sim.