A sanguessuga tem duas filhas, e as duas se chamam: Me dá! Me dá!
(Provérbios 30:15a)

Ah, que coisa repugnante é a esperança! Fala-se dela com grande entusiasmo por aí, e até o apóstolo Paulo, sempre tão ponderado, escorregou ao incluí-la entre as virtudes teologais, colocando-a ao lado da fé e do amor, tão nobres e necessários. Porque o que é a esperança senão uma sanguessuga de elasticidade ímpar, que começa pequenininha aqui dentro e acaba ocupando todo o espaço disponível? Para crescer, ela suga a fé, o amor e todo o resto, para que só ela permaneça. E nós, achando talvez que nos beneficiamos disso, servimos a ela fatias de mente, porções de coração (grelhadinho na manteiga, nham!), nacos de alma.
Então, quando já se alimentou de tudo o que havia, ela vai embora. Pffff, acabou. “A esperança é a última que morre”, dizem aqueles que gostam de adágios. E é verdade, porque quando (e se) ela morre é porque já matou todo o resto (“Por que o que a gente procura está sempre no último lugar em que a gente olha?”, “Porque depois de achar você não continua procurando”).
Esse parasita vai embora, gordo como um porco, e nos deixa ocos, desmoronados, implodidos. Sobrevivemos, porém. E prometemos que jamais incorreremos no mesmo erro, que nunca mais alimentaremos outra sanguessuga. Até o dia em que ela volta, pequenininha de novo, desamparada, olhar de cão. E lá vamos nós, as bestas, alimentá-la novamente.