Não há geração espontânea. Qualquer um sabe disso, ou ao menos se espera que assim seja. Todo ser vivo surge a partir de outro, desde a simplicidade dos unicelulares se dividindo, até a complexidade da reprodução sexuada de plantas e animais, que culmina com a complicação danada que os seres humanos fizeram do assunto, com namoro, noivado, casamento, métodos contraceptivos, cesariana, detetives especializados em traição conjugal, divórcio, guarda dos filhos etc. etc. etc. A impossibilidade do surgimento da vida a partir de nada é o mais querido argumento daqueles que querem trazer Deus para a equação. Não vou entrar nessa questão, porém. O negócio é: hoje em dia ninguém mais acredita em geração espontânea, embora algumas adolescentes grávidas torçam para que seus pais acreditem.
O que é fato inquestionável para a biologia, ainda suscita discussões em outros campos, porém. Eu mesmo acreditei durante toda a vida em duas formas de geração espontânea: amor à primeira vista e inspiração; o primeiro no mundo dos sentimentos, a segunda no das idéias. Hoje, pensando na proximidade assustadora da marca de 30 anos de vida, percebi que estou deixando tais conceitos de lado, de forma quase imperceptível.
Isso é bom, muito bom. Essa coisa ficar esperando que uma garota ideal surja de repente para que eu me apaixone, ou que uma idéia me caia na cabeça para começar a escrever, vou lhes contar, não leva a nada. Assim como a idéia surgida de repente, vinda sabe-se lá de onde, é sempre um grande amontoado de clichês, pessoas que subitamente se tornam apaixonantes nada mais são do que uma mistura de frustrações do passado com o que ainda sobrou de idealizações depois de tanto levar na cara. Um texto surgido da pura inspiração ou um relacionamento nascido de uma paixão fulminante sempre levarão os envolvidos à vergonha pública.
Às vésperas dos trinta anos (ARGH!), percebo que acredito cada vez mais no texto que surge do trabalho e no amor que surge da convivência. Arroubos de adolescente não ficam bem em alguém da minha idade.