(I Reis 12)

Salomão, como todos sabemos, não era besta nem nada. Escaldado pelo perrengue que fora a sucessão de Davi, com tanto sangue derramado, o sábio rei definiu seu sucessor com antecedência: seu filho Roboão. Os dois despachavam diariamente no Kibutz do Torto, em Jerusalém. Com a morte de Salomão, não restava dúvida que o rei seria Roboão, e a sucessão, pela primeira vez na curta história da monarquia israelita, tinha tudo para ser tranqüila. O clima de paz e tranqüilidade era tamanho em Israel que até Jeroboão criou coragem para voltar de seu exílio no Egito. Não era o mesmo Jeroboão, porém: transformara-se quase numa lenda nas tribos do norte, e foi natural que o povo o visse como um líder.
Aconteceu, então, que Roboão foi a Siquém para ser coroado. Uma belíssima festa com música, fogos de artifício, shows populares. Tudo estaria perfeito não fosse um detalhe: as relações entre o sul e o norte, que nunca foram das melhores, acabaram de degringolar-se durante o reinado de Salomão. O velho rei dava muita atenção a Judá e pouco fazia por Israel. Tendo isso em mente, um grupo de representantes do norte foi falar com o novo rei, tendo Jeroboão como líder:
— Majestade, a gente trabalha de sol a sol que é para Israel ser o país bom danado que sempre foi. Só que nossa vida ficou arretada de difícil com o velho Salomão. Era imposto demais e retorno de menos, não há cabra que agüente. O senhor bem podia lembrar da gente, e aliviar essa carga.
— Aí, mermão. Vou pensar. Cês voltem daqui a três dias e eu dou uma resposta, valeu?
— Pronto.
A coroação transcorreu sem maiores problemas, e os israelitas voltaram para casa na expectativa da resposta de Roboão. Quanto ao rei, tratou de reunir-se com os conselheiros de seu finado pai. A resposta dos velhos foi sóbria: se o rei atendesse ao pedido do povo do norte, o reino permaneceria unido. Roboão, porém, não se contentou com esse conselho. Era jovem, voluntarioso. Andava acompanhado de um pitbull malvado de olhos vermelhos chamado Javé, gostava de arranjar briga e andava com um grupo de baderneiros. E foi justamente a seus amigos que foi pedir conselho sobre o assunto.
— Aí, os paraíba tão querendo sossego, é? Num fode, Roboão! Fala pra eles que a partir de agora é que o bicho vai pegar. Era ruim com seu véio? Pois eles vão ver agora. Não pode dar moleza pra liso não!
Dois conselhos opostos, e é claro que Roboão resolveu seguir o segundo. Três dias depois, quando Jeroboão e os outros israelitas voltaram, foram surpreendidos pela cara de poucos amigos do rei e de Javé (o cão, não aquele que já conhecemos).
— Podem voltar pra casa, seus paraíba liso do caraio. Querem vir estrondá pro meu lado? Tão tirando onda? Num fode! Meu dedinho é mais grosso que a pica do meu pai, tão sabendo?
— Hã?
— Seus paraíba burro! Tô falando que, se meu pai dava chicotada em vocês, eu vou dar logo é pipoco nos cornos, pra vocês deixarem de ser babacas, valeu? Fui!
Ao ouvir aquilo, Jeroboão ficou transtornado. Chegou a meter a mão na cintura para puxar a peixeira, mas foi detido por seus companheiros.
— TU TÁ PENSANDO QUE É MUITA BOSTA, SEU CABRA? OLHA QUE EU TE CAPO, PORRA! BORA, BORA TODO MUNDO PRA ISRAEL. A GENTE NÃO PRECISA DE JUDÁ É PRA NADA!
Os israelitas foram embora, e Roboão percebeu que aquilo seria o início de uma revolta. Em vez de tentar negociar, resolveu provocar ainda mais os israelitas: chamou Adorão, responsável pelos tributos, e juntos foram a Israel. Ao ver quem chegava a suas terras, um grupo de israelitas começou a atirar pedras no cobrador de impostos. Já caído no chão, Adorão pediu socorro, mas o rei já havia pulado para dentro de seu carro.
— Vô ralá peito daqui, doido. Foi mal aê!
O rei voltou a Jerusalém desmoralizado, e Israel instituiu Jeroboão como rei. De um momento para outro, Roboão reinava apenas sobre Judá e Benjamim, deixando as dez tribos do norte sob a tutela do antigo pedreiro. Roboão ainda tentou armar alguma resistência, juntando soldados das duas tribos para atacar seus irmãos do norte. Foi impedido, porém, pelo profeta Semaías.
— Desista, majestade. Javé falou comigo hoje…
— Tá falando com cachorro, leke?
— Nosso DEUS Javé…
— Ah. Esse.
— É. Então, ele disse que o negócio todo da divisão do reino é coisa lá dele, e que não é pro senhor se meter.
— Porra, maluco.
— Melhor não discutir.
— Mas que merda…

Enquanto isso, livre da ascendência política de Judá, Jeroboão preocupava-se com outro tipo de influência, mais perigosa: a religião dos dois reinos ainda era uma só, e havia um só lugar para adoração, que era o templo de Jerusalém. O rei matutou, matutou, e decidiu pelo caminho mais fácil: mandou fazer dois bezerros de ouro e botou um em Betel e outro em Dã.
— Companheiros de Israel! Esses são os deuses que tiraram vocês do Egito.
— Eita preula, majestade. Duas reses?
— CALABOCA! Ir pra Jerusalém dá um trabalho amuado. Os nossos deuses são esses, e lambam.
O povo aceitou os novos deuses sem grande resistência. Afinal de contas, Jerusalém era mesmo muito longe. Além de alçar os bezerros à divindade, Jeroboão instituiu sacerdotes e sacerdotisas, e datas de festas sagradas mais ou menos coincidentes com aquelas da religião tradicional.
Estava formado o furdunço.