(II Reis 17:1-23)

Território da 25ª Dinastia do Egito, a Dinastia Etíope, ou Império Cuxe

Oséias, rei de Israel, entra no palácio real egípcio. Foi uma longa viagem. Ele talvez pensaria no caminho contrário feito por seus antepassados guiados por Moisés, mas tirando alguns sacerdotes e profetas meio amalucados, ninguém mais fala dessas lendas antigas nas Dez Tribos do Norte. Bom, Dez Tribos é forma de dizer: graças à incompetência do rei anterior, Peca, a Assíria já havia anexado boa parte do território. Israel era agora pouco mais do que a capital, Samaria, e as terras em volta. Oséias liderou uma revolta contra o rei enfraquecido, foi vitorioso e assumiu o trono. Corre o boato por Israel e pelas terras vizinhas de que ele teria sido colocado ali pelo próprio Tiglate Pileser, soberano assírio. Ele não confirma nem nega. Só quer livrar o próprio rabo. Então está ali, batendo as sandálias num degrau para tirar o grosso da poeira, sem pensar em Moisés, em Mar Vermelho, apenas na sede que tem e na missão que o traz aqui. Ele vê um homem passando. Negro retinto, alto, a cabeça raspada.

— Ô, rapaz!

O homem o ignora.

— Xiu! Negão! Ô, negão!

Nada. Oséias se lembra de uma velha piada egípcia.

— Ôôô… MÚMIA DE FITA ISOLANTE!

O homem se vira lentamente e dá de cara com aquele homem sujo de poeira, descabelado, os lábios rachados. Um mendigo? Um louco?

— Como disse?

— O escutador de samba tá quebrado?

— Hein?!

— TÁ SURDO, NEGÃO? Vim aqui falar com o rei… como é mesmo o nome dele?

— Sô.

— É o quê?

— O nome do rei, Sô.

— “O nome do rei, sô…” Cê é mineiro?

— O rei se chama Sô.

— Sô? Só Sô?

— Eu sou só Sô.

— Agora cê já tá falando língua de africano. Não sou da sua tribo não, filho. Cadê o rei… Sô? É de quê esse “Sô”? “Solange”?

— Pergunte a ele.

— Eu perguntaria se conseguisse saber onde encontro o corno.

— “O corno” sou eu.

Pela primeira vez Oséias nota de verdade o homem. As roupas dele são reluzentes. Muito ouro, pedras preciosas. É a primeira vez também que Oséias se dá conta da própria aparência. Talvez o negro tivesse o direito de tratá-lo mal, mas não o contrário. É evidente que é o rei que está na frente dele. Oséias cai de joelhos.

— VOSSA CRIOULÊNCIA! Perdoe este seu servo. Não sabia que o rei era afro-egípcio.

Oséias não sabia (nem eu, até ontem) que a 25ª dinastia egípcia foi formada por reis etíopes. Algumas traduções da Bíblia falam em Etiópia, outras de Cuxe (que era o nome de um dos filhos de Cam, filho de Noé, que seria o antepassado de todos os negros), outras ainda de Núbia. Não se trata da Etiópia atual, mas um pedaço de terra que corresponde mais ou menos ao atual Sudão. A terra de Cuxe tinha sido parte do império egípcio, mas conquistou a independência em 1.100 a.C. e foi se tornando um reino cada vez mais poderoso. A capital era a cidade de Napata, perto de onde fica hoje a cidade sudanesa de Karima. Em 732 a.C, enquanto os assírios estavam ocupados com a Síria e Israel, os etíopes conquistaram partes do Delta do Nilo. 1

Mas voltando à cena, está lá Oséias de cara no chão, tentando consertar e pensando “puta que pariu, eu que caguei na entrada”. Sô não tem tempo para salamaleques:

— Levanta daí, maluco. Quem é você? O que você quer?

— Sou Oséias, rei de Israel.

— Rei? Você é o rei de Israel? Eu sabia que Israel ia mal das pernas, mas nem tanto. Se o rei tá nesse estado, imagino o povo…

— Foi uma longa viagem, Vossa Negritude. Mas não vem ao caso. Estou aqui para pedir sua ajuda contra os Assírios.

— Ah, eles estão cercando Samaria, né? Tô ligado, mano. Cês são sangue ruim mesmo. O maior império do mundo cercando ali, e vocês firme. Foda.

— Pois é, mas não sei quanto tempo isso ainda dura. O poder deles é infinito, e nós somos só um pequeno reino.

— Peraí. Seu nome é Oséias, não é? Não era você que quebrava os dentes se o Tiglate Pileser levasse um chute no saco? Cê não era boneco do Pul? Que houve?

— Porra, esses boatos… O negócio foi o seguinte…

*   *   *

Oséias, o último rei de Israel

O rei anterior, Peca, tinha sido um desastre. Sob seu comando, Israel perdera boa parte de seu território. Então Oséias comandou uma revolta, matou o rei e tomou seu lugar. Isso foi em 732 a.C., quando Acaz já era rei de Judá havia doze anos. Oséias subiu ao trono e tratou logo de ficar pianinho com o Império Assírio. Pagava impostos, mandava presentes, enviava mensagens de bom dia no WhatsApp. Era tanta bajulação que logo o povo desconfiou que ali havia coisa. E com razão: documentos assírios da época dizem que Oséias tinha sido escolhido por Pul. Então tudo ia bem, daquele jeito.

Só que Pul morreu em 726 a.C. e Oséias achou que era uma boa oportunidade para revoltar-se. O cara quando é chegado numa conspiração, ninguém segura. E não foi só ele: muitas nações sob domínio assírio aproveitaram a transição para tentar a sorte — inclusive a Babilônia, cada vez mais poderosa. Só que o filho de Pul (chamado pelos revoltosos de filho da pulta), Salmaneser, não estava para brincadeira. Foi com seu exército até Samaria, cercou a cidade. Quando encontrou com Oséias, ele se fez de besta.

— Eeeeeu? Revooooolta? Magina, meu rei! Tô aqui de boínhas. Quê? O imposto não chegou? É esse Bradesco que é uma merda, majestade. O senhor tem conta em outro banco? Aceita Paypal? A gente dá um jeito nisso. Posso te fazer um cheque? Só não quero que a gente fique mal. Somos parceiros há tanto tempo! Seu pai foi um grande amigo, eu amo a Assíria, passo férias lá… Como prova de minha lealdade, lhe entrego esse presente.

— Hum. Que é isso?

— É uma garrafa com areia colorida formando uma paisagem. Linda, né? Obra de arte de muito valor…

— Isso aqui é uma quinquilharia.

— Bom, com o que a gente paga de imposto não sobra muito pra comprar presente…

— COMO É?

— É simples, mas é de coração. Aceite, por favor.

— Olha aqui, Ozônio…

— Oséias.

— OLHA AQUI, OZÔNIO…

— Eu mesmo, seu criado…

— Tem muito povo importante se revoltando império afora. Perto da Babilônia, Israel é um apêndice supurado, um siso cariado. Eu vou deixar passar, porque tenho coisas mais importantes e urgentes para resolver. Mas fique avisado: se eu desconfiar que você está tramando alguma coisa pelas minhas costas, eu vou EXTRAIR Israel do mapa. Entendido?

— Tramando? Pelas suas costas? Majestade! Sou seu servo fiel, estou aqui para apoiá-lo no que precisar. Pode contar comigo.

Salmaneser não ficou para suportar a lambeção de Oséias. Tinha mesmo problemas mais urgentes para resolver. E, assim que ele virou as costas, Oséias se empirulitou para o Egito. Ia pedir a ajuda de Sô.

*   *   *

— Bom, então você mentiu para o rei da Assíria.

— Digamos que omiti algumas informações estratégicas…

— Mentiu. E fez muito bem. Pode contar com minha ajuda, Oséias. Mas apenas financeira. Eu não vou me meter em conflito direto com esse Salmaneser aí, não. Não sei ainda qual é a dele, e aqui no Egito tá tudo tranqüilo. Não vou arrumar sarna pra me coçar. Tá bom pra você?

— Tá ótimo, meu rei de ébano… De quanto estamos falando mesmo?

*   *   *

O rei Sô fazendo a egípcia

De volta a Samaria com o bolso cheio de dinheiro, Oséias está confiante. Não vai mais pagar imposto nenhum à Assíria. Salmaneser que se lasque. O negócio agora é equipar o exército, reforçar as muralhas e…

 

— Rei Oséias?

— Quem é?

— Exército do Império Assírio. O senhor está preso por traição.

— Traição? Eeeeeu? Eu jamais trairia meu grande soberan…

— Calaboca.

— Pois não.

A notícia sobre a visita de Oséias ao Egito tinha corrido rápido, e Salmaneser logo tomou providências. Oséias foi levado para a prisão e Samaria foi cercada. Se Oséias tinha esperança numa intervenção do rei do Egito, podia esperar sentado. Vários outros povos tinham pedido ajuda ao Egito naquela época. Interessava ao Egito conter os avanços do Império Assírio, mas só nos bastidores, com agitação e financiamento. Quando o bicho pegava mesmo, não vinha do Nilo ajuda nenhuma. Ou seja: o faraó fazia a egípicia.

A intenção era resolver logo o problema, mas uma combinação de teimosia com dinheiro egípcio fez o cerco durar três anos. O que foi um problema para Salmaneser: desgastado por levar tanto tempo para subjugar um reino minúsculo e enfraquecido, ele foi assassinado. O usurpardor, Sargão II, mandou parar de frescura, cerco, guerra psicológica e não sei mais o quê: a ordem era invadir na força bruta, matar quem resistisse e deportar quem sobrasse.

Uma vez decidida, a ação foi rápida. Vinte e sete mil israelitas foram deportados para partes distintas do Império Assírio. Ficou em Samaria apenas a ralé, sem ânimo nem condições de resistir ao domínio estrangeiro.

*   *   *

As 12 tribos de Israel em 1.200 a.C. Judá e Simeão formam o Reino do Sul, Judá. As outras dez eram o Reino de Israel. Na época da conquista Assíria, Israel já era bem menor.

E assim, pouco mais de duzentos anos depois da revolta de Jeroboão que dividiu o reino em dois, chegava ao fim o reino de Israel. De lá para cá, muitas lendas surgiram sobre o destino das Dez Tribos perdidas de Israel. Em 2005, Israel reconheceu um pequeno grupo do nordeste da Índia, chamado Bnei Menashe, que se identificava com a tribo de Manassés.  Os 7200 integrantes da Bnei Menashe receberam vistos de entrada em Israel.

Existem lendas entre os pshtuns, grupo étnico do Afeganistão, de que eles seriam os remanescentes da tribo de Efraim. Cientistas começaram um estudo genético em 2010 para estabelecer esse vínculo. Não houve resultados conclusivos.

A comunidade tradicional judaica de  Bene Israel (“filhos de Israel”), na Índia, também alega ser descendente de uma das dez tribos. Nunca foi reconhecida por Israel.

A comunidade Beta Israel (“casa de Israel”), da Etiópia, acredita ser descendente da tribo de Dan Stulbach. Em 1977, o governo israelense decidiu que a Lei do Retorno se aplicava aos judeus de Beta Israel.

Os Judeus Igbo, da Nigéria, dizem ser descendentes de várias tribos: Efraim, Naftáli, Manassés, Levi (a tribo dos sacerdotes!), Zebulom e Gade. Até aí, eu também posso dizer que sou neto do Chuck Berry. Só que eu não posso provar. Eles também não, então não receberam nenhum reconhecimento.

Integrantes da tribo Bnei Menashe, da Índia, reconhecida por Israel como remanescente da tribo perdida de Manassés

Além desses grupos, há teorias malucas: as Dez Tribos perdidas de Israel teriam originado os índios americanos, os ingleses e até os japoneses. O mais provável, porém, é que eles tenham sido assimilados. Como diz Isaac Asimov, o incrível não é que as Dez Tribos tenham desaparecido, mas sim que as duas tribos que formavam o reino de Judá, tão pequeninas, tenham resistido à assimilação e chegado até os dias de hoje.

*   *   *

Toda essa história está nos primeiros seis versículos do capítulo 17 do segundo livro dos Reis. Os versículos de 7 a 23 são uma recapitulação: contam que Israel adorou outros deuses, desobedeceu a lei de Javé, e por isso foi destruído. Acredita-se que os livros de Josué, Juízes, I Samuel, II Samuel, I Reis e II Reis tenham sido escritos na volta do exílio de Judá, 47 anos  depois da conquista babilônia em 586 a.C. Trechos como esse, então, serviam de alerta: ou vocês seguem a religião direitinho, ou o bicho vai pegar de um jeito pior da próxima vez, como aconteceu com o reino de Israel.

— Reino de Israel? Que é isso?

— Exatamente — diz Javé, que ficou o capítulo inteiro sumido.

 

(II Reis 16)

— Doe ouro! Ouro para salvar o reino! Judá precisa de você! Doe ouro! Doe prata! Ouro e prata para salvar o reino!

Uma kombi velha percorre as ladeiras de Jerusalém. O povo sai das casas com anéis, brincos, pulseiras, e joga pela porta lateral aberta da perua. No vidro traseiro, um adesivo “Dirigido por mim, Guiado por Javé” em que “Javé” foi riscado e trocado por “Moloque”. A religião oficial de Judá, a religião do Deus que se revelou a Abraão e depois inventou a religião junto com Moisés, a religião de um Deus só e várias regras de higiene já não é mais tão popular. Graças ao rei Acaz.

Acaz está no palácio, andando em círculos ao redor de uma pilha de ouro e prata: vasos, pratos, castiçais, objetos de decoração e de culto tirados do palácio e do Templo.

— Tem que dar certo. Ele tem que aceitar. Se ele não aceitar, aí… Mas ele vai aceitar.

*   *   *

— Filho da PUTA!

Olhando na tela quebrada do tablet a imagem em tempo real de Acaz no palácio, Javé não se agüenta. Ele joga o tablet, uma tranqueira que roda Android 2.3, contra a parede do Universo. O aparelho se desfaz numa explosão nuclear. Um anjo traz outro.

— Não quero mais ver essa merda!

Deus bate no tablet, que cai no chão e trinca a tela. O anjo suspira. Lembra do tempo em que usavam iPads de última geração. Mas não valia a pena. Deus quebra um tablet por dia, e estava saindo caro. Além do mais, não pegava bem gente do céu usando tecnologia importada do inferno. Então o departamento de compras passou a apelar para o segundo pior fornecedor: a China.

— Esse MERDA tá tirando onda com a minha cara! Porra! Minha vida é só desgosto, não é possível. Eu escolhi esse povo, tirei da escravidão, entreguei uma terra boa para eles, mandei matar todo mundo que morava lá, que era para não irem atrás de outros deuses. E o que aconteceu? Hein? ME FALA!

— Israel… Israel voltou às religiões antigas.

— Isso! Moloque! Baal! A série B das divindades, um bando de entidade de segunda. E eu aqui, o verdadeiro Deus, criador da porra do Universo, deixado de lado! Mas Judá, não. Judá sempre foi legal. O reino se dividiu e Israel foi só ladeira a baixo, por isso que a batata deles tá quase queimando de tão assada. Mas Judá era uma belezinha. Davi, depois o Salomão, filho do Davi. Aí veio o tal do Jeroboão lá, o reino se dividiu, mas em Judá continuou a dinastia. Veio o Roboão, filho do Salomão, depois o… o… aquele filho lá do Roboão.

— Abias

— Foda-se, quem se importa? O negócio é que em Israel sempre foi aquela zona. Revolução, golpe, contragolpe, #NãoVaiTerGolpe, bate panela, “cadê as panela?”, outro golpista, uma putaria. Em Judá é sempre um descendente de Davi, bonitinho, organizadinho. Claro que de vez em quando aparece um ou outro rei feladaputa, mas eu logo dava um jeito. Agora me vem esse Acaz e… Filho da PUTA, eu não acredito que ele vai sair dessa! Resistir a uma invasão de Israel, vá lá. Israel é grande mas não é dois. Mas da Síria? A Síria é FODA. A Síria tem o pão sírio… Hmmm, vontadinha. Tem aí?

— Está em falta, Senhor.

— Puta que pariu, porque é que no céu nunca tem pão, hein? Bom, eu tava falando da Síria. Tem o pão sírio. Tem… tem o hospital Sírio-Libanês… tem aquela frutinha lá, o Damasco. Ô, anjo… Curte damasco seco?

— Eu… eu gosto, Senhor.

— Então cê aprecia dá-mais-cu seco, é? Hein? HAhaahahaha! Entendeu essa? Dá-mais-cu seco! Hahahhhahaha!

— …

— Próxima geração de anjo eu vou lembrar de fazer com senso de humor… Tem o damasco, tem o Sírio-Libanês, tem o… tem o Círio de Nazaré.

— Senhor, na verdade o Círio de Naz…

— NÃO ME CORRIJA! Tá pensando que tá no Twitter, desgraça???

— …

— Eu não acredito que o corno do Acaz vai sair dessa. Mas que grande, que imenso e incomensurável filho de uma grande e gorda prostituta tuberculosa perneta.

*   *   *

Moloque, em representação do século 18

Dá para entender a fúria de Javé. Primeiro porque tablet chingling rodando Android 2.3, provavelmente com aquela resolução 800×600, é uma puta sacanagem. E depois porque Acaz, rei de Judá, parecia fazer de tudo mesmo para provocar a ira divina. Ele chegou ao trono aos 20 anos de idade, com a morte do pai, Jotão, mais ou menos em 732 antes de Cristo. Acaz reinou por 16 anos. Papai Jotão (não confundir com Jotalhão) era um rei fiel à religião dos antepassados. Acaz, não: tratou logo de oficializar os cultos de fertilidade, clandestinos havia séculos. Ele oferecia sacrifícios e queimava incenso nos “lugares altos”, que eram locais ao ar livre para adoração de vários deuses (em alguns deles tinha espaço até para uma altarzinho dedicado a Javé — e a única coisa que poderia irritar o Deus dos judeus mais do que adorar outros deuses era considerá-Lo como um deles). A Bíblia diz também que ele sacrificava “embaixo de toda árvore frondosa”: alguns comentaristas dizem que isso era um eufemismo para orgias dedicadas aos deuses da fertilidade. Além da idolatria e da putaria, Acaz também chegou ao extremo de sacrificar o próprio filho, um costume muito querido entre os adoradores do deus Moloque.

Como castigo por sua ousadia, digamos assim, Deus mandou Rezim, rei da Síria (que na época se chamava Aram, onde se falava o aramaico, idioma que viria a ser falado na Palestina dos tempos de Cristo), e Remalias, rei de Israel, cercarem Jerusalém. A vitória era certa, mas Jerusalém resistiu. E no meio do cerco, Acaz teve uma idéia.

Anos antes, quando o rei da Assíria Tiglate-Pileser III (Pul para os íntimos) invadiu Israel, o então rei israelita Menaém deu a ele 34 toneladas de prata para aliviar pro lado dele e ir embora. Lembrando disso, Acaz resolveu raspar o tacho: recolheu todo o ouro e prata do Templo e do palácio, e mandou uma kombi reino afora para recolher até a última lasca de metal precioso.

— Tem que dar certo. — Acaz murmura pela milésima vez — Ele tem que aceit…

Entra um servo para dizer que a kombi está lotada. Acaz manda trazer tudo e juntar à pilha no centro do salão, e os servos o fazem. O rei se posta de costas para o tesouro e faz uma selfie.

— E agora, majestade?

— Agora é pegar a flanela e lustrar bem as bolas do Pul. Vou mandar a foto pelo Zap. Que que eu escrevo, você que é bom de bajular os outros?

— Obrigado, senhor. Eu começaria com “Digníssimo e muito piedoso Tiglete-Pileser III, soberano dos Assírios, Luz da Manhã, fogo sagrado que arde em nossos corações, Ó PUL, TU QUE ÉS TÃO PODEROSO E SUBLIME, QUE COM TUA SERENIDADE E JUSTIÇA LANÇA SOBRE OS POVOS A VERDADEIRA L…”

— CALMA. Calma. Eu não quero estourar o saco do cara. É mais uma alisada, sabe? Uma massaginha, um beijinho, aquela cosquinha no cu… Hummm… Já sei. “Miga, sua loka. Tô pas-sa-da com a Síria e Israel. Acredita que tão querendo me invadir, os arrombado? Cê sabe que cê é tipo um pai pra mim, né, miga? Te amo tanto… Tô aqui pra te servir, mas vai ser difícil se estourarem minha cara, né? Então conto aí com a nossa amizade. E como prova dessa amizade, tô te mandando uma lembrancinha. Tá aí na foto. Não sou eu, hein?” Cadê aquela carinha chorando de rir? Aqui. “Não sou eu. É essa pilha de ouro e prata aí. É todo o ouro e toda a prata do reino. Coisa pouca. Mais ouro do que isso, só se o Michael Phelps casasse com um bicheiro em comunhão total de bens. Muito mais do que aquelas 34 toneladas do outro lá, viu? Aguardo sua resposta.” Enviar, pronto. Seja o que os deuses quiserem.

— O que Deus quiser, majestade.

— Que seja. Escolhe um aí e reza. E já leva o presente lá pro Pul.

— Majestade… O reino vai ficar pobre.

— A alternativa é não ter mais reino. O que você prefere?

— …

— Arrombildo. Vai.

Mapa do Levante em 830 a.C. mostra Israel, Judá, o reino Arameu (Síria) e um pedacinho do Império Assírio lá em cima

*   *   *

O arrombildo foi, Pul aceitou o presente, e fez muito mais do que Acaz sonhava. Invadiu a Síria, tomou Damasco (a cidade, não a fruta) e executou o reizim Rezim. Isso aconteceu em 732 a.C., e só em 1941 Damasco voltou às mãos dos sírios. Durante quase 2.700 anos, a cidade passou de mão em mão, igual tua irmã outras cidades que sofreram cercos e invasões. O povo de Damasco foi levado para o cativeiro na cidade de Quir, em Moabe, que estava sob domínio do Império Assírio. Quir é hoje a cidade de Karak, na Jordânia. Além de grande cidade, daria também um bom nome para um DJ.

A notícia era boa demais para ser verdade, Então Acaz montou num camelo (o governo estava sem dinheiro para gasolina, então não dava para ir de carro) e foi até Damasco para se encontrar com Pul. Nem consigo imaginar a sessão de bajulação, de lustra-bolas, de puxa-saquismo que se seguiu. Só sei que Acaz chegou lá e viu um altar grande, bonito, ficou muito impressionado com o altar. Tirou uma foto e mandou para Urias, o sacerdote em Jerusalém: “Bafo esse altar. Quero um i-gual.”

Vocês vejam a situação de Urias: ele era sacerdote da religião oficial. Estava desmoralizado, coitado. O rei só queria saber de queimar criança e fazer suruba no morro, enquanto o pobre do Urias ficava no templo (agora bem mais pobre sem os adornos de ouro e prata) sacrificando a Javé o que sobrava. Ia fazer o quê? Falar “não, constrói você”? Então Urias fez o altar.

Quanta Acaz voltou a Jerusalém, ficou doido com o altar novo.

— Olha que beleza! Nossa religião está ultrapassada, Urias!

— Isso eu já não sei, senhor…

— Pois eu sei! Fica aquele templo lá, cheio de ritual, lugar lá que ninguém pode pisar, aquele altar hor-ro-roso. Estamos em 732 antes de Cristo…

— Antes de quem?

— Quê?

— Cê falou “732 antes de Cristo”.

— Falei? Nem vi. Tô meio doidão ainda. Os cara lá em Damasco usa uns negócio… Mano, depois te conto. Mas enfim, o negócio é que estamos agora, neste ano de agora, que tudo é… moderno e… avançado… sei lá, e nossa religião é, tipo, do século passado. Sabe? Chega disso.

— É a religião dos nossos antepassados, senhor. Do Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Do Deus que nos tirou do Egito e nos trouxe para uma terra que mana leite e mel.

— Que terra que mana leite e mel, Urias? Se não for as cabras e as abelhas, não tem leite nem mel pra ninguém, não. E que Egito? Eu nunca pisei no Egito, nem meu pai. Você já foi lá no Egito, tirou selfie com pirâmide? Não, né? Abraão, Isaque, Jacu, tudo coisa antiga. Isso que eu tô falando. ISSO QUE EU TÔ FALANDO, TÁ LIGADO.

— O que é esse pó branco no seu nariz, senhor?

— Afe, tem giz na lousa! ABAFA! Aquele altar horroroso nosso, lá. Que porra é aquela? Um monte de boi de cobre, aquela pia grandona lá….

— O mar de bronze sustentado pelos bois de bronze?

— “Mar” já é demais, né? E tem aquela porta lá para a entrada do rei… Eu lá quero uma porta só pra mim? Nem entro naquela porra. O negócio é religião moderna, Urias! Ao ar livre, na natureza, todo mundo pelado se comendo!

— Mas essa é a religião antiga, majestade!

— Antigo é verde, verde é bambu, bola na rede, pau no seu cu. Tá vendo? Seu argumento é inválido. Faz o seguinte: traz o altar de cobre lá do templo e coloca do lado desse aqui. Tira a pia grandona de cima dos boi, coloca numa base de pedra, sei lá. E empareda a tal da entrada real. Quando o rei da Assíria vier aqui visitar, eu quero que ele veja como o negócio aqui é modernidade. Meu Jesus…

— Quem?

— Hum?

— Nada. E aí vai oferecer sacrifício nos dois altares?

— Não, só no novo.

— Ué. E o antigo?

— Ah, sei lá. Vou ver. Talvez eu use pra macumba, pra adivinhação, não sei. Anda, Urias.

Urias, já de saco cheio do pior emprego do mundo, fez tudo que o rei mandou. E assim o rei de Judá, responsável pela proteção da religião oficial, profanou o Templo de Salomão.

Acaz morreu aos 36 anos de idade, e seu filho Ezequias subiu ao trono.

*   *   *

Uma última curiosidade sobre essa história… O autor do segundo livro dos Reis conta que na mesma época do cerco a Jerusalém, Rezim, o rei da Síria, invadiu a cidade portuária de Eilat (ou Elat), ao sul, expulsou de lá os judeus e levou sírios para viverem lá. Os sírios ainda viviam em Eliat quando o texto foi escrito, talvez uns duzentos anos depois.

Eilat foi onde os hebreus chegaram após a travessia do Mar Vermelho, quando fugiam do Egito. Davi reconquistou a cidade quando ela estava sob o domínio de Edom, e Salomão construiu o porto. Agora ela saía do domínio de Judá, e só seria repovoada por judeus em 1955. Nesse intervalo, passou de mão em mão igual tua irmã.

Eliat é hoje um balneário badalado no extremo sul de Israel.

Nada disso é muito importante. A curiosidade verdadeira é: essa é a primeira vez na Bíblia em que se usa a palavra “judeus” para referir-se ao povo de Judá.

A Eilat moderna