13133087_1009368595806989_2818833825650959679_nEu não sei como minha mãe fez.

A história dela não é fácil, não. Mas eu não vou contar aqui. Primeiro por que não estou aqui pra expor a véia. E segundo porque ela mesma não gosta de ficar falando. Sabe gente que vive falando do quanto sofreu, do quanto apanhou da vida? Minha mãe é o contrário disso aí. Dia desses, depois de muita insistência, ela me contou uma história da infância dela. Uma história que me fez entender melhor quem ela é, quem minha avó era, quem são meus tios. Perguntei por que nunca havia contado.

— Cada um tem sua história, Marco. Cada um sabe o que passou na vida. A gente não pode ficar jogando nossa história em cima dos outros.

Em 2013 eu tive outra surpresa dessas. Estávamos, eu e Ana Carlota, insistindo para que ela escolhesse um destino para viajar. Qualquer lugar! (que não fosse muito caro, porque também não estamos propriamente nadando em dinheiro). Ela só dizia que qualquer lugar estava bom, que não precisava nada disso, que “boa romaria faz quem em sua casa fica em paz” (um ditado que ela usa muito quando quer ser deixada quieta). Depois de muito enchermos o saco, ela cedeu:

— Sabe um sonho que eu sempre tive? Conhecer o Rio… Sempre vi nas novelas, parece tão lindo!

— Mãe… O Rio? O RIO??? Mas é aqui do lado! A gente vai quando quiser! Por que você nunca falou?

Ela só fez um gesto de “sei lá”. Fomos ao Rio, ela gostou muito. E eu, que já conhecia o Rio mas nunca tinha feito programa de turista, me diverti como nunca. Acho que a Ana também. Porque minha mãe é uma pessoa divertida, engraçada. Fala palavrão pra caralho, comenta maldades das pessoas que estão passando, fica comovida com bobagens. Minha mãe é o meu lado bom.

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Cada um tem sua história e escolhe o que fazer com ela. Você pode carregar sua história feito estandarte de procissão, pra todo mundo ver. “Olha como eu sofri”, “olha o que eu passei”, “eu não tenho culpa, minha vida foi muito dura”. Ou você pode usar sua história para aprender, ser uma pessoa melhor e ajudar os outros com sua experiência. Essa foi a escolha que minha mãe fez. Quem convive com ela tem muita sorte. Eu e meus irmãos temos mais ainda.

Te amo, mãe.

(tudo isso porque o aniversário da véia foi em abril, já dei presentes e hoje não vou dar porra nenhuma)

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Tá bom, vou expor um pouco a minha mãe.

Minha mãe tem uma coisa com Caetano Veloso. Caetano pode tudo. Homem que usa brinco? “Bicha.” Mas o Caetano usa brinco. “Caetano pode.” E saia? Caetano já saiu em público DE SAIA. “Caetano pode tudo.” Só adulto eu fui entender essa carta branca que o Caetano tem com ela. Ela me contou:

— Quando a gente veio pra São Paulo, baiano era tudo que havia de ruim. Tudo que não prestava era coisa de baiano, era baianada, era “tinha que ser baiano”. Se você era baiano, era como se você não existisse. Eu tinha vergonha de ser baiana. Aí apareceu o Caetano. Eu assistia ele na televisão, todo mundo prestando atenção naquele baiano ali. Teve aquela vez que vaiaram ele, eu fiquei tão brava! Era como se estivessem vaiando um irmão meu. Mas mesmo vaiando, ninguém ignorava Caetano. Todo mundo prestava atenção nele, todo mundo via ele. Que orgulho de ser baiana igual a ele!

Minha mãe adolescente era fã de Caetano. Quando ele gravou “Felicidade”, do Lupicínio Rodrigues, ela vivia cantando a música. Meu pai, que estava de olho nela, comprou um violão e aprendeu a tocar a música. Deu certo, e eu estou aqui graças a Caetano Veloso. Indiretamente. Por favor.

Uns anos atrás eu sonhei que estava num ponto de ônibus e no ponto do outro lado da avenida, recostado no banco, estava o Caetano com um violão, cantando “Trem das Cores”. Minha terapeuta na época, que já conhecia a história da minha mãe, falou que Caetano era para mim um símbolo de autoestima.

Então toma aí um pouco de Caetano, mãe. Essa música eu acho que ele fez depois que Dona Canô morreu. Tomara que você viva tanto quanto ela. Ô, véia que custou a morrer!

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Cês tão achando que eu sou um bom filho, né? Um bom filho da puta, se tanto. Dia desses eu tava insistindo pra minha mãe adotar um cachorro.

— Pra quê, Marco? Depois o bichinho morre e a gente fica sofrendo.

— Mãe, cachorro pequeno vive pelo menos 15 anos. Você tá com 65. Faz as contas. O cachorro que vai sofrer.