Visitei uma escola ocupada

Toda hora notícia de escola ocupada em São Paulo, que não sei quê de reorganização, que a polícia isso e aquilo, que governador suspendeu não sei quê, me enchi o saco de notícia.

Na quarta-feira, dia 9, estava passeando com o cachorro e descobri que a escola aqui perto de casa, a Escola Estadual Barão Homem de Mello, estava ocupada. Olhei pelo buraco do portão, tinha um garoto passando lá dentro. Estavam ouvindo funk em volume baixo, novidade para mim. O garoto acenou, veio falar comigo. Ele e outro conversaram pelo buraco do portão. Disseram que estavam limpando a escola, por isso eu não podia entrar. Estavam mesmo: lá dentro, alguém passava um rodo pelo piso de granito. Me convidaram para ir visitar outro dia. Fui agora.

Passei por lá e tinha um carro de polícia na porta da escola. Um policial estava dentro do carro, o outro estava postado ao lado do portão. Fui até a esquina, parei um pouco, mexi no celular, voltei. Estavam os dois fora do carro, um deles falava com alguém lá dentro pelo buraco do portão. Fui até a outra ponta da rua, voltei, a polícia tinha ido embora. Bati no portão, ninguém veio. Chegou um grupo pela calçada, de bicicleta e skate. “Tio, bate aí no portão pra eles abrirem?” Bati de novo. “Não, tio. Tem que ser com força.” Só um deles falava comigo, os outros olhavam desconfiados. Expliquei que tinha conversado com dois deles na quarta (a cada um eu perguntava “foi com você que eu falei?”; a merda de ficar velho é que os jovens vão ficando todos iguais). Os que estavam lá dentro vieram abrir, eu dei um passo para o lado. Os recém-chegados entraram, outros saíram. Todos olhavam para mim com desconfiança. Eu, feito um songamonga, perguntava a cada um: “foi com você que eu falei?”, até que um deles respondeu que sim, que lembrava de mim etc.

Perguntei dos policiais que tinham acabado de sair. “Vixe, eles vêm direto”, um deles me explicou. A polícia vai, pergunta em quantos eles são, se está tudo bem, se precisa de alguma coisa, quem está na liderança do movimento. “Mas a gente não entrega nada.”

Expliquei que eu era vizinho da escola e roteirista do Papo de Segunda. Eles assistem ao programa, gostam, são fãs do Tas. Perguntei como eles tinham entrado nesse negócio de ocupar escola. “Eu sempre escutei que a gente era uma geração perdida”, disse um deles, de 17 anos. “Aí eu ficava puto, porque eu não queria ser isso aí. Quando apareceu aqui a eleição do grêmio da escola eu entrei na chapa junto com ele, ganhamos de lavada. Aí logo depois veio a ocupação e a gente ajudou a organizar. Quanto mais falam que a gente é geração perdida, mais eu quero mostrar que não.”

Enquanto conversávamos passou um cara falando no celular. Passou de novo. Um dos meninos cutucou o outro, apontou pro cara. Então me explicou: “Tô estranhando o movimento desse aí. Toda hora ele passa, puxa as faixas, bate no portão, fica olhando. À noite às vezes vem gente aí bater no portão, já tentaram pular o muro.” Eles não sabem quem são. “Talvez o pessoal que apóia o PSDB, sei lá”, disse o outro. Perguntei se eles eram de algum partido. “Não, nada a ver. A gente tem alguns apoios, aceita ajuda de quem quiser ajudar, mas o movimento é nosso. Falam tanto do PT, mas não vem ninguém do PT aqui também.”

“Só para deixar claro”, eu disse a eles. “Eu odeio o PT. Sou de direita. Fui em protesto contra a Dilma.” Achei que eles iam me tratar como se eu fosse o demônio. Qual o quê! “Ah, é? Então, mano, tem que protestar mesmo.” Porra.

Hoje teve um conflito em outra escola aqui da região, no Parque da Juventude (um parque lindo que fica onde antes ficava o presídio do Carandiru). É uma escola técnica, que nem entra na reorganização. Os alunos ocuparam em solidariedade aos outros e porque têm reivindicações próprias. Um grupo de pais foi até lá tentar desocupar a escola à força. Eles, os meninos que estavam falando comigo, foram lá ajudar a proteger os colegas. Fizeram um cordão de isolamento em volta da escola. Um dos pais partiu para cima do moleque de 15 anos. “O cara grandão me agrediu”. O outro completa: “Apertou ele, mano. No… Naquele lugar”. “No saco?!”, eu pergunto, e eles dão risada. “É, mano. Quase que fica aleijado.” O adulto que agrediu o menino é advogado.

Enquanto eu falava com eles, saiu um barbudo lá de dentro. Barba ruiva, olhos azuis. Perguntei se era aluno. Não: era professor, estava lá apoiando os meninos. Disse que o que aconteceu no Parque da Juventude hoje era fruto de grupos que estão querendo jogar alunos uns contra os outros, e que entre os que tentavam invadir a escola havia pais e alunos. Perguntei quem eram esses grupos, ele se enrolou. Falou umas palavras prontas lá. Ainda bem que ele já estava de saída, porque adulto é muito chato.

Preocupado em estar machucando mais ainda o saco do menino com minha conversa mole, disse que ia embora e que podiam me chamar se precisassem de alguma coisa. Eles me convidaram para entrar na escola. Estava limpa, com cheiro bom. Acho bonito o que eles estão fazendo. Semana que vem volto lá para explicar a eles as vantagens do livre mercado, da propriedade privada, da liberdade individual…

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5 comentários

  1. LEGAL EU GOSTARIA DE COMEÇAR ALGO JUNTO A ESSES MENINO, FALAR UM POUCO DA ARTE MAIS NÃO CONHEÇO NENHUMA ESCOLA OCUPADA POR AQUI.

  2. Parabéns 🙂 mas tem que rolar uma troca. Acho que muita gente chega lá, numa posição superior, querendo colocar coisa na cabeça dos muleques. Mas acho que tem que saber falar e ouvir e os dois lados, que parecem tão distantes, se tornarem um só.

  3. AÊ Macaurélio! Sou teu fã desde antes de vc começar a escrever o Balde de Gelo, e só conheço a bíblia pela tua versão. Será que em tempos de “10 mandamentos”, “Rei Davi” e outras produções da Record, vc não consegue emplacar a Bíblia Sacaneada?

    Abraço garouto!
    (e volta a escrever nesta piroca!)

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