Carequito

471860_399551686788686_679579768_oHoje é aniversário desse careca aí. O careca branco de óculos. O Marcelo Tas, caralho.

Nos longínquos anos 80, eu era o único moleque do bairro que assistia na TV Gazeta as reportagens do Ernesto Varela. Era uma sensação boa, aquela de descobrir uma coisa nova. Eu era tipo um hipster precoce da periferia. E demorei para desfazer na minha cabeça um mal-entendido compreensível: para mim, Ernesto Varela era o nome da pessoa e Marcelo Tas era o personagem. Compreensível porque Marcelo Tas parece nome de personagem mesmo. Fala isso alto: Marcelo Tas. Soa modernoso. Prafrentex, como diz a geração dele. Fala com a entonação que ele falaria: Marcelo Tás. As novas mídias. Eu sou viciado em televisão. Tchuqui-tchuqui. Olha is-so.

Tá, estou divagando.

E aí fui acompanhando o cara. Lembro dele no Vídeo Show. Depois ele foi para a Cultura, fez todas aquelas coisas que ficaram na memória afetiva de toda uma geração um pouco mais jovem do que eu. Lembro dele no Saca Rolha, no Canal 21. Em abril ou maio de 2008, o Sérgio Faria escreveu no Catarro Verde que Marcelo Tas estava com um programa novo na Band. Fiquei intrigado com aquele nome nada a ver, CQC. Eu e Ana começamos a assistir e virou programa obrigatório às segundas. Vi pela primeira vez caras que tempos depois viriam a ser meus amigos.

Em fevereiro de 2009 recebi uma ligação de um tal José Palito. Ele perguntou se eu conhecia um programa chamado CQC. Claro que eu conhecia. Se eu queria ser roteirista? Sim, claro. Estava mesmo estudando isso na época. Mas como ele sabia? Ele não sabia. Conhecia meu blog. Este blog aqui. Eita, blog abençoado!

Fui lá falar com o tal José Palito (nome real Alex Baldin, hoje mestre supremo do The Noite), fiz teste. Depois fui ser entrevistado por ele e o Diego Barredo, o chefe da produtora. A entrevista foi num bar, eu fiquei bêbado e saí certo de que nunca mais ouviria falar dos caras. No dia seguinte José Palito me ligou para dizer que a vaga era minha. O susto foi tão grande que eu quase recusei. Se não fosse minha mulher, eu acho que teria mesmo recusado. Cabaço.

Essa história toda é pra contar como Marcelo Tas virou meu bróder. Primeiros dias trabalhando no CQC, chega ele. Simpático, gentil. A voz um tom mais grave quando ninguém está gravando. Sangue bom.

Marcelo é um caipira no melhor sentido da palavra. Desconfiado, malandro, o famoso que-se-faz-de-morto-pra-comer-o-cu-do-coveiro. Caipira daqueles de ir a Ituverava para conversar com os pais e tios sobre as decisões e acontecimentos da vida. Não se deixem enganar por essa imagem cosmopolita: escrevendo no New York Times ou esquiando na Suíça com o Paulo Coelho e o tal do visconde (tem um visconde lá, acho que é lance de bunda), o recheio dessa careca reluzente aí está sempre em Ituverava.

Nossa convivência nem sempre foi fácil, mas sempre foi divertida. O carequito é cheio de surpresas. Esse gorro aí da foto ele comprou pra mim em Londres. De algum outro lugar ele me trouxe um aparelho de raspar a cabeça. Somos tipo uma confraria de carecas: trocamos dicas de como manter nossas vastas e lisas cabeças sempre brilhantes e bonitas.

Ele tem outras surpresas também. Dia desses descobri que o bicho estudou a vida e a carreira do Buster Keaton, vejam só. Outra surpresa: em 2012 ele me chamou pra fazer o Conversa de Gente Grande, um programa que, se não fosse a cegueira dos executivos de TV, ainda estaria no ar. De vez em quando ele liga pra me dar um toque qualquer. Essas conversas esporádicas são as mais longas que tenho por telefone. Eu tento ser blasé, mas vejam minha situação: é o Ernesto Varela, o Professor Tibúrcio, a porra do Marcelo Tas me ligando pra conversar, perguntar, contar história. É muito legal isso aí. Eu sei que é jacu dizer isso, mas foda-se, é aniversário do cara.

Em 2014 acabou a nossa parceria no CQC. Mas ele não resistiu: em maio deste ano eu pedi demissão e dias depois estava de novo trabalhando com ele, agora no Papo de Segunda. E nossa vida segue a mesma: nos divertimos muito, brigamos às vezes, ficamos com raivinha um do outro. Mas é tudo teatrinho, e estamos sempre de bem. Tem sido uma convivência muito enriquecedora. Espero poder ter colaborado em alguma coisa pra vida dele também.

Feliz aniversário, véio careca.


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