O rei da gambiarra 20

Já explico o chuveiro

Assim que eu e Ana Carlota nos casamos, comprei um chuveiro invocadão — que não é esse aí da foto. Era muito bom, o chuveiro. Saímos do Arouche, viemos para o meio da colônia armênia, o chuveiro veio junto. Não agüentou nem dois anos: casa antiga, fiação antiga, um dia o chuveiro deu um pipoco e morreu. Comprei outro (que também não é o da foto) e fui instalar. Tudo certo até eu ter a infeliz idéia de mudar o lugar do suporte do chuveirinho. Furei a parede e, claro, acertei um cano. Foi um furdunço: gritei pra Ana vir me ajudar, ela ficou tampando o furo com o dedo enquanto eu pegava uma escada para fechar o registro. Fiquei puto (eu fico muito puto quando faço alguma cagada, o que significa que eu vivo puto), andando de um lado pro outro pela casa pensando numa solução. De repente, eureca!: peguei um parafuso mais ou menos da largura da broca que tinha furado o cano, enrolei o bicho em veda rosca e meti o parafuso no furo da parede. Abri o registro e só saiu um fiozinho d’água por baixo da cabeça do parafuso. Com essa gambiarra, conseguimos tomar banho por dois dias, até que o encanador veio e consertou a burrada. No dia seguinte, fui comprar outro chuveiro — que, claro, não é esse aí da foto.

— ENTÃO QUE PORRA É ESSE CHUVEIRO AÍ DA FOTO, DIABO?

Ora, o título do post é “O Rei da Gambiarra”. Vocês não acharam que eu ia mesmo me autointitular rei de qualquer coisa, né?

Enquanto eu transformava o parafuso num mini-craque de múmia, lembrei do meu pai. Ele sim era o rei da gambiarra. O chuveiro da foto está na casa da minha mãe. Eu mesmo o comprei no Mappin em 1994 ou 95; paguei 180 reais. Era o chuveiro mais metido a besta da época.

O chuveiro antigo já estava nas últimas. Era um daqueles Lorenzetti de metal, sabe? Então. O cano do chuveiro ficava cada dia mais torto, tínhamos medo de que um dia caísse na cabeça de alguém. Até que um belo dia (meu pai falava muito isso, “até que um belo dia”) Seu Lindauro fez um furo no teto, enfiou um gancho no furo, passou um arame pelo gancho e amarrou a outra ponta no chuveiro. Chuveiro reto, problema resolvido. Só não estava lá muito bonito, então eu comprei esse chuveiro novo e meu pai se encarregou da instalação.

Ah, meus amigos, que gênio era meu pai… Ele se fechou no banheiro com o chuveiro novo e sua infalível maletinha de ferramentas. Dali a pouco saiu para buscar alguma coisa e eu fui espiar para ver como andava a instalação. O chuveiro já estava na parede, só que meio bambo. Seu Lindauro voltou, se fechou de novo. Quando saiu, todo orgulhoso, o chuveiro estava instalado e bem preso, graças a duas tampinhas de Coca-Cola que ele usou como calço.

Esse banheiro da casa da minha mãe deve ser o cômodo que mais viu as gambiarras do velho. Antigamente, o piso do banheiro era de granito branco e tinha uma rachadura que ia da porta até quase a parede oposta. O tempo passou, a fenda foi aumentando, minha mãe perdeu a paciência: “Lindauro, a gente precisa arrumar esse piso”. Agora vejam: na cabeça da minha mãe, “arrumar esse piso” era quebrar tudo, ver se tinha alguma infiltração, refazer o encanamento se necessário, instalar piso novo. Na cabeça do meu pai, era muito mais simples. Ele se fechou no banheiro (com a malinha, claro) e saiu lá de dentro radiante. Tinha preenchido a fenda no chão com Durepóxi. Ficou feio pra danar aquela tira cinzenta no meio do piso branco. Antes que minha mãe reclamasse, meu pai já foi avisando que ainda não estava pronto. Saiu, voltou, se fechou de novo. O que ele fez? Pois é: pintou o durepóxi de branco. Gênio.

Hoje eu ando pela casa da minha mãe e em todo canto vejo as gambiarras do velho: são varais com trinta remendos, móveis consertados com arame (ele adorava arame, sempre começava a solução de um problema com a frase “Se colocar um aramezinho aí…”), fios passando por ganchos no teto (outro preferido da casa). Domingo passado minha mãe me mostrou a porta de um dos armários da cozinha. A fórmica estava descolando, ela comentou com meu pai que precisavam consertar aquilo. Ela saiu pra fazer qualquer coisa e quando voltou viu o armário “consertado”: Seu Lindauro meteu dois pregos na fórmica e se deu por satisfeito. Deve ter sido uma das últimas gambiarras dele.

Dia desses o telefone deixou de funcionar. Tentei de tudo e nada, o telefone mudo. Fui lá fora e vi meu irmão podando a primavera que ameaçava invadir a rua. Numa facãozada mais afoita, cortou o fio do telefone — um fio que passa pelo meio das plantas, entra por baixo de uma telha solta e sai na tomada do telefone da sala; gambiarra de autoria minha e de meu pai. Eu subi no murinho, fiquei lá me equilibrando e remendando o fio. Naquela hora percebi, como poucas vezes percebi antes, o quanto eu e meu irmão somos parecidos com nosso pai: desastrados, gambiarreiros.

Gosto de pensar que um dia, quando todos nós já tivermo morrido, alguém vá morar na casa que era do meu pai. Acho que esse morador futuro vai encontrar algumas soluções improvisadas dele. O cara vai ver aquilo e pensar, “Pô, mas que serviço porco”, sem saber que a gambiarra era parte da sabedoria de Seu Lindauro. Meu pai sabia que tudo era provisório e que qualquer coisa definitiva era ilusão. Sendo assim, por que gastar tempo e dinheiro com soluções definitivas? Além do mais, que chato seria se meu pai resolvesse tudo do jeito certinho: hoje eu talvez não tivesse nada para me lembrar dele. Cada pedaço de arame naquela casa é uma história dele.

Ah, e muitos anos depois da história do piso meus pais finalmente conseguiram reformar o banheiro. Colocaram piso novo, encanamento novo, louças, box, vitrô. O chuveiro mudou de parede. Meu pai instalou. As tampinhas de Coca-Cola estão lá até hoje, sustentando o bicho.