Mais um vídeo sobre Rondeli, o cão
E uma lição aprendida: nunca mais fazer vídeos da webcam direto no Windows Movie Maker.
Olha a sincronia, que beleza.
E uma lição aprendida: nunca mais fazer vídeos da webcam direto no Windows Movie Maker.
Olha a sincronia, que beleza.
Notaram uma aba nova ali em cima? Não? Porra, cês são foda…
Seguinte: subi de novo os PDFs da Bíblia segundo o JMC. Estão aqui. Quem tiver interesse pode baixar os livros lá. Se tiver algum link quebrado, me avisem.
Rondeli,
Este post não era para ser um post. Era para ser um vídeo de nós dois conversando. Bom, eu falando e você escutando, inclinando a cabeça, levantando as orelhas, essas coisas que cachorrinhos fazem. Pensei que ia fazer esse vídeo, publicar no YouTube, talvez ganhar algum dinheiro. Mas você colaborou com meu projeto? É claaaaro que não. Você não pára quieto. Seu único objetivo é entrar na casa. Já falei: o terraço é seu, a casa é minha. Vou precisar mijar tudo aqui dentro pra você entender isso?
Precisamos ter uma conversa franca entre machos. Eu sou macho, você também. Ainda. Ouvi gente falando em castração. Sua castração, não minha. Espero que você não fique tenso com isso, só tô avisando pra você começar a planejar sua vida. Se você pensava em ter filhotes, melhor pensar em outra coisa. Encontre um hobby pra se distrair. Um hobby que não seja roer os meus chinelos, claro. Se quiser, podemos arrumar um bichinho de estimação pra você. Uma lagartixa, sei lá… Quê? Não, eu não sou a favor de castrar você. Me solidarizo. Mas é que meu voto não vale grande coisa… Como? Claro que eu não sou castrado, porra! Só não apito nada mesmo. E sou gordo porque sou gordo mesmo. Pára de falar nisso, cazzo. É capaz de gostarem da idéia, ainda mais depois que eu falei em mijar tudo dentro de casa. Eu estava brincando, galera.
Vamos direto ao ponto, por favor? Seguinte: você ainda é novo aqui, tanto nesta casa quanto neste planeta. Então vou te explicar uma coisa que eu aprendi muito cedo e tem me ajudado desde então: se você é feio, precisa ser inteligente. Engraçado, pelo menos. Existe gente que é feia, burra e sem graça? Claro, de monte. Mas essas pessoas ainda têm o que fazer da vida: podem passar o dia reclamando no Twitter, ou fazer comédia stand-up. Um cachorro que seja feio, burro e sem graça vai parar num restaurante coreano — e não é pra trabalhar de garçom. Entendeu a diferença?
Você é feinho. Não tem nada que você possa fazer quanto a isso e eu não tenho dinheiro pra te pagar uma cirurgia plástica. Então chegamos a isso: você precisa ser inteligente ou, pelo menos, engraçado. Ontem eu vi você correndo atrás do rabo; isso não é legal. Correr atrás do rabo é a característica universal do cachorro burro. Na porta da escolinha para cachorros retardados tem um brasão com o desenho de um cachorro perseguindo o próprio rabo. Eu sei que você ainda é novinho e só fez isso uma vez (que eu tenha visto). Você pode argumentar que conseguiu morder o próprio rabo, e é verdade. Parabéns. Quer uma medalha? Quer que eu te chame de Ouroboros? Humpf.
Seja inteligente, Rondeli. Se preferir ser engraçado, não seja engraçado involuntariamente, porque isso é o mesmo que ser burro. Vir correndo na minha direção com o corpo de lado faz você parecer um caranguejo. É engraçado, mas involuntário. É estúpido.
Hoje você aprendeu que quando eu jogo a bolinha espero que você vá buscar ela. Já é um avanço. Só que você precisa aprender que a bolinha às vezes vai parar em algum lugar fora do seu campo de visão: atrás da sua casinha, por exemplo. Isso não quer dizer que a bolinha se esvaiu magicamente no ar. Com um pouquinho mais de esforço mental, você vai entender o mecanismo da brincadeira. Não é tão complicado assim.
Apesar dos sinais de alarme, boto fé em você. Esta é uma casa de pessoas inteligentes; vai pegar muito mal pra nós ter um cachorro burro. Não me decepcione.
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Este é o ponto do vídeo em que minha mão entraria em quadro e eu diria “High five!”. Você ignoraria, eu diria “Muito cedo…”. Fade out, fim. Sucesso garantido no YouTube. Dinheiro de anúncios. Quem sabe numa próxima vez.
A prova de que eu tentei fazer o vídeo:
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Ah, outra coisa: tem essa história de um cara que tinha um cachorro e morreu. O cara, não o cachorro. Prestenção. O cara morreu, o cachorro foi até o cemitério e se deitou sobre a tumba do dono falecido. Ficou lá dias e dias, sem comer, sem beber, sem se mexer. Morreu de inanição. Então vamos fazer uma conta rápida: você deve ter uns dois meses de vida (a pessoa boa que te abandonou num quintal não teve o cuidado de deixar uma cópia do seu RG). Eu chego aos 36 anos daqui a 10 dias. É uma baita diferença, e você pode pensar que está em vantagem. Não está: quando eu chegar aos 50 anos, e estiver pensando em comprar um carro vermelho conversível, você provavelmente já terá se juntado à Lassie e ao Rin Tin Tin. Não é justo, eu sei, mas a vida não é justa. Porém, no caso improvável de eu ir primeiro, seria de bom tom você passar uns dias no cemitério, com uma cara solene e tal. Não precisa morrer nem nada. Só faz um drama, que é pro pessoal achar que eu era foda. Custa nada.
Se você morrer primeiro (que é, repito, o mais provável), não conto pra ninguém que você perseguia o próprio rabo. Combinado?
“Deus proverá” era a frase do meu pai. A frase é de Abraão, na verdade. Quando Javé pediu a ele que sacrificasse Isaque, seu único filho, Abraão nem piscou: acordou Isaque, disse que ia oferecer um sacrifício e os dois saíram de casa. No meio do caminho, meio desconfiado, Isaque perguntou onde estava o bicho que iam sacrificar. “Yahweh-yireh” foi a resposta de Abraão — Deus proverá. Yahweh-yireh é um dos nomes do Deus de Israel. Era esse o Deus do meu pai — não importava o quão difícil fosse a situação, não importava o beco sem saída em que a gente se metesse: o Deus dele sempre ia dar um jeito. E ele nem precisou ameaçar sacrificar um de nós.
Quando precisava correr, meu pai corria com a mão sobre o peito, para impedir que os documentos e o pente pulassem do bolso da camisa. É uma imagem recorrente nas minhas memórias mais antigas: meu pai correndo de mão no peito.
“O que que a gente faz agora, pai?”, eu perguntei quando minha avó materna morreu. “Eu não sei”, foi a resposta dele. Foi a primeira, talvez a única vez em que eu vi meu pai tão triste a ponto de não ter uma palavra de conforto para nós. Foi das poucas vezes em que o vi chorar, também.
Meu pai nunca teve um time. O engraçado é que ele gostava muito de futebol. Quando foi para a Congregação Cristã do Brasil, ele parou de ver televisão. Mas sempre que tinha um jogo passando ele parava um pouco na sala, comentava um lance qualquer, saía. Aos poucos essas paradas pra ver jogo foram aumentando: ele se sentava no braço do sofá para ver uma cobrança de falta, depois começou a ver replays, um tempo aqui, outro ali. Dizia que era ponta direita — “dos bons!” — do time da fazenda onde cresceu lá na Bahia. Eu acredito: depois da história do capoeirista, eu nunca mais ousei duvidar de nada que ele me dissesse.
Eu sempre tive insônia. Ficava na sala de madrugada vendo qualquer bosta na televisão. Lá pelas tantas, ouvia os passos do meu pai vindo do quarto. Ele entrava na sala de braços cruzados, meio encolhido de frio. “Dormir, Marco. Olha a hora.” “Já vou, pai.” Ele voltava para o quarto, eu ouvia os passos dele se afastando.
Meus irmãos nunca tiveram insônia. Dormiam no carro vindo da casa da minha avó, dormiam no sofá. Meu pai carregava eles pra cama. Lembro dele carregando minha irmã no colo quando ela tinha uns 12, 13 anos de idade, e quase o tamanho dele. Eu sentia um pouco de inveja: queria ter sono pro meu pai me carregar até a cama. Nunca tive.
Por volta dos 60 anos de idade, meu pai começou a usar óculos para leitura. Botava aqueles oclinhos pra ler a Bíblia. Quando estou na casa da minha mãe, entro no quarto dela e espero encontrá-lo sentado na cama de Bíblia no colo, encostado em um travesseiro apoiado na cabeceira, olhando pra mim por cima dos oclinhos.
Quando a gente era pequeno, meus pais compraram cobertores novos para mim e minha irmã (meu irmão nem era nascido, eu acho). Compraram e disseram que só iam dar os cobertores quando a gente se comportasse direitinho. Um dia eu combinei com a minha irmã de pedir a bênção aos dois antes de dormir. “Bença, mãe. Bença, pai.” Os dois se olharam, sorriram e nos entregaram os cobertores. Foi uma alegria imensa; alegria besta de criança. Fiquei com meu cobertor a vida inteira, trouxe ele comigo quando casei. Dia desses um cara tocou campainha aqui. Estava dormindo na rua com a esposa e um filhinho, queria saber se eu não tinha um cobertor. Dei meu cobertor a ele. É o que meu pai faria. Mas foi triste.
Meu pai caiu em muitos golpes, foi muito explorado por acreditar nas pessoas. E continuou acreditando. Inabalável.
Quando ia orar em voz alta na igreja, meu pai sempre começava a oração com “Santo Deus, Eterno Pai Celestial”. Depois de muitos anos, mudou para “Santo Deus, Eterno Pai Celeste”. Eu sempre quis perguntar o porquê da mudança; nunca perguntei. Achava mais bonita a métrica da primeira abertura.
Depois que meu pai saiu da igreja Batista, eu continuei. O pastor que me batizou, Obede, me contou uma história tempos depois. Havia um grupo formado por pessoas mais velhas da igreja que estavam descontentes com o pastor. Esse grupo andava se reunindo ora na casa de um, ora na casa de outro. Um dia foram se reunir na casa de um de meus tios e chamaram meu pai pra participar. Ele chegou, viu aquele pessoal lá, perguntou de que se tratava. “É sobre a igreja.” “E cadê o pastor?” “O pastor é parte do assunto.” “Então esperem aí que eu vou buscá-lo” (meu pai falava assim mesmo, “buscá-lo”). Ele foi até a casa do pastor, disse que havia uma reunião acontecendo e o levou até lá. Meu pai não suportava trairagem. Detalhe: de todos, ele devia ser o que mais discordava do pastor. Mas preferia falar isso na cara dele.
Ele sabia que não tinha nenhum controle sobre a própria vida. Quando alguém o convidava para qualquer coisa, por mais banal que fosse, a resposta do meu pai era sempre a mesma: “Se Deus preparar, estarei lá”. Quando fazia planos, terminava as frases com “mas Deus é quem sabe de todas as coisas”.
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Desde que meu pai morreu, meu maior medo é esquecer de como ele era. Coisas assim me ajudam a lembrar.
Hoje é Páscoa, dia muito adequado para ressuscitar o JMC. Ando deprimido e Ana Cartola diz que eu preciso encontrar algo que goste de fazer. O problema é que ultimamente eu não gosto de fazer nada. Então pensei: o que é que me dava prazer antes quando eu estava triste?, e lembrei aqui do véio JMC. Resolvi voltar, então.
Pensei muito antes disso. Um pensamento só, na verdade: será que meu pai se ofenderia se lesse este blog? Acho que não: eu e ele temos isso em comum, essa intimidade com os personagens da Bíblia. Meu pai, eu já contei aqui, comia pão com peixe e dizia: “Isso me lembra de quando Cristo multiplicou os pães e os peixes. Dois peixinhos, cinco pãezinhos: cinco mil pessoas comeram e ainda sobrou pão e peixe pra elas levarem pra casa”. Era como se ele tivesse estado lá. E assim ele era com Moisés, Davi, Paulo, João Batista, Daniel: contava histórias deles do mesmo jeito que contava histórias da infância em Monte Santo.
Mas mais do que isso, meu pai acreditava que todas as coisas eram segundo a vontade de Deus. Já recebi muitos e-mails e comentários de leitores cristãos dizendo que a minha versão da Bíblia os fez entender alguns trechos mais obscuros. Esses leitores dizem que Deus me usa para clarificar a mensagem dele. Eu às vezes gosto de fingir que acredito nisso: que existe um Deus, e que ele quer que eu tire sarro da Bíblia. Que meu pai está lá com esse Deus agora, e com os amigos que ele nunca conheceu aqui na Terra: Moisés, Davi, Paulo…
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Para reabrir os trabalhos, um negócio que eu escrevi sobre ressurreição uma vez:
E há também a ressureição, é claro. Porque, vejam, hoje em dia você dizer que Jesus ressuscitou ou não dá no mesmo, ao menos em lugares razoavelmente civilizados. Porém, quando o cristianismo começou, professar essa certeza significava ser crucificado, ou comido pelos leões, ou exilado numa ilha remota até ficar maluco ou, na melhor das hipóteses, condenado a uma prisão domiciliar perpétua, que foi o que aconteceu a São Paulo. E, apesar disso, dezenas e dezenas de homens e mulheres continuaram afirmando que o tal judeu que morrera poucos anos antes era filho do único Deus existente, e que ressuscitara ao terceiro dia. Ei, há algo de errado aí. Pensem em Pedro, por exemplo. Pedro andou com Jesus o tempo todo. Devia ser seu discípulo mais chegado, se repararmos no quanto Jesus tirava sarro do coitado. Então: quando chegou a hora do vamos ver, Pedro não titubeou em fazer todas essas afirmações perigosas. Ora, se a ressureição fora um embuste, que razão o pescador teria para manter essa posição? Será que ele estava doidinho para morrer crucificado de cabeça para baixo?
E Tiago, então? Tiago era irmão de Jesus. E quem tem irmãos sabe bem que eles não vão dar muita trela para o que você fizer. Não sei se Einstein tinha irmãos, mas vamos supor que tivesse: aposto que o irmão de Einstein achou todo aquele negócio de Relatividade, revolução da ciência, nova visão do universo e o escambau apenas “outra bobagem dessas do Albert”. Tiago era irmão de Jesus, portanto devia ser o último a se deixar convencer pela religião fundada pelo primogênito da família. E no entanto, sabem como ele saúda os cristãos em sua epístola universal? “Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos da Dispersão, saudações”. Opa, aí está uma coisa que eu queria ver só uma vez: meu irmão se referindo a mim como “senhor”. Mas sabem quando isso vai acontecer? Nunca! Mesmo que um dia eu ganhe o Nobel de Literatura, ou descubra a cura definitiva para as frieiras, ou invente o moto-contínuo, meu irmão só vai olhar e dizer, “Ih, lá vem o Marco com as coisas dele”. Porque irmãos são assim, ora. Então por que Tiago não só se referia a seu finado irmão com o respeito devido a um deus, como ainda afirmou sua ressurreição, sendo levado à morte pela espada por isso? Não é normal, não é normal.
A fé que eu sustentei pela maior parte da minha vida era herdada de meus pais. Esse tipo de crença não se sustenta, e estou feliz por tê-la abandonado. Agora, porém, reconheço a possibilidade de voltar à fé por um caminho mais difícil e totalmente inesperado. E talvez não, talvez seja só minha cabeça me pregando peças. Eu sei lá. Nada no universo me leva a crer nem por um instante que exista algum tipo de deus, mas essa questão toda de Jesus Cristo me apoquenta diariamente.
Leiam o post todo, se puderem. Não é particularmente bem escrito, mas é muito atual para mim.
Hoje eu dei uma idéia muito boa (modéstia à parte) para o quadro Identidade Nacional do CQC. O pessoal não quer fazer, então dou a idéia aqui para quem quiser tentar:
É uma situação com câmera escondida. Colocamos um grupo de meninos num playground. São todos atores, assim como é ator o pedófilo que chega e puxa assunto com os meninos. Ele dá doces, acaricia e pega no pintinho de todos, menos do menininho preto. A idéia é mostrar como as pessoas reagem a esse flagrante de racismo.
Tenho pensado em voltar a escrever aqui, mas sempre desisto. Só consigo pensar em escrever sobre meu pai e a falta que ele me faz, mas não quero. Não quero gente opinando sobre isso, como se alguém tivesse idéia do que estou passando nos últimos meses.
Pensei em voltar com o blog antigo, continuar tirando sarro da Bíblia, que se foda. Tenho tentado acreditar em Deus, mas não consigo. Nenhuma revelação acontece, é claro, e os argumentos de quem acredita soam ingênuos, infantis ou claramente desonestos. Só que não quero tirar sarro da Bíblia. Meu pai gostava muito da Bíblia, lia todo dia. Não vou fazer pouco de algo que era tão importante para ele, que era o lastro da vida dele.
Então não quero escrever nada. Foda-se.
Quê? Não, não tem texto. É só isso mesmo.