Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em December de 2010

Aborto

Perguntaram pra mim se ainda gosto dela se eu sou a favor do aborto. Respondi tenho ódio que sou contra e o Andréca me pediu pra colar a resposta aqui no blog. Então aí vai:

Sou contra [o aborto]. Já explico.

Durante muito tempo, eu fui jurado no Tribunal do Júri de Penha de França, aqui em São Paulo. Aprendi nas sessões o conceito de “in dubio pro reo”: se há alguma dúvida sobre a culpa, o benefício é do réu. Isso, no caso de um júri, significa votar pela inocência do réu se você tiver qualquer dúvida quanto à culpa dele. É ruim pensar que você pode ter soltado um culpado, mas pior ainda seria viver com a sensação de ter ajudado a condenar um inocente. Por isso mesmo sou contra a pena de morte: para condenar alguém à morte você precisa ter certeza absoluta; o que não é fácil.

E o que isso tem a ver com o aborto? Muito pouco, só a questão da dúvida. Quando começa a vida? Na fecundação, na terceira semana, no terceiro mês, no quinto mês? Ninguém sabe. Não adianta falar que o aborto é legal até a sexta semana, por exemplo: ninguém sabe se um feto de seis semanas é ou não um ser humano. E aí, o que que faz? Aceita a possibilidade de matar uma pessoa?

O que eu vejo por aí é muita gente falando que tem que liberar o aborto porque o mundo está cheio de crianças na rua roubando, fumando crack etc. As pessoas são a favor do aborto para se livrarem da visão dessas crianças e do medo que têm delas. Não pensam nas crianças: pensam no próprio conforto, na própria segurança.

Outro argumento que se usa muito é que tem muita gente fazendo aborto em clínicas clandestinas, com agulha de tricô, cabide de arame, vareta de medir o nível do óleo, sei lá.Aí dizem que seria melhor liberar o aborto. Só que tem a questão da vida: se o feto abortado já é um ser humano, o aborto é assassinato, não importa se feito num fundo de quintal com uma vara de pescar ou numa clínica, com todo o conforto e tecnologia.

Ok, pode ser também que o feto NÃO SEJA um ser humano e que o aborto não tenha nenhum problema moral. Mas eu é que não quero viver com essa dúvida.

Todo dia

Eu gosto de H2OH, aquela bebida que nego chama de Sprite sem gás. É sem gás mesmo, e quase sem gosto. Mas eu resolvo isso fácil: espremo um limão no copo, encho de gelo e preencho o pouco espaço que resta com a soda choca. Por conta disso, uns meses atrás eu comprei um espremedor de limão. Um troço besta assim:

Preciso explicar o funcionamento? Você corta o limão no meio, bota uma metade ali dentro, espreme, abre, joga o bagaço fora, bota a outra metade, espreme de novo, pronto. Muito simples, só um retardado se confundiria.

Bom.

Não sei o que aconteceu depois que nos mudamos pra casa nova. Talvez eu tenha ficado mais retardado, talvez o espremedor tenha ficado espremido demais na caixa durante a mudança. Só sei que durante vários dias seguidos eu não conseguia espremer um limão direito. Ou melhor, conseguia: o problema era depois. Eu ia abrir o espremedor, ele emperrava. Eu forçava, ele abria de repente, a parte de cima dava uma volta de 180 graus, batia na borda do copo e lá se ia o suco de limão — e, pelo menos duas vezes, o copo. Eu xingava, rosnava, um inferno.

Quando meu pai voltou do hospital depois do primeiro infarto (está tudo bem, foi só um susto, vamos contar histórias), contei meus dissabores com o espremedor de limão. Ana Carlota estava inconformada com a minha capacidade de complicar algo tão simples. Pois contei, ela riu, meus pais riram.

— Não é engraçado! — protestei.

— Se acontece todo dia — meu pai, a sabedoria de sempre — é engraçado, sim.

Rimos todos. Foi a última vez que vi meu pai com vida. Foi numa segunda-feira. Ainda falei com ele pelo telefone no meio da semana. No sábado, ele morreu.

Isso foi há dois meses. Eu não espremi mais limão. Ainda choro e tenho insônia todo dia. Nem tudo que acontece todo dia é engraçado.

A pequena cética

Ana Júlia…

(Sim, o blog é sobre a minha sobrinha agora. Pau no seu cu.)

Ana Júlia ganhou essa Bíblia aí do lado, presente do Mackenzie. O texto é a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, da Sociedade Bíblica do Brasil. De diferente, só a capa e os desenhos. O formato é aquele normal de bíblia: duas colunas, letra miudinha, notas de referência com letrinha menor ainda.

No domingo, Ana Júlia já tinha demonstrado seu novo interesse pela Bíblia. Disse que o vovô morreu por causa de duas coisas: o infarto e a Eva.

— Que Eva?

— A Eva, ué. Não era pra gente morrer, nunca. Mas aí a Eva comeu uma maçã envenenada, e agora a gente morre.

Nisso que dá ilustrar a Bíblia: a criança acaba enfiando elementos de desenho animado. Então ontem ela me trouxe a Bíblia nova. Ia me mostrando as figuras e pedindo para eu contar a história de cada uma.

— Quem são esses bebês?

— Esaú e Jacó, eles eram gêmeos. o Jacó nasceu segurando o calcanhar do Esaú porque queria ser mais importante do que ele.

— E esse?

— Esse é Moisés. A mãe dele não tinha condições de criar ele, então botou ele num cestinho no rio. A filha do rei pegou ele pra criar.

— E esse, com um monte de  sapo?

— Esse é o faraó, que era o rei do Egito. Deus mandou um bilhão de sapos pro Egito porque o faraó não queria deixar o pessoal do Moisés ir embora. Eles eram escravos.

Então ela chegou à página que mostra o maná. Na ilustração, um judeu com cara de personagem de desenho da Dreamworks estende a mão como quem vê se tá chovendo. Há pedaços de maná no chão, nas pedras e um pedacinho na palma da mão dele.

— E isso aqui, é o quê?

— É o maná. O povo do Moisés já tinha saído e tava andando no meio do deserto. Aí ficaram com fome, reclamaram um monte, e Deus fez chover pão do céu.

— Pfffffff… HAHAHAHA! Pão do céu! “Tá Chovendo Hambúrguer“? HAHAHAHAHA!

Acho que o pessoal do Mackenzie tá perdendo tempo com essa menina.