Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em February de 2010

Ca’d'Oro

Foi Dona Nilda quem cantou a bola no Twitter: o Grand Hotel Ca’d'Oro, que fechou em dezembro, está leiloando de tudo: móveis, utensílios, objetos de decoração, máquinas — tudo. Isso é meio triste para todo mundo em São Paulo, eu acho. O hotel tinha lá sua importância pra cidade.

Até o chafariz está no leilão.

Fabrizio Guzzoni, o fundador, vinha de uma família de Bergamo, norte da Itália, que estava no negócio de hotelaria desde o século XIX. O hotel teve sua primeira encarnação como restaurante em 1953 e virou hotel em 1956. Tanto o hotel quanto o restaurante viraram símbolos de tudo o que havia de sofisticado em São Paulo.  O Ca’d'Oro, parece, foi o primeiro cinco estrelas da cidade. Todo mundo se hospedava lá: o rei da Espanha, o presidente Figueiredo, o Raul Seixas.  Dez anos depois da inauguração do primeiro restaurante, um baiano de 19 anos chamado Lindauro entrou para a folha de pagamento de Fabrizio Guzzoni como faxineiro. Lindauro, vocês sabem, é meu pai.

Meu pai foi faxineiro, almoxarife, apontador de obras e não sei mais o quê. Foi por muitos anos gerente de manutenção, seu trabalho preferido até hoje. Foi também gerente de compras por algum tempo. Ganhava mais, mas não gostava do cargo. Pediu demissão, abriu uma floricultura, não deu muito certo. Voltou uns anos depois, a pedido de Fabrizio Guzzoni, para ser novamente gerente de manutenção. Trabalhou no hotel por quase 40 anos, com alguns intervalos. Quando eu e meus irmãos éramos crianças, meu pai levava a família para Itanhaém. Ficávamos hospedados na casa do Seu Guzzoni (ou Seu Fabrizio, como minha mãe preferia) na Praia do Sonho — na época em que a Praia do Sonho era chique.

Só aos catorze ou quinze anos de idade eu só fui conhecer Seu Guzzoni. Foi estranho ver de perto aquele homem de que meu pai tanto falava; aquele homem que tinha para mim uma imagem de rico honesto, trabalhador e que tinha confiança absoluta no meu pai e em quem ele recomendasse.  Acho que pelo menos seis dos oito irmãos do meu pai trabalharam no Ca’d'Oro. Dois irmãos da minha mãe também trabalharam lá, e até meu avô paterno teve seu período de funcionário dos Guzzoni. Um tio que mora em Itanhaém era o caseiro na Praia do Sonho.

*   *   *

Em 2005, Seu Guzzoni chamou meu tio Zé (José Augusto, mas só meu pai o chama assim) à sua mansão no Morumbi. Esse meu tio carrega os genes artísticos da família da minha mãe: entalha coisas em madeira, pinta, canta, monta geringonças eletrônicas, o diabo. Pois Seu Guzzoni o chamou lá para encomendar um serviço. Entregou a ele uma tábua de madeira de lei. A madeira, ele explicou, era usada como tábua de carne ou para cortar limão para as caipirinhas nos churrascos que servia aos amigos — no tempo em que tinha amigos. Pediu ao meu tio que envernizasse a tábua e entalhasse nela a inscrição La Rialta em letras góticas.

O Zé voltou dias depois com a tábua pronta e Seu Guzzoni o convidou para entrar. Ele nunca tinha entrado no escritório do velho. Ficou impressionado com os móveis, as pinturas, os tapetes e que-sei-eu. Seu Guzzoni falou da vida, da recente viuvez. Meu tio conta que ficou triste ao vê-lo daquele jeito: riquíssimo, mas sozinho no mundo. Depois de um tempo conversando, o velho pagou o combinado e pediu um último favor: que ele dependurasse a tábua na entrada da mansão. Meu tio pegou uma corda, uma escada, e ajustou a tábua acima da porta de acordo com as instruções do dono da casa (“Mais pra lá… Mais pra cá… Tá bom aí”). Desceu da escada e reparou que o velho olhava fixamente para a tábua, emocionado.

— Seu Guzzoni… O que é “La Rialta”?

— Era o nome da casa onde eu nasci, lá na Itália.

Fabrizio Guzzoni morreu duas semanas depois.

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Os cinzeiros do Ca'd'Oro: Raul Seixas mijou num desses

Mesmo ano passado, aposentado já há alguns anos, meu pai ainda pensava em voltar ao Ca’d'Oro. “Bom mesmo seria se o hotel me chamasse”, ele falava às vezes. Então, como eu dizia, esse leilão das coisas do hotel deve ser triste para todo mundo em São Paulo, mas é bem triste para mim. Parece que pegaram uma foto minha pelado aos dois anos de idade e botaram na internet: não chega a ser um escândalo, mas incomoda um pouco. Todo mundo sabe da importância do Ca’d'Oro, mas só lá em casa sabemos da vez que o Raul Seixas (“umas perninha fiiiina…”) passou uma manhã inteira encolhido na beira da piscina, para se levantar à tarde, ir até o hall de entrada e mijar num daqueles cinzeiros de saguão de hotel. Outra exclusiva: meu pai era gerente de compras quando o Luciano Pavarotti veio para o Brasil e se hospedou no hotel. O Pavarotti inventou que queria cozinhar no quarto, e Seu Lindauro que teve de correr atrás de comprar o que ele precisava — fogão, panelas de ferro, dúzias de tomates.

Teve uma vez que uns africanos entraram no elevador e o sujeito que estava com meu pai comentou:

— Ó o tamanho desses negão. Um feladaputa desse pega leão na unha, Lindauro.

Quando eles desceram, meu pai explicou ao cara que eram angolanos, falavam português e tinham entendido tudo.

Em outra ocasião, Seu Guzzoni apareceu na manutenção com o zíper da calça aberto.

— Ô, Seu Guzzoni — avisou um funcionário mais gaiato. — O passarinho vai voar.

— Fica tranqüilo, meu filho, que esse passarinho aqui não voa faz tempo.

Tem também a história de um funcionário do hotel que enfiava um dente de alho no cu para ter febre e ir pra casa mais cedo.

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Contei para minha mãe o negócio do leilão, para minha irmã, para o Zé. Todo mundo ficou triste. Meu pai ficou mais ainda, é claro. Sábado nós vamos até o hotel olhar as peças que estão no leilão e ver se tem alguma coisa que valha a pena. Quero pelo menos comprar uma lembrança pro meu pai, algo que lembre o lugar onde ele passou a maior parte do tempo, durante a maior parte da vida, para que eu e meus irmãos pudéssemos ser alguma coisa.

Vou pedir asilo

É isso mesmo: vou pedir asilo pro Tio Sam e quero ver não me darem. Explico:

Vocês já devem ter lido por aí (se não leram, tem a notícia da Folha só para assinantes aqui e reproduzida aqui): um rapaz de Minas Gerais pediu asilo nos Estados Unidos porque sofre perseguição no Brasil por ser gay. Muito bem. A justiça americana dá brecha (epa) para gays perseguidos mundo afora pedirem asilo por lá. Acho muito certo. Imagino a merda que deve ser a vida de um gay — pior ainda, de uma lésbica — num país muçulmano, por exemplo.

Não é o caso do Brasil. Moro no meio do reduto gay, vejo a bicharada espevitada todo dia na rua. Então não vejo essa perseguição aos gays, mas também não sei da missa a metade. O sujeito lá de Minas é gay, se sente perseguido, foi pedir asilo na gringa, aceitaram. Ponto pra ele.

Palmas pra ele!

Só que aí tem um negócio: diz que a primeira vez que ele sofreu discriminação foi quando recebeu uma repreensão verbal da polícia no Largo do Arouche.

Peraí.

Índio Caçador, ícone do Arouche

Eu moro no Largo do Arouche, já trabalhei no Largo do Arouche, conheço o Largo do Arouche há anos (e não adianta o Arouche dizer que não — *rimshot*). EU sofro discriminação no Largo do Arouche. EU é que sou estranho por lá, passando de mãos dadas com minha marida do sexo oposto. Os policiais daquele posto nem têm como discriminar os gays, pelo simples fato de que são milhares de gays passando por lá o tempo todo. Fora isso, dizer que é perseguido porque levou uma repreensão verbal dos puliça é muita veadagem.

Mas quem sou eu para dizer alguma coisa, né? O negócio é procurar uma fonte confiável nesses assuntos. E quem melhor do que o Grupo Gay da Bahia? Segundo o site deles, o GGB é  “… a mais antiga associação de defesa dos direitos humanos dos homossexuais no Brasil”. Os caras são respeitados, então a defesa do gayzim mineiro usou dados do GGB para respaldar o pedido de asilo. Segundo eles, o Brasil é um país perigoso porque foram mortos 2.998 homossexuais em — olha só! — 29 anos.

Peraí de novo. Vamos fazer continhas.

Segundo o Mapa da Violência nos Municípios Brasileiros, do Ministério da Saúde, quase 50 mil pessoas são assassinadas por ano no Brasil. Para ser mais exato, a média entre 2000 e 2006 foi de 48.173 homicídios por ano. Vamos considerar 48 mil por ano, então.  Lembrando: segundo o GGB, foram 2.998 gays mortos em 29 anos — 103 por ano.

Estão acompanhando até aqui? Então. Segundo o próprio GGB (aqui, em artigo assinado por Luiz Mott, presidente do grupo) os homossexuais são 10% da população brasileira. De cada 10 brasileiros, um é gay. E aí vem a distorção: quando se fala de homicídios, essa proporção aí é de 467 para 1. Ué. Nem é tão perigoso ser gay no Brasil. Perigoso mesmo é nascer aqui — gay ou não.

Vou pedir asilo nos EUA dizendo que o Brasil não é seguro para os gordos (ou carecas, ou encardidos). Quero ver quem é que me contesta.

A mulher do compadre Mané Pedro – parte 2

Um sujeito muito legal chamado Vinícius achou no YouTube a cena de Cabaret Mineiro que me persegue há anos (para entender, leia esse post). Muito obrigado, rapaz.

O carnaval na minha janela

Que alegria! Hoje tem o Grito de Carnaval Gay 2010 no Largo do Arouche. A veadagem toda se acabando com muito samba, suor e ouriço (nunca entendi essa do ouriço). O pior: se eu fizer o que eu tenho vontade — abrir a janela e mandar todo mundo tomar no cu — posso até ganhar um fã-clube.