Ana Júlia gosta quando eu viro bichão.
Ana Júlia, vocês sabem, é minha sobrinha de quatro anos. Bichão é um monstro qualquer, um conceito vago de ser assustador. Basta arregalar os olhos, arreganhar os dentes e engrossar a voz: pronto, sou um bichão. Ela berra e sai correndo. Às vezes variamos: eu viro um vampiro, ela vira uma bruxa. Eu viro um lobisomem, ela vira uma mula-sem-cabeça. Nós dois viramos caveiras. Em todos os casos, bebemos sangue da família toda e tomamos tinta de polvo (coca-cola).
Faz um tempo, eu estava deitado na rede lá na casa da minha mãe, lendo Stephen King. Ana Júlia desceu a escada, chegou perto.
— Marco, você ainda tá lendo livro de bichão?
— Tô.
— Hum. Vira um bichão, então.
Eu não queria virar bichão. O livro estava bom, a rede estava boa.
— Depois, Ana Júlia.
Ela apelou:
— Por favoooooooooooooor.
Eu continuei dizendo que não, que estava lendo, que depois a gente brincava.
— Então eu vou embora — ela disse. Amarrou a cara e subiu a escada batendo os pézinhos. No meio do caminho, fez cara de quem lembrou de alguma coisa. Parou, enfiou a mão no bolso, abriu um sorriso e voltou correndo.
— Toma — ela berrou, estendendo uma moeda de um real. — Pra você virar um bichão.
Depois dessa, virei o bichão de graça, e com gosto.