Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em 2008

Jeú é ungido rei e mata geral

(II Reis 9)

Jeú era um idiota.

Amarelo e voluntarioso, atarracado e boquirroto, caspento e santarrão, tinha suas convicções gravadas em pedra, e ai de quem discordasse. Para ele, só pudim de leite era sobremesa, só Amélia era mulher de verdade e só Javé era deus. Pavê, Jezabel e Baal não eram meras divergências de opinião ou gosto: eram aberrações inadmissíveis e que deveriam ser punidas com a morte. Como nem mesmo a lei mosaica chegava ao absurdo de condenar ao apedrejamento quem comesse uma ambrosia, Jeú concentrava seus esforços em buscar maneiras de perseguir os adoradores de outros deuses.

Jeú, o idiota, era tudo o que Javé esperava do próximo rei de Israel.

__________

Com a sunamita de volta e toda propensa a discutir a relação, Eliseu achava mais prudente permanecer amocambado. Para passar o tempo, relembrava Elias, seu professor, e organizava os objetos pessoais deixados pelo velho profeta depois de abduzido por um redemoinho. Sentado no chão com as pernas dobradas, Eliseu lia mais uma vez a lista de coisas a fazer de seu mestre:

  • lavar a túnica
  • comprar leite
  • comprar azeite (o mais baratinho)
  • ungir Eliseu
  • ungir Hazael
  • ungir Jeú

— Puta que pariu!

Com sua partida repentina, Elias deixara algumas coisas por fazer. Além do mais, Hazael estava destinado a criar problemas para os israelitas, e Jeú, como todos sabiam, era um idiota. Talvez Elias tivesse esquecido de propósito de ungir os dois. Eliseu, porém, não tinha a mesma moral com Deus, então precisava cumprir suas ordens. Ungir Hazael nem fora tão difícil, mas ir anunciar àquele pedaço de asno que ele seria o futuro rei de Israel, ah, já era demais.

Sem vontade de ser cúmplice daquela palhaçada, mas também sem ter como evitar cumprir a ordem divina, Eliseu escolheu uma saída que o poupava da melhor forma possível: mandar um estagiário de profeta. Assim evitava o risco de ser interpelado pela mulher e não precisava perder seu tempo besuntando um imbecil.

— Moleque, vem cá!

— Sim, seu Eliseu.

— Conhece Jeú?

— Jeú…?

— Filho de Josafá, neto de Ninsi.

— Ah, sim. O babaca.

— Shhhhhhh… Não fala assim do nosso futuro rei.

— COMO É?

— Fala baixo, porra! Tenho uma missão para você. Você vai até Ramote-Gileade, vai procurar Jeú e levá-lo discretamente para um canto. Aí você vai derramar esse azeite aqui na cabeça dele e falar aquela papagaiada de sempre. Você já teve aula de unção?

— Tive, mas não fiz prova ainda.

— Fica valendo sua nota. Vai lá, fala pra ele que Javé o está ungindo como Rei de Israel, repete a maldição contra os descendentes de Acabe, seja bem específico naquela parte sobre o corpo de Jezabel ser comido pelos cachorros. Feito isso, saia correndo de lá, antes que algum alcagüete do rei o dedure. Entendeu?

— Mais ou menos. Vou precisar estudar mais esse lance da maldição dos cachorros e não sei o que mais.

— Tô fodido…

___________

O moleque até que cumpriu direitinho sua tarefa: foi a Ramote-Gileade, encontrou Jeú em casa reunido com os amigos, separou-o habilmente dos outros, fez seu discurso e saiu correndo. Jeú voltou à sala onde os amigos continuavam a conversa.

— Jeú! O que o estagiário dos profetas queria com você?

— Vocês sabem muito bem!

— …

— RAÇA DE INFIÉIS! O RAPAZ VEIO ANUNCIAR, EM NOME DE JAVÉ, QUE EU SEREI O NOVO REI DE ISRAEL E QUE VARREREI DO MAPA A ESCÓRIA IDÓLATRA QUE EMPESTEIA O AR DE SAMARIA, MOSTRANDO QUE SÓ JAVÉ É O SENHOR DOS EXÉRCITOS, SOBERANO E MARAVILHOSO, AMÉM?

— Ah, isso. Legal.

— VIVA O REI!

— Viva!!!

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— E aí, homem?

— Mesma coisa, majestade. Juntou-se a eles.

— Merda.

Já era o terceiro emissário que o rei Jorão enviava ao encontro dos misteriosos visitantes, e pela terceira vez suas ordens eram desobedecidas e o mensageiro unia-se à horda. O rei estava de cama, ainda recuperando-se dos ferimentos sofridos na batalha contra os Sírios, e recebia a visita de Acazias, rei de Judá. O guarda que estava na torre via o grupo se aproximando, agora já engordado pelos três empregados do palácio.

— O que você me diz, guarda?

— Sei não, majestade. Mas pelo jeito que o chefe deles dirige, eu acho que é Jeú.

— Jeú, o idiota?

— Esse.

— Ai meu cu…

— Pomadinha?

— CALE-SE! Acazias, o que vamos fazer com esse débil mental?

— O rei aqui é você, estou só de visita.

— Ah, é. GUARDA! Mande aprontarem meu carro. Eu mesmo vou até lá ver o que está se passando.

Saíram, então, os dois reis ao campo, cada um em seu conversível. Ao chegar mais perto, Jorão confirmou as suspeitas do guarda: era mesmo o chato do Jeú. Não era à toa que os mensageiros haviam se unido a ele: seu discurso inflamado e impregnado com a chama do fundamentalismo religioso era uma apelo muito forte para o povão.

— Jeú, você vem como amigo?

— AMIGO? COMO PODEMOS SER AMIGOS SE A IDOLATRIA CORRE SOLTA EM ISRAEL? O SENHOR NÃO SE DEIXA ESCARNECER, REI JORÃO! A IRA DE JAVÉ VISITA A INIQÜIDADE DOS HOMENS ATÉ A QUINTA GERAÇÃO! NOSSO DEUS É FOGO CONSUMIDOR!

— Hum. Não vem como amigo, então?

— NÃO!

— Corre, Acazias! Esse puto está aprontando pra gente!

Os dois reis deram meia-volta e saíram a toda. Mas Jeú tinha uma excelente pontaria, e acertou uma flechada nas costas de Jorão. A flecha varou-lhe o coração e o rei caiu morto ali mesmo, dentro do carro. Então Jeú disse a Bidcar (que era seu ajudante, mas também é um nome porreta para um site de leilão de automóveis):

— Jogue o corpo desse pecador no campo que pertenceu a Nabote.

Acazias ainda conseguiu despistar os soldados de Jeú por um tempo, mas acabou ferido na estrada. Conseguiu chegar até a cidade de Megido, onde morreu.

__________

A morte dos dois reis era a parte principal do plano de Jeú, mas não a que mais lhe causava ansiedade. Seu real objetivo desde o começo era Jezabel, a viúva de Acabe e mãe de Jorão. Ela estava em sua casa em Jezreel, chorando a morte do filho, quando soube que o traidor se dirigia à cidade. Então lavou o rosto, maquiou-se e saiu à janela. Sua intenção era não demonstrar fraqueza diante do inimigo, mas é claro que ela entrou para a história como uma biscate que, num último lance desesperado, tenta seduzir um justo. Ao ver Jeú se aproximando, não esperou que ele a encontrasse. Em vez disso, tratou de saudá-lo com sarcasmo:

— Olá, Zinri!

Era uma ofensa muito séria em Israel. Anos antes, Zinri assassinara o rei Elá para assumir o trono. Reinou por apenas sete dias e acabou morto por Onri, que viria a ser pai do rei Acabe. Chamar alguém de Zinri era fazer pouco de suas ambições e desprezar publicamente seu gesto de traição. Mas Jeú estava totalmente imbuído de sua missão purificadora. Isso e o fato incontestável de ser um idiota o tornava imune à ironia. Ele apenas gritou para dentro do palácio:

— SE ALGUÉM ESTIVER AO MEU LADO, QUE JOGUE ESSA MULHER DAÍ!

E, como a estupidez humana é a única força com que se pode contar sempre, três oficiais do palácio obedeceram a ordem e defenestraram a mulher indefesa. O impacto da queda foi tão forte que o sangue de Jezabel respingou nos cavalos. Jeú passou por cima do cadáver e ordenou que a enterrassem, apenas por deferência devida à filha de um rei. Mas os homens que receberam a ordem ficaram enrolando um pouco por ali e, quando saíram, encontraram pouco mais do que os ossos da defunta. Como prometido por Javé, seu corpo havia sido devorado pelos cães.

Ao receber a notícia, Jeú sorriu, satisfeito. Gostava do rumo que as coisas estavam tomando. E era só o começo.

Marina Elali

Canta porra nenhuma. Mas convenhamos (ou vamo combiná, como dizem os idiotas): quem se importa?

Quase romântico

Começo a achar que aqui no centro da cidade tudo é um tanto diferente. Hoje mesmo saí em busca de uma casa de ferragens aberta (tentei instalar um varal de teto usando uma bucha 6 em um furo feito com broca 8, vocês podem imaginar o resultado depois que pendurei a primeira calça jeans molhada) e vi andando logo à minha frente um casal que me lembrou o de Estrangeiro, do Caetano Veloso. O velho devia mesmo ter cabelos nas narinas, não reparei. A menina, uma mulatinha gorducha, não era quase adolescente e nem muito linda. Mas a diferença de idade e a forma como andavam abraçadinhos me fez sorrir, sei lá por quê.

Trechos ocasionais da conversa me chegavam às orelhas. Ele contava alguma história de amor antigo, ela só ria. Imaginei a história toda enquanto chegava mais perto dos dois: ele narrava um romance marcante, talvez a história de como conheceu a esposa com quem ficou casado por 40 anos. Achei bonito aquilo, o velho empolgado com um novo amor contando à namorada tão mais jovem uma história de tempos passados, de quando ela nem era nascida.

Emparelhei com os dois e reduzi o ritmo da caminhada para ouvir melhor as doçuras que o ancião sussurrava ao ouvido da amada risonha. E o que escutei me fez reformular a história toda:

— Aí eu estourei o cabaço dela e rebentei minha fimose também!

Comecei a escrever um capítulo novo, mas o varal tornou-se prioridade. Tenho um bacião cheio de roupas molhadas. É dura a vida de dono-de-casa.

O Brasil é a casa do chapéu

Ô, raça!

Bom sinal

Ontem, finalmente, eu peguei minhas bíblias e livros de referência na casa dos meus pais.

Talvez isso signifique capítulo novo no fim-de-semana.

Talvez…

Meu primeiro disco

Peguei a da Fer:

  1. O título desse verbete aleatório da Wikipedia será o nome da sua banda.
  2. As quatro últimas palavras da última frase dessa página de citações formarão o nome do seu disco.
  3. A terceira foto dessa página do Flickr será a capa do seu disco.

Meu primeiro resultado:

Faça o seu!

Download Day

Download Day 2008

A torneira, essa desconhecida

Morando sozinho há duas semanas, depois de 33 anos no recôndito do lar paterno, tenho vivido dias de epifanias constantes. Por exemplo: eu tomo meu café de manhã, deixo a louça toda na pia e vou trabalhar. Depois vou à faculdade. Quando chego em casa de novo, está tudo exatamente no lugar onde eu havia deixado. Ao contrário do que acontecia na casa de meus pais: lá a louça voltava para os armários em algum momento no decorrer do dia. Acho que os duendes daqui não são tão eficientes. Ou não conseguem subir até o terceiro andar, porque suas perninhas são muito curtas para subir as escadas e eles são baixinhos demais para chamar o elevador. Sei lá.

Agora há pouco (sério, menos de uma hora) tive outra revelação dessas. Cheguei da faculdade, fui tomar um copo d’água e vi aquele anel cromado que envolve a base da torneira ali dependurado, como está desde o dia da instalação. Explicando: resolvida a papelada da locação, uma de minhas primeiras providências foi trocar a torneira da cozinha. A torneira original era muito xexelenta e não combinava com minha belíssima pia (comprada, não se esqueçam, no Mercado Livre a um preço ridículo). Então comprei uma torneira metida a besta, de aço inox com filtro acoplado, e tratei de efetuar a troca, sob o olhar entre temeroso e cético de Ana Carlota, minha conmuitasorte. Para decepção dela, a torneira foi instalada sem maiores percalços. Para minha decepção, o tal anel cromado, que deveria dar o acabamento entre a parede e a torneira, ficou dependurado. Bom, ficou um negócio esquisito, não vale a pena tentar explicar. Basta que vocês saibam que eu tenho problemas e aquele treco me incomodou por alguns dias. Mas a preguiça é a força que me move, então logo eu me esqueci do acabamento da torneira. Até hoje.

Entendam que o Marco Aurélio de hoje não é o mesmo de um mês atrás. Ah, de jeito nenhum! Sabem por quê? Porque semana passada eu e minha noiva, adultos que somos, instalamos um chuveiro. Sozinhos! Então hoje, como eu disse, tomei minha água, vi lá aquele negócio pendurado, balancei, dei descarga, voltei à cozinha e vi aquele outro negócio pendurado. Aquilo foi me dando um incômodo, que virou raiva, que virou desespero, e resolvi que hora de dar um basta à situação. Vim até o escritório, peguei o rolo de veda-rosca e fui resolver o problema.

Digo-lhes: uma torneira não é mecanismo tão simples quanto parece. É uma máquina ardilosa e cheia de manhas. Outra diferença para a casa de meus pais: lá as torneiras eram bem mais singelas em seu funcionamento. Aqui é uma complicação. Primeiro tentei tirar a desgraçada da parede e a rosca metálica trouxe junto uma outra, de plástico, que desempenhava o papel de adaptar a torneira ao cano. Toca procurar ferramenta para tirar a peça extra, e nada. Até que tive a idéia de enrolar a bicha (tem várias aqui na vizinhança, mas não é disso que estou falando, deixem de bestagem) em um pano de prato e arrancar com as mãos mesmo, técnica que eu já havia empregado para retirar o chuveiro antigo. Funcionou. Então envolvi as duas roscas, metálica e plástica, em voltas e mais voltas de fita veda-rosca. Meu raciocínio era simples: com o volume extra, a torneira não entraria tão fundo no cano da parede e o anel cromado do inferno ficaria em seu devido lugar.

Qual o quê! Ao tentar montar o esquema todo de novo percebi que a determinada altura a torneira girava em falso. Abri o registro e um fio de água começou a escorrer parede abaixo. Cocei a cabeça, fechei o registro, desmontei tudo, tirei a fita, remontei, abri o registro novamente. Tudo na mesma. Sorri, desmontei tudo de novo. Sim, sem fechar o registro. Um jato d’água fortíssimo (a caixa fica dez andares acima) espalhou água por toda a cozinha. Eu demorei para entender o que acontecia, e depois demorei mais para fechar o registro maldito com as mãos molhadas.

Olhei à minha volta e me senti como Noé. Sem desanimar, no entanto, fui até o banheiro pegar o rodo para livrar o chão da cozinha daquele dilúvio. Fiz o que pude (não muito) e resolvi vedar a torneira feladaputa com silicone. Abri o gabinete da pia e fiquei feliz por encontrar uma bisnaga intacta. Abri a embalagem, cortei o bico, furei onde tinha que furar e apertei. Nada. Apertei mais. Nada. Mais. O fundo da bisnaga estourou, jorrando silicone pra todo lado. Espalhei aquela porra de qualquer jeito, rosqueei a torneira como deu e fui tomar banho, na esperança que algum duende solidário e pernalta viesse resolver ao problema.

Ao voltar à cozinha, a situação ainda era a mesma. Nada de duende pernalta. Embrulhado em uma toalha, tratei de abrir as janelas e puxar toda aquela água para o ralo. Depois ainda fiquei uns bons cinco minutos procurando minha cueca. Estava sobre o espaldar de uma cadeira. Triste.

Agora estou aqui, ainda com resquícios de silicone seco nas mãos, esperando que a cozinha seque por si só e que a vedação porca seja ao menos eficiente. E lhes digo: torneira é um bicho muito temperamental. Se as de sua casa funcionam, deixe-as quietas.

Ofensa velada

Após uma reportagem sobre a devastação da Mata Atlântica, o Jornal Nacional passa a falar da posse do novo ministro do Meio Ambiente. A matéria inclui um trecho do discurso de Lula durante a despedida da ex-ministra:

— Olhar para tua cara, ministra Marina Silva, é olhar para a cara do meio ambiente nesse país.

Ou seja: a cara da ministra está pior do que ela pensava. Coitada.

Agüentem aí

Um monte de gente cobrando capítulo novo. Fico feliz e tal, mas o negócio é que agora não dá. Tenho esquecido de jantar ultimamente, então vocês imaginem como está o blog em minha escala de prioridades. Tenham paciência, meus caros. Juro que volto.

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