Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em 2008

Complicação, crise evolução, resolução

Segura, que eu vou abrir meu coração. Sentaí, espie.

COMPLICAÇÃO

Depois de três semanas no emprego novo, escrevi minhas primeiras matérias para a revista. Eu vinha escrevendo notas para as newsletters semanais e entrevistando gente para essas matérias. Eu não gosto muito dessa fase de apuração, então foi um alívio chegar à parte que me dava prazer de verdade. Apurar envolvia interação com pessoas, pesquisa, conciliação de agendas. Escrever era um ato solitário: era só deixar a inspiração fluir, derramar fios de ouro pela tela do computador e me recostar para receber os elogios com modéstia fingida.

Só que quando comecei a escrever, percebi que tinha feito todas as perguntas erradas nas entrevistas, que tinha dedicado pouco tempo à apuração e que o texto ficaria capenga. Mas eu tinha um prazo a cumprir, então escrevi. Ao entregar as matérias, avisei logo ao chefe que não estavam lá essas coisas.

No dia seguinte, ele me chamou para conversar sobre os textos. De fato, ele disse, estavam ruins. Muito ruins. Iam sair assim mesmo, porque não dava mais tempo. Mas eu tinha produzido notas boas, era capaz de coisa muito melhor do que aquele negócio disforme.

O chefe é um cara bondoso, então depois me contou histórias de outros repórteres, passados e atuais, que entregaram coisa muito pior da primeira vez. Minha vaidade filtrou essa parte. Eu só conseguia pensar que estava no lugar errado, que nunca conseguiria o que aquela gente queria de mim. Eu queimava de vergonha, e queria sumir da sala, do prédio, da cidade, do mundo.

CRISE EVOLUÇÃO

1. Flashback

Tanto me chamaram de inteligente a vida toda, que eu acabei pensando que era algum tipo de gênio. Eu captava tudo de primeira, com a maior facilidade. Meu cérebro era uma esponja de absorver informação, um computador de processamento rápido, grande capacidade de armazenamento e conectado ao mundo. Não havia para mim pior ofensa do que “esforçado”. “Fulano é muito esforçado”, alguém dizia, e eu logo pensava que o cara era retardado.

Espie.

Eu tive uma bicicleta quando era criança. Tinha aquelas rodinhas atrás. Depois de um tempo, adquiri confiança para tirar as rodinhas, e me equilibrava bem em cima da danada. Então como é que até hoje, aos 33 anos de vida, eu não sei andar de bicicleta?

O negócio é que chegou a hora de aprender a fazer curvas, subir e descer ladeiras, essas coisas. Para isso, eu precisava sair do conforto do quintal dos fundos e ir pedalar na rua junto com as crianças normais. Mas isso implicaria em reconhecer para todo mundo que eu não sabia andar de bicicleta.

Anos depois, criei minha versão do motivo pelo qual não sei andar de bicicleta: um amigo gordo foi me visitar, sentou na bicicleta, ela quebrou. Justo na época em que eu estava começando a aprender de verdade. Meus pais não podiam comprar outra. Fim da história.

A verdade é que meu amigo nem era tão gordo assim, coitado. A verdade é que a bicicleta quebrou porque estava enferrujada, após mais de três anos de abandono.

A verdade é que eu não sei andar de bicicleta porque não suporto admitir minha ignorância.

E esse é só um de muitos casos. Espie.

Lembro um dia, eu estava na segunda série. Cheguei em casa desolado depois de passar o dia tentando entender a divisão entre números de mais de dois algarismos. Depois de dominar sem problemas soma, subtração e multiplicação, sentia-me estúpido perante a divisão. Em casa, comecei a fingir que resolvia as contas passadas pela professora, sem conseguir fazer nada. Meu pai perguntou se estava tudo bem e eu desatei no choro. Demorei para contar a ele qual era o problema. Quando contei, foi com vergonha. Ele me explicou, eu acabei aprendendo. Mas acho que até hoje ele não entendeu nada. E eu até hoje tenho medo de divisões.

Uma vez eu tive febre porque não conseguia fazer uma planilha fazer funcionar direito, e tinha gente esperando a planilha ficar pronta. Não era nada de trabalho. Na verdade, eu estava fazendo um favor para a pessoa. Fiquei com febre a noite inteira.

Eu desisti de duas faculdades e só tirei carteira de motorista aos 30 anos. Tinha uma historinha inventada para isso também. Mas adivinhem qual foi a razão principal?

2. Tentativa e erro

Muita coisa aconteceu no ano em que cheguei aos 30, aliás. Comecei a namorar minha menina, e ela me deu a coragem de que eu precisava para mudar. Aprendi a tratar bem minha família imitando a família dela. Aprendi a dirigir. Pedi demissão e fui ser jornalista.

Isso tudo foi há mais de três anos. Eu me sentia no topo do mundo. Já dirigia relativamente bem — sabia até fazer baliza. Colegas e leitores elogiavam meus textos. Até me casei, vejam vocês.

E então um negócio esquisito aconteceu. Comecei a me sentir dono da situação. O medo de mostrar minha ignorância voltou. Saí do emprego. Fui trabalhar em outro lugar, era muito ruim, saí também. Comecei na nova editora há um mês.

A nova editora é totalmente diferente de qualquer lugar por onde passei antes. O chefe acredita que devemos contar histórias (ou estórias), e nos enche de livros e teorias sobre o ofício de escrever. Eu anoto as lições em papeizinhos que grudo na parede.

Não conte, mostre.

Escada da abstração.

Complicação-crise-resolução.

Sempre pergunte o nome do cachorro.

Ação não é igual a movimento.

Espie.

Eu achava que vinha me saindo bem. A cada semana o chefe editava menos os meus textos, e eu via que estava evoluindo. Aí escrevi aqueles dois textos para a revista, os dois ficaram ruins, o chefe detestou e eu entrei em parafuso.

Mas resolvi que ia me dedicar ao máximo para escrever o próximo texto. Imprimi minhas entrevistas e fiz anotações nas margens. Liguei para os entrevistados mais uma, duas, cinco vezes. Espalhei as folhas das entrevistas pelo chão da redação, e ficava andando por cima delas, lendo, tomando notas e tentando extrair um eixo lógico daquele emaranhado de informações. Os colegas começaram a dizer que eu era o cara do filme Uma Mente Brilhante. Achavam que logo eu ia começar a escrever nas janelas e acusá-los de ligações com a KGB.

Nem liguei. Defini meu tema, Fiz meu esboço, liguei uma última vez para dois entrevistados e comecei a escrever. Pelo final, para assim saber para onde o texto se dirigia. Li, reli, cortei, inseri detalhes, melhorei as cenas, procurei no dicionário as palavras mais adequadas. Às oito da noite, disse ao chefe que estava pronto e fui pegar um café. Sentia-me realizado. Tomei o café, voltei para minha mesa e resolvi dar uma última lida no texto.

Estava uma bosta.

3. Eureka

Peguei o ônibus na intenção de ir para a faculdade; desci antes e peguei outro ônibus de volta para casa. Ir à faculdade para quê? No trabalho é como se eu começasse a fazer as primeiras escalas, solfejar feito um demente, arriscar um “Cai, cai, balão”. Na faculdade, os professores dizem: “O piano é de madeira. Toquem!”. Aí sai aquele monte de BOINK-SHINK-PFUÓIN e eles reclamam: “Que desastre é esse? Eu não disse que o piano é de madeira? Por que vocês não tocam?”. Na faculdade, destaca-se o cara que sabe fazer um acorde, que conhece as teclas, que decorou uma musiquinha e improvisa sobre esse mesmo tema o tempo todo. O cara que não é um ignorante total em termos de piano, mas que também nunca será um pianista.

Por muito tempo eu me conformei com o papel do pianista charlatão. Não mais. Se escrever é minha paixão e também paga minhas contas, eu tenho a dupla obrigação de dominar o ofício. No entanto, depois de um mês de aprendizado, lá estava eu sentado no último banco do ônibus na direção do centro da cidade, cabeça baixa, sem ânimo para ler, só pensando no fracasso de dois textos e na mediocridade de um terceiro. Talvez esse negócio de escrever não fosse para mim.

Mas cheguei em casa, jantei com minha menina, vimos um filme, rimos como sempre. E, assim como na eureka original de Arquimedes, a revelação me veio durante o banho — à uma da manhã.

Não havia nada de errado com o texto, com as frases, com a escolha de palavras. O problema todo era a estrutura. Os dois primeiros parágrafos eram uma enrolação sem-vergonha, uma falta de respeito com o leitor. Se eu movesse o terceiro parágrafo para o começo, já apresentaria logo de cara meus personagens e a situação em que se meteram, e os dois parágrafos vilões passariam a ter a virtude do pano-de-fundo e do flashback. Com a nova estrutura, eu teria como colocar informações dos outros personagens sem forçar sua entrada na história.

Arrá!

Saí correndo do banho e mandei um e-mail para o chefe. “Já leu a matéria? NÃO LEIA!”.

RESOLUÇÃO

Parece que esse negócio de inspiração existe mesmo, mas está longe de cair do céu. Só depois de muito estudar, de muito ler, de muito espremer o cérebro é que ela surge. E surge mais bela e completa ainda, porque é fruto do esforço consciente, e não de processo misterioso, além do meu conhecimento. Esse texto de que falei não vai ter nada de mais. Apenas um texto tecnicamente correto, ou quase. Quem ler, talvez não o classifique como “inspirado”. “Esforçado”, no máximo.

É isso que eu sou agora: um sujeito esforçado.

Eita

Parece que o feed deste blog estava capenga. Obrigado ao Daniel pelo aviso. Está funcionando direito agora?

A verdade… eu acho.

Ela diz que é tudo verdade. Eu não sei. Têm sido dias confusos. As últimas duas semanas são um borrão na minha memória. Mas se ela diz, deve ser verdade.

Né?

Autobarbeiragem

Só uma coisinha que me aconteceu na última sexta-feira, para vocês se distraírem por enquanto.

O recomeço

Vocês não acreditaram mesmo que eu tivesse me convertido e largado o blog, né? Por favor! A falta de fé mantém as montanhas paradinhas em seus lugares, e eu é que não quero sair por aí mexendo com as coitadas. Continuo ateu, herege, safado, e agora de casa nova — me disseram que pode rolar uma grana, então vim correndo.

Acheguem-se, fiquem à vontade, ainda tenho muita história pra contar.

Encruzilhada

Estou numa encruzilhada.

(Galinha preta é a puta que o pariu)

Estou numa encruzilhada. Pois vejam: antes eu trabalhava num negócio nada a ver, tecnologia e coisa e tal, e escrevia como passatempo. Primeiro em folhas de papel datilografadas, depois no Wordstar (não perguntem), depois em jornaizinhos impressos na firma e distribuídos entre os amigos, depois por e-mail. Comecei este blog, depois outro, depois fui convidado para outro.

Aí eu fiz 30 anos e tudo mudou. Eu queria mudar de vida e resolvi que escrever ia ser o meu trabalho. Virei jornalista de tecnologia, que era para escrever sobre um assunto que eu conhecia. Isso foi em 2005, e durante a maior parte desses últimos três anos eu dividi meu tempo entre gerenciar projetos de web, manter conteúdo online com base em press releases requentados e escrever uma coisinha ou outra.

No começo deste mês, aconteceu o que eu tanto procurava: comecei a trabalhar em um lugar onde o texto é valorizado acima de tudo, onde se discute o tempo todo o ato de escrever e livros sobre as técnicas do ofício circulam de mão em mão. Estou aprendendo muito, apesar de às vezes me sentir soterrado de informações.

Muito bem. Para quem escreve apenas como trabalho, é uma situação perfeita. Mas eu sou um sujeito esquisito. Meu trabalho é meu hobby. O problema é que escrever para uma revista de tecnologia é algo muito diferente de escrever um blog de sátira da Bíblia. O último capítulo ficou burocrático que só a porra, eu sei disso. Foi escrito enquanto eu pensava o tempo todo nas técnicas: usar verbos de ação, evitar a voz passiva, colocar ênfase no final das frases, complicação-crise-resolução, o diabo aquático. (Esse último período, por exemplo: comecei com “Foi escrito”, daí troquei por “Escrevi” para fugir da voz passiva, aí fiquei puto com minha subserviência às regras e voltei atrás).

Eu percebo que muitas das técnicas que estou conhecendo agora eu já aplicava sem perceber. Mas pergunte à centopéia como ela faz para andar com tantos pés, e é claro que ela tropeça — se é que centopéia entende o que a gente fala.

O negócio é que um monte de gente falou das deficiências desse último capítulo e eu me fiz de besta. Mas aí um amigo próximo comentou, e eu não tive mais como ignorar. Ele tem razão, vocês têm razão. Eu deveria escrever sem pensar nessas técnicas todas que estou aprendendo, mas não consigo. Talvez eu devesse separar trabalho de hobby, mas isso é muito difícil quando os dois são tão parecidos. No fim das contas, talvez ter decidido transformar meu hobby em trabalho tenha sido um erro. Mas eu vejo tanta gente por aí com empregos detestáveis, chega a ser um pecado reclamar de fazer o que gosto.

Maldita encruzilhada.

Cantiga de gólgota

Aaaaaaaaaaaaaaaatirei pedra na cruz-cruz-cruz

Mas o Cristo-to

Não Morreu-reu-reu

Jeová-vá-vá

Admirou-se-se

Do berrôu

Do berrôu

Que o Cristo deu:

— Está consumado!

Videopost educativo

Há algum tempo, escrevi três posts falando de minha descoberta do safety razor, aquele aparelho de barbear que seu avô usava. Agora, a pedido de meu querido amigo Rafael Cavalcanti, produzi um vídeo explicando detalhadamente como extrair o maior prazer do ato de barbear. Se você tem estômago para visões dantescas de pêlos, sangue e banhas, assista:

É isso! É isso!

Quando você está agoniado para falar um negócio e fica brigando para escolher as palavras certas para expressar direitinho o que pretende, é um alívio sem tamanho descobrir que alguém já o fez com mais graça e competência do que você jamais seria capaz. Gratidão eterna.

Jeú cumpre sua missão

(II Reis 10)

Baal! Baal!
É a festa de Baal
Baal é nosso deus
Um deus muito legal
Amanhã vai ter festança
Vou beber e passar mal
Vai ter música e dança
E um banquete animal
Sacrifício, holocausto
Muito luxo e muito fausto
Lá no templo de Baal
Baal! Baal!
É a festa de Baal…

A população de Samaria já não agüentava mais aqueles alto-falantes sobressaltando a cidade com o jingle em ritmo de funk, composto por Jeú especialmente para a ocasião. A kombi de pamonha alugada pelo rei wannabe estava de volta à capital, depois de vários dias percorrendo todo o Israel para divulgar a grande festa de Baal.

Alguns ficaram desconfiados quando Jeú mencionou a festa pela primeira vez. Ele havia chegado à cidade depois de uma caçada aos descendentes do finado rei Acabe, e muitos atribuíam essa chacina a um zelo excessivo pela religião de Javé. Porém, num rápido discurso feito logo após a matança, Jeú deixara suas motivações bem claras.

Apenas uma semana antes, setenta filhos de Acabe viviam em Samaria, sob os cuidados das autoridades locais. Jeú enviara de Jezreel uma carta aos líderes da cidade:

Prezados chefes de Samaria,

Sei que os senhores estão muito bem aí cuidando dos interesses dos filhos de Acabe. Sei também que vocês têm armas de sobra, cavalos e carros de guerra. Então faço uma proposta: escolham aí o príncipe mais capaz, coloquem o cara no trono, e se preparem para defender a cidade.

Abraços!

Jeú

Os homens fortes de Samaria ficaram apavorados. Jeú tinha acabado de matar dois reis adultos e experientes no campo de batalha; o que faria com um pobre garoto? O encarregado do palácio, o prefeito, os militares, juízes e sacerdotes, todos se reuniram para pensar em uma resposta. Que saiu assim:

Caro rei Jeú,

Somos seus servos, estamos às suas ordens. Não vamos colocar ninguém no trono, o senhor faça o que achar melhor.

Ao receber o bilhete lacônico dos líderes, Jeú sorriu. Aquelas poucas palavras transpiravam medo, e era esse mesmo o efeito que ele queria causar. Então mandou outra carta a Samaria, dessa vez com instruções detalhadas:

Prezados chefes de Samaria,

Fico feliz em saber que os senhores estão do meu lado. Agora quero que provem sua lealdade: se me apóiam mesmo, tragam a cabeça dos filhos de Acabe até Jezreel amanhã.

Jeú

As autoridades leram a carta, releram, discutiram. Seria uma metáfora, uma alegoria? Não, não podia ser. Jeú não era dado a altos vôos de pensamento: se ele pedia cabeças, era isso mesmo que ele queria. E eles acabaram decidindo que era melhor garantir a própria vida. Sendo assim, mataram os setenta príncipes e mandaram suas cabeças em cestos de vime caprichosamente decorados e embrulhados em papel celofane. Depois de alguns momentos constrangedores explicando a remessa ao funcionário do correio, conseguiram mandar as cabeças a Jezreel.

Jeú recebeu a encomenda na noite seguinte e ordenou aseus capangas que empilhassem as cabeças no portão da cidade e as deixassem lá até amanhecer. Ele saiu de manhã e fingiu estar tão surpreso como todo mundo ao ver a cena nas portas da cidade: duas pilhas de cabeças infantis e poças de sangue coagulado sobre os pedregulhos, rostos que guardavam a expressão de surpresa e dor do momento da morte, alguns olhos, orelhas e lábios já removidos pelos abutres do deserto, ossos expostos aqui e ali.

— Vocês estão vendo? Eu comandei a revolta contra o rei Jorão, matei ele e Acazias, mas e esses aí? Quem os matou?

Os jezreelitas reunidos ao redor das pilhas de cabeças mantinham-se em silêncio.

— Do que mais vocês precisam para acreditar no que Javé prometeu? Nosso Deus disse que os descendentes de Acabe seriam varridos da face da terra, e hoje as cabeças dos filhos dele apareceram misteriosamente à nossa porta. É um sinal! Matem todos os parentes de Acabe que moram na cidade, todas as autoridades e sacerdotes ligados a ele!

Levados pela fascinação que vinha em parte do carisma de Jeú e em parte do horror causado por aquelas crianças sem corpo, os habitantes da cidade cumpriram a ordem.

Feita a limpeza em Jezreel, restava a Jeú conquistar a capital, Samaria, e sagrar-se rei de uma vez por todas. Ele juntou seus homens e pegou a estrada. No meio do caminho, ainda encontrou um grupo de pessoas que caíram na besteira de se identificar como parentes do rei Acazias. Eram quarenta e dois; os soldados de Jeú mataram todos. Mais para a frente, encontraram um certo Jonadabe, filho de Recabe, que era simpático à causa de Jeú e se uniu à caravana.

Chegando a Samaria, Jeú tratou de matar os poucos parentes de Acabe que ainda restavam. Depois disso, reuniu o povo na praça principal da cidade e fez seu discurso:

— Vocês estão vendo bem o que aconteceu com a família de Acabe. Isso aconteceu porque ele não foi fiel a Baal, nosso deus. Eu, meus bons samaritanos, sou um servo de Baal, e juro servi-lo por toda a minha vida. Para começar essa nova fase em Israel, vamos fazer uma grande festa no templo de Baal. Todos os adoradores e sacerdotes de Baal estão convidados. Já fiz até uma musiquinha para divulgar a festa. Agora só preciso de uma kombi de pamonha…

E foi assim que, dias depois, todos os baalitas afluíram ao templo de seu deus, alegres e vestindo suas melhores roupas de festa. O templo ficou completamente cheio. Todos conversavam e riam, mas fizeram absoluto silêncio quando a figura de Jeú surgiu no lugar de honra do templo. Jeú desfrutou alguns instantes o efeito, limpou a garganta com um pigarro e disse:

— Atrás de Baal só não vai quem já morreu! ["ÊÊÊÊÊ!", gritou o povo] Que venham os abadás!

Os sacerdotes de Baal entraram pelas portas laterais, trazendo os mantos sagrados de sua religião e distribuindo-os entre os presentes. Com todo mundo devidamente paramentado, Jeú convidou Jonadabe para juntar-se a ele no altar.

— Viva Baal!

— Viva!

— Todos vocês amam Baaaaaaaaaaaal?

— Sim!

— Alguém aí é servo de Javééééééé?

— Não!

— Quem quer Javééééééé?

— Ninguém!

— Quem quer Baaaaaaaaaaaaaaal?

— EEEEEEEEEEEEEEEEEU!

— VIVA BAAL!

— VIVA!!!

— Agora eu ofereço esses feixes de trigo a quem?

— BAAL!

— Jonadabe mata esses pombos para quem?

— BAAL!

— Nós sangramos esse touro para quem?

— BAAL!

— Esse bando de guardas trucida vocês para quem?

— BA… hein?

Era uma armadilha, e não havia como escapar. Um pelotão dos guardas de Jeú bloqueava as portas, enquanto o resto fazia cantar suas espadas no meio da multidão indefesa. Os soldados empilharam os corpos do lado de fora do templo e destruíram a imagem de Baal que estava no altar. Depois, Jeú transformou o local em um banheiro público.

Javé, desnecessário dizer, ficou inflado de orgulho com a astúcia de Jeú, o novo rei de Israel. Anos depois, porém, Jeú abandonou seu zelo exagerado. O final do capítulo sugere que ele chegou a adorar os bezerros de ouro feitos por Jeroboão. É de se pensar se ele não teria olhado para trás e percebido que, por baixo do verniz das justificativas religiosas, ele não passara de um assassino em série.

Após 28 anos ocupando o trono, Jeú morreu e foi substituído por seu filho Jeoacaz.

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