Joás e os sacerdotes

(II Reis 12)

“Que merda”, pensava o rei Joás enquanto sangrava até a morte do lado de fora das muralhas de Jerusalém. “Mas que merda.”

Joás subiu ao trono de Judá graças à proteção de Joiada e dos outros sacerdotes. Reinou durante quarenta anos; durante quarenta anos viveu à sombra dos sacerdotes. Não valeu a pena.

A primeira fase do reinado de Joás foi um inferno para ele. Proclamado rei aos sete anos de idade, debaixo da asa de Joiada, Joás virou piada em Judá. Ele era o menino do templo, o pau-mandado da casta sacerdotal. Alguns falavam em pedofilia, o que era compreensível: no fim das contas, Joiada era um padre, Joás era um garotinho. Assim que atingiu a maioridade, Joás tentou virar o jogo e começar a controlar quem o controlava. Então chamou os sacerdotes para uma reunião no templo.

— Chamei os senhores aqui porque estou preocupado.

— Não se preocupe, Joás. Tá tudo sob controle. Não quer ir lá no templo comigo? A gente toma um copo de leite, depois eu te conto umas histórias de Jezabel, aí a gente brinca de Davi e Jônatas…

— ESSE TEMPO PASSOU, JOIADA! Tenho um trono tão lindo e nem posso sentar nele, por causa dessa brincadeira besta.

— Peraí, Joás, que negócio é esse?

— E VOCÊ NUNCA ME DEIXAVA SER O DAVI!

— Pô, mas que graça teria?

— CHEGA! Não estou para brincadeira. Esse tempo passou, entendeu? Não sou mais criança!

— Você sempre será uma criança para mim…

— CALABOCA! Chamei vocês aqui para falar sobre o Templo. Aquilo está uma vergonha! Goteiras no teto, infiltração nas paredes, cupins nos móveis. A Casa de Javé está parecendo a casa-da-mãe-joana. Vocês não têm vergonha?

— Bom…

— Foi uma pergunta retórica, imbecil! A partir de agora, vocês vão separar todo o dinheiro que receberem do povo para a reforma do Templo.

— Todo o dinheiro?

— Todo o dinheiro.

— Mas TODO o dinheiro? Nós temos outras despesas, você sabe. Precisamos comprar leite, bolachinhas, brinquedos…

— Bolachinhas…

— … lápis de cor, figurinhas dos reis de Judá. Eu lembro que faltava o Roboão na sua coleção. Tenho uma figurinha do Roboão…

— Sério???

— Sério! Vamos até o templo. Você completa sua coleção e a gente esquece isso.

— NÃO! A casa de Javé está caindo aos pedaços, e você vem me falar em figurinha? Voltem ao Templo e comecem agora mesmo a reforma.

— Sim, majestade. Xacomigo.

— Humpf. É isso aí.

Cinco anos depois, a situação do Templo só piorava. Se alguém pisasse mais duro, caíam pedaços do teto. As paredes estavam estufadas de umidade. Os cupins haviam comido madeira suficiente para construir uma capela. Joás chamou os sacerdotes ao palácio mais uma vez.

— Por que vocês não fizeram o que eu mandei?

— Vixe. É mesmo. Acho que esquecemos. Qual era a ordem mesmo?

— SEPARAR O DINHEIRO DAS OFERTAS PARA REFORMAR A PORRA DO TEMPLO!

— Ah, era isso? Entendemos que era para pegar o dinheiro e gastar como quiséssemos. Veja só. Um pequeno ruído na comunicação, hein? Que coisa… Bom. É só isso?

— Só isso um caralho! Agora vocês vão reformar o Templo, sem desculpinhas. Vou fiscalizar a arrecadação de perto.

— De perto?

— Bem de perto!

— Que nem Davi e Jônatas…?

— Er… Eu… Olha…

— Tenho uma idéia que talvez seja boa para nós dois.

— Diga, Joiada.

— Vou colocar uma urna de madeira ao lado do altar. Nessa urna vai todo dinheiro que o povo trouxer para pagar sacrifícios, impostos do Templo e ofertas. Quando a urna estiver cheia, pegamos o dinheiro e contratamos pedreiros, carpinteiros, pintores. Uma vez por mês, eu trago aqui um relatório de receitas e despesas.

— Parece bom. Mas você disse que ia ser bom para nós dois, não? Quando eu era criança, você sempre falava isso, e no fim era bom só para você.

— Aquele tempo passou! Vai ser bom para nós dois, eu garanto. Com esse dinheiro aí, nós reformamos o Templo, do jeito que o senhor mandou. Mas o dinheiro que o povo trouxer para aliviar a consciência fica todo para nós.

— Hum… Parece justo. Eu concordo. Mande fazer a tal urna, o novo esquema de arrecadação começa hoje.

— Pois não, majestade.

Por algum tempo, todo mundo ficou contente. Os sacerdotes repartiam entre eles o dinheiro que as pessoas ofereciam em troca do perdão de seus pecados. Todo o resto ia para a urna. Quando a urna estava cheia, o sumo-sacerdote chamava o secretário do rei para contar o dinheiro, separá-lo, comprar material e pagar os trabalhadores. O rei consolidava sua autoridade, os sacerdotes garantiam seus caraminguás, e o Templo voltava à glória de outrora. E então veio Hazael e cagou tudo.

Hazael, vocês devem se lembrar, era o rei da Síria que herdara uma mania besta de seu pai: azucrinar os países vizinhos. Hazael invadiu Gate, na Filistia, e soube que o rei de Judá andava mais preocupado com a reforma do Templo do que com a defesa da nação. Um momento perfeito para invadir Jerusalém.

Hazael tinha razão. Concentrado na arrecadação de ofertas e nas obras do Templo, Joás não tivera tempo para estudar estratégias de defesa. Não havia estoque de mantimentos nem água bastante para a cidade: se o rei da Síria cercasse Jerusalém, a rendição viria em poucos dias. Se o cerco viesse, Joás precisaria reforçar as defesas da cidade, negociar com Hazael e, em último caso, atacar o exército da Síria. Ele não sabia como fazer nada disso. Na verdade, ele só sabia mesmo controlar as contas do Templo.

Pensando bem, isso podia ser útil: o rei sabia a quantia exata que os reis anteriores haviam dedicado ao Templo, sabia quanto ele mesmo havia depositado. Ele sabia quanto ouro e prata havia por lá, e de quanto era a poupança dos sacerdotes. Então mandou raspar tudo e enviar a Hazael na forma de um suborno camarada. Funcionou: Hazael ficou contente com aquele dinheiro todo, e desistiu de atacar Jerusalém. No palácio, Joás se congratulava por sua astúcia.

— Você viu, Joiada? Beleza de estratégia, hein? Esse aí não vai nos encher o saco por um bom tempo.

— Majestade… O senhor deu ao rei da Síria todo o dinheiro que nós tínhamos!

— Nem todo, Joiada. Nem encostei no dinheiro da reforma. Não se preocupe, as obras continuam.

— Sim, majestade. Mas e o NOSSO dinheiro? Nós tínhamos uma boa grana lá, sabe? Estávamos pensando em construir um colégio e enchê-lo de garotinhos. Garotinhos belos e bronzeados correndo pelo pátio de calção, suando, as bochechas rosadas…

— Por que você está respirando assim, Joiada?

— E agora não temos nada. NADA!

— São coisas que acontecem, Joiada. Deixa isso para lá. O pior já passou.

O pior não havia passado. Aos 47 anos de idade, Joás foi vítima de uma conspiração. Dois oficiais do palácio, Jozacar e Siemate, inventaram uma história qualquer para levar o rei até a casa de um tal Milo, do lado de fora da cidade, e o mataram. Milo não estava em casa: trabalhava na reforma do templo.

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6 comentários

  1. Exagerou na pedofilia, é melhor só sugerir que ficar martelando.
    Mas ficou muito bom mesmo.
    Comparando aos primeiros capítulos que você sacaneou, achei que você diminuiu um pouco o pastelão, mas continua dando informações interessantes para os manés que como eu, não entenderam direito o texto da Bíblia. Mas as falas eram mais tolas, menos forçadas, era mais engraçado…
    Ainda assim, ótimo capítulo, econtinuo fã do site.

  2. Está lá no versiculo 2: “Fez Joás o que era reto perante o SENHOR, todos os dias em que o sacerdote Joiada o dirigia.”

    O que dá a entender que Joás ficava deitado, reto…

  3. Eu ainda me pergunto se nao lhe faltara coragem pra repetir a historia toooda quando chegar nos livros de Cronicas… maaaas, foi bom ver que tinha capitulo novo no fim do ano. Acredite: sentimos falta hehehe

  4. Marcão, dessa vez você marcou touca. Na falta de material cômico no texto original, apelou para a acusação gratuita de pedofilia. Eu preferia quando você dava uma forçada de barra na personalidade de Javé, ainda era engraçado. É blasfemo do mesmo jeito, mas pelo menos é engraçado.

    Para não dizer que não se salvou nada, a história do dinheiro foi bem trabalhada. Me fez sorrir.

    Mas o capítulo, no geral, ficou bem fraco. Muito clichê, botando toda a classe sacerdotal como um bando de comedores de criancinhas.

Diga aí!