Começo a achar que aqui no centro da cidade tudo é um tanto diferente. Hoje mesmo saí em busca de uma casa de ferragens aberta (tentei instalar um varal de teto usando uma bucha 6 em um furo feito com broca 8, vocês podem imaginar o resultado depois que pendurei a primeira calça jeans molhada) e vi andando logo à minha frente um casal que me lembrou o de Estrangeiro, do Caetano Veloso. O velho devia mesmo ter cabelos nas narinas, não reparei. A menina, uma mulatinha gorducha, não era quase adolescente e nem muito linda. Mas a diferença de idade e a forma como andavam abraçadinhos me fez sorrir, sei lá por quê.

Trechos ocasionais da conversa me chegavam às orelhas. Ele contava alguma história de amor antigo, ela só ria. Imaginei a história toda enquanto chegava mais perto dos dois: ele narrava um romance marcante, talvez a história de como conheceu a esposa com quem ficou casado por 40 anos. Achei bonito aquilo, o velho empolgado com um novo amor contando à namorada tão mais jovem uma história de tempos passados, de quando ela nem era nascida.

Emparelhei com os dois e reduzi o ritmo da caminhada para ouvir melhor as doçuras que o ancião sussurrava ao ouvido da amada risonha. E o que escutei me fez reformular a história toda:

— Aí eu estourei o cabaço dela e rebentei minha fimose também!

Comecei a escrever um capítulo novo, mas o varal tornou-se prioridade. Tenho um bacião cheio de roupas molhadas. É dura a vida de dono-de-casa.