Stumbla daqui, stumbla dali, acabei encontrando esse post do blog The Art of Manliness. O texto fala sobre a arte de se barbear usando aqueles aparelhos antigos, feitos de metal e com uma lâmina só. O autor compara a troca de um Mach 3 por um safety razor à diferença entre um Pinto (o carro, não isso aí) e uma Mercedes. “É legal segurar um pedaço de metal robusto e pesado ao se barbear, em vez de um plástico barato”, ele diz. “Um safety razor é uma máquina“, ele afirma.
Bem, a descoberta foi há pouco mais de uma semana, e a partir de então eu só pensava em uma coisa: arrumar um barbeador clássico para finalmente me sentir como um homem. Procurei no Mercado Livre, mas só achei coisas velhas, enferrujadas. No eBay, dei mais sorte: encontrei por lá uns belos aparelhos da Parker e da Gillette. Depois, ao ler o artigo com mais atenção, vi que o autor recomendava uma marca específica, Merkur, que tinha seus produtos à venda na Amazon. Fui conhecer os aparelhos e ler os depoimentos dos compradores, e acabei de me convencer — principalmente depois de ver esse aparelho — da necessidade de fazer a barba como meu avô fazia.
Estava ainda tentando escolher o barbeador que me acompanharia pelo resto da vida, quando veio em minha salvação a sempre providencial namorada. Expliquei a história toda a ela, que a princípio não gostou muito da idéia.
— Você vai se cortar todo — ela disse.
Mas eu sou teimoso, e ela acabou aceitando a idéia. No dia seguinte, me deu uma excelente notícia: havia encontrado um aparelho “de velho” em casa. Era um brinde que nunca havia sido usado e vinha num estojinho muito do bonitinho. Perguntou se eu queria e eu, comovido, disse que sim, claro. Então ela me revelou uma observação feita por minha sogra ao encontrar o aparelho:
— Ele vai se matar com isso…
Eu não sei de onde vem essa falta de confiança na minha habilidade e coordenação motora. Eu me corto com Mach 3? Sim, me corto. Eu me corto com Prestobarba? Ok, é verdade. Mas isso lá é motivo para pensar que um homem vá se ferir seriamente com o simples ato de se barbear usando um aparelho em que a lâmina entra em contato direto com a pele? Sei lá! Só sei que, no último sábado, Ana Carlota me entregou (com uma admoestação, “Se você usar isso para raspar a cabeça, está tudo acabado!”) essa belezinha:
Ah, meus amigos, que alegria! Eu já estava com uma barba de dois ou três dias, e corri para testar o brinquedo novo. Minutos depois, voltei para a sala assim:
Tá, me cortei um pouquinho. Ou mais. Sangrou bastante. Eu achei que nunca fosse estancar o sangue. “Me matei”, eu pensei enquanto jogava água fria na cara e tentava conter o sangue com pedaços de papel higiênico.
Apesar do susto, valeu a pena. Quando finalmente tirei os curativos improvisados e criei coragem para passar a loção pós-barba, reparei na qualidade do barbear. Pela primeira vez desde a adolescência eu tinha o rosto liso e sem pêlos encravados. Pensei em fazer um upgrade para a navalha, mas minha mãe e minha namorada berraram de horror. Tudo bem, a navalha fica para outro dia.
Na segunda-feira eu resolvi tentar novamente, e dessa vez me cortei bem menos e só perdi um pouquinho de sangue. Hoje eu arranjei tempo para pesquisar um pouco mais sobre o barbear clássico e aprendi algumas coisas importantes. Por exemplo: a lâmina deve ser usada como foice e não como enxada. O cabo deve formar um ângulo de 30º em relação à perpendicular do rosto. O pincel deve estar umedecido com água quente. E mais, muito mais.
Agora vocês me dêem licença, que eu vou ali fazer a barba do jeito certo, feito macho. Depois eu volto para contar como foi. Se não voltar, avisem minha família.