Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em 2007

Boina voadora

chapeu_porco_voador.jpgHoje protagonizei um episódio que me levou a concluir que sou Mercúrio, o deus cujo chapéu tinha asas. Ou isso, ou sou um tremendo idiota. Tirem suas próprias conclusões, mas antes devo voltar um pouco no tempo.
Início deste mês, voltando de Paraty, resolvi descansar um pouco numa parada qualquer da estrada. Eis que salta-me aos olhos a monstruosidade que é aquele Frango Assado (a parada rodoviária, não a posição sexual) da Carvalho Pinto (o ex-governador, não o trocadilho). Comi lá uma coxinha, tomei uma coca-cola, um café. Ia saindo e meu olhar foi atraído por uma prateleira que exibia chapéus. Entre os chapéus, uma fileira de boinas pretas, de lã, daquelas tradicionais. Eu sempre quis ter uma boina, então achei que seria um bom memento da viagem empreendida naquela semana. Então foi com alegria que peguei a estrada de volta a São Paulo devidamente alimentado, cafeinado e com um novo adereço de cabeça.
A boina fez sucesso. Minha mãe disse que eu parecia Seu Júlio, meu avô paterno. No trabalho, vários me compararam a seus avós. No geral, todo mundo gostou. Minha sobrinha, ao ver a nova peça do vestuário do tio, insistiu com a mãe para que lhe comprasse um chapéu.
O tempo em São Paulo é essa coisa maluca: começou a fazer calor e a boina passou umas semanas dependurada no puxador do guarda-roupa. Mas eis que hoje acordei, notei que fazia frio e decidi que era um bom dia para ostentar novamente meu visual europeu-retrô, ou qualquer veadagem assim. No trabalho, disseram até que eu estava charmoso, que é o que o feio consegue ser quando é feio de um jeito diferente. Maravilha.
Saio do trabalho, vou para a faculdade. Chego atrasado e sou saudado por alguns gaiatos com assovios relutantes. Eu, então, numa demonstração de maturidade, dou uma requebrada de stripper e lanço a boina no ar (ter assistido The Full Monty no fim-de-semana também não ajudou muito).
Ah, meus amigos, a crueldade do destino! O desgraçado do chapéu traçou uma graciosa curva no ar, e depois, numa folha seca digna do velho Didi, caiu na única fresta aberta na janela. São janelões imensos ocupando toda a lateral da sala, dez metros de janelas, com quinze centímetros de abertura disponível, e obviamente o boné maldito foi cair por lá. Deve ter ouvido o grasnar ancestral, o chamado primevo das boinas selvagens que em agosto migram para os Açores.
Sei que a combinação da situação com a metamorfose ocorrida na minha cara — de cínico stripper a pateta atônito — causou um intervalo de dez minutos na aula. A sala veio abaixo, gente que nem falava comigo começou a me chamar de Boina, a professora quase se suicida, o diabo.
Bom, a boina perdeu-se para sempre; deve estar agora mesmo sobrevoando o Atlântico. Eu perdi o respeito que meus 32 anos me fariam merecer. A professora me odeia e já percebi que, se depender dela, vai ser um longo semestre.

É isso. Só queria compartilhar com vocês mais essa desventura.

Maravilha da ortodontia

Antes

Antes



Depois

Depois

Tudo em apenas três anos e meio.

Futilidade irresistível

Depois de definitivamente livre da chata militância de esquerda, posso agora recomendar de alma lavada três blogs para vocês: Papel Pobre, Shoe-Me e Te dou um dado?

Sim, eu sei que é tudo futilidade. Mas eu não re-sis-to!

Campanha?

Parece que rola uma campanha do Estadão contra os blogs. Não quero saber mais, não vou falar a respeito. É uma briga perdida. Pelo Estadão, claro.

Fanvideosign

Lembram dos fansigns? Não? Bah, procurem por aí, eu que não vou explicar nada. Pois então: o rapper Doscht, famoso pra caralho, fez um fansign em vídeo para mim, ou melhor, para este blog. Vejam:

Fotos

praiasecreta.jpg

Vocês não têm idéia da preguiça que toma conta de minha existência. Enquanto não crio coragem para escrever, vão vendo as fotos da minha semaninha de férias.
Até mais.

Mapa

André Dahmer é gênio. Disso todos sabemos. Mas agora o cara me sai com O Grande Mapa Dahmer da Blogosfera Brasileira, que agrupa vários blogs mais ou menos afins em ilhas, entre mares de belos nomes. Muito, muito legal. Fiquei feliz com a vizinhança do JMC por lá.

Promessas

Há duas coisas que são cada vez mais difíceis de se encontrar por aí: bons cristãos e amendocrem. Antes das férias mesmo fui ao Extra comprar amendocrem e quem disse que encontrei? Digo mais: desconfio que as pessoas de lá também não eram muito cristãs. Um feeling, sei lá. Mas nem é disso que quero falar. Pulemos para o próximo parágrafo.
Olá. Então. Antigamente os cristãos eram machos pra dedéu. Tão machos, na verdade, que a Cristandade quase morreu por W.O. logo no início, com tantos mártires apedrejados, crucificados, decapitados, devorados pelas feras. O reino deles não era deste mundo, então tanto fazia viver como morrer, já que viveriam eternamente ao lado de Cristo no céu.
O cristianismo resistiu a essa primeira onda de sacrifícios pela fé, mas estes não se esgortaram: pelos séculos seguintes, homens e mulheres pelo mundo todo deram suas vidas pela cruz.
Sabem o que os cristãos de hoje fazem? Pedem coisas. Alguns seguem líderes que afirmam que tudo está à disposição deles. Alguns desses líderes, pasmem!, chegam a dizer que o fiel deve exigir de Deus aquilo que querem, feito criança malcriada no corredor do supermercado. Mesmo aqueles que mantêm distância da tal Teologia da Prosperidade, no entanto, exercem sua fé pedindo coisas.
Claro que esses pedidos não vêm sem oferta de sacrifícios. Várias pessoas com quem convivo estão atualmente cumprindo alguma promessa. Mais da metade prometeu ficar sem comer chocolate por um determinado período. Aposto que Deus lá em cima fica muito impressionado. “Oh, ele vai ficar sem comer chocolate, deixa eu bancar o gênio da lâmpada para o pobrezinho”. Antigamente as pessoas davam suas vidas, ou pelo menos faziam um jejum sério. Agora é esse negócio de ficar um ano sem comer chocolate, seis meses sem beber refrigerante, parar de fumar por uma semana. E eu, que quero logo pagar minha metade do carro e arrumar dinheiro para dar entrada num apartamento, fico pensando em entrar numa barganha dessas com o além. É mole.

Mas então me lembro do caso dos missionários coreanos no Afeganistão. Só pode ser um sinal. Mais tarde vou ao Extra ver se encontro amendocrem.

Férias

Olá, meu povo.
Consegui uma semana de férias. Mal posso acreditar. Vou aproveitar a semana em Parati, de preferência sem meios de contato com o mundo. Não adianta, portanto, voltarem aqui pedindo posts novos nesse período.
Abraços a todos, e até semana que vem.

Eliseu, o Magnífico

(II Reis 4)

Ninguém é mais espalhafatoso do que um tímido que resolve se soltar. Depois de anos preso em seu casulo, a pressão acumulada o transforma na mais exuberante das borboletas — o que, convenhamos, tem lá seu toque de veadagem. Vejamos o caso de Eliseu, por exemplo. Era fechado, carrancudo, arredio. Não olhava ninguém nos olhos, mal falava, vivia resmungando. Inseguro com sua aparência, tentava a todo custo esconder a calvície, e odiava quando esta era notada (lembram das ursas?). Mas agora, que diferença! Eliseu só vive de nariz empinado, faces afogueadas, andar petulante. A esconder sua careca, uma reluzente cartola, que combina com uma capa de veludo preto forrada de cetim grená. Há quem diga que a indumentária não combina é com a túnica de algodão cru e com as puídas sandálias de couro trançado, mas o profeta não dá a mínima. Segue seu caminho com altivez, e onde chega é anunciado por seu empregado Geazi como Eliseu, o Magnífico.
A que se deve tamanha transformação? Bem, segurança é algo que vem aos poucos, e Eliseu a vem adquirindo desde que seu mestre Elias foi alçado aos céus. O episódio das ursas serviu bem a esse propósito, e mais ainda o milagre das águas durante a preparação para a guerra contra Moabe. Para cimentar mais ainda a nova postura do profeta, uma série de acontecimentos o foi convencendo de que era, mesmo, magnífico.

Primeiro foi o caso da viúva pobre. Nada de notável nela: era uma viúva, tinha dois filhos, e era pobre. Muito. Tanto que um credor de seu finado marido, vendo a situação da mulher, decidira que levaria os dois moleques como pagamento. Vendia os garotos como escravos, pegava uma bufunfa, era sempre melhor do que nada. Desesperada, a viúva não sabia o que fazer para a) não morrer de fome e b) não perder os filhos.
E aí entra o valor do corporativismo: acontece que o falecido marido da viúva era profeta, então a dita achou por bem ir ter com Eliseu. Explicou que era viúva de um colega, que os dois deviam se conhecer do sindicato ou de alguma festa de fim de ano, que com o extinto não tinha conversa, era Javé na cabeça, e piriri e pororó.
— Tá, tá. Você não tem nada que possa oferecer a esse credor como parte do pagamento?
— Tenho não.
— Nada, nada?
— Nada.
— Um porco, uma galinha?
— Nem isso.
— Mas vá se pobre assim no diabo que a carregue! Você tem alguma coisa em casa, qualquer coisa?
— Bom. Tenho um jarrinho de azeite.
— Opa! Então está resolvido!
— Como assim?
— Tenha fé, sua viúva pobre! Eu sou Eliseu, oooooooooooooooooooooooo Magnífico!
— …
— …
— Quê?
— Hein?
— Como?
— Acho que preciso ensaiar mais. Bom, fale com suas vizinhas, peça a elas vasilhas vazias emprestadas.
— Vasilhas, vasilhas?
— Vasilhas vazias.
— Vazias, vazias?
— VAI LOGO, DIABO!
A mulher percorreu a vizinhança pedindo as vasilhas emprestadas. Quando conseguiu uma grande quantidade voltou para casa e, seguindo instruções de Eliseu, começou a despejar azeite do jarrinho na primeira vasilha. O recipiente se encheu e, para surpresa da viúva e de seus filhos, o jarro continuou com a mesma quantidade de azeite. Ela pediu aos meninos que trouxessem mais vasilhas, e as foi enchendo, sem que o frasco original se esvaziasse. Quando terminou o trabalho, a viúva tinha uma sala cheia de vasilhas de azeite e um jarrinho filnalmente vazio. Com o dinheiro da venda do azeite, ela conseguiu pagar a dívida do marido, e ainda lhe sobrou dinheiro para ir vivendo com seus filhos.

Depois foi o caso da sunamita. Eliseu estava de passagem por Suném, e uma mulher rica do lugar o convidou para uma refeição. Os dois ficaram amigos (muito amigos), e dali por diante, sempre que ia a Suném, Eliseu parava na casa de sua protetora, nem que fosse para jogar conversa fora. Ficaram um tempo nessa brincadeira, até que um dia a mulher resolveu que o profeta precisava de melhores acomodações. Resolvida, foi falar com o marido:
— Sabe esse homem, Eliseu?
— Hum?
— Eliseu, de Israel.
— O narigudo careca?
— Esse.
— Que tem ele?
— Ele é um homem de Deus.
— Que veadagem.
— Não, não é nada disso! Estou dizendo que ele é um profeta, alguém iluminado, abençoado.
— Mas careca daquele jeito?
— Que que tem? Eu estou certa de que se trata de um homem santo.
— Sei. E daí?
— E daí que a gente não pode receber um homem santo de qualquer jeito.
— Pode não, é?
— Claro que não! Eu acho que devíamos era construir um puxadinho aqui em cima da casa, botar uma cadeira, uma mesa, uma lamparina, uma cama, lençóis de linho, travesseiro de plumas de ganso, um bar de mogno, um iMac. Assim, quando ele passar por aqui, pode ser nosso hóspede.
— Hum. Então tá.
Como se vê, o marido da sunamita era desses homens apáticos. “Apático”, nesse caso, é sinônimo de “aquele que não passa pela porta”, como vocês já devem ter percebido. Pois autorizou a construção do tal puxadinho cheio de mimos para Eliseu, que entendeu muito bem o recado da vez seguinte em que passou por Suném, e mandou que Geazi fosse chamar sua anfitriã.
Acontece que, mesmo com tanta afinidade, os dois não conheciam o idioma um do outro. Comunicavam-se, portanto, pelos dois meios mais à mão: olhares lânguidos e Geazi. Como a presença do empregado constrangia a troca de olhares, Eliseu lhe pediu que traduzisse seu agradecimento para a sunamita:
— Diga a ela que fico muito feliz com esses aposentos, que não sei nem por onde começar para agradecê-la. Pergunte a ela o que posso fazer para demonstrar minha gratidão. Talvez ela queira que eu use minha influência junto ao rei ou a alguma autoridade.
— Eliseu calá bafunfa jaqué de tânquiu. Acuma tânquiu? Assquisser quingue, assquisser toridad?
— Mi donti nidi nadanão.
— Ela diz que tem tudo de que precisa aqui no meio de seu povo, que o senhor não precisa se apoquentar.
— Mas não há nada, nada mesmo que eu possa fazer por ela?
— Eliseu calá jaqué jaqué de tânquiu. Bafunfa de tânquiu, caray. Cumé?
— Fuquifuqui.
— Er…
— O que ela disse?
— É difícil de traduzir, chefe.
— Pois tente, diacho!
— Ela diz que não tem filhos.
— Sei.
— E que queria muito ter filhos.
— Hum.
— E que o marido dela é velho.
— Tá.
— …
— Quê?
— JUNTE AS PEÇAS, PELAMORDEDEUS!
E foi assim que, nove meses depois, a sunamita teve um filho.

Tá, eu sei que a história da mulher de Suném não convence muito como milagre. O que aconteceu anos depois, porém, compensa e muito. Pois sucedeu que o moleque estava no campo com seu pai (pai é quem cria) e sentiu uma terrível dor de cabeça. O menino gritava de dor, mas o pai, com toda sua experiência, tratou de tranqüilizá-lo:
— Não se apoquente, meu filho. Isso aí é chifre de leite, logo cai e a dor passa. Volte para casa, fique lá com sua mãe um pouco.
Um empregado se encarregou de levar o garoto para sua mãe. A sunamita embalou seu filho no colo até o meio-dia, quando o menino morreu.
Morto o menino, a mãe teve a presença de espírito de depositar o cadáver na cama de Eliseu e requisitar uma jumenta. Ia ao encontro do profeta. O marido ainda tentou dissuadi-la, pois não sabia que o filho havia morrido, mas ela continuou firme em seu propósito. Montou na jumenta e fez o bicho correr até chegar ao monte Carmelo, onde estava Eliseu. Quando o profeta viu que ela se aproximava, mandou Geazi a seu encontro, para perguntar se estava tudo bem. Ela respondeu que sim, mas quando chegou perto de Eliseu se jogou no chão e beijou os pés do profeta. Ao perceber a aflição da mulher, Eliseu nem precisou de tradução.
— Geazi, pegue minha vara…
— Tá me achando com cara de sunamita?
— CALABOCA! Pega minha vara, feladaputa, e vá até a casa dela em Suném. Lá chegando, coloque a vara sobre o menino.
Geazi partiu em toda carreira para Suném, e Eliseu e a sunamita seguiram atrás. Quando chegaram à casa, o empregado já estava lá havia tempo.
— Fez o que eu te mandei, Geazi? Como está o menino?
— A situação dele é estável, chefe.
— …
— Quer dizer, continua morto e tal.
— Oras, saia da minha frente!
Eliseu subiu ao seu quarto e viu o menino deitado na cama, já rígido e gelado. Então deitou-se sobre ele, colando sua boca à boca do cadáver. O corpo do menino começou a esquentar. Agoniado, Eliseu andava pelo quarto e rogava a Javé por um milagre. Outra vez deitou-se sobre o menino. Dessa vez, o garoto abriu os olhos e espirrou sete vezes.
— Geazi!
— Pois não, ch… Caralho! O moleque tá vivo! Fala alguma coisa, menino.
— Papai…
— Xi, chefe.
— A CRIANÇA ESTÁ DELIRANDO, TÁ BEM? Chame a mãe dele.
— Papai…
— QUER VOLTAR PARA ONDE ESTAVA, PIVETE?
— …
— Humpf.
Quando entrou no quarto, a sunamita quase bate as botas ao ver o filho vivo, embora ainda um pouco atordoado e estranhamente quieto. Mais uma vez ela ajoelhou-se diante de Eliseu (em sinal de agradecimento, seus podres), e depois retirou-se.

Ressuscitar um morto é o suficiente para qualquer um sair por aí se dizendo “O Magnifíco”. Para Eliseu, pelo menos, foi. E, como se não bastasse, ele ainda operou dois milagres ligados a comida. No primeiro, evitou que um grupo de profetas de Gilgal, todos eles seus alunos, morressem envenenados por um cozido mal preparado. Para isso, apenas jogou um punhado de farinha na panela, o que purificou o cozido inteiro. Da segunda vez, Eliseu alimentou com vinte pães um grupo de cem homens. Se bem que esse eu também faço, só depende do tamanho dos pães. Bom, o caso é que Eliseu estava com tudo, e preparado para o que viesse. Era bom que fosse assim: o profeta ainda teria muito trabalho pela frente.

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