Coisas escritas em 2007
Malditos sejam!
A comunidade do JMC no Orkut chegou à marca de mil membros. Conforme apostado, isso significa que eu serei obrigado a escrever um capítulo novo por aqui. Pois tratem de esperar com paciência: mal tenho tempo para respirar ultimamente.
\O_
Tropa de Elite
Esta noite assisti pela segunda vez ao filme Tropa de Elite. Limito-me a dizer duas coisas:
- O filme é bom. Eu vi duas vezes, bã.
- Capitão Nascimento é um bandido. É carismático, pai de família, bem intencionado? Hitler também era. Bandido. Se perdermos a noção de que um policial que asfixia pessoas com um saco plástico é um bandido, podemos abrir mão da civilização.
De resto, fica clara a falta de vocação comercial desse povo que faz cinema no Brasil. Antes de começar o filme, temos tela atrás de tela de logotipos de estatais e programas governamentais de incentivo. Ora, em vez de mamar nas tetas do governo, por que não aproveitar o sucesso do filme para licenciar produtos? Imagine que legal ter bonequinhos do BOPE para a molecada, ou um game baseado no filme, com invasão de favela, interrogatório, perseguições? Eu me ofereço para escrever o roteiro do game.
Sabe quem tem tino comercial? Eu tenho. Querem ver? Comprem Elite da Tropa Por R$ 29,90 em 2X de R$ 14,90 sem juros. Tá baratinho, e eu ainda ganho uma pequena comissão.
Feriado frustrado
Olá, meus queridos. Sim, sim, eu sei que sumi. Estava me recuperando do trauma que foi o feriado. Conto.
Semana passada, pensando em onde iríamos passar o feriado, eu e Ana Cartola começamos a especular sobre o oeste paulista. Sim, porque todas as atrações turísticas do estado, desde o Circuito das Águas, ao norte, até a região das cavernas, ao sul, se concentra numa estreita faixa do leste. “Por quê?”, perguntávamo-nos, e decidimos, imbuídos de espírito bandeirante, voltar nossas setas para o oeste ignoto. Após alguma pesquisa (não encontrávamos nada sobre pontos turísticos na banda ocidental de São Paulo, e lamentávamos esse preconceito), decidimos por Santa Rita do Passa Quatro. Afinal, não era muito longe, ficava numa estrada que ainda não havíamos percorrido em meu possante um terço de Corsa (um terço é do pai, um terço é do filho, um terço é do Espírito Santander — depois explico) e tinha como atrativos duas cachoeiras, um mirante com linda vista da região, um jequitibá rosa de 3 mil anos, um deserto (!!!) e o museu Zequinha de Abreu, compositor de “Tico-Tico no Fubá” e o mais ilustre dos passaquatrenses (sei lá!).
Ah, meus filhos, o arrependimento! Para começar, todos os hotéis da cidade estavam lotados. Havia rumores de uma feira agropecuária, mas nada na cidade demonstrava isso: nenhum cartaz de divulgação, carro de som, panfletos, nada. O único hotel com quartos disponíveis era mal-assombrado e servia suco artificial no café-da-manhã — o diabo do lugar é literalmente cercado por plantações de laranja e a porra do hotel serve suco de laranja artificial! Atomanocu! O quarto tinha camas desconfortáveis e um aparelho de ar-condicionado quebrado. Depois da experiência em Eldorado, porém, nossa exigência quanto a instalações mudou bastante: o banheiro tinha porta, era o suficiente. Deixamos nossas coisas no hotel e fomos explorar aquela terra incógnita.
Primeira parada, a sorveteria. Eldorado, apesar do hotel do banheiro sem porta, era uma cidade simpática e, o mais importante, contava com uma excelente sorveteria. Em Santa Rita, todos os sorvetes têm o mesmo sabor de chiclete Ploc. Horrível. Tomamos nossos sundaes chicletosos e perguntamos à proprietária da espelunca sobre a tal feira agropecuária. Ela disse que era muito boa, que tinha muitas atrações, animais, rodeio, show de Teodoro & Sampaio, e era só ir indo, virar na farmácia do Palhares, seguir às esquerda e pronto.
Seguimos o caminho indicado (como esperávamos, a farmácia não se chamava “do Palhares” — a velha idiota esperava que adivinhássemos o nome do proprietário) e chegamos à Xiksfápis. Tá, não era esse o nome. XIX FAPIS, ou décima-nona Feira Agropecuária Numseiquê Numseiquelá. O ingresso custava vinte reais, o estacionamento, cinco. Entramos e não havia nada acontecendo: era muito cedo. Os peões concentravam-se numa cerca próxima ao lugar onde ficavam os touros. Portavam-se (os peões) como verdadeiros gladiadores, orgulhosos e distantes, olhando com desprezo os que passavam. Mais à frente, em dois galpões, exibiam-se carneiros e vacas de alta estirpe. Mais para cima um pouco, belos cavalos em suas baias. Chegamos a ver até um cavalo emo que guardava estranha semelhança com o jornalista Eduardo Vasques:
Rodamos mais um pouco pela exposição, tomei uma cerveja (Crystal, a única disponível, uma porcaria), a namorada comeu um crepe, depois encarei um sanduíche de pernil. Nada mais havia a fazer: ou íamos embora ou encarávamos aquele festival bárbaro, sangrento e cruel chamado rodeio.

Eu achava que a crueldade de que tanto falam era com os animais. Que nada! Crueldade daquele troço é com o público, que tem que ficar horas sentado numa tábua dura enquanto o narrador de rodeio, com aquela sua voz irritante, vai enrolando enquanto o espetáculo não começa. Horas e horas de orações, piadas sem graça, propagandas, música ruim, para alguns segundos de alegria por ver alguém estatelando-se de cima do lombo de um touro bravo e, se tivermos sorte, levando umas chifradas no rabo. Se você aí alimenta alguma vontade de ir a um rodeio, esqueça. É a maior bestagem que já inventaram, depois da reunião de diretoria.
Saímos à francesa no meio do rodeio e voltamos — que remédio — para o hotel amaldiçoado. O dia seguinte, pensávamos, seria agitado: tínhamos um só dia e muitas atrações turísticas para visitar.
Acordamos cedo no sábado, tomamos aquele café-da-manhã tenebroso e partimos para nossa primeira atração: o Deserto do Alemão. Segundo os sites que visitamos e um panfleto que arrumamos na Xiksfápis, tratava-se de um lugar deveras supimpa, com dunas, quiosques, árvores retorcidas e não sei mais o quê. Enfim, um lugar ideal para ficar bundando e fazendo de conta que se está num deserto de verdade. Placas por toda a cidade apontavam a direção do tal deserto, então achamos que seria fácil encontrá-lo. Qual! Depois de sair da cidade e andar por um tempão numa estrada deserta, resolvemos que o melhor mesmo era voltar e dar o Deserto do Alemão por boato. Voltamos, pois, frustrados com nossa primeira aventura. Mas ainda não cogitávamos desistir.
Nossa segunda atração ficava a nove quilômetros da cidade: o Morro de Todos os Caralhos (sei lá!), que contava com sua própria versão do Cristo Redentor e com uma vista deslumbrante. Toca pegar estrada, caminho de terra, subida íngreme (o Corsa chorando) para chegar a um lugar muito do chinfrim, com um Cristo todo desproporcional e uma vista feia e sem graça de quilômetros de plantações.

A essa hora Ana Cartola já começava a ter crises de riso nervoso e eu tinha vontade de jogar uma bomba H sobre Santa Rita do Passa Quatro para acabar com o sofrimento de seus habitantes. Mas, bravos que somos, partimos para a terceira atração: a Cachoeira das Três Quedas.

As informações que tínhamos davam conta de um lugar pitoresco, com o rio despencando por três grandes degraus de pedra, com ruínas da antiga usina hidrelétrica lá no alto. Seguimos, pois, para o lugar, paramos o carro e nos embrenhamos na trilha. Ouvimos vozes, porém, e acabamos descobrindo que, para chegar à cachoeira, precisaríamos descer. Isso significava que depois teríamos que subir. Vejam, nós somos um casal preguiçoso, mas nem tanto. Se fosse nossa primeira tentativa de diversão na cidade, ou se as outras não tivessem sido tão frustrantes, encararíamos a caminhada descendente (e a ascendente posterior) com um sorriso no rosto. Mas já estava tudo tão esmerdeado que não havia possibilidade de darmos alguma chance à cachoeira: mandamos a queda d’água tomar no cu — junto com o jequitibá e o Zequinha de Abreu — e pegamos a estrada. Só queríamos distância de Santa Rita do Passa Quatro.
Nosso plano B ficava a 80 quilômetros de distância: Ribeirão Preto. A chegada à cidade foi uma alegria só: congestionamento, buzinas, ratos, baratas, enfim, aquela sensação de estar em casa. Hospedamo-nos num hotel honesto (ar-condicionado operante e TV a cabo!), comemos no McDonald’s, fomos ao cinema (multiplex do Shopping Santa Úrsula, a melhor sala de cinema que já vi) e terminamos a noite no mundialmente famoso Pingüim, onde tomei cinco chopes que eram como a urina dos anjos, e me fizeram esquecer toda a provação por que passáramos até ali. Um final feliz.

Feriado
Eu e minha noiva vamos pegar a estrada. Espero que todos aproveitem o feriado. Quando eu voltar, tem capítulo novo (desde, é claro, que a comunidade chegue aos mil membros, conforme combinado).
Vão conversando aí na caixa de comentários. Abraços a todos.
Marco Aurélio Gois dos Santos | 12/10/2007 | 00:15 | 6 comentários
Outdoors
Há pouco tempo, Patrícia Köhler escreveu um post (que, aliás, cita esse texto meu) falando sobre o enigma dos outdoors vermelhos que pipocam por São Paulo. Depois da lei do Kassab, os painéis sumiram da Marginal Tietê, só para ressurgir na Radial Leste, meu caminho diário para o trabalho (e para qualquer outro lugar, já que moro no cu da Zona Leste). Patrícia se deu até ao trabalho de fotografar um dos outdoors:
Incompreensível, como sempre. E hoje, preso no agradável trânsito que só uma véspera de feriado pode nos proporcionar, consegui fotografar um outro outdoor, apenas alguns metros à frente do anterior:

Alguém me explica? Por favor?
(Criei até comunidade pra discutir isso. O negócio é sério)
Noffa!
Acabo de saber que vai ter acústico do Paulinho da Viola na MTV. Uau! Mal posso esperar para ouvir o som dele sem todas aquelas guitarras, sintetizadores e tal.
¬¬
???
Impressão minha ou este blog endoidou de vez?
A direita se coça
Sábado à tarde, depois de um almoço de ogros com os amigos, fui à Paulista passear e dei de cara com isso:

Uma manifestação. Nada incomum: a Paulista é o lugar predileto para tudo o que é manifestação em São Paulo, desde a parada gay até comemorações de títulos do São Paulo (há diferença?). Mas essa passeata em particular tinha algo de diferente. Não era só a classe média cansadinha reclamando da violência, ou cidadãos justamente emputecidos clamando por ética na política: tratava-se, na verdade, de uma manifestação da direita contra o governo Lula.
A passeata me fez lembrar o quanto a direita pode ser assustadora. Das imensas caixas de som saía a defunta voz da dupla Don e Ravel, entoando “Eu te amo meu Brasil, eu te amo”, hino máximo dos tempos da linha dura e do “Ame-ou ou Deixe-o”. Entre os manifestantes (muitos deles inocentes úteis, me parece), sujeitos com cara de malvados distribuíam panfletos alertando para os perigos do Foro de São Paulo e dos planos de Lula para levar o Brasil ao comunismo.
A direita é muito safada; chega a sê-lo mais do que a esquerda. Disfarça suas reais intenções por trás de manifestação pela ética. O ranço de Olavo de Carvalho se deixava entrever nos dizeres de uma das faixas exibidas pelos manifestantes: entre “Mensalão”, “Renan Calheiros” e “Caso Lulinha”, despontava a faixa “Suposta Ligação do PT com as FARC”. Porra, SUPOSTA?! Você está numa manifestação, xingando a mãe do presidente da República, e sapeca um “suposta” numa faixa de protesto? Oras, por favor!
Voltei para casa com medo. Aquilo me parecia a Marcha da Família com Deus, aquelas presepadas todas que antecederam (e desencadearam) o golpe de 64. Lembrei de uma crônica recente do Verissimo, na qual ele alertava para o perigo de se vaiar o governo ao lado das pessoas erradas. Eu pretendo continuar a vaiar os safados, mas aqui do meu canto, sozinho.
Marco Aurélio Gois dos Santos | 05/10/2007 | 18:56 | 17 comentários






