Estátua!
Por falar em testes, parem tudo. Nada de comentários por enquanto. Estou testando a migração para o WordPress. Volto depois, provavelmente com o blog todo fodido.
Por falar em testes, parem tudo. Nada de comentários por enquanto. Estou testando a migração para o WordPress. Volto depois, provavelmente com o blog todo fodido.
Os mais atentos hão de perceber uma leve mudança nos caça-níqueis deste miserável blog. Estou testando.
“Chega de historinha!”. “Chega de DVD!”. “Chega de desenho!”. É assim que minha sobrinha Ana Julia demonstra sua exasperação diante da informação em excesso. Imitando-a, digo eu: chega de Second Life! Sim, sim, os mundos virtuais são fascinantes, abrem novas possibilidades, oferecem oportunidades e coisa e tal. Eu escrevi sobre isso em agosto do ano passado; foi (acho) a primeira matéria extensa sobre o assunto na imprensa brasileira. No final, eu escrevi:
A resposta parece ser: TODAS! É um inferno. Todo dia alguma empresa anuncia sua chegada “pioneira” ao mundo sintético do Second Life. Lembro de quando a Internet chegou ao Brasil: todo mundo falava em www. Você corria para lá e para cá, abria outra revista, mudava de canal ou estação de rádio, e não adiantava: lá estava nego falando em arroba, em agatetepê, em dabliodabliodablio. Agora a onda é Second Life. Tomara que venha logo uma bolha como as da .com, que é pra neguinho aprender que não existe atalho milagroso para ganhar dinheiro, e que as regras da economia valem no mundo real, no virtual, no sintético, no inferno, na casa do caralho.
Seguinte: deus disse que eu estou chato e que devo escrever mais. Obedeço, que remédio?
Nessa conversa toda sobre arrogância (que descambou para uma discussão sobre espiritismo; deus-me-livre de falar mal do espiritismo), lembrei de um sujeito que trabalhava comigo. Bom, não exatamente: eu trabalhava numa empresa grande, o tal sujeito era da subsidiária carioca. Assim que nos conhecemos (juro, logo depois de apresentados) ele olhou para minha barriga e disse:
— Precisa se cuidar, hein, bicho? Jogar um futebolzinho, pedalar. Não pode ficar gordão assim na sua idade, rapá! Olha o coração, olha o coração!
Eu pensei em várias respostas, mas me contentei em mandá-lo tomar no cu mesmo. O que mais me espantou, porém, foi a falta de reação das outras pessoas presentes. Ninguém se mostrou minimamente constrangido diante daquela clara invasão.
Depois dessa, passei a considerar a possibilidade de começar a agir assim, partindo do princípio da igualdade de direitos. Da próxima vez em que ouvir alguém falando uma bobagem, ou que ler algo horrendamente escrito num blog (ou nos comentários deste blog, algo muito comum), ou qualquer coisa assim, terei o direito de comentar:
— Precisa se cuidar, hein? Ler um livro que não seja espírita, assistir a uns filmes, sei lá. Não pode ser burro assim não, mano! (sou paulista) Olha o cérebro, olha o cérebro!
Me pergunto qual a patologia de uma pessoa que acusa outra de ser arrogante. Nunca acusei ninguém disso, nem mentalmente; de burro, sim, de idiota, de vulgar, de fresco, de cretino; mas nunca de arrogante, porque a arrogância é uma vaidade alheia que nos desagrada, uma vaidade que parece prestes a humilhar a nossa. Ninguém humilha a minha vaidade.
(Alexandre Soares Silva)
Arrogância
? substantivo feminino
1 ato ou efeito de arrogar(-se), de atribuir a si direito, poder ou privilégio
2 Derivação: por extensão de sentido.
qualidade ou caráter de quem, por suposta superioridade moral, social, intelectual ou de comportamento, assume atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros; orgulho ostensivo, altivez
3 Derivação: por extensão de sentido.
atitude desrespeitosa e ofensiva em atos ou palavras; insolência, atrevimento, ousadia
(Houaiss)
Descobri hoje na faculdade que algumas das pessoas mais agradáveis da sala me acharam arrogante nos primeiros dias. Senti-me ofendido. Por que cargas d’água deixaram de achar?
É engraçado. Nego tem um bíceps do tamanho da minha cabeça, anda por aí de regata e ninguém diz nada (ah não ser as moças, que suspiram por ele, ou os invejosos, que cochicham sobre o tamanho do pau do rapaz). Uma portadora de belos peitos faz questão de exibir as tetas em profundos decotes, e está tudo muito bem (muito, muito bem). Agora, tente citar Dostoiévski. Tente desprezar o que é reles e chão (como livros espíritas, de auto-ajuda e Dan Brown). “Arrogante!”, berram as hordas horrorizadas, já de tocha na mão. Ah, vão à merda!
Há uma comunidade no Orkut chamada Eu sou arrogante. Em sua descrição, uma frase de Schopenhauer:
O brasileiro valoriza muito a modéstia. O brasileiro é idiota. Coincidência? É foda não ser idiota neste país.
No último post, algumas pessoas (inclusive meu querido Giggio, sempre me criticando e discordando de tudo que eu digo, o safado) vieram defender a diversidade e coisa e tal. Bem intencionados, não querem que eu seja arrogante (provavelmente para não reencarnar como ácaro). Então me vem um tal LP e sapeca:
Santo e arrogante LP. Obrigado, LP. Leiam Refluxo Gástrico, o blog do LP.
Kurt Vonnegut morreu.
A Fer me deu a triste notícia. Poucos segundos depois, Daniel Lima confirmou. Daniel me apresentou Vonnegut num Natal desses, dando-me de presente o Timequake, e livrando-me para sempre de pensar que literatura americana contemporânea era Bukowski. Comi o livro, comi outros, comi todos os livros de Vonnegut. Comprei o estoque de Vonnegut da Livraria Cultura. Li Um homem sem pátria duas vezes num vôo entre São Paulo e Foz do Iguaçu.
Por aqui, como observou Daniel, nenhuma linha na imprensa. O velho escritor de livros malucos, com suas obsessões que geravam temas recorrentes e sua falta de pudor em misturar ciência e arte não faz sucesso no país em que os poucos que lêem investem seu tempo em espiritismo, auto-ajuda e platitudes de Dan Brown.
Leiam Vonnegut, seus putos. Vocês precisam ler Vonnegut.
Receita de Tio Elias para sua longevidade:
— Nunca achei cachaça boa nem nêga feia.
— Depois vamos à casa de Elias. Ele é safadinho, viu?
Quem fala é Marta, prima de minha mãe. Elias é meu tio-avô, irmão de minha avó materna. Ela, nascida em 1917, morreu em 1995. Ele, de 1911, mora sozinho e se mantém lúcido e rijo. Mora numa casa simples, prepara suas refeições, e conta com apoio dos filhos e netos, que sempre vão verificar se o velho precisa de alguma coisa. É um ancião que vive o presente, o que tira boa parte da graça de se conversar com alguém dessa idade. O assunto constante são seus 96 anos de vida e o fato de se virar tão bem sozinho.
— Quem tem filhos e netos tem amigos. No resto, não confio.
Ele conta que já teve dinheiro furtado diversas vezes, daí a desconfiança.
A visita é breve. Mais tarde, já na casa das outras tias, comentamos a visita vespertina. Uma prima conta que ele é inocente, mostra a quem quiser seus esconderijos de dinheiro. Minha mãe pergunta quem anda roubando o dinheiro do velhinho.
— As meninas!
— Netas dele?
— Que nada! Elias é safado — é a segunda vez que aplicam o adjetivo a meu venerável tio-avô. — Paga dez reais pras meninas sentarem no colo dele!
As tias são Antônia e Valdete. Antônia tem 84 anos e nunca se casou. Vaidosa, tinge os cabelos desde os tempos em que trabalhava na indústria têxtil, pinta as unhas de vermelho e usa óculos escuros. Valdete, mais nova e discreta, é casada com Virgílio. Os dois têm um filho e sete filhas. Virgílio teve trombose há algum tempo, quase morreu. Ficou paralítico por um tempo, agora anda com dificuldade do sofá para a cama, e não mais do que isso. Tem um sorriso bonito e olhar inteligente. Tia Valdete conta:
— Está aí sem nem poder andar direito, mas muito lúcido. Está melhor de memória do que eu.
— Melhor isso do que ter um homem doido e correndo pela casa, né?
Ela ri de minha observação. Depois fala dos filhos. Fala de Sócrates, conhecido na família como Kid, único filho homem. Sócrates era também o nome do pai de Virgílio. O Sócrates atual tem três filhos: Sócrates, Virgílio e Mateus. Uma de suas irmãs chama-se Virgília. Muitas outras se chamam Maria. Por um momento, sinto-me como um Buendía de volta a Macondo.
Virgílio foi professor durante muitos anos, e diretor de diversos colégios da região. É apaixonado por História. Ele pergunta meu nome. Fica encantado ao constatar que é nome de imperador romano. Mais tarde, me apresenta um primo de 19 anos de idade.
— Marco Aurélio, esse é Augusto César. Seu colega!
Fico sabendo que um neto de uma das primas da minha mãe teve problemas na escola. Batia nos colegas. A professora o colocou para sentar na cadeira dos bobos, porque só meninos bobos batem nos outros. O moleque, parece, tomou jeito. Outro primo, esse de 17 anos, lembra que em seus tempos de pré-escola a professora o colocava para sentar de frente para uma imagem de Cristo sempre que ele aprontava alguma. Ele conta que se revoltava, chorava e gritava:
— Eu ódeio Jésuis!
Na casa de outra prima, tomamos sorvete sentados a uma mesa no quintal. Tia Antônia está pensativa. Depois de um tempo, diz:
— Parece um sonho… Não é verdade, Ana Maria? — Ana Maria é minha mãe — Nós todos reunidos aqui depois de tanto tempo, não parece um sonho?
— Parece sim, titia, eu estava mesmo pensando nisso.
— Parece um sonho, mas não é. É uma bênção de Deus, através desse careca aí.
Este careca aqui agradece, e nem se importa de ser chamado de instrumento divino.
Marta nos leva para um passeio pela cidade. Conhecemos o bairro em que minha avó morou. Ao que parece, ela e meu avô não sossegavam, e moravam em várias casas.
— Donata era meio rústica — diz tia Antônia.
Visitamos as fábricas de tecidos da cidade. Minha avó trabalhou em duas delas. Durante a Segunda Guerra Mundial, chegou a costurar fardas para a FEB. Hoje, diante da concorrência chinesa, a indústria têxtil de Estância busca alternativas. Uma das fábricas investe em cosméticos. Ainda não deu certo.
Estância é uma cidade cheia de igrejas. A catedral é dedicada a Nossa Senhora de Guadalupe. As casas mais antigas têm fachadas lindas, todas cobertas de azulejos portugueses. As mais novas são pintadas de cores que Marta define como “exuberantes”.
Visitamos o cemitério. Vejo os túmulos dos meus bisavós, pais da avó Donata, e de Sócrates, pai de Virgílio. A família de minha avó tem suas origens em Lagarto, cidade que fica no meio do caminho entre Aracaju e Estância, só que mais para dentro. De volta a São Paulo, descubro que o jornalista Joel Silveira nasceu em Lagarto; parece que Silvio Romero também. Serão parentes meus?
Volto de Estância sabendo mais sobre minhas origens. Digo a Virgílio que pretendo voltar em breve.
— Quando voltar, já vai me encontrar caminhando — ele garante.
Decido reincluir o Gois na minha assinatura, e foda-se se o nome fica muito grande.