(II Reis 6)
Geazi acordou, caiu da cama, passou um pente pela cabeça. A lepra fora apenas um susto; estava novamente a serviço de Eliseu. Precisava aliviar a bexiga e foi saindo. Da porta, viu ao redor da casa uma tropa de soldados com cavalos e carros de guerra. Espreguiçou-se. Esfregou os olhos. Os soldados continuavam lá.
— Bom dia…
— Bom dia — respondeu um que parecia ser o chefe.
— O que fazem aqui em Dotã tão cedo?
— Cerco.
— Hum…
— Pois é.
— Dia bonito, não?
— Muito.
— Os senhores são de onde?
— Síria.
— Hum.
— É.
— Tão cercando quem?
— Eliseu.
— Ah.
— Conhece?
— Eu? Nah.
— Hum.
— Minutim.
Geazi acenou para os soldados, e calmamente voltou para dentro. Assim que se viu fora do alcance da vista dos sírios, disparou para o quarto de Eliseu.
— Patrão! Fodeu, patrão! Vamos fugir, o bicho tá pegando!
— Porra é essa, Geazi? Calma. O que acont… Geazi, cê tá mijado?
— Hein? Puta que pariu, bem que eu vi que tinha esquecido alguma coisa… Bom, foda-se. Patrão, os sírios tão lá fora querendo te pegar.
— Sírios, é?
— SIM! SÍRIOS! Você sacaneou os caras e agora são trocentos deles contra nós dois.
— Nós dois e a galera, né, Geazi?
— Que galera, patrão? Endoidou?
— Javé, mostra pra ele.
— Tá falando com q… PUTA QUE PARIU DE ROSCA! E-esses caras são…
— Anjos. Sim. Uma anjaiada brava, boa de briga. Vamos lá ver esses tais sírios.
Deslocar tamanha tropa para pegar um só homem ia contra o senso estratégico e econômico do exército da Síria. Mas é que Eliseu andava muito abusado. Tinha passado por um período de marasmo, era verdade. Durante esse tempo, ajudara na construção de uma casa para o Clube dos Profetas de Israel às margens do Rio Jordão. A coisa mais empolgante a acontecer durante a construção foi a queda do machado de um dos operários no rio, machado este que Eliseu fez flutuar. De resto, só moleza.
Aconteceu, porém, que o rei da Síria, que andava até muito amigo de Israel, decidiu que era hora de tentar invadir o reino vizinho novamente. Armou acampamento em um lugar estratégico para pegar o exército israelita de surpresa. Só que Eliseu continuava com suas experiências de sair do corpo: viu onde os sírios se entocavam e avisou o rei de Israel, que mandou mensageiros à região alertando para a presença inimiga. O exército sírio mudou de acampamento e foi descoberto outra vez. Mudou mais uma vez, e mais uma vez viu frustrados seus planos. Repetida a situação diversas vezes, Ben-Hadade, rei da Síria, chegou à conclusão óbvia: havia um traidor entre seus oficiais. Na hora da acareação, um dos oficiais contou ao rei sobre Eliseu e seus poderes mágicos. Era o fim da picada. Era preciso eliminar o profeta.
— Espera, patrão. Não seria melhor…
— Deixa de ser bunda mole, Geazi. Vamos lá. Bom dia, meus caros sírios. É uma honra tê-los em meu quintal.
— É você o tal Eliseu?
— Quem quer saber?
— Eu, o comandante da tropa.
— Olha só, que engraçado!
— O que é engraçado, rapaz?
— Uma tropa só de cegos!
— Cegos? Cê tá louco? Homens! Prep… GAAAAAAAAAAH! Estou cego!
— Estou cego!
— Não estou vendo nada! Socorro!
— Eu estou cego também! Não. Peraí. Ah, não. Putz. ESTOU SIM! ESTOU CEGO!
— ACALMEM-SE, CEGUETAS! Vocês vieram bater à porta errada. Se quiserem, posso guiá-los até onde Eliseu está.
A proposta não fazia muito sentido, mas os soldados não tinham escolha. Estavam cegos em uma terra desconhecida, e era melhor confiar naquele guia estranho do que não ter guia algum. Foram, pois, seguindo Eliseu.
— Chegamos — disse o profeta, e os sírios imediatamente voltaram a enxergar. Não estavam na casa do profeta, claro: estavam em pleno centro de Samaria, com o rei de Israel diante deles e o exército israelita ao redor.
— O que eu faço, Eliseu? — perguntou o rei — Mato os felasdaputa?
— Claro que não, majestade. O senhor por acaso mata seus prisioneiros de guerra? Dê comida e água a esses homens, que estão assustados e já aprenderam sua lição. Depois eles voltarão para casa e contarão o que lhes aconteceu.
O rei seguiu a recomendação de Eliseu, dando uma grande festa para os soldados sírios. No dia seguinte, de ressaca, eles voltaram para sua terra. Durante algum tempo, Síria e Israel viveriam em paz.
A paz só durou alguns meses, na verdade. Um dia Ben-Hadade acordou de mau humor e decidiu que ia resolver de uma vez por todas a questão israelita. Então mandou todo o seu exército para cercar Samaria. Depois de algumas semanas de sítio, a comida começou a escassear na capital israelita. Nas feiras, uma cabeça de jumento era vendida por um valor correspondente a quase um quilo de prata.
Diante da situação, o rei de Israel ficava cada dia mais deprimido. Seu exército não era páreo para as forças sírias, e uma solução diplomática estava fora de questão. O rei passava os dias caminhando pelas muralhas da cidade, um pouco para pensar, um pouco na esperança de ser atingido por uma flecha e acabar logo com tanto sofrimento. Foi em uma dessas caminhadas que o rei se viu interpelado por duas mulheres.
— Majestade, me ajude!
— Deixe de bobagem, minha filha. Se Javé, que é deus e não sei que mais, não te ajuda, como é que eu vou ajudar?
— Por favor, majestade! Temos uma questão a ser decidida, e só o senhor pode ser o juiz.
A questão das mulheres despertou a curiosidade do rei. Era uma cena digna do lendário Salomão.
— Pois digam.
— Dia desses essa aí deu a idéia de comermos nossos filhos.
— Que horror!
— Pois é, veja só! Ela deu a idéia, então cozinhamos meu filho e comemos o pobrezinho. Aí no dia seguinte eu falei pra ela que era a vez do moleque dela, mas ela escondeu o bebê. Como é que se resolve essa situação, majestade?
O rei não sabia o que dizer. Primeiro pensou tratar-se de um trote. Seus olhos saltaram de uma mulher para a outra, mas ambas pareciam preocupadas apenas no aspecto jurídico da questão. Horrorizado, triste, com raiva, o rei rasgou suas roupas e caiu num choro convulsivo. Precisava culpar alguém por aquela situação insustentável, então se lembrou do episódio ocorrido meses antes.
— Que Javé me mate se hoje mesmo eu não cortar a cabeça do desgraçado!
O desgraçado, claro, era Eliseu, que naquele momento estava em casa reunido com alguns líderes do povo. Os visitantes estranharam quando o profeta interrompeu sua fala no meio de uma frase.
— Epa. O rei está mandando alguém aqui para me matar.
— C-como?
— Sim, estou vendo. Quando o mensageiro chegar, não abram a porta. O próprio rei virá depois dele.
O profeta ainda estava falando quando o mensageiro bateu à porta. Minutos depois, chegava o rei.