Extras 10

Já reparou no comportamento dos figurantes de filmes, principalmente de fitas nacionais até os anos 80? É difícil imaginar pessoas fazendo papel mais ridículo. Acho que o diretor enfatiza demais a instrução de não olhar para a câmera. Então, quando entram em cena, os extras vão olhando duro para a frente, sem piscar, sem olhar para os lados, braços colados ao corpo. Para estragar tudo, alguns dão uma olhadela para a câmera um momento antes de sair de quadro.

Agora repare no comportamento de algumas pessoas conhecidas quando você as encontra na rua. Ao ver sua figura ao longe (minha figura, particularmente, é muito visível ao longe, com mais de cem quilos, calva reluzente e andar peculiar), alguns adotam postura de figurante. Imediatamente olham fixo para a frente, sem piscar. Outros, mais profissionais, lembram-se de revirar a bolsa ou de colar o celular ao ouvido. Tudo isso para evitar um cumprimento rápido, um aceno.

Não estou criticando esse comportamento. Pelo contrário: acho que devia ser oficializado. Toda pessoa deveria ter consigo os créditos de sua vida, e distribuir cartões com o papel de cada um. Alguns poucos cartões para os protagonistas: “Mãe”, “Pai”, “Namorada”, “Irmão”, “Melhor Amigo”, “Amante”, “Marido”. Uma quantidade maior para personagens secundários. “Colega nº1″, “Barbudo da Lanchonete”. E para a maioria, o papel de “Extra”. Esses não teriam a obrigação de cumprimentar, de puxar conversa, de nada. Apenas tomariam o cuidado de preencher os espaços e, pelo amor de Deus, não olhar para a câmera.

Para os figurantes:

(Essa mulé parece minha professora de Iniciação à Produção Acadêmica. A voz fanha, inclusive)