Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em 2006

Offshoring pra boi dormir

“Estamos no mesmo fuso horário que os americanos”. Esse, vejam que coisa triste, é o principal argumento dos executivos brasileiros para a crença na transformação do país num grande centro global de offshore, especialmente para desenvolvimento de software. Explico: empresas de países desenvolvidos perceberam que o processo de criação de programas de computador poderia ser desmembrado, e a parte mais chata do trabalho feita por profissionais cuja hora de trabalho custa muito menos do que na sede dessas empresas. Índia e China despontaram como potências do offshoring. Como esses dois países ficam do outro lado do mundo, os brasileiros se saíram com essa: estamos aqui do lado, mesmo fuso, é só ligar e nós atendemos. Pergunte a um desses executivos por que, então, o país não abocanha sua fatia desse mercado. Xi, é uma choradeira danada: é o governo que não apóia, é a carga tributária, são os encargos trabalhistas, são os gringos que não confiam na gente, é Deus que se esqueceu de suas origens e virou americano.
Nunca entendi esse negócio do fuso horário. Porque, vejam, o processo de desenvolvimento de software envolve várias etapas. Na parte de desenvolvimento propriamente dito, podemos citar programação, testes e homologação. Ora, suponha que um certo módulo de um novo software requeira 8 horas de programação, 4 de testes e 4 de homologação. Terceirizando a programação para a Índia ou China, o serviço será feito enquanto é dia por lá, enquanto os americanos dormem. Quando eles acordam e vão trabalhar, já têm código pronto esperando por eles e pelos testes e homologação. O fuso horário oposto é, portanto, uma vantagem: terceirizando esse serviço para o Brasil, por exemplo, testes e homologação seriam feitos em dias alternados, já que seria necessário esperar o trabalho dos brasileiros.
É tão óbvio que desconfio da sinceridade de quem cita o fuso horário como grande vantagem competitiva. Será que esses caras estão querendo é corte de impostos e informalização das relações de trabalho? Se for isso, estou com eles. Desconfio, porém, que há mais que isso. Acho que nego está querendo é um dinheirim do governo. Os cineastas podem, por que não os empresários de TI, não é mesmo?

E o bambu?

Crianças são coisinhas de Deus…

A perseguição a Elias e a chamada de Eliseu

(I Reis 19)

No último capítulo, deixamos Elias em Jezreel, após ter vencido e matado os profetas de Baal. O rei Acabe, impressionado com o duelo entre as duas religiões, voltava para o palácio disposto a abolir o culto pagão de Israel e voltar à velha religião de Javé. Precisou mudar de idéia, porém. Ao contar a sua esposa Jezabel o que acontecera, a mulher quase lhe comeu o fígado. Bem, Acabe mandava em Israel, mas quem mandava em Acabe era Jezabel, que enviou a Elias o seguinte recado:

Que meus deuses me matem se em vinte e quatro horas eu não fizer a você o mesmo que você fez aos profetas de Baal, maldito!

J.

Horas depois, recebeu a resposta do profeta:

Vai acabar com meus argumentos utilizando a mais fina ironia?

E.

Jezabel ainda mandou outro bilhete, com a indefectível frase “Você está falando sério?”, mas era tarde: sabendo exatamente o que a rainha pretendia lhe fazer, Elias fugiu com seu ajudante para Berseba, em Judá. Deixou o ajudante na cidade e se enfiou no deserto. Depois de um dia inteiro andando, encontrou uma árvore e sentou-se à sua sombra. Era o último profeta de uma religião que um dia fora a única de um país que também não estava dividido. A seca, a disputa com os profetas de Baal, a volta da chuva, nada adiantara: continuava sendo um pária, um homem malquisto em sua própria terra. Era demais para ele.
— Chega desta merda, Javé! Acaba logo com a minha vida! Eu sou o último fracasso de uma linhagem de derrotados.
Exausto, o profeta caiu no sono. Logo alguém o cutucava impacientemente. Elias abriu os olhos e viu diante de si um sujeito alto, todo vestido de branco.
— Morri?
— Morreu uma pemba. Levanta daí e come.
Elias ia explicar que estava no meio do deserto, e não lhe apetecia comer areia, mas foi calado pela visão de um pão assado nas pedras e um jarro d’água. Ele comeu, bebeu e pegou no sono novamente. Bem, tentou pegar no sono, porque o anjo continuava a cutucá-lo.
— Cara chato…
— Come mais, rapaz, senão você não agüenta a viagem.
Acostumado a ser mandado por Deus para cá e para lá, Elias nem formulou a pergunta “que viagem?”, que ocorreria a qualquer um de nós. Em vez disso, levantou-se, comeu mais pão e bebeu mais água. Pense numa refeição balanceada e cheia de vitaminas: o alimento deu ao profeta forças para andar quarenta dias e quarenta noites até o monte Sinai, lugar dos mais sagrados para Israel. Assim que chegou, entrou numa caverna para passar a noite. Quando começava a ferrar no sono, ouviu uma voz conhecida:
— O que você está fazendo aqui, Elias?
— PORRA, JAVÉ! ME DEIXA DORMIR!
— Não quer comer uma coisinha antes?
— NÃO! ESSA SUA COMIDA TEM ANABOLIZANTE!
— É sério, Elias. O que você está fazendo aqui neste buraco? Você é um vencedor, Elias! Um profeta poderoso! Você pode, você consegue! Força, rapaz!
— Que é isso, Javé? Virou o Bernardinho?
— Bah. Ok, ok, esse lance de auto-ajuda não funciona com você. Muito bem, mas que porra você está fazendo aqui?
— ESTOU ME ESCONDENDO, CARALHO! A minha vida inteira eu fui um servo fiel, sempre fiquei do seu lado. E o que eu ganhei? Um diabo dum povo ingrato, que caga para a velha religião, que derrubou seus altares e matou todos os seus profetas. Bom, quase todos. Sobrei eu. EU! SÓ EU! UM ÚNICO PROFETA CONTRA UM PAÍS INTEIRO! O QUE VOCÊ QUER QUE EU FAÇA?
— Eu quero que você saia daqui e fique diante de mim no alto do monte.
— Estou com sono…
— VOCÊ ESTÁ PENSANDO QUE EU SOU SUAS NEGAS, FELADAPUTA? EU SOU É DEUS, TÁ ME OUVINDO? DEUS! SAI DESTA PORRA DE CAVERNA AGORA E CORRE PRO ALTO DA MONTANHA, ANTES QUE EU TE FULMINE, PORRA!
— Ah, já que você pediu jeitinho…
O sarcasmo foi um pouco demais, e a resposta de Javé veio na forma de um vendaval que arrancou as moitas que se prendiam às rochas do monte, assustou as cabras e levantou as vestes do profeta. Quando o vento parou, Elias estava sentado no chão, trêmulo.
— Javé? É você?
Em vez de resposta, veio um terremoto que abriu fendas na face da montanha, fez rolar grandes rochas, que quase fecharam a entrada da caverna, e assustou mais ainda o profeta.
— Peraí, Javé. Vamos conversar…
Depois do terremoto, veio um fogo que queimou as plantas que restavam, chamuscou as pedras e os cabelos de Elias.
— J-Javé?
— Ah, um gaguinho falando docemente comigo no Sinai. Assim que eu gosto! Tudo bem com você, meu querido Elias?
Ao ouvir a voz, Elias saiu da caverna, tomando antes a precaução de cobrir o rosto com a capa. Sabia que olhar para a face de Javé, ainda mais num momento de ira como aquele, não era boa idéia.
— O que você está fazendo aqui, Elias?
— Er… Eu não agüento mais, Javé. Sou o último de seus profetas. De nada adiantou minha lealdade. Fui derrotado. Como eu disse antes e tal…
— Derrotado? DERROTADO? Eu sou é Deus, porra! DEUS! Quantas vezes vou precisar falar isso?
— Mas o que é que eu posso fazer agora, Javé?
— Volte para o deserto, ande até Damasco e unja Hazael como rei da Síria.
— Como é?
— Vai por mim, é um plano que eu tô bolando aqui. Depois de besuntar o cara, unja Jeú, filho de Ninsi, como rei de Israel. Então procure em Abel-Meloá um tal Eliseu, filho de Safate.
— E esse vai ser rei de onde?
— De lugar nenhum. Eliseu vai ser seu sucessor.
— E aí você vai me matar, certo?
— Cala a boca, Elias. Você não reclamou que era o único profeta? Pois bem, agora vai ter outro, Eliseu.
— E os outros, Hazael e Jeú?
— Esses caras vão curar Israel da doença trazida por Acabe e Jezabel. Quem escapar de Hazael vai ser morto por Jeú, e quem der a sorte de escapar dele perecerá sob Eliseu. Pelas minhas contas, só sete mil pessoas no país inteiro não adotaram a religião de Baal. Só essas serão poupadas.
— Mas, Javé, vai ser uma carnificina!
— Vai, né? Como nos velhos tempos. Rapaz, estou até me sentindo mais jovem!

Hazael e Jeú podiam esperar: Elias queria conhecer logo seu sucessor, então foi a Abel-Meloá. Lá encontrou um rapaz que arava a terra com o último par de bois de um total de doze. Elias passou perto do rapaz e jogou a capa sobre sua cabeça. Eliseu já devia ter sido avisado do que estava para acontecer, porque nem perguntou que porra era aquela. Em vez disso, pediu a Elias que lhe desse licença para voltar a casa e se despedir de seus pais.
— Eu tô te segurando?
— Hã?
— Vai, diabo! Olha o sucessor que Javé me arruma…
Logo em seguida, porém, Eliseu fez algo que impressionou Elias: foi até o lugar onde estavam os dois bois com os quais estivera arando a terra e matou os animais. Pegou a madeira da canga para fazer uma fogueira, e nela preparou a carne. Depois de distribuir a carne entre o povo que estava ali perto, foi se despedir dos pais e voltou para onde Elias estava.
— Pronto. Podemos ir.
— …
— Que foi?
— Nada não.
Esse estranho Eliseu, de gestos inesperados e teatrais, seria um dos maiores, se não o maior profeta da história de Israel. Por enquanto, porém, seria apenas o ajudante de Elias, substituindo aquele que o profeta deixara em Judá, e que deve estar até hoje esperando a volta do patrão. Imaginem o tamanho do processo na justiça do trabalho…

Um tostão de minha voz

Não tem nada melhor para fazer? Ouça essa entrevista concedida por mim a Bruno Ferrari & patota. O Bruno não pesca minhas piadas, pobrezinho, e ainda cortou meus palavrões, o que reduz drasticamente meu vocabulário. Notei uma coisa curiosa: estranhamente, eu adquiro um certo sotaque gaúcho quando falo pelo telefone. É algo para ser estudado.

Ah, jornalistas!

Meu parente Ancelmo Gois escreveu ontem em sua coluna no Globo:

O amor é lindo

João Gilberto, 75 anos, gênio da MPB, acaba de saber que é pai de uma menina de dois anos e meio, fruto de uma relação com uma fã carioca.

O mestre já tem uma filha famosa, a cantora Bebel Gilberto, com Miúcha

Relevo esse lance de chamar de “gênio da MPB” um cara cuja carreira já estava mais do que consolidada quando a sigla surgiu. De resto, a nota do Ancelmo está certinha. Notem que ele diz que João tem uma filha famosa. Então a Folha, triste e furada, dá sua versão hoje:

Bebel Gilberto, 40, não é a única filha de João Gilberto, 75. É o que informa hoje o colunista Ancelmo Gois no jornal “O Globo”. O músico teria descoberto há pouco tempo que é pai de uma menina de dois anos.

Eu sempre soube que Bebel não era a única filha de João. Ou será que João Marcelo morreu e eu não fiquei sabendo? Ou pior: será que só conta filho famoso? Eita preula. Eita preguiça de conferir uma informaçãozinha que seja. Eita raça.

Update: Cliquei no “comunicar erros” da nota da Folha e enviei minha mensagem. Agora há pouco uma Mary Persia me respondeu que havia adicionado o nome de João Marcelo. Bela correção: a nota começa da mesma forma, e só lá no último parágrafo é informado que João tem outro filho. Reitero: eita raça.

Futurismo

teleportec

Teleportec: coisa do cão

Já ouviram falar num treco chamado Teleportec? Vi esse negócio em funcionamento ontem e fiquei besta. Sim, mais ainda. Estava cobrindo um evento, e os organizadores anunciaram que um dos palestrantes participaria a partir de seu escritório em Dallas, via Teleportec. “Tucanaram a videoconferência”, pensei. Bobagem minha. Nem o equipamento nem o palestrante eram banais.

Manjam pára-brisa de lancha? Então. Imaginem um pára-brisa de lancha de cabeça para baixo e com a parte côncava voltada para a platéia, incrustado num púlpito de madeira. Aparentemente era só isso o tal Teleportec: vidro e madeira. Bestagem, frescura de design. Pelo menos até o momento em que foi posto em funcionamento: de repente, vindo do nada, o palestrante materializou-se atrás do púlpito. Sorridente, mãos apoiadas sobre o tablado, um pouco transparente aqui e ali, o homem parecia um fantasma camarada.

Pelo que me explicaram, o funcionamento do equipamento é relativamente simples: o palestrante se posta frente a um fundo verde, como no velho truque do cromaqui. Na outra ponta, a imagem é projetada no vidro sem o fundo. Como o vidro é transparente, a imagem projetada se sobrepõe ao fundo local (no caso de ontem, as cortinas do teatro). O formato do vidro, dobrado nas laterais, completa a ilusão de três dimensões. Coisa do cão.

Kurzweil: o próprio cão

Kurzweil: o próprio cão

O cão, nesse caso, incorporou-se no palestrante, Ray Kurzweil. Ao que tudo indica, o sujeito tem em casa uma máquina do tempo. Na década de 80 previu que o mundo inteiro estaria conectado a uma rede mundial de computadores na metada da década seguinte, e que o genoma humano estaria mapeado no começo do século seguinte. Ninguém acreditou nele. Nem Watson e Crick, que desvendaram a estrutura do DNA, botaram fé num mapeamento tão rápido do genoma — falavam em cem anos. O que aconteceu? Bingo para Kurtzweil nos dois casos.

Ele jura que não é feitiçaria, e que não viaja ao futuro para trazer essas informações. Segundo o inventor (o cara criou o reconhecedor óptico de caracteres, o sintetizador musical, o scanner, o software de reconhecimento de fala), toda tecnologia tende a dobrar sua capacidade de um ano para o outro. Em 2005 você compraria uma câmera de 3 megapixels para uso cotidiano, hoje não compraria uma com menos de 6 megapixels. Aquele seu microcomputador que tinha 512 megabytes de memória anda precisando de um upgrade para 1 gigabyte. Agora imagine isso em dez anos: é multiplicar a capacidade por 210, ou 1024. Tecnologia que se torna mil vezes mais poderosa a cada dez anos (um milhão a cada vinte anos, um trilhão a cada trinta anos, e assim por diante) faz a gente repensar algumas previsões de malucos como Kurzweil.

Ele falou, por exemplo, de um negócio chamado Respirocyte, uma célula sangüínea artificial, ou melhor, um nanorrobô programado para agir como glóbulo vermelho. Não só isso: experiências com cobaias mostram que as células artificiais podem ser programadas para tarefas diversas como, por exemplo, reconhecer padrões incomuns de divisão celular — em outras palavras, detectar e destruir células cancerosas. Imaginem a aplicação dessa tecnologia no tratamento pós-cirúrgico, substituindo quimioterapia e radioterapia, que são invasivas e debilitadoras.

Segundo o cientista, no futuro poderemos reprogramar nossa biologia para combater doenças. Poderemos implantar nanorrobôs no organismo e baixar software da internet para programá-los para realizar diversas funções. Enquanto esse dia não chega, Kurzweil adota uma dieta incomum: ingere diariamente 250 suplementos alimentares, 8 a 10 copos de água alcalina (será aquela que o passarinho se recusa a ingerir?) e 10 xícaras de chá verde. Ele diz que fez um teste aos 40 anos de idade para determinar sua idade biológica, e descobriu que tinha um corpinho de 38. Hoje, aos 58, alega ter 40 anos de idade biológica, ou seja, ter envelhecido apenas dois anos nos últimos 18. Para quem quiser experimentar, está aí a receita.

Respirocyte: o Terminator celular

Respirocyte: o Terminator celular

Além do uso da nanotecnologia para fins biológicos e medicinais, Kurzweil é um entusiasta da inteligência artificial. Sempre levando em conta o crescimento exponencial da capacidade tecnológica, ele prevê que em 2029 teremos concluído a engenharia reversa do cérebro humano, o que permitirá a construção dos primeiros computadores verdadeiramente inteligentes. Para antes disso, em 2010, ele prevê a morte do computador como o conhecemos. Equipamentos eletrônicos minúsculos e onipresentes, conectados à internet am alta velocidade e sem fios, farão as vezes dos trambolhos que temos sobre nossas mesas hoje em dia.

Segundo Kurzweil, essas diversas evoluções da tecnologia levarão a uma singularidade, um momento em que o desenvolvimento da tecnologia será mais importante para a espécie humana do que a evolução natural, muito mais lenta. Ele lembra que, mesmo depois de termos computadores inteligentes, a inteligência artificial continuará se desenvolvendo a taxas exponenciais, enquanto a inteligência natural é, por definição, fixa. Além disso, ele acredita que em vinte anos começaremos a incrementar a cada ano que passa um ano à expectativa de vida das pessoas.

Imaginem agora um planeta em que as pessoas demoram para morrer. Os sistemas previdenciários de hoje não farão sentido num mundo em que viver 100 ou 120 anos é a regra. Essa longevidade tem um preço: a implantação de nanomáquinas na corrente sangüínea, na pele, no cérebro. Nanomáquinas cada vez mais inteligentes, assim como suas parentes grandes, convivendo conosco, seres de inteligência limitada. À sutileza de raciocínio e ao reconhecimento de padrões típicos da mente humana, esses dispositivos somarão a velocidade, memória e capacidade de compartilhamento das máquinas.

Não sei quanto a vocês, mas após a palestra de Kurtzweil eu consegui resumir todas as implicações dessa realidade futura numa só palavra: fodeu.

O mundo é de quem faz merda

O iG tem provavelmente o pior atendimento entre as empresas da tal nova economia. Ligue para o UOL, para o Terra, para a Globo.com, e pelo menos você será atendido. No iG, botam você para ouvir “O mundo é de quem faz” por minutos a fio, para enfim ser atendido por alguém que passou recentemente por uma lobotomia.

Vejam o caso das cobranças indevidas, por exemplo: o iG e o Santander ficaram naquele jogo de empurra, um dizendo que a culpa era do outro. O banco ainda se prontificou a me ajudar: pediu os dados e ligou para o iG para saber que diabos acontecia. Ontem à tarde, uma senhorita muito simpática me telefonou dizendo que o iG alegava que eu era cliente do serviço de banda larga de 2003.

Eu já fui cliente de todos os grandes provedores, menos do iG.

Liguei para o iG, pois. Uma débil mental me atendeu depois de interminável espera para me informar que eu não era cliente. Oh! Eu transcreveria aqui a conversa, que foi bem engraçada, mas tenho preguiça. Entre outras coisas eu disse a ela que deveria procurar emprego numa empresa decente, porque seu atual empregador extorquia dinheiro de inocentes, feito a Máfia. Acho que ela desconhecia o verbo “extorquir”.

Pois muito bem. Eu, justo que sou, abri uma reclamação contra o banco no Banco Central e dei entrada numa ação contra o provedor no Tribunal Especial Cível, antigo tribunal de pequenas causas. Para dar andamento ao processo, precisava do endereço do iG. Algo muito fácil de se obter, mas quis testar o atendimento mais uma vez. Pelo telefone (“iG: o mundo é de quem faz”), depois de falar com várias pessoas que babavam, fiquei sabendo que deveria solicitar a informação por e-mail. Solicitei. Responderam que era necessário pedir a informação por telefone.

Eta empresinha safada meu Deus!

As árveres somos nozes

O mundo é de quem fax

Eu não sou de olhar extrato bancário. Chega aquele envelopão pelo correio, eu olho para ele e sei que lá dentro há informações deprimentes, então jogo fora sem abrir. Quando preciso muito verificar uma coisa ou outra, dou uma olhada (relutante) no extrato online. Pois muito bem: vez em quando eu via lá um tal “Débito Internet” no valor de 19,90 reais, e deduzia que era o pagamento do meu provedor. Eis, porém, que recebi o extrato da conta pelo correio esta semana e, sabe Deus por quê, resolvi abri-lo. Na seção débito automático estavam a conta do celular, do telefone fixo, da energia elétrica e do Internet Group. Internet Group. iG. Eu não sou cliente do iG. Nunca fui.

Epa.

Entrei na central do assinante da Globo.com, meu atual provedor. Cobrança em cartão de crédito. Valor: 11,90 reais.

Epa.

Entrei na central do assinante do UOL, meu antigo provedor. Tudo direitinho, conta cancelada, e cobrança feita até maio no cartão de crédito.

Epa.

Liguei para o atendimento do banco. O banco não tem como saber de onde veio esse débito. Ao que parece, eu posso me cadastrar num serviço qualquer aí pela Internet, fornecer o número da conta de qualquer mané, e o mané será cobrado até o dia em que resolver ler seu extrato bancário. Liguei para o IG e me deram o telefone de uma tal central de relacionamento, equipada para lidar com esse tipo de situação. Isso foi na segunda-feira à noite, e os danados só atendiam até as 21 horas. Sem problemas.

Tentei ligar na tal central ontem. Meia hora de espera e nem sequer uma musiquinha. A intervalos de cinco segundos (juro) um sujeito dizia “IG: o mundo é de quem faz”. Enquanto esperava, fui adiantando o trabalho. Li e editei uma nota enviada por uma repórter (“IG: o mundo é de quem faz”), botei a nota no site da revista (“IG: o mundo é de quem faz”), editei outra nota (“IG: o mundo é de quem faz”), botei no site da outra revista (“IG: o mundo é de quem faz”), tomei um café (“IG: o mundo é de quem faz”), outro (“IG: o mundo é de quem faz”), um copo d’água (“IG: o mundo é de quem faz”), mandei e-mail cobrando um fornecedor (“IG: o mundo é de quem faz”) e finalmente desliguei o telefone (iG, vá para o caralho).

Acordei cedo hoje para conseguir ligar para a tal central. Depois de 15 minutos ouvindo “IG: o mundo é de quem faz”, uma senhorita finalmente me atendeu. Pediu meu CPF e, claro, não localizou meus dados. Então me pediu algo que eu achei a coisa mais surreal do mundo: que eu juntasse meu extrato, meu CPF, meus telefones todos e meus dados bancários e enfiasse tudo no cu enviasse tudo por fax ao departamento financeiro. Fax.

FAX!

O iG, empresa moderninha, descolada, cheia de preocupações com posicionamento da marca, me pediu que enviasse um fax. Uma empresa de Internet, que nasceu, vive e respira web, não tem nenhum tipo de atendimento pela rede. Tem um e-mail, é verdade. Mandei uma mensagem explicando (em dolorosos detalhes) a situação. Sabe o que me responderam? Que não conseguiram localizar o serviço em questão! Ora! Se eu não contratei serviço nenhum, e é esta justamente a natureza da reclamação, é claro que não há serviço em questão a ser localizado! PORRA!

Mas voltemos ao fax.

Eu não consigo pensar em nada tão obsoleto quanto o fax. Num mundo em que transações eletrônicas são a coisa mais comum, em que trilhões de dólares trafegam de um lado a outro sem virar papel em momento algum, em que todo mundo se fala por instant messaging ou — vá lá — e-mail (acho e-mail uma coisa meio antiga), a idéia de pegar um punhado de folhas de papel e enfiá-las num aparelho de telefone grande e desengonçado para que outra pessoa receba uma cópia quase sempre ilegível da mensagem, ah, por Deus, é um absurdo. Já seria um absurdo num escritório de contabilidade de Carapicuíba, e o é ainda mais para uma empresa do grupo que inclui, vejam só, a Brasil Telecom.

Mas tudo bem, tudo bem. Vou juntar esses papéis todos e mandá-los por (brrrr!) fax. Só preciso lembrar onde é que tem um aparelho desse. Talvez no Museu do Ipiranga.

Trama

Fui honrado com um convite da Tatiana Dias para participar da série Autopublicação na prática do projeto Trama Universitário. Minha participação está aqui. Trecho:

Você acha que o ambiente universitário ajuda a formar o espírito crítico? Como foi com você?
Eu acho que atrapalha muito. Faculdade é um encolhedor de cérebros, um nivelador por baixo. Nas duas faculdades que tentei fazer me senti emburrecer. Vou para uma terceira agora, mas com o firme propósito de ficar calado até o final, pagando em dia para pegar meu diploma logo. Pelo menos garanto o direito a cela especial.

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