Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em 2006

Desenterrando os caloteiros

Todos os dias surge na lista de de espera por aprovação algum comentário feito num post antigo. Até aí, nada demais: nego chega aqui pelo Google, cai de pára-quedas numa página arquivada qualquer, aproveita e sapeca lá seu comentário. No caso em questão, no entanto, me chamaram a atenção dois detalhes. O primeiro é que se tratava do post Caloteiros do quê?, publicado em maio de 2002, em que eu protestava contra uma matéria da revista Época. O comentário atrasado, provável fruto de uma reportagem da Veja desta semana em que são desfiadas todas as pilantragens do pio casal:

muito racional tudo o que você disse, querido. é bom ver que, mesmo você não conhecendo a bispa e o apóstolo pessoalmente, você se esforçou em os não julgar. é difícil mesmo achar alguém que pense dessa maneira. Claro que o meu amor pela vida deles dois é muitíssimo grande e eu tenho aqui a minha opinião sobre eles, mas isso não quer dizer que eu ache que você tenha que achar o mesmo. E mesmo você não achando o mesmo que eu, você não se deixou levar por isso e foi coerente, pesou as coisas. Muito legal. Valeu pela racionalidade nesse momento. Quisera todos fossem assim, pelo menos em situações comoventes como essa. Fica com Deus, querido.

farizeu naoo!! haha juzinha

O segundo detalhe é que esse post, jogado no limbo há tantos anos, tem recebido comentários esporádicos, provavelmente de gente que procura os tais servos de Deu$ no outro Deus. É engraçado notar a polarização do troço: ou são os seguidores do apóstata apóstolo e da besta bispa, babando-se de amor zeloso por seus líderes, feito ovelhas hidrófobas, ou são anti-evangélicos raivosos, com os olhos injetados de sangue e a boca pingando veneno.
Nenhum dos lados domina o idioma pátrio, é claro.

Enfiem o diploma no cu

Jornalista é uma raça do inferno. Nos bastidores, muitos coleguinhas queridos torcem o nariz diante do fato de eu ser editor de dois sites (em breve reformulados) sem ter diploma de jornalismo nem de qualquer outra coisa. Tempos atrás, um sujeito até comentou no Pérolas que eu ficava “pagando de jornalista gatinho” nas coletivas de imprensa. Confesso que cheguei a me incomodar com isso, tanto que até me esforcei ao máximo para passar no processo seletivo da Uninove (com o Bernardinho fungando no meu cangote).
E eis que hoje, por acaso, descubro que Ricardo Feltrin, editor-chefe da Folha Online, não é formado em jornalismo nem em nada. Assim como eu, começou várias faculdades e não concluiu nenhuma.
Então eu digo: se ele pode, eu posso. Foda-se o corporativismo besta dos jornalistas que se acham sacerdotes. Vou lá fazer a tal faculdade só porque eu sei que os idiotas sempre vencem, e que mais cedo ou mais tarde algum deles vai pular na minha frente exigindo o documento. Que será apresentado depois que eu limpar a bunda com ele (o diploma, não o idiota).

Mais mudanças

Finalmente consegui fazer aquele calendário na barra lateral funcionar pra algo que preste. Agora, além de ter links para os dias em que há posts no mês atual, é possível navegar para os outros meses com as setinhas ali ao lado do mês. Isso serve para a home page e para todas as páginas de arquivos (mensais e individuais).

Microsoft aos meus pés

Fui no início da semana ao evento de lançamento do Windows Vista, do Office 2007 e da nova versão do Exchange. Aquele oba-oba todo da Microsoft, shows de luzes no palco, apresentações que pareciam aqueles comerciais de aparelhos para perder a barriga, presença de Gabriel O Pensador e promessa de um show do Skank à noite (não fiquei para ver). Na hora da coletiva, uma mochila para cada jornalista.
Abri minha mochila para apanhar os press releases e notei lá dentro um embrulhinho. Como bom jornalista blasé, ignorei. É parte da etiqueta da coletiva: ninguém abre o pacote do jabá ali na hora, como se nem estivesse ligando. Assim que o jornalista entra no táxi, sai rasgando tudo que é embrulho pra ver o que ganhou. Pois bem: eu passei a coletiva toda na expectativa desse momento. Lançamento, Microsoft, infra-estrutura gigantesta, e “Windows Vista de graça” era tudo em que eu pensava.
A coletiva correu bem, no táxi eu nem lembrei do embrulho, e só de volta à redação lembrei de abrir o pacote. Vejam só de que se tratava:

Eu piso na Microsoft src="/imagens/havaianas_microsoft.jpg" width="480" height="360" />

Tem jornalista por aí que ia reclamar, dizer que é um absurdo, que a Microsoft dar a cada um uma licença de seu novo sistema operacional seria apenas “trivial” (depois eu conto essa história). Eu não: fiquei feliz pra caralho e passei a terça-feira trabalhando calçado de havaianas do Bill Gates.

E acabo de descobrir que até a Microsoft anuncia no Adsense. Shhhhhhhh…

Famosinho

Uma empresa só tem espaço para UM blogueiro estrelinha. Eu ocupava esse posto por aqui. Ocupava. Ao que tudo indica, o Edu agora quer disputar os holofotes comigo. Todo dia vem nego me dizer que ama o Pérolas, que é muito legal, que não sei o quê. Cambada de jornalista baba-ovo, vai tudo pro inferno.

Nova cara

Você faz parte dos 20% dos leitores que utilizam resolução 800×600? Se for, deve estar odiando este layout novo. Se você não tem planos de comprar um monitor por esses dias, e é cegueta e não consegue enxergar nada em 1024×768 num monitor de 15 polegadas, isso é muito triste. Eu vou manter o blog assim por enquanto, ver se pego gosto pela cara nova. Caso pegue, não se apoquente: mais cedo ou mais tarde esse seu monitor vagabundo vai queimar.

Constatação

O mau humor gera insônia e posts longos que só a porra.

A guerra contra a Síria

(I Reis 20)

Sentado na principal sala de reuniões de seu palácio, Ben-Hadade, rei da Síria, mal conseguia disfarçar o tédio e a impaciência. Para um homem de ação como ele, só havia algo pior do que reuniões: reuniões com consultores. Ao seu redor na mesa, empertigados e com expressões de profundo saber e autoridade, eles se revezavam na apresentação. Começavam dizendo o nome, mas se não o fizessem daria no mesmo: eram todos iguais. O primeiro começara falando da empresa:
— Nós, da Siriana…
— Siriana?
— Sim, majestade.
— Com George Clooney e tal?
— Er… Não exatamente, majestade. Siriana é o nome de nossa companhia.
— Nome idiota.
— Senhor, com todo o devido respeito, levamos meses para chegar a esse nome. A definição envolveu pesquisas de mercado, análises de tendências, estudos de branding…
— Foda-se. Deu tudo num nome idiota de filme esquerdinha. O que é que vocês da Siririca…
— Siriana, senhor.
— Tanto faz. O que vocês têm a me dizer?
— Bem, majestade. Temos uma metodologia que foi desenvolvida por nossos sócios-fundadores e tem sido utilizada com sucesso há seis anos em diversos projetos. A metodologia é dividida em três pilares: pessoas, processos e tecnologia. Dentro desse pilar de pessoas, podemos destacar que a guerra contra Israel foi…
O rei já não prestava atenção. Fazia já três meses que aqueles almofadinhas percorriam a Síria coletando informações, discutindo entre si, realizando longas conferências e workshops. O Projeto Samaria, que era como eles chamavam o servicinho porco que desenvolviam, fora previsto para um mês, no máximo. Malditos consultores. E maldito Acabe, que o forçara a chegar a tal ponto.
Acabe… O rei de Israel era o mais bunda mole dos reis, disso ninguém duvidava. Mandado pela mulher e assombrado por um profeta casca-dura que desaparecera há muito tempo no deserto, Acabe era motivo de chacota em toda a região. Seu país era, portanto, alvo fácil. Isso, pelo menos, era o que pensavam Ben-Hadade e outros trinta e dois reis que haviam decidido apoiá-lo na campanha contra Israel um ano antes. Haviam subido às montanhas próximas a Samaria com seus cavalos e carros, cercando a cidade.
— … como resultado do que chamamos de gap analysis.
— Guépi o quê?
Gap analysis, majestade. Levantamos toda a situação atual com entrevistas e questionários entregues aos tomadores de decisão, e definimos, conversando com o senhor e seus assessores, qual seria a situação ideal. A partir disso, e sempre aplicando um conjunto de best practices, traçamos o caminho entre o que temos agora e o maior nível de maturidade possível, que é o nível 5. O relatório que apresentaremos hoje mostra os passos para atingir a zona de conforto de cada um dos níveis de maturidade, até o platô de sucesso do patamar mais alto. Em cada nível passaremos por um ciclo de conscientização, negação, frustração, aceitação…
Aceitação, pois sim! Era inaceitável a derrota para Acabe. Ben-Hadade ainda guardava os bilhetes trocados entre eles. Começara como uma espécie de trote; nem ele nem seus companheiros acreditavam muito que aquilo daria em guerra de verdade.

Acabe,

Sem delongas: toda prata e ouro que você tiver por aí, suas mulheres e seus filhos. Tudo meu.

B-H

A resposta de Acabe era patética, mas com um toque de malandragem:

Meu patrão Ben-Hadade,

O senhor tem razão. Eu e tudo o que tenho somos seus. Abraço!

A.

Era muita petulância do rei israelita. Como resposta, Ben-Hadade enviara uma mensagem que não deixava dúvidas sobre suas intenções, que já não eram mais apenas de aplicar um trote:

Acabe,

Não se faça de idiota. Eu requisitei todo o ouro e prata de seu palácio, além de suas mulheres e filhos. Mas você prefere dar uma de espertinho, não é? Pois que seja. Amanhã mesmo mandarei alguns empregados de confiança até aí. Eles vão examinar o seu palácio e as casas dos seus assessores, e vão pegar tudo aquilo que acharem que tem valor. O que você acha, hein?

B-H

Acabe ia ver o que era bom pra tosse…
— … WC?
— PwC? Mas vocês não eram de uma tal Siriema?
— Siriana, majestade. Eu perguntava onde fica o WC.
— Ah. Saindo daqui no corredor à direita, até o final, sobe as escadas à sua esquerda, passa pela porta do harém, vira na segunda à esquerda, desce uma escadinha de três degraus e por lá você se informa.
— …
— Você acha MESMO que eu conheço todo o palácio? Vocês andaram vasculhando tudo por aí, deviam saber mais do que eu.
— Er… Ok, majestade, com licença.
A saída do consultor deu ao rei sossego para remoer o ódio por Acabe e seu país. A resposta do rei de Israel à segunda mensagem demorara bem mais do que anterior. Ben-Hadade não tinha como saber, mas seu bilhete causara celeuma em Israel. Choramingoso como sempre, Acabe queixava-se pelos corredores do palácio. Que não era justo, que o rei sírio queria arruiná-lo e a seu reino, que era um absurdo, que onde já se viu. Quando conseguiram, a muito custo, interromper a cantilena do rei, seus assessores aconselharam: não entregasse nada, e Ben-Hadade que se fodesse. Acabe concordou, eufórico, mas na hora de escrever a resposta resolveu suavizar um pouco os termos:

Meu patrão Ben-Hadade,

Concordo com tudo o que o senhor disse na primeira mensagem. Tudo, tudo, tudo. Sinto dizer, porém, que não posso concordar com a última. É uma pena. Gostaria muito de poder ajudá-lo, mas não posso. Para qualquer outra coisa, sou sempre seu criado.

A.

Foi com a mão trêmula de raiva que Ben-Hadade escreveu o bilhete seguinte:

Porco israelita,

Que os deuses me capem matem se eu não invadir Samaria com um exército tão grande que, se cada soldado levar consigo um punhado de terra, a cidade sumirá do mapa.

B-H

A resposta de Acabe a essa ameaça fora, Ben-Hadade era forçado a admitir, de surpreendente coragem e presença de espírito:

Pão sírio,

O homem que diz “sou”, não é. O verdadeiro soldado conta vantagem depois da batalha, não antes. Em outras palavras, vem ni mim.

A.

Ben-Hadade recebera essa resposta de inesperada altivez enquanto bebia com os outros 32 reis em suas barracas perto de Samaria. Após ler o bilhete e passá-lo aos outros, o rei deu a ordem: era hora de atacar Israel. Enquanto isso, porém, Acabe recebia conselhos de um profeta. Os profetas de Javé haviam começado um movimento discreto de reorganização e, após uma ação aqui e ali, já eram até aceitos no palácio real — desde que Jezabel não estivesse por perto, é claro. Mesmo assim, evitavam as mensagens cifradas e as admoestações espirituais, apostando nos conselhos práticos para ganharem a confiança do rei. Esse profeta não era exceção: o recado que trazia diretamente de Javé para Acabe não tinha nenhum tipo de pirotecnia celeste, mas conselhos pertinentes quanto ao comando, divisão e organização do exército israelita. Enquanto Ben-Hadade e seus aliados ainda organizavam, preguiçosamente e cheios de si, a tomada de Samaria, o exército de sete mil israelitas subia a montanha para atacá-los. Quando deram por si, era tarde demais: os israelitas haviam causado baixas expressivas no exército sírio, botando o resto do contingente para correr. Comandados por Acabe, transfigurado em general eficiente e bravo, os soldados de Israel afugentaram seus inimigos, inclusive o orgulhoso Ben-Hadade, que fugira a todo galope.

— … É muito simples, como o senhor pode ver.
— Simples? SIMPLES? AQUELES FELASDAPUTA DO PAU CORTADO ME HUMILHARAM! VOCÊS VÃO ME DIZER AGORA QUE SABEM MAIS DO QUE EU, CORNOS?
— Majestade… O senhor contratou nossos serviços, só queremos apresentar nosso relatório e ir embora. Ainda temos que passar por um cliente no Egito hoje, e voltar para o escritório para preencher nossos relatórios mensais de horas.
— Cara… Deve ser muito chato trabalhar nessa Sirigüela.
— Siriana, majestade. Bem, como eu dizia é muito simples. Toda a ação se baseia em três pilares:

  1. Sobrenatural O deus dos israelitas é claramente uma divindade das montanhas; por isso o exército sírio foi derrotado por eles naquela ocasião um ano atrás. Os deuses sírios, por sua vez, são naturais da planície. Portanto, se a batalha for em lugar plano, a Síria será invencícel
  2. Profissional Os 32 reis que ajudaram na campanha anterior podiam ser bem intencionados, mas não eram profissionais da guerra. A substituição deles por capitães, homens de pensamento estratégico e espírito belicoso, trará ao exército sírio grande diferencial competitivo, além de força no processo de tomada de decisões
  3. Estratégico O contingente empregado na batalha mal sucedida era suficiente para vencê-la, assim como as armas e equipamentos utilizados. O problema aí, frisamos, não era de pessoas nem de tecnologia mas sim de processos. Com os processos bem definidos pelos capitães convocados, os soldados sírios chegarão ao nível de maturidade desejado no projeto.

— O mesmo exército lutando num lugar plano comandado por capitães. É isso?
— Em resumo sim, majestade. O relatório detalhado deve estar em sua mesa até amanhã. Poderemos discutir também a implementação de uma ferramenta de Business Intelligence, que agregue valor a seu negócio com métricas, alavancando o potencial de…
— VÃO ALAVANCAR AS PUTAS QUE OS PARIRAM! FORA DAQUI! NÃO ACREDITO QUE PAGUEI ESSA FORTUNA POR UM SERVIÇO BOSTA DESSES!
Os consultores partiram assustados e desolados. Sozinho na sala de reuniões, o rei acalmou-se, pensou, e acabou considerando as ponderações apresentadas. Até que fazia sentido. Fazia? Não fazia? Saberia.

Dias depois, o exército sírio estava acampado em Afeque, cidade que ficava numa planície próxima a Israel. Era um exército mais lustroso e disciplinado, graças ao trabalho exemplar dos capitães indicados pela Siriana Consultoria. “Outsourcing é o futuro!”, pensava o empolgado Ben-Hadade. Sabendo do cerco, Acabe organizara seus exércitos também. Na verdade, já vinha se preparando para nova investida síria havia um ano, seguindo o conselho do profeta prático. Os israelitas acamparam em dois grupos de frente para os sírios e, comparados a estes, pareciam dois rebanhozinhos de cabras. Vendo o tamanho do exército inimigo, Acabe só tinha um pensamento — “fodeu” — mas adquiriu novo ânimo ao ser abordado por outro profeta da nova geração.
— Os sírios dizem que Israel venceu da outra vez porque Javé é um deus das montanhas. Javé manda dizer que isso é uma calúnia da porra, e que vai mostrar pra esses comedores de esfiha quem é que manda nessa merda toda.
Durante sete dias os dois exércitos permaneceram acampados de frente um para o outro, em silêncio e tensão crescentes. Ao sétimo dia alguém deve ter pigarreado e a batalha começou. Os israelitas mataram cem mil sírios só nesse dia. O resto do exército da Síria fugiu para Afeque, onde lhes aguardava uma piada daquelas típicas de Javé: as muralhas da cidade caíram, matando vinte e sete mil soldados. Ben-Hadade teve mais sorte: estava longe das muralhas na hora do desastre, e se escondeu nos fundos de uma casa. Dois dos oficiais contratados foram ter com o rei, oferecendo-lhe sua vasta expertise em negociações:
— Majestade, nós vamos até Acabe para implorar humildemente por sua vida. Ouvimos dizer que os reis de Israel são muito bondosos.
— E eu lá tenho escolha? Vão, vão.
Quando ouviu dos dois oficiais que Ben-Hadade ainda estava vivo, Acabe mostrou-se aliviado. Não era homem de guerra, só queria sossego na vida. Fora forçado pelas circunstâncias e ajudado por um deus furioso, mas em qualquer outro caso preferiria abrir mão de tudo a entrar em guerra.
— Meu irmão Ben-Hadade, vivo? Que maravilha! O que vocês estão esperando? Podem trazê-lo para cá.
Os oficiais voltaram à cidade com o recado. Ben-Hadade veio, desconfiado a princípio, mas relaxou quando viu que Acabe tinha mesmo boas intenções. Depois de um pouquinho de papo furado, partiram para as negociações de paz. Os termos, estranhamente, foram propostos pelo rei sírio, parte derrotada:
— Seguinte, Acabe. Eu vou devolver a você todas as cidades que meu pai tomou do seu. Além disso, sabe aquele shopping em Samaria? Pois bem: hoje mesmo vou dar ordem para desapropriarem um terreno em Damasco para que você construa um desses por lá. Assim todo mundo ganha, hein? Que me diz?
— Excelente, ótimo! Mas conversamos depois. Vá para casa, descanse. Esses últimos dias não foram fáceis.

A postura cordial e de boa índole de Acabe, quase brasileira, não agradou a Javé. Emputecido, deu instruções a um profeta que tinha em alta consideração. Depois de receber o recado, o profeta chamou um de seus companheiros de grupo e fez um pedido estranho:
— Me dá um soco.
— Mané soco.
— Anda, diabo. Me dá um soco. Aqui, ó?
— Vixe, endoidou… Rapaz, bate logo a cara na parede e não me enche o saco.
— INFELIZ! VOCÊ DESOBEDECEU A UMA ORDEM DE JAVÉ, E POR ISSO SERÁ MORTO POR UM LEÃO!
— Uuuuh, uuuuh, que meeeeda! Acorda, rapaz. Esse tempo já passou. O negócio agora é profecia de resultados, manja? Foi-se o tempo da profecia moleque, de pé descalço. O lance é pragmatismo teológico, manja? Ah, vá-te à merda!
Assistindo à cena, os outros profetas reunidos na casa riam de se dobrar. O que se recusara a agredir o colega fez uma saudação irônica e saiu da casa. Os risos, que já esmoreciam, viraram silêncio total depois que os profetas ouviram um rugido, seguido de um grito, seguido de um “humpf”. Quando saíram, viram seu debochado colega estendido no chão, ensangüentado. O leão olhou para eles, fez “humpf” novamente e se retirou. Aparentemente, desprezava as novas tendências da profecia.
Voltaram todos para dentro de casa. O profeta escolheu outro colega.
— Ei! Você aí! Me dá um s… FILHODAPUTA. Hm. Caralho, doeu. Bom. Obrigado. Deus o abençoe. Porra.
O profeta enrolou um pano no rosto para não ser reconhecido e foi para a beira da estrada esperar o rei passar. Quando Acabe ia passando, o homem começou a gritar:
— Me entregaram um prisioneiro no meio da batalha! “Toma conta dele, rapaz”. Toma conta… Tanta coisa pra fazer e eu vou tomar conta de vagabundo? Fui cuidar da minha vida e, quando vi, o safado tinha fugido. Agora dizem que eu vou ter que pagar 35 quilos de prata de multa, senão me matam. Pode um negócio desses, majestade?
— Se pode? Claro que pode! Te deram ordem para vigiar o prisioneiro e você deixou o cara escapar? Você merece morrer mesmo.
— Arrá! — o profeta deu um pulo e arrancou o pano do rosto — O senhor também, rei Acabe, deixou escapar o homem que Javé ordenou que o senhor matasse. Agora, diz Javé, o senhor vai pagar com a vida, e seu povo será destruído.
— Mas… Mas ele nem me falou nada de matar o rei!
— Ih, sei de nada. Só entrego o recado.
O profeta voltou para a casa dos profetas, feliz pela missão cumprida. O rei, por sua vez, voltou para Samaria chateado, com raiva e resmungando. Se mais alguma coisa o aborrecesse, era capaz de cometer uma loucura.

CARALHO

Puta que pariu, vai tomar no cu.
Esse negócio de trabalhar pros outros é coisa de corno. Alguém aí tem uma idéia maluca pra ganhar dinheiro e largar a vida de peão? Tô acreditando em qualquer merda.

Após esse escatológico desabafo, um vaso sangüíneo se rompeu no cérebro do autor, que agora apenas baba e sorri.

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Pequeno profeta

Enquanto esperava o ônibus para iniciar mais um dia agradável e nada estressante, assisti a uma cena que me fez voltar aos tempos do Velho Testamento. Na calçada, um moleque aplicava uma gravata no pescoço de outro. O que sofria a tentativa de estrangulamento primeiro recorreu a mim:
— Tio, ele tá me matando.
Vendo que eu só dava risada, ele resolveu argumentar com o outro:
— Cê tá apertando meu pescoço. Pára.
E o outro apertando.
— Olha que Deus tá vendo…
O outro nem aí. Emputecido ao limite, o moleque apelou de vez:
— Ô, Deus. Mata ele pra mim.
É ou não é um típico profeta dos tempos da juventude de Javé? Só o que estragou é que o outro moleque parecia um agnóstico daqueles bem ranhetas: relaxou um pouco o apertão e, vendo que não havia sinal de raio que o fulminasse, retomou a tortura.
O mal do mundo é essa falta de fé na ira divina.

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