A perseguição a Elias e a chamada de Eliseu
No último capítulo, deixamos Elias em Jezreel, após ter vencido e matado os profetas de Baal. O rei Acabe, impressionado com o duelo entre as duas religiões, voltava para o palácio disposto a abolir o culto pagão de Israel e voltar à velha religião de Javé. Precisou mudar de idéia, porém. Ao contar a sua esposa Jezabel o que acontecera, a mulher quase lhe comeu o fígado. Bem, Acabe mandava em Israel, mas quem mandava em Acabe era Jezabel, que enviou a Elias o seguinte recado:
J.
Horas depois, recebeu a resposta do profeta:
E.
Jezabel ainda mandou outro bilhete, com a indefectível frase “Você está falando sério?”, mas era tarde: sabendo exatamente o que a rainha pretendia lhe fazer, Elias fugiu com seu ajudante para Berseba, em Judá. Deixou o ajudante na cidade e se enfiou no deserto. Depois de um dia inteiro andando, encontrou uma árvore e sentou-se à sua sombra. Era o último profeta de uma religião que um dia fora a única de um país que também não estava dividido. A seca, a disputa com os profetas de Baal, a volta da chuva, nada adiantara: continuava sendo um pária, um homem malquisto em sua própria terra. Era demais para ele.
— Chega desta merda, Javé! Acaba logo com a minha vida! Eu sou o último fracasso de uma linhagem de derrotados.
Exausto, o profeta caiu no sono. Logo alguém o cutucava impacientemente. Elias abriu os olhos e viu diante de si um sujeito alto, todo vestido de branco.
— Morri?
— Morreu uma pemba. Levanta daí e come.
Elias ia explicar que estava no meio do deserto, e não lhe apetecia comer areia, mas foi calado pela visão de um pão assado nas pedras e um jarro d’água. Ele comeu, bebeu e pegou no sono novamente. Bem, tentou pegar no sono, porque o anjo continuava a cutucá-lo.
— Cara chato…
— Come mais, rapaz, senão você não agüenta a viagem.
Acostumado a ser mandado por Deus para cá e para lá, Elias nem formulou a pergunta “que viagem?”, que ocorreria a qualquer um de nós. Em vez disso, levantou-se, comeu mais pão e bebeu mais água. Pense numa refeição balanceada e cheia de vitaminas: o alimento deu ao profeta forças para andar quarenta dias e quarenta noites até o monte Sinai, lugar dos mais sagrados para Israel. Assim que chegou, entrou numa caverna para passar a noite. Quando começava a ferrar no sono, ouviu uma voz conhecida:
— O que você está fazendo aqui, Elias?
— PORRA, JAVÉ! ME DEIXA DORMIR!
— Não quer comer uma coisinha antes?
— NÃO! ESSA SUA COMIDA TEM ANABOLIZANTE!
— É sério, Elias. O que você está fazendo aqui neste buraco? Você é um vencedor, Elias! Um profeta poderoso! Você pode, você consegue! Força, rapaz!
— Que é isso, Javé? Virou o Bernardinho?
— Bah. Ok, ok, esse lance de auto-ajuda não funciona com você. Muito bem, mas que porra você está fazendo aqui?
— ESTOU ME ESCONDENDO, CARALHO! A minha vida inteira eu fui um servo fiel, sempre fiquei do seu lado. E o que eu ganhei? Um diabo dum povo ingrato, que caga para a velha religião, que derrubou seus altares e matou todos os seus profetas. Bom, quase todos. Sobrei eu. EU! SÓ EU! UM ÚNICO PROFETA CONTRA UM PAÍS INTEIRO! O QUE VOCÊ QUER QUE EU FAÇA?
— Eu quero que você saia daqui e fique diante de mim no alto do monte.
— Estou com sono…
— VOCÊ ESTÁ PENSANDO QUE EU SOU SUAS NEGAS, FELADAPUTA? EU SOU É DEUS, TÁ ME OUVINDO? DEUS! SAI DESTA PORRA DE CAVERNA AGORA E CORRE PRO ALTO DA MONTANHA, ANTES QUE EU TE FULMINE, PORRA!
— Ah, já que você pediu jeitinho…
O sarcasmo foi um pouco demais, e a resposta de Javé veio na forma de um vendaval que arrancou as moitas que se prendiam às rochas do monte, assustou as cabras e levantou as vestes do profeta. Quando o vento parou, Elias estava sentado no chão, trêmulo.
— Javé? É você?
Em vez de resposta, veio um terremoto que abriu fendas na face da montanha, fez rolar grandes rochas, que quase fecharam a entrada da caverna, e assustou mais ainda o profeta.
— Peraí, Javé. Vamos conversar…
Depois do terremoto, veio um fogo que queimou as plantas que restavam, chamuscou as pedras e os cabelos de Elias.
— J-Javé?
— Ah, um gaguinho falando docemente comigo no Sinai. Assim que eu gosto! Tudo bem com você, meu querido Elias?
Ao ouvir a voz, Elias saiu da caverna, tomando antes a precaução de cobrir o rosto com a capa. Sabia que olhar para a face de Javé, ainda mais num momento de ira como aquele, não era boa idéia.
— O que você está fazendo aqui, Elias?
— Er… Eu não agüento mais, Javé. Sou o último de seus profetas. De nada adiantou minha lealdade. Fui derrotado. Como eu disse antes e tal…
— Derrotado? DERROTADO? Eu sou é Deus, porra! DEUS! Quantas vezes vou precisar falar isso?
— Mas o que é que eu posso fazer agora, Javé?
— Volte para o deserto, ande até Damasco e unja Hazael como rei da Síria.
— Como é?
— Vai por mim, é um plano que eu tô bolando aqui. Depois de besuntar o cara, unja Jeú, filho de Ninsi, como rei de Israel. Então procure em Abel-Meloá um tal Eliseu, filho de Safate.
— E esse vai ser rei de onde?
— De lugar nenhum. Eliseu vai ser seu sucessor.
— E aí você vai me matar, certo?
— Cala a boca, Elias. Você não reclamou que era o único profeta? Pois bem, agora vai ter outro, Eliseu.
— E os outros, Hazael e Jeú?
— Esses caras vão curar Israel da doença trazida por Acabe e Jezabel. Quem escapar de Hazael vai ser morto por Jeú, e quem der a sorte de escapar dele perecerá sob Eliseu. Pelas minhas contas, só sete mil pessoas no país inteiro não adotaram a religião de Baal. Só essas serão poupadas.
— Mas, Javé, vai ser uma carnificina!
— Vai, né? Como nos velhos tempos. Rapaz, estou até me sentindo mais jovem!
Hazael e Jeú podiam esperar: Elias queria conhecer logo seu sucessor, então foi a Abel-Meloá. Lá encontrou um rapaz que arava a terra com o último par de bois de um total de doze. Elias passou perto do rapaz e jogou a capa sobre sua cabeça. Eliseu já devia ter sido avisado do que estava para acontecer, porque nem perguntou que porra era aquela. Em vez disso, pediu a Elias que lhe desse licença para voltar a casa e se despedir de seus pais.
— Eu tô te segurando?
— Hã?
— Vai, diabo! Olha o sucessor que Javé me arruma…
Logo em seguida, porém, Eliseu fez algo que impressionou Elias: foi até o lugar onde estavam os dois bois com os quais estivera arando a terra e matou os animais. Pegou a madeira da canga para fazer uma fogueira, e nela preparou a carne. Depois de distribuir a carne entre o povo que estava ali perto, foi se despedir dos pais e voltou para onde Elias estava.
— Pronto. Podemos ir.
— …
— Que foi?
— Nada não.
Esse estranho Eliseu, de gestos inesperados e teatrais, seria um dos maiores, se não o maior profeta da história de Israel. Por enquanto, porém, seria apenas o ajudante de Elias, substituindo aquele que o profeta deixara em Judá, e que deve estar até hoje esperando a volta do patrão. Imaginem o tamanho do processo na justiça do trabalho…



