Bitola
Ando tão bitolado que sonhei que procurava informação sobre antidepressivos no KBase da Microsoft.
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Como vimos no último capítulo, aquele negócio de unificar o reino não funcionava muito bem. Tanto que, ainda no caminho de volta a Jerusalém depois de derrotar Absalão, Davi se viu no meio de uma briga entre os homens de Judá e os de Israel. Brigavam por ele, o que podia ser lisonjeiro, mas era também um pé no saco. Por acaso havia um revolucionário ali entre eles chamado Seba, da tribo de Benjamim. Usava barbicha, bolsa de crochê a tiracolo, boina na cabeça, camiseta do Che Guevara, e só não falo das sandálias de couro porque isso todo mundo usava. Cansado daquela discussão sem sentido sobre quem tinha mais direito a levar o rei de volta à capital, subiu numa pedra e gritou:
— COMPANHEIROS ISRAELITAS!
— CALABOCA, REFUGO DA FEFELECHE!
— CALABOCA É UM CACETE, SEU PORCO CAPITALISTA, CHEIRA-BUNDA DE DAVI! ABAIXO A DITADURA! ABAIXO O FILHO DE JESSÉ!
— QUEM???
— DAVI, PORRA!
— Ah…
— PARA QUE VAMOS SEGUI-LO, SE ELE SÓ VAI MESMO CUIDAR DE JUDÁ? COMPANHEIROS ISRAELITAS, VAMOS VOLTAR PARA CASA!
Os homens de Judá trocavam comentários sarcásticos sobre o revolucionário, e sorriam, condescendentes. No entanto, os israelitas começaram a cochichar, acenar com a cabeça, e foram se reunindo ao redor de Seba. Os de Judá não se conformavam:
— Mas que diabo essa baianada tem na cabeça???
E viram, estupefatos, os israelitas voltarem para suas casas. Todos sabiam como eram os israelitas: uma vez que encasquetavam com uma idéia, não adiantava tentar demovê-los. Então os de Judá fizeram Pffff… e acompanharam o rei até Jerusalém.
Chegando à capital, a primeira providência de Davi foi isolar as dez concubinas que havia deixado para guardarem o palácio. Deixou-as numa casa guardada por soldados, e dava-lhes tudo de que precisavam. No entanto, nunca foi visitá-las. Pegara nojo delas depois de saber do que Absalão fizera. Com essa providência tomada (providenciazinha um tanto covarde, digamos), o rei resolveu preocupar-se com a revolta arquitetada por Seba. Para isso, chamou Amasa:
— Amasa. Você é o novo comandante do meu exército.
— Sou?
— Ai, ai… Não está lembrado? Eu destituí Joabe, e dei o cargo dele a você.
— Ah, é verdade!
— Então…?
— …?
— Você não está sabendo da revolta de Seba, Amasa?
— …?
— O DA BARBICHA!
— Ah, aquele! Sim, sim. Que coisa, não?
— Pois é. O que você pensa dessa situação?
— Penso que alguém tem que tomar providências!
— Oras, não me diga!
— Olha, o senhor vai me desculpar, mas eu já disse. Então…
— VOCÊ É O GENERAL DO MEU EXÉRCITO, AMASA! VOCÊ TEM QUE TOMAR PROVIDÊNCIAS!
— E-eu? Olha, majestade, não é muito a minha. Sou um cara mais pacífico, sabe? Gosto de orquídeas, de palavras cruzadas, essas coisas…
— MANÉ ORQUÍDEAS! VOCÊ VAI CONVOCAR TODOS OS HOMENS DE JUDÁ, ESTÁ ME OUVINDO?
— Claro que estou. Gritando desse jeito…
— Humpf. Convoque a todos, e esteja de volta com eles depois de amanhã. Entendeu?
— Sim senhor. Mais alguma coisa?
— Por enquanto não. Só faça o que eu mandei.
Os dois dias se passaram, e nada de Amasa aparecer com seu exército. Davi bem desconfiava que aquilo não podia dar certo: conhecia bem o temperamento de Amasa. Mas não podia voltar atrás e devolver o cargo a Joabe. Isso o desmoralizaria para sempre. Por outro lado, não podia ficar esperando pela boa vontade de Amasa. Havia uma revolta a ser contida, havia urgência. Então o rei pensou num meio-termo: mandou chamar Abisai, irmão de Joabe.
— Abisai, o tal de Seba vai dar mais trabalho do que Absalão.
— É só um moleque, majestade.
— Um moleque cheio de idéias, não se esqueça. Idéias são perigosas. Quero que você vá atrás dele com os homens do palácio, antes que ele tome pontos estratégicos de Israel.
— Sim senhor.
Abisai convocou a elite do exército, não esquecendo, é claro, de seu irmão Joabe. Saíram da cidade para perseguir Seba, e pararam na pedra grande que ficava em frente a Gibeão. Amasa, que finalmente conseguira juntar um exército um tanto mal ajambrado, foi encontrar-se com eles.
— Ô, pessoal. Tô atrasado? Puxa, isso dá um trabalhão, né não? Abisai! Como vai você, rapaz? E Joabe! Puxa, sou seu fã. Espero que você não tenha… hum… guardado rancor pelo que houve.
— Mas é claro que não!
— Ufa… Sabe como é, eu não tenho culpa. O rei decidiu. E quem sou eu para discutir com o rei?
— E eu, então?
— Hehehe.
— Deixe de bobagem, rapaz. Dê cá um abraço.
Dizendo isso, Joabe pegou-o pela barba, demonstrando a intenção de beijá-lo. Encantado pelas boas maneiras de Joabe, Amasa não percebeu a espada que o general trazia na outra mão. Quando percebeu, já era tarde: tinha os intestinos expostos e um triunfante Joabe em sua frente. Ficou estrebuchando no meio do caminho. Vendo que todos paravam para olhar o comandante que agonizava no chão, segurando as tripas e balbuciando algo sobre orquídeas, um soldado o arrastou para fora da estrada e o cobriu com uma manta.
Enquanto isso, Seba já havia atravessado todas as tribos de Israel, e agora estava na cidade de Abel-Bete-Maacá. Marcara uma reunião ali para decidir os rumos da nação. Parecia uma boa idéia, mas não funcionava direito: entre tantas questões de ordem, autocríticas, votações sobre cada item da agenda, a reunião estendia-se e nada era resolvido. Melhor para Joabe e Abisai, que tiveram tempo de colher informações, ir até a cidade e cercá-la. Faziam de tudo para derrubar as muralhas, quando uma mulher botou a cabeça por cima do muro.
— EI! VOCÊ É JOABE?
— HEIN? SIM, SOU EU!
— VEM AQUI UM INSTANTINHO?
— POIS NÃO!
— ESCUTA, EU…
— Er… Já estou aqui, pode parar de gritar.
— Ah, desculpe. Então. O senhor não conhece a fama desta cidade? Não sabe que antigamente as pessoas vinham aqui pedir conselhos? Abel é conhecida como a cidade mais leal e pacífica de todo o Israel.
— Sim, eu sei.
— E agora o senhor quer destruí-la?
— Olha, querer mesmo eu não quero. Mas um tal de Seba começou uma revolta contra Davi, e nós fomos incumbidos de capturá-lo. Entreguem só esse homem, e deixaremos a cidade em paz.
— Ah… Deve ser o sujeito da reunião secreta. Vou lá pegar o danado.
— Ué. A reunião não é secreta?
— É.
— E como a senhora sabe onde encontrá-lo?
— Ah, estenderam uma bruta bandeira vermelha na porta da casa em que estão reunidos.
— Que burros!
— Pois é. Então, espere aqui. Vamos jogar a cabeça dele por cima do muro.
— Er… Não precisa tanto, sabe? Só traga o homem aqui e pronto.
— Ah, mas assim não tem graça…
A mulher saiu e foi falar com os habitantes da cidade. Eles pesaram suas opções: ou cortavam a cabeça de Seba ou teriam sua cidade arrasada. E, para falar a verdade, ninguém mais agüentava aquela propaganda revolucionária de Seba. Foram, portanto, até a casa onde ele estava e, muito gentilmente, explicaram-lhe que teriam que cortar-lhe a cabeça. Ele quis resistir, mas cedeu quando foi informado que a decisão tinha sido tomada por votação unânime. Suas últimas palavras foram:
— Morre um revolucionário mas.
Talvez ele tivesse algo mais a dizer, não se sabe. É muito difícil falar com a cabeça separada do corpo. Experimentem.
Joabe levou um susto quando ouviu um barulho e viu que fora causado pela queda da cabeça de Seba a seus pés. Ordenou a um dos homens que a colocasse num saco, e voltaram todos para Jerusalém.
O Sr. Pedro Mantovani fez uma crítica negativa ao livro Balde de Gelo lá no site da Saraiva. Eu gostei: acostumado às críticas de fundamentalistas semianalfabetos, é um alívio ser criticado por alguém que ao menos conhece o idioma e sabe expor argumentos.
O negócio, porém, é que agora temos uma crítica positiva e outra negativa para o livro. Isso é muito chato. Então eu resolvi pedir as suas opiniões. Não aqui, claro: no site da livraria. Vão, vão lá. Falem bem, achincalhem, mas opinem.
Estou trabalhando muito, meu povo, e sem vontade nenhuma de escrever. Segurem aí.
Seguraram?
Hmmmm, dotoso…