Uma vítima da exclusão digital 37

Hoje no metrô tive uma demonstração gritante do que é a exclusão digital no que Alexandre Soares Silva chama de “esse Brasilzão de meu Deus”. Entrei no trem e notei que alguém falava em voz alta e pastosa. Olhei ao redor e logo encontrei a fonte do discurso: um homem sujo, de cara encardida, raça indefinível. Usava um gorro ensebado, várias camadas de camisas, e uma calça jeans curta que deixava à mostra a perna de outra calça, essa social, provavelmente usada à guisa de cueca. Olhando o jornal do vizinho, comentava:
— Olha lá, olha lá! Dez milhões! Feladaputa… Eu com dez milhões fazia a festa, rapaz. Fazia mesmo. Vixe.
Os passageiros riam. O senhor sentado ao lado do eloqüente maltrapilho ria mais que todos, um riso condescendente. Animado pelo apoio velado do público, o sujeito continuou:
— Mas não preciso de nada disso não. Não preciso. Eu só preciso é da minha fé em Deus. Gosto muito de Deus, muito mesmo. Eu não gosto é do Diabo.
Mais risos. Seu vizinho de assento acenou em aprovação.
— Não gosto mesmo! Chamei o Diabo pra porrada e ele não veio, o cuzão. Arrombado… Se eu morrer, vou pegar o Diabo de porrada no inferno. Feladaputa…
O senhor ao lado arriscou um comentário:
— É isso aí!
E ele:
— Eu não tenho nada na vida. Durmo na rua, não tenho cama, nem colchão, nem cobertor. Minha cama é o asfalto. Às vezes durmo no metrô mesmo. Olha isso — mostrando a canela. — Olha a feridona. O cara lá diz que é câncer. Câncer é o caralho!
Desconforto entre os passageiros.
— Quem tem câncer é o meu pai. O velho. Câncer nas costas. Toooooodo fodido, o velho. É foda.
O senhor ao lado fez outro aceno, esse de compreensão da dor alheia.
— Mas eu não tenho câncer nenhum. Que câncer nada! Eu tenho é piolho. Rapaz, os feladaputa dos piolho quase me come vivo. Eu mato tudo, toco fogo na roupa, mas não adianta: os bicho volta tudo depois.
O vizinho tratou de procurar outro lugar para se sentar.
— Bicho desgraçado… Piolho comigo é na unha, rapaz!
Silêncio no vagão.
— Sou soldado, sabia? Fuzileiro da Segunda Região Militar, Barueri. Bom de tiro. Vai mexer com meu pai pra ver se não leva tiro. Vai mexer com a minha mãe, vai. Dou tiro, arranco a cabeça fora. Não mexe com meu pai! Não mexe! Tá vendo esse vidrinho aqui? — tirou o vidrinho de um envelope — Nitroglicerina!
Silêncio tenso.
— Nitroglicerina! Se eu jogo essa porra no chão, já era. Hehehe. É nada, brincadeira. É perfume, ó. Ó, tô passando. Eita perfume ruim da porra!
Nesse momento, entrou um moço numa cadeira de rodas. A cadeira era empurrada por uma moça gordinha.
— Ô, rapaz. Sua cadeira é automática?
— Né não.
— É… Parafusada?
— Não.
— Pô, sua cadeira não é porra nenhuma! Sua mulher?
— É sim.
— Bonita, bonita… Têm filhos?
— Não.
— GRAÇAS A DEUS!
Gargalhadas de alívio entre os passageiros. Levantando-se, o mendigo agradeceu a atenção de todos e desembarcou.
Mas por que eu falei em exclusão digital lá no começo do post? Oras! Imaginem esse mendigo com um computador conectado à Internet. Suas declarações sem relação uma com a outra eram posts prontos. Seria melhor que a maior parte dos blogueiros que se vê por aí.

E aí vem ela me dizer que tem a exclusividade das pessoas bizarras no metrô. Ilusão.