Outdoors
A primeira vez em que vi um dos outdoors foi há uns três, ou cinco, ou treze anos. Bem, não sei exatamente quando, mas sei onde: na Radial Leste. Em imensas letras brancas sobre fundo preto, o outdoor advertia: “TELEVISÃO É A IMAGEM DA BESTA”. Surgiu da noite para o dia, e causou celeuma (celeuma!) entre a população. Quem estaria por trás da mensagem bombástica? Alguma nova seita fundamentalista? Os fundamentalistas de sempre? Ou seria mero golpe publicitário? O recurso é muito comum e eficaz: espalham-se mensagens misteriosas pela cidade, o povo comenta, e dias depois aparece o produto nos outdoors. Poderia, pois, ser um anúncio de fabricantes de televisores, ou de alguma emissora, ou ainda da Kia Motors.
O tempo passou, porém, e nada se esclareceu: os outdoors se espalharam pela cidade, sempre com frases explosivas de teor religioso. “JESUS: ARREBATAMENTO”, dizia um deles. “CONSTRUAM MAIS IGREJAS”, admoestava outro. Quem quer que estivesse por trás das mensagens, resolveu concentrar tudo num lugar só depois de algum tempo. Então nossa linda Marginal Tietê foi presenteada com um pequeno bosque desses cartazes pretos ou vermelhos com grandes letras brancas, num trecho próximo ao Anhembi. E foi então que o negócio começou a degringolar.
A população começou a perceber que havia algo errado quando surgiu a mensagem “O SENHOR JESUS FEZ DO DRAGÃO LAGARTIXA”. Parecia brincadeira, todo mundo riu. A segunda mensagem sem sentido começou a causar risos nervosos: “CHULÉ NO PÉ SATANÁS”. E então, quando surgiu algo como “ÁSIA OCEANIA SAÍDA PACÍFICO FILHOS CHAVE”, ninguém mais estava rindo.
Há duas semanas, atravessando a Marginal colado ao banco e de olhos semicerrados, tentando rezar enquanto minha namorada pisava fundo no acelerador, tive o vislumbre de um novo outdoor. A mensagem era tão incrível, tão espetacularmente absurda, que a anotei no mesmo instante para depois não pensar que havia sonhado ou algo assim. No último sábado, resolvi que ia tirar uma foto de tão escabrosa mensagem. A namorada não se fez de rogada: parou o carro em plena Marginal Tietê, de madrugada, para que eu tirasse minhas fotos. Eu dizia “Não, não precisa, vamos embora” (num fio de voz, como vocês podem imaginar), enquanto ela dava ré no carro (na MARGINAL TIETÊ!) para que eu tivesse um ângulo mais favorável para a câmera vagabunda do telefone celular. A mensagem que eu queria, porém, fora trocada por outra:

Era mal escrita, sim, mas ainda trazia algum sentido. A antiga eu tento reproduzir abaixo. Vocês podem não acreditar, mas havia um imenso outdoor numa das vias mais movimentadas de São Paulo com os seguintes dizeres:

Sim. Juro. Exatamente isso. Não fazia o mínimo sentido, parecia algum tipo de brincadeira, chegava a ser perturbador. E de tanto pensar nisso eu cheguei a uma aterradora conclusão.
Jesus Cristo voltou. Voltou, e está no Brasil, mais precisamente em São Paulo. Tenta divulgar sua mensagem, última oportunidade de redenção para os homens, de uma forma impossível de passar desapercebida. Esqueceu-se, porém, de um detalhe: aprender o idioma local. Pensa que não há problema nisso, porque escreve em hebraico frases que converteriam ao próprio Lúcifer, e em seguida as traduz para o português utilizando um programa de tradução. O teor da mensagem se perde, e os hereges continuam multiplicando-se.
É triste.



