Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em 2004

A abelha

Desviei minha atenção do Cortázar que lia para observar uma abelha que andava em círculos pela calçada. Descrevia um círculo completo, parava um pouco, depois recomeçava no sentido oposto uma circunferência menor. Não tinha ferrão — defendendo a colônia e uma rainha que sequer a conhecia (embora fosse sua mãe, como de todas as outras), ferroara algo que ameaçava a colméia, talvez apenas uma criança curiosa, e agora agonizava por ter perdido as vísceras junto com sua arma de uso único. Após um tempo, começou a girar em torno de si mesma e parou. Movimentava-se muito pouco, e as formigas começaram a se assanhar ao seu redor. Movido por não sei que solidariedade que tenho por essas criaturas — a abelha é um bicho útil, solidário e o mais inteligente dos insetos — aproximei um graveto ao qual ela se agarrou com as patas ainda cheias de pólen. Depositei-a sobre uma florzinha miúda de alecrim e ela animou-se um pouco, como se pudesse voltar ao trabalho. Não durou muito: logo parou de movimentar-se, e depois de um tempinho caiu do arbusto. Estava morta, e as formigas podiam fazer seu trabalho.

A morte do filho de Davi e Bate-Seba

(II Samuel 12:16-31)

No último capítulo, vimos que Javé, em sua infinita misericórdia e absoluta justiça, determinara que o filho de Davi pagaria pelo crime de seu pai. Não demorou a agir; assim que o profeta saiu do palácio, chegou ao rei a notícia: a criança estava gravemente enferma. Mas Davi, já estamos cansados de saber, não era muito de abaixar a cabeça para as ordens de cima: era orgulhoso, atrevido, e não aceitaria quietamente esse castigo estúpido. Então afrontou a Javé, pedindo pela vida do filho, e ficou em jejum. Isolou-se em seus aposentos e passou a noite toda deitado no chão. Os empregados do palácio queriam fazê-lo levantar-se e comer alguma coisa, mas ele estava firme em seu intento. A atitude era provocativa: Javé já determinara que a criança morreria, e Davi ousava discutir, demonstrando a todos que se martirizava para salvar a vida do filho condenado. Assim passou uma semana, deitado no chão duro e sem comer absolutamente nada.
Ao fim de uma semana, o menino morreu e os funcionários do palácio ficaram sem saber o que fazer:
— Se o rei nem nos respondia quando a criança estava doente, como vai ser agora que ela morreu? Ele é capaz de fazer alguma besteira.
Um empurrava para o outro a responsabilidade de dar ao rei a notícia. Não foi preciso: ouvindo os cochichos ao seu redor e vendo as expressões de pesar em todos os rostos, Davi deduziu o óbvio. Olhando vagamente em volta, perguntou:
— A criança morreu?
Com a confirmação de suas suspeitas, o rei surpreendeu a todos: levantou-se, tomou um banho, penteou os cabelos e trocou de roupa. Em seguida foi até a tenda onde estava a Arca Sagrada para prestar um culto a Javé. De volta ao palácio, pediu que lhe servissem comida. Os empregados ficaram sem entender nada:
— Majestade… Enquanto o menino estava vivo o senhor passava o dia chorando e não comia nada. Foi ele morrer, e o senhor está aí, disposto. Que foi isso?
— Ué. É isso mesmo. Enquanto ele estava vivo, eu jejuei e chorei, pensando que talvez Deus pudesse ter pena de mim e salvar a vida do menino. Mas agora que ele está morto, de que adianta chorar? Eu não posso fazê-lo viver de novo. Um dia eu irei para onde ele está, mas ele nunca vai voltar para mim. Entenderam?
Os empregados compreendaram muito bem. Isso explicava, aliás, a ida ao Tabernáculo: Davi o fizera mais para reconhecer a vitória de um adversário do que para adorar a um deus.

Davi perdeu essa batalha com Javé, mas em Amom tudo corria bem: Joabe continuava cercando a capital, Rabá. Quando estava para invadir a cidade, mandou uma mensagem a Davi:

Majestade,

Rabá está cercada, e eu tenho o controle dos reservatórios de água. Agora o senhor pode vir para cá com seus soldados para tomar a cidade. Eu não quero a fama por essa conquista.

J.

Joabe podia ser um brutamontes, mas também sabia ser político. Cedendo a glória da tomada de Rabá a Davi, crescia aos olhos do rei e tirava o cadáver de Urias do meio do caminho entre eles. O rei, tendo compreendido a mensagem, juntou seus soldados e partiu para Amom, atacando e conquistando Rabá. Feito isso, condenou seus habitantes a uma vida de trabalhos forçados, e tomou como lembrança a coroa do rei de Amom, que era de ouro e pedras preciosas e pesava 34 quilos (a coroa, não o rei. Seria ridículo). Missão cumprida, voltaram todos a Jerusalém.

Na capital, Davi ainda tinha um problema: Bate-Seba, sua favorita, ainda sofria pela morte do filho. Davi consolou-a do único jeito que sabia, e ela engravidou novamente. Nove meses depois nasceu o menino Salomão. Javé, sabendo que Davi ainda guardava rancor por causa do filho morto, resolveu ser diplomático e mandou Natã dizer ao rei que tinha gostado muito do novo garoto. Como prova disso, ordenou ao profeta que desse ao menino o nome de Jedidias, amado por Deus em hebraico.
Davi ignorou a mudança de nome.

Prevenindo

Como o Inagaki(1) pré-autorizou qualquer um a fazê-lo, copiei dele a nota para comentários elaborada pela Suzi Hong:

NOTA: Este sistema é disponibilizado aos leitores do Jesus, me chicoteia! exclusivamente para a publicação de opiniões e comentários relacionados ao conteúdo deste weblog. Todo e qualquer texto publicado na internet através deste sistema não reflete, necessariamente, a opinião deste weblog ou de seu autor. Os comentários publicados através deste sistema são de exclusiva e integral responsabilidade e autoria dos leitores que dele fizerem uso. O autor deste weblog reserva-se, desde já, o direito de excluir comentários e textos que julgar ofensivos, difamatórios, caluniosos, preconceituosos ou de alguma forma prejudiciais a terceiros. Textos de caráter promocional ou inseridos no sistema sem a devida identificação de seu autor (nome completo e endereço válido de e-mail) também poderão ser excluídos.

O objetivo é óbvio: evitar pagar pelas opiniões alheias, como aconteceu com o Gravataí Merengue. É necessário? Não sei. Mas é melhor prevenir etc.

(1) Sim, como o Inagaki. Mas é sempre uma rapidinha. Podem perguntar a ele.

Vergonha

Há tempos eu quero falar sobre isso, mas vinha adiando, evitando o assunto. É um tanto delicado, os imbecis vão gritar — é o que eles sabem fazer — e eu vou ficar enfastiado e irritado. Mas o assunto avulta-se, não tenho como ignorá-lo, então vamos a ele.

Na comunidade Monty Python do orkut, um débil mental abriu um tópico com o educadíssimo título “Sou brasileiro e escrevo em portugues onde quiser”. Em sua simpática mensagem, o imbecil diz que um “americano de merda” pediu para que os membros da comunidade postassem em inglês para facilitar a compreensão de todos. “FODA-SE A LÍNGUA OFICIAL”, diz a cavalgadura, e segue despejando impropérios saídos dos intestinos de backup que ele certamente mantém dentro da caixa craniana. E encerra: “Brasileiros desta comunidade peço que me apoiam enchendo esse topico de mensagem. Vamos lá: BRASIL NA VEIA”.

Pois muito bem: uma comunidade dedicada a um grupo de comediantes ingleses, mantida por um russo. Seria de se esperar que o grito antiamericano do boçal fosse ignorado por não ter qualquer base, não é mesmo? Ah, mas bem diz aquela campanha da TV: brasileiro não desiste nunca! Logo em seguida um outro lobotomizado concorda e vai além na argumentação inteligente: “Eu escrevo em português mesmo e vão se foder seus bostas comedores de merda”. Veja que lindo isso, seus bostas comedores de merda. Chamou os americanos de canibais e aposto que eles nem perceberam. E a isso seguiram-se outros posts de imbecis de igual calibre, entremeados de comentários de brasileiros envergonhados pelo comportamento de seus compatriotas, e ansiosos para dizerem “Epa, eu sou brasileiro mas não sou assim não, péra lá!”.

Mas adianta alguma coisa? No início da década de 60, tendo se estabelecido como o grande revolucionário (no sentido estrito da palavra, nada de barbichas e camisetas do Che Guevara) da música brasileira, João Gilberto ainda dividia um apartamento com Ronaldo Bôscoli. Um dia, desanimado, João olhava pela janela quando suspirou:

— Não adianta, Ronaldo. Eles são muitos.

Não adianta mesmo. Eles eram muitos então, e hoje seus netos são a maioria. Somos um povinho acanalhado, orgulhoso da própria estupidez, que se acha esperto e só passa vergonha, como bem demonstra esse exemplo do Orkut. Porque não é só na internet que isso ocorre, é claro. Ô, povinho bunda! Sempre que eu digo que sou honesto tenho que suportar olhares de esguelha, sobrancelhas erguidas, pose de quem-esse-cara-pensa-que-é, como se ser honesto fosse uma grande virtude da qual eu me gabasse, e não minha obrigação mais óbvia. “Esse aí acha que é santo”, juro que já ouvi isso. E estava apenas defendendo (evidentemente) uma alternativa honesta para determinado problema.

Que país, meu Deus, que povinho! Nada funciona, todo mundo quer levar vantagem, todo mundo quer se dar bem. Assim sendo, poucos têm moral para questionar o deputado que concede a si mesmo benefícios absurdos, o vereador que organiza um esquema de extorsão de camelôs, o prefeito que desvia verbas dos cofres municipais. Claro: estivesse lá, o zé-povinho faria exatamente o mesmo. E o que acontece com quem tenta ser honesto? O que acontece com os políticos honestos, por exemplo? Ora, peguemos dois exemplos: Eduardo Suplicy e Mario Covas. É essa a recompensa pela honestidade, chifres e câncer?

Ah, mas eu não devia falar isso aqui, onde é que estou com a cabeça? Sabe aquele negócio de falar o que bem entender, liberdade de expressão e coisa e tal? Tudo mentira! Suponham, por exemplo, que eu dissesse aqui: “Paulo Maluf é um salafrário, sem-vergonha, velho tarado, ladrão”. Apenas uma suposição, notem bem, eu nem disse nada! Mas suponham que eu dissesse. Sabe o que poderia acontecer? Poderiam tirar este blog do ar. Mentira? Paranóia minha? Oras, digam isso ao Gravataí Merengue, que teve seu Imprensa Marrom derrubado pela justiça porque um leitor fez um comentário falando mal de certa empresa. Pronto! O riquinho lá da empresa se feriu em seus brios e foi correndo contar pra mamãe. É isso a justiça neste paisinho mequetrefe: a mamãe superprotetora dos riquinhos bundões. Pois esse bundão em particular foi reclamar com mamãe, que imediatamente mandou o menino mau calar a boca. Pior: o menino mau nem dissera nada!

Agora vou eu tentar usufruir do meu direito à justiça. Vá você. Adianta nada. E sabe por quê? Ela não é nossa mamãe, é só deles! Não é a mamãe, não é a mamãe! Mas é claro que não faremos nada: vai que um dia eu me torno um riquinho bundão; eu vou querer ser filhinho da mamãe igual aos outros. Claro.

Povinho desgraçado. Gente estúpida, descerebrada, com seus sorrisos débeis mentais e babões enquanto o mundo lhe enfia o dedo no cu.

Tenho plena consciência do quão mal escrito está este post, do quanto falta concatenação às idéias. Mas é que escrevi de uma vez só para ver se a raiva passava.
Não passou. Mas leiam mais sobre o caso do Imprensa Marrom aqui.

Mozilla Firefox 1.0 em português

Aqui.

Enfim!

Os dois das pontas, Chega de Saudade (1959) e João Gilberto (1961) eu já tinha. Hoje comprei o do meio, O Amor, o Sorriso E A Flor (1960). Os três primeiros LPs de João Gilberto, jamais lançados decentemente em CD, agora aqui na minha vitrola.

E se alguém aí tiver um toca-discos honesto para me vender, com saídas RCA, em bom estado, avise. Vou passar essas preciosidades pra mp3, mas para isso preciso de um equipamento melhorzinho.

Balde de Gelo

Olá, crianças. Tudo corrido por aqui, mas eu precisava falar sobre isso com vocês: a revisão está pronta, orelhas também, as capas (sim, são duas) idem. Então a Ale resolveu criar uma comunidade no Orkut para os fãs do Balde de Gelo. Lá teremos uma fonte de informações em primeira mão sobre a publicação, datas de lançamento, essas coisas. Ah, e lá vocês poderão conhecer uma das capas do livro também. Entrem, entrem.

Coisas

  • Estou trabalhando, crianças. Eu trabalho, lembram-se? Então acostumem-se à falta de posts.
  • Subi ao morrão mais uma vez. Vi lá a velha, mas nem quis papo: fui sentar-me do outro lado. Única novidade: contei os degraus do escadão. Noventa e dois.
  • As coisas mais estranhas têm me acontecido.
  • Preciso escrever um post sobre Los Hermanos, outro sobre Legião Urbana (talvez enfie os dois num post só) e um sobre urna eletrônica. Não deixem que eu esqueça.
  • Estou tão acostumado a ter razão que a mera possibilidade de estar errado me aflige até o limiar do insuportável. Só que dessa vez eu quero muito descobrir que estive errado o tempo todo.
  • Não é pra entender. Só deu preguiça de escrever no diário de papel.
  • Tenham paciência.

Acentuação

Algumas pessoas experimentaram problemas com acentuação após instalarem o Mozilla Firefox. Tá certo que a maioria dessas pessoas estava tentando ler blogs do Weblogger, e portanto mereciam mais é ficar sem resposta: quem insiste em manter um blog naquele servicinho porco, ou se submete a ler, merece mesmo sofrer pra aprender a deixar de ser besta. Mas enfim: se você perceber que determinada página está com problemas de acentuação, basta mudar a codificação clicanco clicando em View/Character Encoding e (no caso do Weblogger) mudando para Unicode (UTF-8).

Esse papo seu tá qualquer coisa…

Bons comentaristas geralmente dão pra bons blogueiros. Foi o caso de bobmacjack com seu Onipresente Ausente, e agora do Sr. Renato K., a odalisca blogueira, com seu Pra lá de Marrakech. Vai pros Profetas, com louvor.

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