Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em 2004

Aitofel e Husai

(II Samuel 17)

Com o dinheiro que ganhara vendendo as fitas de Absalão comendo as mulheres de Davi, Aitofel era um homem muito feliz. Foi, portanto, muito pimpão que atendeu a um chamado do novo rei:
— Aitofel, estou aqui pensando no que fazer em seguida.
— Hum.
— Hum o quê?
— Nada, majestade, nada!
— Vai vir de novo com aquele papo de insegurança e não sei que mais?
— Mas de forma alguma!
— É bom mesmo. Humpf. Fique sabendo que nunca houve um rei tão seguro quanto eu. Já tenho tudo planejado aqui, sou dono da situação, sabe?
— Sei.
— Como assim, “sei”? Olha, você não é pago para ser sarcástico comigo!
— Sarcástico, eeeeeeu? Longe de mim, majestade!
— Grunf. Mas eu ia dizendo: estou aqui pensando no que fazer. Comi as concubinas do meu pai, mas e daí?
— Olha, acho que o negócio agora é foder o velho.
— DE JEITO NENH…
— Calma, calma. No sentido figurado.
— Ah… Ufa.
— Então. Deixe que eu escolha doze mil homens. Sairei com eles para perseguir Davi ainda esta noite. Ele está fugindo há mais de vinte e quatro horas, deve estar cansado e desmoralizado. O bicho vai se cagar todo, os que estão com ele fugirão. Então eu matarei apenas o rei… digo, ex-rei, e trarei o resto de volta para cá, para que sejam seus súditos. O senhor só quer matar a um homem, os outros podem ser deixados em paz.
Absalão achou bom o conselho de Aitofel, assim como todos os outros conselheiros. Mas ainda estava com a pulga atrás da orelha devido ao episódio das concubinas: nada lhe tirava da cabeça que Aitofel só o aconselhara a fazer aquilo para filmar tudo. Então resolveu que precisava de uma segunda opinião e mandou chamar Husai. Quando ele chegou, expôs-lhe o conselho de Aitofel e perguntou:
— E aí, o que você acha? Sigo o conselho de Aitofel ou você por acaso tem outro?
— Olha, majestade… Quem sou eu para discordar de Aitofel? O homem foi conselheiro de seu pai, sempre muito respeitado, então não vou querer discutir com ele.
— Ué, que porra é essa? Você concorda com ele ou não?
— Bom. Já que o senhor quer mesmo saber, digo que o conselho não é muito bom não.
— Ah, não? E o que você propõe?
— O senhor conhece seu pai. Davi é um homem valente, assim como os homens que estão com ele, e devem estar todos furiosos. Além disso, Davi é um guerreiro experiente, e durante a noite não fica com os soldados. Deve estar entocado nalgum canto. Se formos atacá-los com doze mil homens, como propõe Aitofel, eles vão reagir e talvez tenhamos uma surpresa desagradável. O povo vai começar a falar que o exército de Absalão foi derrotado, os soldados de Israel ficarão com medo de enfrentar Davi, e pronto: está a merda formada. Então o meu conselho é o seguinte: que o senhor reúna por todo o país todos os homens em condições de batalha, e que o senhor mesmo seja o comandante desse exército imenso. Com tanta gente na cola dele, Davi não vai ter onde se esconder: desentocamos ele até do inferno, antes que ele perceba o que está acontecendo. Então matamos o ex-rei e seus homens, não deixando unzinho para contar a história. NEM UNZINHO! Se eles se esconderem numa cidade fortificada, vai ser fácil para nós derrubar os muros com cordas. E AÍ A GENTE MATA GERAL! SANGUE! SANGUE! SANNNNNNNNGUEEEEEEE!
— Calma, Husai, calma. Puxa, não sabia que você odiava o outro tanto assim… Bom, acho o seu conselho melhor. E vocês, o que acham?
Os outros conselheiros e conspiradores concordaram com Absalão, então decidiram fazer conforme Husai aconselhara.
O plano do espião enviado por Davi parecia mais cruel do que o de Aitofel: enquanto este propunha que um exército pequeno caçasse e matasse Davi, aquele queria atacar com força bruta, esmagando um inimigo acuado. A primeira vista, portanto, Husai parecia mesmo ter mudado de time. Mas a chave era tempo: se seguisse o conselho de Aitofel, a caçada poderia começar em seguida. Juntar doze mil homens era trabalho de não mais que um dia, e Davi seria atacado no meio de sua fuga, sem chances de reação. Por outro lado, convocar todos os israelitas para a luta era tarefa para muitos dias, o que daria tempo ao ex-rei. E tempo era tudo de que Davi precisava.
Pois muito bem: assim que terminou de receber os cumprimentos por seu plano brilhante, Husai correu para contar aos sacerdotes Zadoque e Abiatar — espiões como ele — o que acontecera no palácio. Contou a história por alto, e entregou a eles um bilhete destinado a Davi:

Majestade,

Não perca tempo aí no meio do deserto. Sei que vai ser cansativo e que muita gente vai chiar, mas faça de tudo para cruzar o Jordão o mais rápido possível. Absalão tá com sangue nos zóio, se liga.

H.

Outro elo da cadeia de espionagem criada por Davi era a dupla Jônatas e Aimaás, filhos de Abiatar e Zadoque. Os dois passavam os dias na fonte de Rogel, a uma distância segura dos muros da cidade para não serem vistos. Vez por outra uma empregada ia até lá como se para buscar água, lhes contava o que andava acontecendo e eles levavam as informações a Davi. Nesse dia não foi diferente: a empregada foi até a fonte e entregou o bilhete de Husai aos rapazes. Mas um moleque futriqueiro que ia passando viu aquilo e correu para contar ao rei. Jônatas e Aimás também o viram, e correram para a casa de um sujeito que também estava a serviço do rei deposto, na cidade de Baurim. Eles se esconderam dentro do poço, que a dona da casa cobriu com um pano e jogou sobre ele cereais socados, de modo que o poço ficou camuflado. Quando a polícia chegou para fazer a averiguação e enquadramento dos dois elementos alta periculosidade, não encontrou nada.
— Ô, madame, cadê os meliantes?
— Atravessaram o rio.
— Puta que pariu!
— Olha, rimou!
— Vá à merda.
A polícia foi embora, e os dois espiões saíram correndo para levar o recado e o bilhete de Husai a Davi. O rei recebeu a mensagem, compreendeu que ganhara tempo e deu a ordem para a travessia. Ao raiar do dia, todos já estavam na banda oriental do rio.
Aitofel recebeu a notícia e percebeu o que significava: as tribos do outro lado do Jordão, sempre isoladas do resto do reino, e por isso sempre dispostas a alguma agitação, certamente apoiariam a Davi. Absalão ainda estava começando a arregimentar homens de Dã até Berseba, seguindo estupidamente o conselho absurdo de Husai. Era demais para o conselheiro: além de ter traído seu antigo senhor, fora desprezado pelo novo, e agora veria a vitória do inimigo sem poder nem dizer “Mas eu avisei”. Então Aitofel montou em seu jumento, voltou para casa, botou seus negócios em ordem e enforcou-se.

Quando Absalão finalmente conseguiu juntar seu exército (sob o comando de Amasa, primo de Joabe), Davi e seus homens já haviam chegado a Maanaim, cidade que muitos anos antes abrigara Isbosete, filho de Saul, num outro período conturbado da monarquia israelita. Como já era esperado, as tribos transjordanianas passaram imediatamente para o lado de Davi. Guerra haveria, mas não seria tão fácil quanto Absalão pensava.

Capitão Sky e o mundo de hoje

Quando do lançamento de The Tingler, Willian Castle teve uma idéia estapafúrdia: instalar em algumas poltronas das salas onde o filme seria exibido um dispositivo chamado Percepto. O tal dispositivo era de uma simplicidade infantil: apenas fazia a poltrona vibrar. Associado, porém, a certas cenas do filme, esse efeito causava sustos imensos. Na cena mais marcante, a tela fica toda preta e a voz Dr. Warren Chapin (Vincent Price) anuncia que o monstrengo está à solta no cinema. E diz:
— Ladies and gentlemen, please do not panic! But SCREAM! Scream for your lives! (Gritar era a única arma contra o Tingler. Não vou explicar nada, o filme foi lançado em DVD, assistam. Ou tenham um amigo legal feito Rodrigo Segatti, que me deu essa obra-prima de presente).
Logo em seguida a tela fica branca e aparece a silhueta do monstrinho, como se ele tivesse atacado a sala de projeção. Um primor.
Hoje essa parafernália toda para assustar a platéia não funcionaria: a maioria ia achar apenas ridículo. Vivemos num mundo chato e cinzento, ninguém mais liga para fantasia. Você quer fazer um filme? Ok, muito bem. Mas fale sobre coisas REAIS e SÉRIAS. Nada de aventura e fantasia, que ninguém aqui é criança. E olhe lá, hein? Se o filme tiver alguma cena que considerarmos absurda, todos gritaremos “Bãaaaaaa, té parece!”. Porque não somos trouxas, viu? Você não pode nos enganar.
Capitão Sky e o Mundo de Amanhã é um filme que surpreende por ir contra esse consenso estúpido: seria feito tranqüilamente nos anos 30 (época em que se passa a ação), se então já se pudesse contar com a tecnologia de hoje. Os enquadramentos, a trilha sonora, os diálogos, tudo faz lembrar de um tempo mais ingênuo e, sejamos meio gays, saboroso. É claro que pouca gente vai entender: ontem, na sala em que eu tentava assistir ao filme, o partido do “Bãaaaaa, té parece!” atacava a cada cinco minutos. Tive que ir sentar lá na frente para não brincar de Mateus Meira com aquele povo idiota e sem imaginação.
Mas procurem um cinema meio vazio e assistam. Muito bom mesmo.

* * *

Aliás, uma idéia para o Percepto 2004: as cadeiras do cinema seriam todas eletrificadas. Quem atendesse o celular no meio do filme, ou falasse alto, ou risse nas horas impróprias, ou fizesse “Bãaaaaaa, té parece!”, seria imediatamente eletrocutado. Funcionários do cinema entrariam discretamente para remover o corpo, que seria cremado e as cinzas entregues à família dentro de um saco de pipoca, com um par de ingressos de cortesia.

* * *

Quando foi internado numa clínica psiquiátrica nos anos 50, João Gilberto passava horas olhando através das janelas. Um dia uma das psicólogas se aproximou e ele comentou:
— Olha o vento desarrumando o cabelo das árvores…
A doutora, demonstrando preocupação, disse:
— Mas, João, as árvores não têm cabelo.
E ele, fuzilando:
— E certas pessoas não têm poesia…

* * *

Eu notei, Ieda também: primeiro foi Daryl Hannah em Kill Bill, agora Angelina Jolie em Capitão Sky. O tapa-olho tem tudo para virar fetiche.

  

Hum?

Bah.

Oh, não!

Além dos fundamentalistas, agora tenho que agüentar esse tipo de coisa:

Profundo mau gosto, essa de fazer piada com criança anencéfala. Se v. fosse ainda aquele adolescente com cabelo que anda por algum lugar desse sítio, ainda ia. Qualé a próxima, sacanear anões? Fazer piada racista?
Por favor, põe logo outro de seus posts geniais nesse site, vai, para que não seja essa nota infeliz a apresentação para os neófitos.
(SLeo)

Pronto. O primeiro anencéfalo já se manifestou. Virão outros?

Cubatão

Nos anos 80, todo mundo se horrorizou com a divulgação da notícia: crianças nasciam sem cérebro em Cubatão. O ar da cidade que então ostentava o título de Mais Poluída do Mundo começava a causar danos inesperados. Pobres crianças descerebradas: um desperdício de vida, uma tristeza imensa para os pais. Afinal, para que serviria uma criança sem cérebro?
Mas eis que surgiram os blogs…

Sorteio

Olha aí: Alê Félix, nossa editora, vai sortear livros entre aqueles que divulgarem o lançamento do Balde de Gelo em seus blogs. Para saber como participar, leia lá o último post.

Para o feio tudo é lucro

Eu era TÃO FEIO aos 21 anos que consegui melhorar engordando e ficando careca…

Mais Balde de Gelo

Vocês já devem ter reparado: ali na barra da direita, sob o título “Missão”, estão os bannerzinhos de divulgação do lançamento do Balde de Gelo. Sapequem em seus blogs, sites e outros cybermuquifos. Obrigado!

Alvíssaras!

Vocês me fazem o favor de divulgar o lançamento do Balde de Gelo?



Paulistas, cariocas: não nos deixem sós! Eu e Daniela contamos com vocês.

Marco Aurélio na Ilha de Caras

Com esse negócio de blog, alguns amigos gostam de tirar sarro da minha cara chamando-me de celebridade. É ridículo, claro. Mas o que poucos sabem é que eu, Marco Aurélio, um dia pisei o solo sagrado da Ilha de Caras, a Meca das celebridades instantâneas. Como isso aconteceu? Já conto.
Em janeiro de 1996, tirei as primeiras férias remuneradas de minha vida. Recebi algo em torno de 900 reais, uma fortuna, para ficar vinte dias de papo para o ar. Eu tinha vestibular dali a uns dias, então poderia ficar em casa estudando ou viajar. Claro que escolhi a segunda opção. Resolvi ir a Angra dos Reis, sozinho (o Risadinha, que iria comigo, desistiu por algum motivo do qual não me recordo). Eu falava em Angra dos Reis e as pessoas ficavam espantadas: “Tá podendo, hein, negão?”. Mal sabiam elas que eu ia encarar sete horas de ônibus para me instalar na Pousada do Rio Bracuí, uma afiliada dos Albergues da Juventude no meio do mais absoluto nada (quase nada: dias depois, descendo o tal rio Bracuí de caiaque, descobri que ele desembocava numa praia linda e absolutamente deserta).
Foram oito lindos dias. Todas as manhãs eu me levantava, caminhava até a BR-101 e pegava um ônibus qualquer. Saltava em qualquer lugar que me cheirasse a praia e me embrenhava em alguma trilha. Invariavelmente saía nalgum lugar lindo, com águas transparentes e calmas, peixes coloridos, e o mais importante: pouca gente. O ponto culminante da viagem foi a chegada à Praia Secreta, graças à indicação do Fabiano, dono da pousada. Passei dias felizes na tal praia, achando ser o único vivente além dos pescadores a saber de sua existência. Minha fantasia de Robinson Crusoé foi por água abaixo quando resolvi ir à Praia Secreta num sábado: a areia estava tomada por niteroienses que ouviam um pagode fuleiro em alto volume, falavam gritando e preparavam um churrasco fedorento. Coisa triste.
Depois dessa decepção, resolvi que no domingo não iria a praia nenhuma. Afinal, raciocinei eu, todas elas deviam estar tomadas de niteroienses pagodeiros churrasqueiros gritadores. Foi assim que decidi fazer algo que evitara durante toda a semana: ir até a cidade de Angra dos Reis e fazer um passeio de escuna. Fui, pois. O preço me assustou: 45 reais, muito dinheiro para mim na época. Mas já estava lá, faltavam dois dias para eu voltar pra casa, que diabo. Paguei e embarquei na tal escuna.
Ah, o inferno! Na parte de cima do barco, jovens bonitos e de bem com a vida dançavam axé e exibiam seus corpos bronzeados e abdômens definididos. Eu, que era jovem e magro mas nunca fui bonito nem de bem com a vida, e além do mais detesto música de bunda, resolvi ficar na parte coberta. A companhia não era das mais animadoras: um inglês de meia idade, muito branco, usando bermudas cáqui um tanto apertadas, meias brancas até os joelhos ossudos e sandálias de borracha, tentava conversar com uma senhora baiana e gorda, de cabelos muitas vezes pintados e roupas floridas. A senhora trazia um moleque a tiracolo, e o capeta não parava quieto um só instante. Queria ver minha câmera, saber meu nome, onde morava, quantos anos tinha. “E o tamanho da minha pica, moleque, você quer saber?”, eu pensei (devia ter dito, mas acho que ia pegar mal). Havia também um casal de holandeses. Os dois estavam vermelhos devido ao sol e eram ruivos, de modo que pareciam duas pimentas silenciosas, sentadas no convés e olhando em volta com ar desconfiado. Além deles, os argentinos de sempre. E eu.
Estávamos todos ali quando chegou a guia para saudar nosso alegre grupo: uma perua de uns quarenta anos de idade, com um penteado super elaborado e óculos de sol dependurados no pescoço. Falava conosco e às vezes parava para dar ordens pelo rádio. O rádio não emitia qualquer ruído: ou seus subordinados eram excessivamente obedientes e dóceis, ou o rádio era só enfeite para fazer com que ela parecesse ocupada e importante. A sensação de falsidade aumentou quando ela nos apresentou o comandante do barco: um rapaz de quase dois metros de altura, muito forte e bronzeado, com dentes branquíssimos exibidos num constante sorriso. Durante o passeio, ele virava o timão para lá e para cá, e sorria o tempo todo. Ninguém me tira da cabeça que, nalgum recôndito do barco, algum crioulinho pilotava de verdade aquela joça, enquanto o bonitão se exibia e deixava molhadas as senhoras (não que ele tenha lançado as senhoras ao mar. Vocês entenderam).
A guia tinha um sotaque indefinível. Parecia ser brasileira, mas tentava afetar um sotaque meio argentino, talvez para agradar à maior parte da clientela. Com esse estranho acento, ela nos apontava os pontos importantes da Baía de Angra: a ilha do Dr. Pitanguy, a casa que fora do Ayrton Senna (e todos fizeram oh!, menos eu, que sempre achei o Senna um babaca), o iate do Roberto Carlos:

Aí eu me empolguei um pouco; afinal era o iate do Rei. O nosso comandante, porém, esclareceu:
— Esse aí é o Lady Laura II, o barquinho dele. É um bote salva-vidas perto do Lady Laura original.
Matutei um pouco sobre o que levaria um homem já entrado em anos a batizar seus iates com o nome da mãe. Não tive tempo para pensar muito, porém, porque chegáramos ao ápice de nosso passeio, anunciado de boca cheia pela guia:
— Señoras y señores… LA ISLA DE CARAS!
Todos voltaram os olhos para a ilha. O inglês e o casal de holandeses provavelmente não sabiam do que se tratava, mas lia-se nos olhos da baiana gorda e dos argentinos o êxtase do peregrino ao chegar à Terra Prometida, que mana leite e mel. Saquei a câmera (era só o que eu fazia, fotografar. Enquanto isso, meus coetâneos lá em cima sacolejavam seus belos corpos, numa dança do acasalamento ao som de música baiana) e registrei a imagem da Terra Sacra:

Mas, ao contrário de Moisés, não estávamos destinados a apenas ver de longe a Terra Prometida. Não! A guia anunciou que nós atracaríamos (não que nos atracaríamos. Vocês entenderam) e teríamos a honra, o deleite supremo, de almoçar na ilha abençoada. Não entraríamos nos domínios restritos, é claro: a parte atrás do muro era uma espécie de Santo dos Santos da frivolidade, e estava destinada apenas aos eleitos. A nós, indignos mortais, era permitido apenas tocar a fímbria do Paraíso. Fomos autorizados, então, a tomar banho de mar na minúscula praia da entrada da ilha e a almoçar no restaurante que ficava quase sobre o píer. Subi até lá com os outros e almocei sentado sozinho numa mesa distante, maldizendo minha decisão de fazer aquele passeio estúpido com pessoas mais estúpidas ainda.
Tendo terminado minha refeição, fui sentar-me na beira do píer para tirar umas fotos. Fui interrompido pelo vozeirão do nosso comandante:
— Ô, grande. Você fala, português?
— No, I don’t.
— Well… W-we needing a… A… You see…
— Pô, olha bem pra minha cara. Isto aqui lá é cara de gringo?
— Hein? Ah… Então. Você não pagou.
— Não paguei o quê?
— O almoço.
— Ué! Não tá incluído no preço do passeio?
— Claro que não!
— Porra, por que não me avisaram? Eu nem estava com fome, só comi porque pensei que fosse de graça. Quanto é?
— Treze reais mais a bebida. Paga no caixa.
Fui pagar, maldizendo mais ainda a decisão idiota de entrar naquela escuna. Dez minutos depois a falsa argentina veio me chamar para retornar ao barco.
— E vamos para onde agora?
— Ah, agora voltamos para Angra.
— Ufa, graças a Deus!
— Ué! Não gostou do passeio?
— Achei tudo uma merda. Mas não esquente, não é culpa sua.
Dei as costas e fui andando para a embarcação maldita. Durante toda a viagem de volta, além de ter que me concentrar para não ficar mareado (o mar resolvera ficar bravo de uma hora pra outra), ainda tive que fingir que não entendia as indiretas de nossa guia:
— Uma maravilha de passeio, não? Pois é! Todo mundo gosta. Quase todo mundo, pelo menos. Mas quem não gosta é gente que não sabe aproveitar a vida, vocês sabem como é…
E eu lá, firme, controlando a ânsia de vômito que o balanço do barco e as palavras da mulher me causavam.
Cerca de uma hora depois, estávamos em Angra dos Reis. Saí sem me despedir de ninguém (pra quê?) e fui pegar o ônibus que depois de mais meia hora me deixou na Rio-Santos. Na pousada, fui recebido pelo Fabiano:
— E aí? O que fez hoje?
— Passeio de escuna.
— Puta que pariu, aquilo é uma merda!
— Não me diga…

* * *

Ah, o vestibular: cheguei no dia da prova, sem estudar. Fui segundo colocado. Como disse Raul Seixas numa situação semelhante, é fácil ser medíocre.

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