Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em 2004

Acabou!

O último episódio de Friends. Todo mundo fala sobre isso agora, então falarei também, porque eu sou um cara patético e sem personalidade. Achei que o fecho não foi à altura do seriado. Muito meloso em algumas partes, noutras apelando para piadinhas fáceis. Mas destaco aqui o final do episódio:

Rachel: (crying) Do you guys have to go to the new house right away, or do you have some time?

Monica: We got some time.

Rachel: Okay, should we get some coffee?

Chandler: Sure. Where?

Foi de Chandler Bing a última fala de Friends. E, como era de se esperar, foi uma piadinha. Isso deve significar alguma coisa. Nós, os palhaços tristes, devemos celebrar. Não devemos? Devemos.

Davi entre os filisteus

(I Samuel 27, 28:1-2)

Depois de poupar a vida de Saul pela primeira vez, Davi até chegou a acreditar que eram verdadeiras as boas intenções do rei. Quando da segunda, porém, ele percebeu que Sua Majestade era mesmo um maluco, e que não desistiria de persegui-lo, e que sua morte era mera questão de tempo. Bom, a morte de todo mundo (inclusive a sua, leitor) é mera questão de tempo, mas estamos falando de poucos dias.
Pensando nisso, Davi concluiu que sua única alternativa seria sair de Israel. Não para qualquer lugar, porém: Saul não hesitaria em declarar guerra a algum dos vizinhos mais fracos, se isso pudesse ajudá-lo a botar as mãos no filho de Jessé. Restava, portanto, a Filistia. A experiência de Davi por lá não fora das mais animadoras. Porém, era sua única opção, e ele resolveu arriscar. Dessa vez não iria sozinho, mas acompanhado de seus seiscentos bandoleiros. Contava com sua fama de persona non grata em Israel para impressionar Aquis, rei de Gate.
Foi até Gate, portanto, e apresentou-se ao rei. Aquis ainda se lembrava de Davi na última ocasião, babando e riscando as portas, expulso da cidade pelos guardas, então ficou impressionado com a altivez do israelita em sua presença.
— Ei. Você não era doido?
— Eu percebi que o senhor desconfiava de mim, então me fiz de maluco para escapar.
— Muito inteligente, muito inteligente… Entenda minha posição, Davi. Eu não podia confiar num homem tão popular em Israel, o homem que havia matado Golias, nosso maior guerreiro.
— Eu entendo, majestade.
— Mas hoje eu sei da sua situação, de como Saul o persegue e de como você e seus homens se esgueiram por todo o território de Israel. Seja bem vindo, portanto.
— Obrigado. Muito obrigado.
A verdade é que Aquis sabia que Davi era grande conhecedor do território israelita, depois de tanto tempo vagando pela terra. Como não era benquisto em Israel, o rei de Gate contava com sua lealdade, o que seria importantíssimo em caso de guerra. Sendo assim, Davi, suas duas esposas e seus soldados foram muito bem recebidos e ficaram morando em Gate. Não se sentiam à vontade na cidade, porém, então Davi foi falar com Aquis:
— Majestade, se o senhor vai mesmo com a minha cara, queria lhe fazer um pedido.
— Pode dizer, Davi.
— Queria saber se o senhor poderia me dar uma cidade para morar. Não vejo necessidade em ficar morando aqui na capital com meus soldados, atrapalhando a vida das pessoas e coisa e tal.
— Ué, vocês não estão atrapalhando em nada. Mas se você faz mesmo questão, pode ir morar em Ziclague.
Davi e seu bando mudaram-se, pois, para a cidadezinha de Ziclague, que a partir de então passou a pertencer aos reis de Judá (esse negócio de “reis de Judá” eu vou explicar mais para a frente, depois do reinado de Salomão. Tenham calma).
Davi ficou um ano e quatro meses morando na Filistia. Durante todo esse tempo, dedicou-se a atacar os povos que viviam naquela região (gesuritas, girzitas e amalequitas). Ele e seus homens matavam todas as pessoas e roubavam o gado e as roupas. Depois de cada ataque, Davi voltava a Gate para levar parte do espólio a Aquis, e o rei perguntava quem ele tinha atacado. Ele mentia, dizendo que tinha saqueado o sul de Judá, ou Jerameel, ou a terra dos queneus. Por isso precisava matar todo mundo em todo lugar que atacasse: se alguém escapasse, poderia correr até Gate e contar ao rei o que de fato acontecera. Sem testemunhas de seus crimes, agradava a Aquis ao dizer que atacava Israel dia após dia, e enriquecia. Depois de tanto tempo vivendo como malfeitor, Davi finalmente tornara-se um verdadeiro bandido. Aquis, imaginando o quanto seu hóspede era odiado em todo o Israel (sem razão), pensava que ele lhe seria leal por toda a vida, fosse por gratidão ou por ser a única opção. Enquanto isso, Davi se aproximava cada vez mais dos líderes da tribo de Judá, preparando terreno para seu retorno à terra natal.
Tudo ia muito bem, até o dia em que Aquis, não conseguindo pensar em nada melhor para fazer, decidiu que já era hora de voltar a cutucar os israelitas. Falou com os outros quatro reis da Filistia, os cinco reuniram suas tropas, e Aquis convocou Davi.
— Seguinte, rapaz: fique sabendo que você e seus homens vão lutar ao meu lado.
Com essa Davi não contava. Cultivava as melhores relações em Gate, mas sua maior preocupação era ser querido em Israel, ou ao menos em Judá. Mas é claro que não podia dizer isso: Aquis acreditava que ele atacava sistematicamente o sul de Judá, e aquela era a pior ocasião possível para desmentir tudo. Então estufou o peito e disse:
— Pois o senhor vai ver do que sou capaz, majestade! Vou acabar com aquela cambada de israelitas. Ah, se vou! Odeio aqueles caras! Odeio! ODEIO!
— Tá, Tá. Calma, Davi. Gostei de ver sua determinação, viu? A partir de hoje você é meu guarda pessoal.
Davi agradeceu com falso entusiasmo. Enfiara-se naquela situação e agora não sabia como sair dela.

Sobre o lançamento

O que dizer? Os wunderbloggers são mesmo um bando de católicos conservadores de direita que tratam muito, muito mal agnósticos esquerdistas como eu.
E estavam todos de tanga.

Lançamento

Não poderei ir, infelizmente. Representem-me. Dêem um abraço no Alexandre por mim, mandem-me uma foto do Ruy Goiaba pra eu fazer chantagem depois.
E comprem o livro, claro.

EU VOU!

Spam spam spam spam spam…

E-mail recebido agora há pouco:

Fala…

Gostaria de saber se você aceitaria uma “troca de links” aonde eu linkaria vocês no meu site e eu linkaria o seu no C*****s.

Espero resposta…

FALOU!!

Resposta imediatamente enviada:

Não. Aliás, peço que você não bote link para o meu site nessa sua excrescência cibernética. Não quero que as pessoas conheçam o que eu escrevo através de um spammer sem vergonha feito você.
Enfie no cu o seu link.

Atenciosamente,

Marco Aurélio dos Santos

É cada uma…

Fascinação

“I could watch the dreams flicker in your eyes
Lying here asleep on a sunbeam
I wonder if you realise you fascinate me so”

(Belle & Sebastian – Asleep On A Sunbeam)

Por mais que eu viva, nunca esquecerei essa cena: sentado numa cadeira e usando roupas adequadas a uma sala de cirurgia, meu cunhado segura o pacotinho delicado que é sua filha recém-nascida. Deitada, com uma expressão entre exausta e eufórica (não me peçam para explicar), minha irmã olha para os dois. O casal troca olhares de incredulidade. Está ali. É de verdade, e é um amálgama perfeito dos dois. Nunca vi nada que se aproximasse tanto do ideal do Sagrado. Aquela cena merecia uma pintura, uma escultura, uma sinfonia. Não contávamos, porém, com nenhum artista, e o Hospital-Maternidade Albert Einstein não os fornece às mães. Paciência, usamos o que havia a mão: o tio babão aqui, que filmava a cena com mãos trêmulas.
Passaram-se dezessete dias desde então, e a cada vez que olho para Ana Julia, minha sobrinha, é como se anjos descessem do céu entoando hosanas e jogando pétalas de rosas. Bem bichonas, os anjos. Agora mesmo estava com ela nos braços cantando Asleep On A Sunbeam. Enquanto eu cantava, ela me olhava com seus grandes olhos verdes. Essa música já foi plena de sentidos para mim, mas nunca antes o trecho que botei como epígrafe teve tamanho significado.
Fico pensando se você percebe o quanto me fascina, Ana Julia.

Pérolas pythonianas aos porcos comedores de bordões

Impressão minha ou estamos vivendo uma onda de Monty Python revival? Para todo canto que olho há algo sobre o grupo inglês (mesmo fora de casa, que fique claro. Aqui dentro não tem muito como escapar…). Eu até diria que é bom e tal, mas o que me espanta são os tipinhos que resolveram gostar de Monty Python. Numa comunidade do Orkut, por exemplo, vi uma garota dizendo que MP é humor para pessoas mais alternativas, porque suas amigas que curtem coisas mais adversas apreciam o sexteto. Sim. Coisas adversas.
Eu queria saber quantas dessas pessoas que dizem gostar de Monty Python entendem de verdade o humor daqueles senhores. Duvido que haja, num país em que a maior parte do humor ainda se baseia em bordões e trocadilhos, tantos fãs do grupo que implodiu (ou ajudou a implodir) a ditadura da punch line na comédia. Duvido que algum desses “fãs” consiga assistir uma esquete como a Confuse-a-Cat e entender.
Mas, bah, quem liga, não é mesmo? É só comédia! Não é pra rir? Então pronto, a gente ri!
Humpf.

A geração espontânea e o amadurecimento

Não há geração espontânea. Qualquer um sabe disso, ou ao menos se espera que assim seja. Todo ser vivo surge a partir de outro, desde a simplicidade dos unicelulares se dividindo, até a complexidade da reprodução sexuada de plantas e animais, que culmina com a complicação danada que os seres humanos fizeram do assunto, com namoro, noivado, casamento, métodos contraceptivos, cesariana, detetives especializados em traição conjugal, divórcio, guarda dos filhos etc. etc. etc. A impossibilidade do surgimento da vida a partir de nada é o mais querido argumento daqueles que querem trazer Deus para a equação. Não vou entrar nessa questão, porém. O negócio é: hoje em dia ninguém mais acredita em geração espontânea, embora algumas adolescentes grávidas torçam para que seus pais acreditem.
O que é fato inquestionável para a biologia, ainda suscita discussões em outros campos, porém. Eu mesmo acreditei durante toda a vida em duas formas de geração espontânea: amor à primeira vista e inspiração; o primeiro no mundo dos sentimentos, a segunda no das idéias. Hoje, pensando na proximidade assustadora da marca de 30 anos de vida, percebi que estou deixando tais conceitos de lado, de forma quase imperceptível.
Isso é bom, muito bom. Essa coisa ficar esperando que uma garota ideal surja de repente para que eu me apaixone, ou que uma idéia me caia na cabeça para começar a escrever, vou lhes contar, não leva a nada. Assim como a idéia surgida de repente, vinda sabe-se lá de onde, é sempre um grande amontoado de clichês, pessoas que subitamente se tornam apaixonantes nada mais são do que uma mistura de frustrações do passado com o que ainda sobrou de idealizações depois de tanto levar na cara. Um texto surgido da pura inspiração ou um relacionamento nascido de uma paixão fulminante sempre levarão os envolvidos à vergonha pública.
Às vésperas dos trinta anos (ARGH!), percebo que acredito cada vez mais no texto que surge do trabalho e no amor que surge da convivência. Arroubos de adolescente não ficam bem em alguém da minha idade.

Notificação

Desde que eu fiz o upgrade para a versão 3.0D do Movable Type, alguns leitores notaram um problema no blog: ficou impossível se cadastrar para ser notificado dos capítulos bíblicos (naquele campo ali do lado direito, sob “Boas Novas”). Pois bem, acho que consegui arrumar o danado. Se alguém quiser testar, sinta-se à vontade.

Vagabundo

Andando pelo parque do Ibirapuera às cinco da tarde, de bermuda e tênis, camisa do Real Madrid (lindona, comprei um telefone só para ganhá-la de brinde), e em excelente companhia, pensei: Puta que pariu, eu sou um desempregado vagabundo muito do sem-vergonha. Mas, ah, como é bom!

(Epa, mandei notificação deste post em vez do de baixo. Foi mal aê)

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