Dona Donata e a arte de contar histórias
Dona Donata, eu já disse aqui, era minha avó materna. Ninguém contava histórias como ela: era abrir a boca e começar a mágica. Eu ficava fascinado por aquela capacidade que ela possuía de formar imagens tão reais em minha mente. Vinha devagarinho, contava o começo da história, e logo ela, o crochê descansando sobre o braço do sofá, a TV passando algum filme antigo (geralmente era de madrugada; aprendi com ela a não dormir cedo) e ela própria sumiam, dando lugar à onça braba, à moça louca, ao Lango-Lalango, à Caveira da Cachorra. Histórias inventadas ou não por por ela, não importa. Lembro-me de ouvi-la falando sobre um jogo da seleção romena na Copa de 1994. Contava os lances principais, criticava a atuação do juiz, traçava com as mãos a trajetória da bola dos pés de Hagi até o gol. Vi depois o videotape da partida. A descrição dela era bem melhor. E assim ela fazia com filmes também: contava-os com tal riqueza de detalhes que eu nem precisava assistir a eles.
Vou tentar contar aqui uma de suas histórias, mas já adianto que não é a mesma coisa. Se vocês tivessem a sorte de ouvi-la contando, veriam a história acontecendo. Comigo é só a narrativa insossa de sempre. Mas vamos lá.
Ela começava essa história dizendo que em Estância, sua cidade em Sergipe, as casas costumavam ser assim: tinha a porta da frente, a sala, um corredor de frente para a porta, e a porta dos fundos, na cozinha. Desse modo, quem entrava pela porta da frente via a dos fundos, e vice-versa. Havia, inclusive, uma rua cujas casas não tinham portas dos fundos, o que lhe valeu a denominação de Rua do Cu Tapado.
Pois muito bem: numa das maiores casas da cidade, morava um homem muito rico. Além do dinheiro e do poder, o sujeito ainda ostentava uma filha lindíssima. A moça, porém, não era para qualquer um: o pai a vigiava o tempo todo, sem deixar que ninguém se aproximasse. Os rapazes da cidade suspiravam e sofriam por ela, sem coragem de chegar perto. Mas um dia (sempre chega um dia), apareceu um moço na cidade. Andou aqui e ali, conversou com as pessoas, acabou vendo a filha do ricaço saindo da missa. Apaixonou-se, obviamente, e foi falar com o pai:
— Seu Fulano, eu queria casar com sua filha.
— Casar com minha filha? E você acha que pode ir chegando assim e pedindo pra casar com a menina? Quem você pensa que é, rapaz?
— Eu quero me casar com ela, estou apaixonado. Sem ela eu morro. O senhor me peça qualquer coisa, eu faço.
— Faz, é? Hum. Pois traga uma onça aqui. É, uma onça. Se você trouxer uma onça bem grande, talvez eu deixe você casar com minha filha. Caso contrário, esqueça.
— Pode deixar, seu Fulano. Trago a onça ainda esta semana.
— Estou esperando.
A moça, vendo aquilo, ficou encantada com o forasteiro. Ela nunca pensara que alguém estaria disposto a correr tal risco por ela. Se dependesse de sua vontade, casavam-se logo no dia seguinte. Mas havia o pai. E a onça.
O rapaz saiu da casa de sua amada sem saber o que fazer. Por que diabo prometera uma onça ao homem, Deus do céu? Nunca nem vira uma onça, de que jeito ia caçar uma para entregar como dote? Era loucura, melhor mesmo seria sumir da cidade para sempre. Ia assim pensando quando teve uma idéia maluca. Seria possível? Não seria? Logo saberia.
No dia seguinte, a moça e seu pai estavam na sala da casa quando ouviram alguém gritando longe. Correram para a janela e viram que era o forasteiro que vinha correndo rápido, tão rápido como se estivesse fugindo do próprio Satanás. Vinha na direção da casa, e gritava alguma coisa. A princípio eles não conseguiam discernir as palavras, mas quando ele estava bem perto ouviram claramente:
— ABRA A PORTA! POR NOSSO SENHOR, ABRA A PORTA!
A moça correu para a porta da frente, abriu e ficou esperando. Seu pretendente entrou, veloz como um corisco, pegou-a pelo braço e saiu arrastando-a pelo corredor. O pai, indignado, protestou:
— Mas e a onça?
— Tá vindo aí atrás! — e saiu da casa batendo a porta dos fundos.
Ana Beatriz, minha prima, nasceu dias antes da morte de minha avó. Fomos visitar a recém nascida, e nessa ocasião Dona Donata me contou sua última história.
Diz que havia esse casal. Amavam-se, namoravam, ficaram noivos, marcaram o casamento. Faltou dinheiro, adiaram o casamento para o ano seguinte. No ano seguinte morreu a mãe da moça, então empurraram a cerimônia para o outro ano. No outro ano o noivo sofreu um acidente, ficou de cama, remarcou-se novamente a festa. E assim foi: incidente após outro, iam adiando seu enlace, para desespero das famílias e, claro, deles próprios. Casal direito, queriam fazer tudo dentro dos conformes. Passaram-se dez anos, e um acontecimento acabou adiando o casamento indefinidamente: morreu a noiva.
O moço quase enlouqueceu, quebrou a casa toda, ficou desvairado. Um pouco mais calmo, tomou para si a obrigação de cuidar do velório e do funeral. Deu suas instruções: o caixão seria branco, as flores seriam brancas, brancas também seriam as cortinas, assim como a mortalha da defunta. Tudo branco, tudo branco. O pai da falecida quis confirmar:
— Tudo branco?
— TUDO! TUDO BRANCO! Caixão branco, flor branca, cortina branca, tudo branco!
— Mas vocês ficaram noivos por dez anos… Tudo branco mesmo?
— Olha… Bote um raminho roxo ali no canto…
Faz nove anos que minha avó morreu, e não passa um dia sem que eu pense nela, fale nela, sonhe com ela. Ela é minha maior influência. Se eu resolvi que contaria histórias, foi para tentar imitá-la. É uma pobre imitação, sei disso. Mas tento me aperfeiçoar a cada dia, para fazer jus aos genes que carrego comigo (ou que me carregam com eles, sei lá). Por enquanto, fica uma homenagenzinha: o Balde de Gelo, meu primeiro livro, é dedicado a Dona Donata. Se vierem outros, serão também.



