Marco Aurélio na Ilha de Caras
Com esse negócio de blog, alguns amigos gostam de tirar sarro da minha cara chamando-me de celebridade. É ridículo, claro. Mas o que poucos sabem é que eu, Marco Aurélio, um dia pisei o solo sagrado da Ilha de Caras, a Meca das celebridades instantâneas. Como isso aconteceu? Já conto.
Em janeiro de 1996, tirei as primeiras férias remuneradas de minha vida. Recebi algo em torno de 900 reais, uma fortuna, para ficar vinte dias de papo para o ar. Eu tinha vestibular dali a uns dias, então poderia ficar em casa estudando ou viajar. Claro que escolhi a segunda opção. Resolvi ir a Angra dos Reis, sozinho (o Risadinha, que iria comigo, desistiu por algum motivo do qual não me recordo). Eu falava em Angra dos Reis e as pessoas ficavam espantadas: “Tá podendo, hein, negão?”. Mal sabiam elas que eu ia encarar sete horas de ônibus para me instalar na Pousada do Rio Bracuí, uma afiliada dos Albergues da Juventude no meio do mais absoluto nada (quase nada: dias depois, descendo o tal rio Bracuí de caiaque, descobri que ele desembocava numa praia linda e absolutamente deserta).
Foram oito lindos dias. Todas as manhãs eu me levantava, caminhava até a BR-101 e pegava um ônibus qualquer. Saltava em qualquer lugar que me cheirasse a praia e me embrenhava em alguma trilha. Invariavelmente saía nalgum lugar lindo, com águas transparentes e calmas, peixes coloridos, e o mais importante: pouca gente. O ponto culminante da viagem foi a chegada à Praia Secreta, graças à indicação do Fabiano, dono da pousada. Passei dias felizes na tal praia, achando ser o único vivente além dos pescadores a saber de sua existência. Minha fantasia de Robinson Crusoé foi por água abaixo quando resolvi ir à Praia Secreta num sábado: a areia estava tomada por niteroienses que ouviam um pagode fuleiro em alto volume, falavam gritando e preparavam um churrasco fedorento. Coisa triste.
Depois dessa decepção, resolvi que no domingo não iria a praia nenhuma. Afinal, raciocinei eu, todas elas deviam estar tomadas de niteroienses pagodeiros churrasqueiros gritadores. Foi assim que decidi fazer algo que evitara durante toda a semana: ir até a cidade de Angra dos Reis e fazer um passeio de escuna. Fui, pois. O preço me assustou: 45 reais, muito dinheiro para mim na época. Mas já estava lá, faltavam dois dias para eu voltar pra casa, que diabo. Paguei e embarquei na tal escuna.
Ah, o inferno! Na parte de cima do barco, jovens bonitos e de bem com a vida dançavam axé e exibiam seus corpos bronzeados e abdômens definididos. Eu, que era jovem e magro mas nunca fui bonito nem de bem com a vida, e além do mais detesto música de bunda, resolvi ficar na parte coberta. A companhia não era das mais animadoras: um inglês de meia idade, muito branco, usando bermudas cáqui um tanto apertadas, meias brancas até os joelhos ossudos e sandálias de borracha, tentava conversar com uma senhora baiana e gorda, de cabelos muitas vezes pintados e roupas floridas. A senhora trazia um moleque a tiracolo, e o capeta não parava quieto um só instante. Queria ver minha câmera, saber meu nome, onde morava, quantos anos tinha. “E o tamanho da minha pica, moleque, você quer saber?”, eu pensei (devia ter dito, mas acho que ia pegar mal). Havia também um casal de holandeses. Os dois estavam vermelhos devido ao sol e eram ruivos, de modo que pareciam duas pimentas silenciosas, sentadas no convés e olhando em volta com ar desconfiado. Além deles, os argentinos de sempre. E eu.
Estávamos todos ali quando chegou a guia para saudar nosso alegre grupo: uma perua de uns quarenta anos de idade, com um penteado super elaborado e óculos de sol dependurados no pescoço. Falava conosco e às vezes parava para dar ordens pelo rádio. O rádio não emitia qualquer ruído: ou seus subordinados eram excessivamente obedientes e dóceis, ou o rádio era só enfeite para fazer com que ela parecesse ocupada e importante. A sensação de falsidade aumentou quando ela nos apresentou o comandante do barco: um rapaz de quase dois metros de altura, muito forte e bronzeado, com dentes branquíssimos exibidos num constante sorriso. Durante o passeio, ele virava o timão para lá e para cá, e sorria o tempo todo. Ninguém me tira da cabeça que, nalgum recôndito do barco, algum crioulinho pilotava de verdade aquela joça, enquanto o bonitão se exibia e deixava molhadas as senhoras (não que ele tenha lançado as senhoras ao mar. Vocês entenderam).
A guia tinha um sotaque indefinível. Parecia ser brasileira, mas tentava afetar um sotaque meio argentino, talvez para agradar à maior parte da clientela. Com esse estranho acento, ela nos apontava os pontos importantes da Baía de Angra: a ilha do Dr. Pitanguy, a casa que fora do Ayrton Senna (e todos fizeram oh!, menos eu, que sempre achei o Senna um babaca), o iate do Roberto Carlos:

Aí eu me empolguei um pouco; afinal era o iate do Rei. O nosso comandante, porém, esclareceu:
— Esse aí é o Lady Laura II, o barquinho dele. É um bote salva-vidas perto do Lady Laura original.
Matutei um pouco sobre o que levaria um homem já entrado em anos a batizar seus iates com o nome da mãe. Não tive tempo para pensar muito, porém, porque chegáramos ao ápice de nosso passeio, anunciado de boca cheia pela guia:
— Señoras y señores… LA ISLA DE CARAS!
Todos voltaram os olhos para a ilha. O inglês e o casal de holandeses provavelmente não sabiam do que se tratava, mas lia-se nos olhos da baiana gorda e dos argentinos o êxtase do peregrino ao chegar à Terra Prometida, que mana leite e mel. Saquei a câmera (era só o que eu fazia, fotografar. Enquanto isso, meus coetâneos lá em cima sacolejavam seus belos corpos, numa dança do acasalamento ao som de música baiana) e registrei a imagem da Terra Sacra:

Mas, ao contrário de Moisés, não estávamos destinados a apenas ver de longe a Terra Prometida. Não! A guia anunciou que nós atracaríamos (não que nos atracaríamos. Vocês entenderam) e teríamos a honra, o deleite supremo, de almoçar na ilha abençoada. Não entraríamos nos domínios restritos, é claro: a parte atrás do muro era uma espécie de Santo dos Santos da frivolidade, e estava destinada apenas aos eleitos. A nós, indignos mortais, era permitido apenas tocar a fímbria do Paraíso. Fomos autorizados, então, a tomar banho de mar na minúscula praia da entrada da ilha e a almoçar no restaurante que ficava quase sobre o píer. Subi até lá com os outros e almocei sentado sozinho numa mesa distante, maldizendo minha decisão de fazer aquele passeio estúpido com pessoas mais estúpidas ainda.
Tendo terminado minha refeição, fui sentar-me na beira do píer para tirar umas fotos. Fui interrompido pelo vozeirão do nosso comandante:
— Ô, grande. Você fala, português?
— No, I don’t.
— Well… W-we needing a… A… You see…
— Pô, olha bem pra minha cara. Isto aqui lá é cara de gringo?
— Hein? Ah… Então. Você não pagou.
— Não paguei o quê?
— O almoço.
— Ué! Não tá incluído no preço do passeio?
— Claro que não!
— Porra, por que não me avisaram? Eu nem estava com fome, só comi porque pensei que fosse de graça. Quanto é?
— Treze reais mais a bebida. Paga no caixa.
Fui pagar, maldizendo mais ainda a decisão idiota de entrar naquela escuna. Dez minutos depois a falsa argentina veio me chamar para retornar ao barco.
— E vamos para onde agora?
— Ah, agora voltamos para Angra.
— Ufa, graças a Deus!
— Ué! Não gostou do passeio?
— Achei tudo uma merda. Mas não esquente, não é culpa sua.
Dei as costas e fui andando para a embarcação maldita. Durante toda a viagem de volta, além de ter que me concentrar para não ficar mareado (o mar resolvera ficar bravo de uma hora pra outra), ainda tive que fingir que não entendia as indiretas de nossa guia:
— Uma maravilha de passeio, não? Pois é! Todo mundo gosta. Quase todo mundo, pelo menos. Mas quem não gosta é gente que não sabe aproveitar a vida, vocês sabem como é…
E eu lá, firme, controlando a ânsia de vômito que o balanço do barco e as palavras da mulher me causavam.
Cerca de uma hora depois, estávamos em Angra dos Reis. Saí sem me despedir de ninguém (pra quê?) e fui pegar o ônibus que depois de mais meia hora me deixou na Rio-Santos. Na pousada, fui recebido pelo Fabiano:
— E aí? O que fez hoje?
— Passeio de escuna.
— Puta que pariu, aquilo é uma merda!
— Não me diga…
Ah, o vestibular: cheguei no dia da prova, sem estudar. Fui segundo colocado. Como disse Raul Seixas numa situação semelhante, é fácil ser medíocre.



