Pronto
Ia me esquecendo de avisar: aproveitei minha hora de almoço para atualizar os links ali do lado. Novos Profetas para todos os gostos.
Ia me esquecendo de avisar: aproveitei minha hora de almoço para atualizar os links ali do lado. Novos Profetas para todos os gostos.
Eu sempre achei estranho o fato de sempre tomar muito café no trabalho, sendo que em casa nunca foi um hábito. Agora que estou trabalhando em casa, descobri enfim: é que esse negócio de trabalhar é tão chato, dá um sono…
Ei, meus queridos. Depois de meses do mais puro e sensacional ócio, eis que chegou a hora de pegar no batente. Sim, sim, eu sei: é vergonhoso. Mas eu preciso, fazer o quê? O mais legal é que consegui esse trabalho através de um leitor: o pobrezinho me mandou um e-mail muito gentil, mas se esqueceu de tirar a assinatura. Quando eu vi que o rapaz era editor de uma revista de informática, resolvi pedir trabalho na maior cara-de-pau. Pô. Uma revista! De informática! Prato cheio para alguém como eu, com uma faculdade de Jornalismo e outra de Tecnologia em Processamento de Dados no currículo (nenhuma das duas concluída. Bobagens, meus filhos, bobagens). A formação eclética faz de mim uma espécie de centauro intelectual. Embora alguns maledicentes venham a dizer que estou mais para sereia, a imagem é a mesma: metade jornalista, metade nerd, uma revista de informática vinha bem a calhar. Bom, o trabalho é temporário. Mas é trabalho, oras. Até eu me canso de ser vagabundo (mas só de vez em quando, claro). Fico devendo umas cervejas ao Alexandre, o leitor que me arrumou essa boquinha. Só cerveja, ô mano! Boquete, nem pensar!
O negócio é que agora vou trabalhar muito, coisa a que não estou nada acostumado. Isso significa que este blog, que já anda rastejando ultimamente, empacará de vez pelos próximos quarenta dias, mais ou menos. Para compensar, vou enfiar alguns blogs novos (ou nem tanto) ali nos Profetas, para vosso deleite.
O coroamento desse mais de mês de trabalho será minha ida a Salvador. Leitores baianos, manifestem-se. Sem preguiça, caralho.
Tenho visto vultos ultimamente. Estou sentado na sala, vendo TV, e vejo uma forma vagamente humana aproximar-se pelo corredor, logo na fronteira do meu campo de visão. Viro-me para ver quem é, e não há ninguém. Estou sentado aqui no meu quarto, escrevendo alguma bobagem para deliciar meus leitores (Puxa, alguém mais idiota do que eu!, eles pensam) e mais sinto do que vejo uma figura infantil esgueirar-se pela porta na direção da minha cama. Olho e não há criança nenhuma (sorte minha, a última coisa de que preciso agora é de um processo por pedofilia).
Fosse outra pessoa, daria uns trocados para uma benzedeira, ou um dinheirinho pro padre da vizinhança benzer a casa. Ou então depositaria o dízimo no gazofilácio de alguma igreja neopentecostal, esperando em troca que o culto de descarrego surta seu efeito. Ou ainda: poderia levar uma galinha preta, umas velas e outras coisas assim para um pai-de-santo arriar um ebó que pacificaria os exus e pombas-giras que ora me atormentam.
Sendo eu, porém, um cético de pedra, vou acabar gastando dinheiro com oftalmologista ou, em último caso, psiquiatra.
Esse negócio de ceticismo sai muito mais caro…
Mais guerra? Sim, mais guerra. Mas dessa vez Davi não teve culpa. Juro! Querem ver?
Naás, rei de Amom, morreu e foi sucedido por seu filho Hanum. Tratava-se de uma nação amiga de Israel, então Davi resolveu enviar mensageiros até lá, levando palavras de conforto e amizade do rei de Israel para o rei de Amom. Estão vendo? Tudo na maior civilidade, nem parece aquele Davi que conhecemos.
Acontece que, quando os mensageiros chegaram à cidade de Rabá, os conselheiros do Hanum começaram a buzinar em suas reais orelhas:
— Mensageiros em missão de paz? Duvido muito…
— O senhor não conhece esse Davi, majestade? O negócio dele é sangue. Expandiu muito o reino dele nos últimos anos, e agora está interessado em Amom também.
— Mensageiros nada! São espiões, vieram aqui para observar tudo para que Davi comece a preparar um plano de ataque.
— Abre o olho, majestade!
Hanum ficou um pouco inseguro com as palavras dos homens que eram pagos para aconselhá-lo. Talvez precisasse mesmo mostrar a Davi que sabia de seus planos sujos. Não era, porém, um homem belicoso, pelo contrário: era um rei bem humorado, sempre rindo e tirando sarro de todo mundo. Então recebeu os mensageiros de Davi, mas antes de despedi-los condenou-os a um castigo dos mais bizarros: mandou que lhes rapassem metade da barba, e lhes cortassem as roupas até a altura da bunda.
Quando soube disso, Davi enviou outros mensageiros para buscarem os primeiros, que estavam muito envergonhados, sem coragem de viajar daquele jeito. A ordem era deixá-los em Jericó até que lhes crescessem as barbas novamente. Os israelitas foram de Amom até Israel com metade da cara lisa e puxando as roupas para baixo para esconder a buzanfa. Nem é preciso dizer que foram motivo de chacota por todo o caminho, que as crianças corriam atrás deles rindo, que os homens do campo atiravam-lhes pedras, e até os companheiros que os escoltavam tiravam uma casquinha de quando em quando:
Uma beleza. Quando chegaram a Israel, estavam emputecidos, é claro. O que Hanum fizera era muita humilhação.
Hanum sabia que tinha mexido num vespeiro. Davi não era homem de aceitar desaforo, muito pelo contrário. Então o rei de Amom contratou vinte mil mercenários sírios em Bete-Reobe e Zobá, mais mil em Maaca e doze mil em Tobe. Um exército dos mais respeitáveis. Quando Davi soube, não perdeu tempo: enviou Joabe e seus homens contra o exército de aluguel de Hanum.
Ao chegar ao campo de batalha, Joabe deparou-se com o seguinte cenário: os amonitas haviam se postado na entrada da cidade de Robá, enquanto os mercenários sírios tomavam posição em campo aberto. Joabe podia ser cruel e inconseqüente, mas em tempo de guerra não havia ninguém melhor: logo viu que daquela forma seu exército seria facilmente cercado. Então escolheu seus melhores soldados e os formou em linha contra os sírios, deixando que o restante de seus homens combatessem os amonitas sob o comando de Abisai, seu irmão.
— Abisai, é a melhor saída. Nossos pelotões ficarão de costas um para o outro. Se você vir que eu estou apanhando dos sírios, venha me ajudar. Se eu vir que você tem dificuldades contra os amonitas, vou te ajudar. Tudo bem?
— Como assim “tudo bem”? OLHA O TAMANHO DO EXÉRCITO DOS CARAS!
— É, é, eu sei. Mas estamos nessa, agora é tarde pra voltar atrás. Seja o que Deus quiser.
Os temores de Abisai não eram justificados: depois de pouco tempo de luta, os sírios fugiram de Joabe. Vendo que sua retaguarda não mais existia, os amonitas também acharam mais sábio correrem de Abisai para dentro da cidade. Espantados com a facilidade da batalha, os dois irmãos juntaram seus homens e voltaram a Jerusalém.
A confusão iniciada pela brincadeira de Hanum não se encerraria por aí, porém: os sírios reuniram suas forças, e receberam o apoio do rei Hadadezer, que mandou chamar outros sírios que estavam a leste do Eufrates. Assim reforçado, o exército sírio marchou até a cidade de Helã sob o comando de Sobaque, general de Hadadezer. Quando soube disso, Davi achou que era hora de meter a mão na massa. Então reuniu seu exército e marchou com ele, atravessando o Jordão na direção de Helã.
Dessa vez a resistência síria foi mais cruenta, mas não o bastante para conter o ímpeto de Davi, que já estava havia algum tempo doidinho por uma carnificina. Resultado: setecentos homens de carros e quarenta mil cavaleiros sírios mortos pelo exército israelita; entre eles o comandante Sobaque.
Os reis sírios, todos subordinados a Hadadezer, acharam por bem fazer um acordo de paz com Davi, permitindo que Israel se imiscuísse mais ainda em seu território. Ajudar os amonitas fora um mau negócio, e eles não pretendiam voltar a fazê-lo.
Davi ainda faria muitas guerras. Nada do que fez no campo de batalha, no entanto, se comparou à crueldade com que tratou um só homem. Mas isso fica para depois…
Eu sou mesmo uma toupeira: só hoje fui me dar conta de que existe uma comunidade no orkut dedicada à minha divindade máxima, João Gilberto. Dando uma olhada por lá, encontrei uma resenha escrita por Daniella Thompson para um disco — jamais lançado — com o registro do show que João, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Os Cariocas fizeram em 1962 para, entre outras coisas, apresentar a música Garota de Ipanema.
Pois bem: além da natural raiva de ter nascido numa época sem graça, eu também me sentia frustrado por nunca ter ouvido a introdução que os três fizeram para a música, sobre a qual li pela primeira vez no livro Chega de Saudade, de Ruy Castro. Lendo a resenha de Daniella, esbarrei na famosa introdução em formato mp3, e pude enfim ouvir essa preciosidade:
Tom Jobim:
Olha Joãozinho
Eu não saberia
Sem Vinicius pra fazer a poesia
Vinicius de Moraes:
Para essa canção
Se realizar
Quem dera o João
Para cantar
João:
Ah, mas quem sou eu?
Eu sou mais vocês.
Melhor se nós cantássemos os três.
Todos:
Olha que coisa mais linda
mais cheia de graça [...]
Sou um homem feliz, puta que pariu. Para sempre seja louvada Daniella Thompson.
Fica a dica para outros fãs por aí.
Ela sai do shopping center olhando para cima. “Que foi”, eu pergunto, e ela responde “Procurando a lua, ué”. Depois de um tempo ela encontra a lua e sorri seu sorriso lindo.
Assim é a menina da lua: sabendo desde há muito tempo que as coisas aqui de baixo não valem a pena, e sem ter um deus ao qual apelar, olha a lua. E sorri. Dia desses a lua sorriu de volta, juro!
Ah, meu Deus, por que é que a menina da lua não coube no meu coração de pedra?
Há toda uma nova leva de blogs bons, tanto de pessoas que chegaram agora ao mundo dos blogs quanto de veteranos que resolveram tentar novas experiências. E eu me sinto mal, porque não posso falar deles aqui: a maioria dos leitores do JMC é inteligente, mas os imbecis são muitos, e barulhentos. Não quero que estes cheguem arrotando suas idiotices em caixas de comentários de pessoas talentosas e inteligentes.
De volta da espetacular seqüência de batalhas e vitórias, Davi procurava algo para se ocupar. Procurou, procurou, e acabou que caiu-lhe uma idéia na cabeça. Chamou Joabe e perguntou:
— Rapaz, será que ainda há alguém vivo da família de Saul?
— Bom. Tem a Mical, sua esposa.
— Aquela megera não conta, porra. Será que há mais alguém?
— Pode ser que haja, majestade. Mas não se preocupe! Se eu encontrar, degolo o feladaputa.
— Sossega o facho, Joabe. Na verdade eu queria fazer algo de bom pela família de Saul, em honra do meu amigo Jônatas.
— Amigo. Sei.
— O que você resmungou aí?
— Eu disse “ainda não sei”.
— Hum.
— Mas vou descobrir, majestade. Xacomigo.
Joabe saiu e voltou no dia seguinte com a notícia: havia um ex-servo de Saul ainda vivo, um tal Ziba. O rei mandou que o servo fosse trazido à sua presença:
— Então você é o Ziba?
— Sim senhor.
— Aquele que gosta de levar um macho em riba?
— Er… Se lhe apetece, senhor.
— Pô, Ziba, relaxa. Foi só uma piadinha, não precisa concordar.
— Se assim o senhor quer.
— Ai, meu saco… Ziba, eu queria saber se ainda existe alguém da família de Saul…
— NÃO…
— … para que eu possa honrar essa pessoa e lhe dar tudo do bom e do melhor.
— … HÁ DÚVIDA!
— Hein?
— NÃO HÁ DÚVIDA!
— Eu acho que você ia falar não, antes que eu falasse de honrar o sujeito e coisa e tal…
— Hum. De fato eu ia, majestade. Mas compreenda: Isbosete morreu, Abner morreu. Alguma doença abate a todos que tinham algum tipo de relação com Saul.
— VOCÊ ESTÁ INSINUANDO ALGUMA COISA, ZIBA?
— Não. NÃO! Mas o senhor sabe como é. O povo fala. Os boatos correm. Dizem por aí que o senhor…
— Sei bem o que dizem por aí: que eu ordenei as mortes de Abner e Isbosete. POIS NÃO HÁ NADA MAIS ABSURDO!
— Claro que não.
— CLARO QUE NÃO!
— Se bem que foi uma mão na roda, né?
— O quê?
— Os dois terem morrido?
— Olha aqui, não tô com tempo para ficar ouvindo insinuações da ralé. Eu quero saber é se existe ou não alguém da família de Saul.
— Existe, majestade, já disse. O Vírgula-e-Vírgula.
— QUEM???
— Ah, é o apelido do rapaz. Veja o senhor: quem manca de uma perna é chamado Ponto-e-Vírgula. Ele manca das duas, então o povo acabou apelidando o pobre de Vírgula-e-Vírgula.
— Ai ai ai… O NOME dele, Ziba.
— Ah. Mefibosete. Está em Lo-Debar, morando na casa de um tal Maquir.
— Mefibosete, hein? Filho do finado Isbosete?
— Não. Do finado Jônatas.
— FILHO DO JÔNATAS? PUTA QUE PARIU, E FIQUEI ESSE TEMPO TODO SEM SABER DA EXISTÊNCIA DO FILHO DO JÔNATAS?
— Eu compreendo sua comoção, majestade. Sabe como é, o povo diz por aí que o senhor e o Jônatas… Bom, o senhor sabe.
— Ziba, você é mais fofoqueiro que funcionária pública aposentada.
— Obrigado, majestade.
— Ai meu saco. Bom, vá a Lo-Debar e me traga o Vírg… o MEFIBOSETE imediatamente.
— Às ordens.
No dia seguinte, Ziba apareceu em Jerusalém trazendo Mefibosete. De fato, o rapaz era aleijado dos dois pés. Era assim devido a um infeliz acidente: ao receber a notícia da morte de Saul e de Jônatas, sua ama o pegara e saíra correndo para salvar a vida do menino. Só que, na pressa, deixou-o cair.
Ao ver o rapaz chegando, arrastando os pés com dificuldade e exibindo no rosto inequívoca semelhança com Jônatas, Davi teve que se esforçar para conter as lágrimas. Quando chegou perto do trono, ele ajoelhou-se e encostou o rosto no chão em sinal de respeito.
— Mefibosete!
— Sim, senhor.
— Ah, como você se parece com seu pai! Bom, da cintura pra cima pelo menos.
— Sei como é, senhor. O povo diz que o senhor conhecia meu pai muito bem da cintura pra baixo…
— Estou fazendo piada com seus pés aleijados, mocinho.
— Ah, isso. Hum. Desculpe.
— Tudo bem, tudo bem. Filho do Jônatas, nem acredito! Como anda a vida?
— Anda feito eu: se arrastando.
— Pois isso vai mudar, Mefibosete, vai mudar! Todas as terras que pertenciam ao seu avô serão suas agora.
— Puxa! Nem sei como agradecer, majestade.
— Tem nada que agradecer.
— Mas eu sou um pobre cachorro morto! Como é que o senhor pode ser tão bondoso comigo?
— Você é filho do único amigo que eu já tive. Precisa mais que isso? E tem mais. Cadê o Ziba? ZIBA!
— Aqui, majestade.
— Ah. Ziba, é o seguinte: estou entregando a Mefibosete todas as propriedades do velho Saul.
— TODAS? Mas o rapaz vai ser o homem mais rico de Israel!
— A intenção é essa, oras.
— O senhor é muito bondoso, majestade.
— Eu sei. Quanto a você, vai cultivar as terras de Mefibosete, junto com seus filhos e seus empregados.
— Mas eu só tenho vinte empregados, majestade!
— E quinze filhos. Dá e sobra. E eu vou pagar bem, não me encha o saco.
— Tá. E Mefibosete vai morar em qual das propriedades?
— Em nenhuma. Ele vai morar aqui em Jerusalém, e comer sempre à minha mesa. Bom, isso se ele quiser. Quer, Mefibosete?
— Seria uma honra, majestade.
— Oras, pare de me chamar de majestade.
— Mas chamo de quê?
— De pai, por exemplo.
— Puxa…
— Tá, tá. Sem choradeira. Tudo decidido, agora vamos cada um cuidar de sua vida.
Assim o filho de Jônatas passou a privar da convivência diária do rei, além de ser feito um dos homens mais ricos de todo o Israel. Davi o tratava como um filho, e a Mica, filho pequeno de Mefibosete, como um neto precoce.
Ah, que coisa bonita, que coisa linda! Como é bonito o amor entre as pessoas! Davi se viu cercado de toda aquela beleza, de todos aqueles sentimentos nobres, e sentiu em seu peito com toda a força o poder do tédio. Uma guerrinha ia bem.

Monte Santo é uma cidadezinha perdida lá no sertão da Bahia. Foi célebre em duas ocasiões: quando Gláuber Rocha filmou lá Deus e o Diabo na Terra do Sol, em 1964, e quando Tizuka Yamazaki fez a versão televisiva de O Pagador de Promessas, em 1988. E daí? Daí que lá nasceu meu pai, e foi lá que se passou a história que vou contar.
As origens da família se perdem numa curva lá atrás, no século XIX. Sei que meus avós nasceram em Monte Santo, assim como meus bisavós e, desconfio, os tataravós. Daí para trás nada mais se sabe. Eu arriscaria dizer que a família está na cidade desde os Neanderthais, não fossem estes, como sabemos, uns narizes empinados que não saíam da Europa por nada. Azar o deles: acabaram extintos. O Homo sapiens, por outro lado, arriscou migrar para Monte Santo e por lá prosperou: teve filhos, os filhos tiveram filhos, e assim sucessivamente até aparecer Mané, que gerou Júlio, que gerou Lindauro, que gerou o estrupício que vos fala, incapaz de manter uma linha narrativa. Mas retomo.
O negócio é que desde criança ouço histórias sobre a juventude de meu pai em Monte Santo. Quando menino, elas me encantavam. Tinha uma favorita: meu pai dizia que certa vez apareceu na cidade um capoeirista vindo de Salvador. Tocou o terror na cidade, comprou briga com todo mundo, um inferno. Até o dia em que bateu nos meus tios. Meu pai, emputecido, foi e deu uma surra no tal capoeirista, que sumiu da cidade de madrugada para nunca mais voltar.
Ah, a infância! Seu Lindauro me contava essa história e eu me empolgava, acreditando em cada detalhe vívido narrado por ele. Mas aí veio a puberdade e com ela a desgraça do ceticismo. Pronto: era meu pai começar com a história do capoeirista para eu revirar os olhos. Percebendo que eu o tomava por mentiroso, desistiu de contar a história.
E eis que em outubro de 1998 fui trabalhar numa empresa no Largo do Arouche. No mês seguinte, enquanto nos dirigíamos para o restaurante em que se daria a festa de fim de ano da empresa, o Márcio, que trabalhava na mesa ao lado da minha, comentou sobre seus planos para as Festas:
— Estou pensando em ir visitar a família em Monte Santo.
— Onde?
— Monte Santo, cê não conhece.
— Pior que conheço…
— Já sei, vai falar daquela Monte Santo de Minas…
— O cacete, com essa sua cara de baiano? Tô falando de Monte Santo mesmo, perto de Euclides da Cunha, sertãozão da Bahia.
— Eita! Como é que você conhece aquele fim de mundo?
— Pois meu pai é de lá, rapaz!
— Como é o nome do teu pai?
— Lindauro.
— Hum… Esse nome não me é estranho…
— Vixe. Ei, já pensou se formos parentes?
— Deus me livre!
— Não é difícil, não é difícil… Ali nego casa com a prima, acaba todo mundo sendo aparentado.
— Isso é. Vou ver com minha mãe se ela conhece sua família.
— Vou fazer o mesmo com meu pai.
Passou a festa, passou o Natal, o Ano Novo. Começo de ano, lembrei de perguntar ao Márcio:
— E aí, descobriu alguma coisa?
— Rapaz, o pior é que somos parentes mesmo.
— Pára com isso!
— É sério. Meu avô era primo do seu avô.
— Então nós somos…
— Primos em terceiro grau.
— Eita. Bom, nem é parentesco de verdade.
— Nem é. Mas o mais legal foi quando falei pro meu primo. — Acho que era primo, não me lembro.
— Por quê?
— Disse a ele, “Tô trabalhando com o filho do Lindauro, conhece?”.
— E ele?
— Arregalou os olhos. “Lindauro, aquele doido???”.
— Peraí. Doido? Meu pai? Meu pai é crente, Márcio.
— Ah, mas a fama dele é de doido. Esse meu primo viu seu pai dando um couro num capoeirista que andava infernizando o povo lá em Monte Santo. O tal valentão sumiu sem deixar rastro.
À noite, cheguei em casa já me preparando para a vergonha que seria dar a mão à palmatória do velho.
— Ô pai. Tô trabalhando com um sujeito que tem família lá em Monte Santo.
— Ah, é? Que beleza!
— Pois é, pois é… E ele tem um primo lá que disse que você é doido.
— Rê-rêêê! Doido por quê?
— Porque você botou um cara lá pra correr…
— Ah, o capoeirista? — o velho mal conseguia disfarçar o sorriso de vitória — Aquilo não foi nada não. Mexeu com meus irmãos, queria o quê? Bati mesmo. Lógico!