(II Samuel 10)

Mais guerra? Sim, mais guerra. Mas dessa vez Davi não teve culpa. Juro! Querem ver?
Naás, rei de Amom, morreu e foi sucedido por seu filho Hanum. Tratava-se de uma nação amiga de Israel, então Davi resolveu enviar mensageiros até lá, levando palavras de conforto e amizade do rei de Israel para o rei de Amom. Estão vendo? Tudo na maior civilidade, nem parece aquele Davi que conhecemos.
Acontece que, quando os mensageiros chegaram à cidade de Rabá, os conselheiros do Hanum começaram a buzinar em suas reais orelhas:
— Mensageiros em missão de paz? Duvido muito…
— O senhor não conhece esse Davi, majestade? O negócio dele é sangue. Expandiu muito o reino dele nos últimos anos, e agora está interessado em Amom também.
— Mensageiros nada! São espiões, vieram aqui para observar tudo para que Davi comece a preparar um plano de ataque.
— Abre o olho, majestade!
Hanum ficou um pouco inseguro com as palavras dos homens que eram pagos para aconselhá-lo. Talvez precisasse mesmo mostrar a Davi que sabia de seus planos sujos. Não era, porém, um homem belicoso, pelo contrário: era um rei bem humorado, sempre rindo e tirando sarro de todo mundo. Então recebeu os mensageiros de Davi, mas antes de despedi-los condenou-os a um castigo dos mais bizarros: mandou que lhes rapassem metade da barba, e lhes cortassem as roupas até a altura da bunda.
Quando soube disso, Davi enviou outros mensageiros para buscarem os primeiros, que estavam muito envergonhados, sem coragem de viajar daquele jeito. A ordem era deixá-los em Jericó até que lhes crescessem as barbas novamente. Os israelitas foram de Amom até Israel com metade da cara lisa e puxando as roupas para baixo para esconder a buzanfa. Nem é preciso dizer que foram motivo de chacota por todo o caminho, que as crianças corriam atrás deles rindo, que os homens do campo atiravam-lhes pedras, e até os companheiros que os escoltavam tiravam uma casquinha de quando em quando:

Não demora muito agoraaaa
toda de bundinha de foooraaa…

Uma beleza. Quando chegaram a Israel, estavam emputecidos, é claro. O que Hanum fizera era muita humilhação.
Hanum sabia que tinha mexido num vespeiro. Davi não era homem de aceitar desaforo, muito pelo contrário. Então o rei de Amom contratou vinte mil mercenários sírios em Bete-Reobe e Zobá, mais mil em Maaca e doze mil em Tobe. Um exército dos mais respeitáveis. Quando Davi soube, não perdeu tempo: enviou Joabe e seus homens contra o exército de aluguel de Hanum.
Ao chegar ao campo de batalha, Joabe deparou-se com o seguinte cenário: os amonitas haviam se postado na entrada da cidade de Robá, enquanto os mercenários sírios tomavam posição em campo aberto. Joabe podia ser cruel e inconseqüente, mas em tempo de guerra não havia ninguém melhor: logo viu que daquela forma seu exército seria facilmente cercado. Então escolheu seus melhores soldados e os formou em linha contra os sírios, deixando que o restante de seus homens combatessem os amonitas sob o comando de Abisai, seu irmão.
— Abisai, é a melhor saída. Nossos pelotões ficarão de costas um para o outro. Se você vir que eu estou apanhando dos sírios, venha me ajudar. Se eu vir que você tem dificuldades contra os amonitas, vou te ajudar. Tudo bem?
— Como assim “tudo bem”? OLHA O TAMANHO DO EXÉRCITO DOS CARAS!
— É, é, eu sei. Mas estamos nessa, agora é tarde pra voltar atrás. Seja o que Deus quiser.
Os temores de Abisai não eram justificados: depois de pouco tempo de luta, os sírios fugiram de Joabe. Vendo que sua retaguarda não mais existia, os amonitas também acharam mais sábio correrem de Abisai para dentro da cidade. Espantados com a facilidade da batalha, os dois irmãos juntaram seus homens e voltaram a Jerusalém.
A confusão iniciada pela brincadeira de Hanum não se encerraria por aí, porém: os sírios reuniram suas forças, e receberam o apoio do rei Hadadezer, que mandou chamar outros sírios que estavam a leste do Eufrates. Assim reforçado, o exército sírio marchou até a cidade de Helã sob o comando de Sobaque, general de Hadadezer. Quando soube disso, Davi achou que era hora de meter a mão na massa. Então reuniu seu exército e marchou com ele, atravessando o Jordão na direção de Helã.
Dessa vez a resistência síria foi mais cruenta, mas não o bastante para conter o ímpeto de Davi, que já estava havia algum tempo doidinho por uma carnificina. Resultado: setecentos homens de carros e quarenta mil cavaleiros sírios mortos pelo exército israelita; entre eles o comandante Sobaque.
Os reis sírios, todos subordinados a Hadadezer, acharam por bem fazer um acordo de paz com Davi, permitindo que Israel se imiscuísse mais ainda em seu território. Ajudar os amonitas fora um mau negócio, e eles não pretendiam voltar a fazê-lo.
Davi ainda faria muitas guerras. Nada do que fez no campo de batalha, no entanto, se comparou à crueldade com que tratou um só homem. Mas isso fica para depois…