Davi derrota os filisteus 17

(II Samuel 5:17-25)

Enquanto era rei apenas em Judá, Davi contava com o total beneplácito dos filisteus — afinal, ele era homem de confiança de Aquis, rei de Gate. No entanto, quando viram sua marionete criar vida própria e subir ao trono israelita, os filisteus não entenderam nada. E quando Davi tomou Jerusalém, os vizinhos resolveram que era hora de botar o pastorzinho ruivo em seu devido lugar. Então sitiaram Jerusalém, acampando no vale de Refaim (dos gigantes), que fica entre Jerusalém e Belém. Quando soube do sítio, Davi botou a todos de guarda e chamou seu sacerdote:
— Abiatar! Ô, ABIATAR!
— Já sei, já sei: você quer o cachecol das pedrinhas, né?
— Cachecol? Pedrinhas? Mas que porra de sacerdote é você, Abiatar? É assim que você chama a estola sacerdotal, o Urim e o Tumim? Que vergonha!
— Mas… Mas…
— Mas é um cacete! Vai logo, preciso fazer uma consulta a Javé.
— Tá na mão.
— Beleza. Pergunta aí se eu devo ir e atacar os filisteus.
— Hmmmm… Peraí… Pronto. Javé diz que sim.
— Maravilha!
Então Davi juntou seus homens e foi atacar seus antigos protetores em Baal-Perazim, onde os venceu. O nome Baal-Perazim, aliás, vem de baal (senhor) e do verbo peraz, que quer dizer abrir uma brecha. Recebeu esse nome estranho (senhor abridor de brechas) porque Davi, espantado com a facilidade com que derrotara os filisteus naquele lugar, só pôde atribuí-la a interferência divina, dizendo que Javé abrira uma brecha entre seus inimigos, como uma enchente que sai derrubando tudo. Muito poético, o Davi, como sempre.
A batalha de Baal-Perazim, no entanto, não definiu a situação: os filisteus eram muitos, e voltaram a cercar a Cidade de Davi assim que se recuperaram da primeira derrota. Então o rei quis consultar a vontade de Javé mais uma vez. Perguntou se deveria atacar os filisteus mais uma vez e a resposta foi “não”. O rei já ia começar a resmungar, decepcionado, quando ouviu uma voz em sua cabeça:
— Não vai atacar os caras assim, feito um doido. Você não tem chance.
— Epa, quem tá falando comigo?
— Sou eu, Davi. Javé, o Senhor dos Exércitos.
— PUTA QUE PARIU! Esse negócio de ser rei de Israel deixa a gente doido de verdade! Primeiro foi o Saul, agora eu estou ficando maluco também.
— MALUCO O CACETE! EU SOU É DEUS, TÁ ME OUVINDO? DEUS!
— Sei, sei… Mas então, o que é que o senhor propõe?
— Não ataque de frente. Dê a volta, vá até as amoreiras e ataque por trás deles, de surpresa.
— Hum… Até que você é bem esperta, voz na minha cabeça.
— EU SOU É D…
— Tá, tá, tô sabendo. Então o negócio é esse? Atacar os caras por trás?
— É. E com uma mãozinha minha, é claro. Mas não ataque logo: fique ali atrás das amoreiras, prestando atenção. Quando ouvir o som de passos por cima das árvores, ataque, porque eu já terei ido na sua frente.
— Peraí, peraí… Deus vai atacar os filisteus? Pessoalmente?
— Isso aí.
— Por quê?
— Estou cansado de não fazer nada. Tchau.
Davi não levou muito a sério essa segunda parte, claro. Interferência divina nos assuntos dos homens era algo que só acontecia nas histórias contadas para as crianças. De qualquer forma, a idéia de atacar os filisteus por trás, aproveitando a penumbra do bosque de amoreiras, era bem interessante.
De madrugada, Davi convocou seus homens para a batalha. Saíram em silêncio pelos portões de Jerusalém, marcharam em arco até o bosque das amoreiras e ficaram lá, de tocaia, esperando a ordem de Davi para o ataque. O rei só esperava o momento certo, mas levou um susto quando ouviu distintamente o som de passos sobre a copa das árvores. Era incrível, era impossível. Mas estava acontecendo e, olhando para seus soldados, ele viu em seus rostos o mesmo espanto que sentia. Que Davi se lembrasse, a história mais recente de Deus agindo para ajudar os homens era aquela do poço que ele cavara para matar a sede de Sansão, e isso acontecera já fazia alguns séculos. Então Javé viera mesmo lutar ao lado de seu povo, depois de tanto tempo de ausência? Animado pela ajuda inesperada, Davi deu a ordem de ataque, e o exército israelita marchou contra os filisteus. Os inimigos foram derrotados, e expulsos de volta para suas terras costeiras. Nunca mais eles viriam a ocupar o interior de Israel.
Com essa vitória rápida, Davi firmava-se de vez no trono. A expulsão dos filisteus das tribos do sul, esperada havia tantos anos, dava ao rei inquestionável autoridade.

Recado

She’d like to put you in her zoo,
Right between the canaries and the cockatoos.
She’ll pull out your feathers
For her brand new hat,
And when she’s done that
She’ll feed you to her cat.
So watch out:
She ain’t no good for you.

(Cake – Ain’t No Good)

Davi reina sobre todo o Israel 22

(II Samuel 5:1-16)

Com a morte do rei, as autoridades israelitas precisavam providenciar logo um substituto. A tarefa, que seria das mais ingratas fossem outras as circunstâncias, era então bem leve: os líderes já haviam concordado com Abner que Davi era a melhor alternativa; a morte de Isbosete apenas acelerara o processo. Então os líderes foram até Hebrom, fizeram aquela rasgação de seda com Davi — dizendo que mesmo na época de Saul ele já se mostrava um líder nato, e que Javé o escolhera e todo esse blablablá — e terminaram convidando-o para ocupar o trono unificado de Israel. Davi, que não queria outra coisa, aceitou de bom grado, e ali mesmo foi aclamado rei de todo o Israel. Sete anos e meio depois de ter subido ao trono de Judá, Davi, aos 37 anos, finalmente unificava a nação da qual seria rei por mais 33 anos. Nada mal para quem começara como mero pastor de ovelhas.
Agora que era rei, Davi precisava estabelecer sua capital. Hebrom, embora fosse cidade importante, era demasiadamente identificada com o reino de Judá. Se continuasse a dirigir o país a partir de lá, Davi corria o sério risco de não ter sua autoridade reconhecida pelas tribos do norte, o que poderia levar Israel de volta à cisão. Gibeá, capital de Saul, estava muito ligada ao nome do antigo rei. Maanaim, na Transjordânia, de onde reinara o desastrado Isbosete, fora uma escolha baseada mais na distância segura que havia entre a cidade e os filisteus do que em qualquer importância que a cidade tivesse. Enfim: Davi precisava de uma capital, e nenhuma cidade de Israel parecia adequada. Até que, durante uma passada de olhos pelo mapa do país, o pontinho representando uma cidade pareceu saltar aos olhos do rei. Era perfeita: ficava exatamente na fronteira entre Israel e Judá, o que faria dela um bom símbolo da união definitiva entre os dois reinos. Era uma cidade fortificada, tendo um trecho murado no alto de um monte, o que a tornava segura para a moradia do rei. E, finalmente, estava ocupada por estrangeiros — os jebuseus — e sua tomada seria uma vitória nacional. Davi bateu na testa: como não pensara nisso antes? A cidade era perfeita, perfeita! Que cidade era essa? Oras, vocês sabem. Vejam no mapa:

Sim, sim! Jerusalém — cujo nome hebraico, Ir-shalom, significa cidade de paz — já então era cenário de guerras.
Feliz com sua idéia brilhante, Davi tratou logo de juntar seus homens e partir para perto a fronteira entre Benjamim e Judá. Lá eles sitiaram a cidade, esperando que os jebuseus se entregassem. Nesse intento, Davi se aproximou da muralha e gritou:
— Jebu! Ô, jebu!
— Jebu teu rabo! Mais respeito, ô ruiva!
— Ruiva é um cacete! Eu sou é rei de Israel, tão me ouvindo?
— Rei de Israel, pffff… O que cê quer aqui, majestade?
— Bom, eu preciso de uma capital. Escolhi Jerusalém.
— Ah! Escolheu, foi? E me diga, como é que vossa ruiveminência pretende entrar aqui? Metendo o pé na porta?
— Se for preciso…
Nhenhenhenhé… Pois venha, vossa baitolescência, venha! Não vamos nem perder tempo com você: só os cegos e os aleijados aqui de Jerusalém já bastam pra botar vocês pra correr de volta para Hebrom.
— É o que veremos…
Davi voltou ao acampamento e combinou o ataque com seus comandantes. Deram contra a cidade com força, e logo a tomaram, para espanto dos jebuseus. O rei e seus homens entraram em Sião, a tal fortaleza alta, que passou a se chamar Cidade de Davi.
Embora vitorioso, Davi não se esquecera da provocação feita pelos jebuseus, e disse a seus homens:
— Eu odeio essa raça, os jebuseus! Não diziam que para nos derrotar bastavam os cegos e os aleijados? Pois sim! Onde estarão os safados? Eu tenho um palpite: subam pelo canal de água que entra na cidade, aposto que os filhos-da-puta estão escondidos lá.
Os soldados israelitas assim fizeram, terminando assim a tomada fulminante de Jerusalém.

Já estabelecido em sua capital, Davi firmava-se no trono. Como se isso não fosse suficiente, Hirão, rei de Tiro — mais importante cidade da Fenícia — mandou de presente ao novo rei de Israel toras de cedro, carpinteiros e pedreiros, para que lhe construíssem um palácio. O primeiro palácio da monarquia israelita digno desse nome foi construído em Sião. Além dele, Davi ordenou que se construíssem mais muralhas, reforçando assim a segurança de sua cidade.
Em paz e segurança, morando num palácio construído com o melhor cedro do Líbano, Davi encontrou tempo para entregar-se a seu esporte favorito. Arrumou mais algumas mulheres, e em Jerusalém lhe nasceram mais filhos: Samua, Sobabe, Natã, Salomão, Ibar, Elisua, Nefegue, Jafia, Elisama, Eliada e Elifelete.
Epa, alguém falou em Salomão? Sim, sim. Mas foi só uma lista. Salomão ainda demora para surgir na nossa história. Antes, entre outras coisas, Davi devia explicações aos seus protetores filisteus.

A parte alta de Jerusalém era chamada Sião por causa do nome do monte que a abrigava. A palavra hebraica significava um sinal. Mais tarde, os israelitas passaram a se referir a toda a Jerusalém pelo nome de Sião. Já no exílio, quando diziam Sião estavam se referindo a todo o Israel. A idéia de Sião como símbolo maior de Israel ficou tão incutida na mente do povo que o movimento que reivindicava o reestabelecimento de uma nação israelita na Palestina (objetivo alcançado em 1948, com a criação do Estado de Israel) chamava-se Sionismo.
Outra curiosidade: na trilogia de Matrix, Zion (nome inglês de Sião) é a cidade dos humanos, a “casa” para a qual todos querem voltar. A reverência que os personagens do filme demonstram ao falarem de Zion reflete a mesma atitude dos judeus em relação a Jerusalém.

Pressure Chief 19

pressurechief.jpgAlgum fã de Cake aí? Bom, se houver já deve estar sabendo do novo disco, Pressure Chief, a ser lançado em outubro. Mas talvez ainda não saiba que aqui já se pode ouvir alguma das novas músicas. Pelo pouco que disponibilizaram, dá para deduzir que a banda mantém a qualidade e, melhor de tudo: John McCrea continua cantando com sua dicção perfeita, que faz a alegria de gente como eu, que raramente consegue entender algo cantado em inglês. Longa vida ao Cake, única banda cujas músicas eu posso cantar sem precisar do encarte do CD (mesmo porque os CDs nacionais da banda vêm sem porra nenhuma no encarte).

cake.jpg

Isbosete é assassinado 15

(II Samuel 4)

MAANAIM – O rei Isbosete foi assassinado ontem ao meio-dia em sua cama. Os capitães de tropa Baaná e Recabe, filhos de Rimon, o beerotita, confessaram o crime. Depois de matarem o rei, os dois irmãos foram a pé até Hebrom, capital do reino vizinho de Judá, levando a Davi, rei daquele país, a cabeça de Isbosete. Davi, agora principal pretendente ao trono israelita, mandou imediatamente que se executasse os dois. A decisão tem precedentes: há sete anos, quando morreu o rei Saul, Davi morava na cidade de Ziclague, na Filistia. Um amalequita tentou obter suas graças fazendo se passar por assassino de Saul, e foi executado na hora. “Se eu puni aquele, que teria matado o rei a seu pedido e no meio da batalha, quanto mais esses dois, que mataram um homem inocente que dormia em sua cama.”, disse o rei ao Diário Israelita.
Desde a morte de Abner, há uma semana, comentava-se sobre o comportamento do rei de Israel. Pessoas mais próximas a Isbosete dizem que o rei estava temeroso depois do assassinato do comandante de seu exército e homem mais influente do reino de Israel. Alguns críticos diziam que Abner seria o verdadeiro governante, estando Isbosete no trono apenas para legitimá-lo, por ser filho do rei Saul. Ao fazer um acordo com Davi, porém, Abner teria despertado a desconfiança de Joabe, comandante do exército de Judá, que o apunhalou nos portões da cidade. Apesar da fama de severo de Davi, Joabe não recebeu qualquer punição.
As duas mortes consecutivas muito beneficiaram a Davi, mas o rei de Judá tem se preocupado em demonstrar que não teve qualquer participação nos crimes. A cautela talvez evidencie que Davi pretenda mesmo reunificar os reinos de Israel e Judá, governando a ambos.

— Viu só, rapaz? Mataram o hômi.
— Já foi tarde…
— Não diga isso! Pô, o cara era rei.
— Rei, rei… Que rei nada! Cê não viu a reação dele quando soube da morte do Abner?
— Não vi, e duvido que você tenha visto. Aliás, duvido que qualquer um daqui deste cu de mundo que é Naftali tenha visto alguma coisa.
— Tá, tá, eu não vi. Mas sabe o meu cunhado?
— Sei.
— Então. Ele tem um primo em Zebulom, sabe?
— Aquele altão que veio aqui uma vez?
— Esse. Então, esse primo serviu o exército junto com um sujeito cujo irmão está comendo a copeira do palácio.
— Puxa, sua informação é de primeira mão mesmo…
— Não enche. Pois então, a copeira disse que o Isbosete tava num salão lá, lendo historinhas para as crianças. Tava contando a história de Sansão, parece. Aí entrou um puxa-saco qualquer lá, todo esbaforido, com a notícia da morte de Abner. Sabe o que o seu rei fez?
— O quê?
— ABSOLUTAMENTE NADA! A tal copeira disse que ele ficou bem uns sete minutos parado, sem esboçar reação.
— Ah, por favor! Já ouvi essa história, tudo balela da oposição.
— Tô te falando, rapaz! Eu não ouvi dizer! O primo do meu cunhado serviu o exército com…
— Tá, tá, já sei. Mas e depois dos sete minutos, o que ele fez?
— Mandou trancar as portas do palácio e se escondeu no quarto!
— Mentira!
— Mas se eu tô te dizendo! Se trancou no quarto e ficou lá tremendo de medo. Dizem até que um guarda mais gaiato passou em frente a janela e gritou “Joabe!”. O rei quase se caga todo.
— Tsk.
— Era um covarde! Ao contrário do Davi, esse sim é um cabra bom.
— Tão bom que passou pro lado dos filisteus…
— E você queria que ele fizesse o quê, com Saul e todo seu exército na cola dele? Precisou fugir por um tempo, foi isso.
— Hum, sei…
— E agora que Isbosete empacotou, é hora de Davi ser rei do negócio todo.
— Mas como? O cara nem é da família real.
— Cê não sabe nada mesmo… Pra começar, o Samuel ungiu Davi ainda na época que Saul era rei.
— Taí, dessa eu não sabia.
— Pois é, pois é. Além disso, cê não soube que Davi mandou buscar a tal Mical na casa do cara com quem estava casada? O Abner foi até lá, saiu arrastando a mulher, o marido veio correndo atrás e chorando, uma palhaçada.
— Acho que vi isso numa revista de fofocas… Na sala de espera do dentista, sabe como é.
— Pois então! Agora ele é casado com a filha de Saul, portanto é da família real.
— Pô. Sujeito esperto, esse Davi.
— Tô falando, rapaz, ele vai ser rei. E vai ser logo.
— Sei não, sei não…
— Quer apostar?
— Opa. Se Davi se tornar rei mesmo, te dou dez das minhas ovelhas. Caso contrário, você me dá aquele seu camelo premiado.
— Fechado.
— Olha…
— Não tem erro, rapaz, tô te dizendo! Nunca foi tão fácil tirar dez ovelhas de alguém.
— Humpf.

Amigos? 21

Como bem disse a Fer, não bastasse o orkut, agora temos esse tal de Multiply. Não quero saber desse negócio. E sabem por quê? Porque segundo o orkut eu tenho 265 amigos. Pois bem, escrevi aqui que estava triste e não recebi UM telefonema. Cadê os amigos?
Humpf.

Ignorem-me, ok? Foi só um ataque de frescura.

Ah, minhas bolas… 24

Por que é que há gente que toma como ofensa qualquer crítica que se faça às coisas que aprecia? Eu, hein… Fico pensando o inferno que seria minha vida se eu fosse um desses imbecis. Sairia por aí xingando todo mundo que fala que João Gilberto não canta nada, que Machado de Assis é um chato, que Magnolia é só um filme confuso…
Agora mesmo um desses imbecis me mandou um e-mail defendendo o tal livro do Dan Brown como se fosse uma questão de vida ou morte! E, claro, usando os meios de que dispõem as pessoas burras que não sabem argumentar: desqualificar quem critica, ofender gratuitamente, essas coisas. Não contente com o envio do e-mail (que veio com solicitação de confirmação de leitura, vejam só, coisa de gente paranóica), o danado ainda fez um comentário aqui com o mesmo texto. O comentário não passou pelo meu crivo, é claro, e o pobrezinho deve estar arrancando os cabelos agora. “Ai, meu Deus, ele falou mal do Dan, o que eu faço? O QUE EU FAÇO???”.
Ah, façam-me o favor! Defender a própria honra já é um negócio que dá um trabalho danado, como é que essas pessoas ainda encontram tempo para defender coisas tão desimportantes como livros, filmes, bandas de rock?
Hum… Talvez não tenham honra, né?

Abner é assassinado 3

(II Samuel 3:22-39)

Estava tudo uma beleza: Davi, mais próximo do que nunca de ser soberano sobre um reino unificado, comemorava o acordo com Abner. O comandante do exército israelita, por sua vez, congratulava-se por ter arquitetado seu plano de forma tal que viria a ter no reino de Davi importância igual ou superior à que tivera durante os tempos de Saul. Tudo uma maravilha, mas isso só porque Joabe não estava por perto.
O comandante do exército de Judá fôra com seus homens fazer um ataque surpresa. Quando voltou a Hebrom, trazendo consigo um belo despojo, foi surpreendido pela novidade. Ficou emputecido: com que então Davi fizera um acordo com Abner sem consultá-lo? Era inconcebível! Mas ele não ia deixar tudo assim, ah, não ia. Foi falar com Davi:
— Você recebeu Abner aqui?
— Eita, que as notícias por aqui correm rápido… Recebi sim. E você não sabe do melhor: ele veio me propor um acordo de paz, Joabe! Eu vou ser rei da porra toda!
— Peraí. Abner veio aqui, falou com você, e depois foi embora numa boa?
— É, ué. Joabe, você não ouviu o que eu disse? Um acordo! Vou ser rei da porra toda!
— VAI SER REI DE PORRA NENHUMA! Será que você não conhece o Abner, Davi? Ele veio até aqui para espionar, para anotar seus movimentos, e assim ficar mais fácil para nos atacar.
— Que é isso, Joabe? Acho que cê tá ficando paranóico, parece até o finado Saul falando…
Mas Joabe já havia saído, mais furioso ainda, e já com um plano em mente. Para levá-lo a cabo, começou por enviar mensageiros a Abner, com uma desculpa esfarrapada qualquer para que ele retornasse. Os mensageiros alcançaram o general no poço de Sira e o convenceram a voltar. Quando Abner chegou a Hebrom, ficou surpreso ao ser recebido por Joabe logo no portão da cidade:
— Abner! Há quanto tempo, meu amigo!
— Er… Joabe? Você está bem?
— Bem? Ah, sim! Bem, bem, muito bem! E você, Abner, está bem?
— Estou sim. Recebi a mensagem, os moços disseram que você queria falar comigo. Aconteceu alguma coisa?
— Não, não! Está tudo bem, tudo ótimo, se melhorar estraga! Eu só queria tratar de uns assuntos aí com você, resolver direito os detalhes do… Peraí, tem muito nego curioso aqui. Vem comigo. — Joabe levou Abner até um canto do portão, atrás de uma pilastra. — Então. Queria resolver os detalhes da transição e tal. Fiquei sabendo do acordo entre você e Davi, fiquei muito feliz.
— É mesmo?
— Mas é claro! Sinto a felicidade explodindo meu coração. Você já sentiu o coração explodindo, Abner?
— Não que eu me lembre…
— ENTÃO TOME!!
Dizendo isso, Joabe enterrou um punhal entre as costelas do general, perfurando-lhe o coração. Abner olhou, atônito, para o rosto de seu assassino. Que estúpido tinha sido, como não percebera as reais intenções de Joabe? O momento de revelação durou pouco, porém, e em poucos segundos o general jazia morto às portas de Hebrom. Não tardou a começar o ajuntamento do povo, e em momento algum Joabe pensou em se esconder. Pelo contrário: queria que todos soubessem que ele mesmo matara Abner, vingando assim a morte de Asael, seu irmão. É claro que ele pensava mais na situação política do que em Asael ao enterrar a faca no coração de Abner, mas isso era só um detalhe.
Com o assassinato de Abner, a situação se complicava para o lado de Davi. Como Joabe era seu homem de confiança, era de se esperar que todo mundo concluísse o mesmo: que o rei de Judá, depois de fazer o acordo com Abner, utilizara-se de Joabe para tirá-lo de seu caminho. Sabendo que essa seria a conclusão óbvia de todos, Davi fez questão de negar em público qualquer participação na morte do general:
— Eu meu reino não temos nada com isso, e Javé o sabe. Que a culpa desse crime caia sobre a cabeça de Joabe, e que em sua família nunca faltem homens que sofram de gonorréia ou lepra, ou que só possam fazer trabalho de mulher, ou que sejam aleijados, ou que morram na guerra, ou que passem fome.
A maldição contra o assassino e sua família era eloqüente mas não resolvia nada: Joabe continuava sendo o segundo homem do reino, pois a Davi faltou coragem para tirá-lo de cena. Se lhe faltou essa atittude prática, porém, o mesmo não se pode dizer da tentativa de deixar claro que não tivera nada a ver com a morte de Abner: primeiro, o rei ordenou a Joabe e seus homens que rasgassem as roupas (sinal de respeito) e chorassem a morte do comandante. Em seguida ele fez o mesmo, seguiu o féretro e chorou à beira da sepultura de Abner, cavada em Hebrom, recitando versos de improviso. Depois todo o povo lamentou a morte do grande herói militar de Israel.
Como se não bastassem essas demonstrações públicas de condolências, o rei fez um juramento de não comer nada até a noite. Com isso, o resto de dúvidas que o povo de Judá ainda tinha se dissipou, e todos souberam que Davi não tinha mesmo ordenado o assassinato de Abner.
À noite alguns servos mais próximos de Davi ouviram seu desabafo:
— Abner era um homem e tanto, um grande líder de Israel. Uma pena ele ter morrido, uma pena mesmo. Eu, embora ungido rei, me sinto fraco. Joabe e Abisai, filhos de Zeruia, são fortes demais para mim. Que Javé os castigue como merecem.
Era de se espantar que Davi, homem sempre corajoso e arrojado, se sentisse tão diminuído frente à violência de Joabe. Se o povo soubesse disso, era capaz de bandear-se para o lado de Isbosete.
Não, pensando bem, acho que não. Se era espantoso que Davi desse uma demonstração de fraqueza, mais espantoso ainda seria ver Isbosete demonstrando qualquer coragem. O rei de Israel era patético, como já foi dito, e seu reino tinha os dias contados. Mas isso fica para o próximo capítulo.

Ah, meu saco… 20

Desde que eu escrevi o post criticando, ou melhor, queimando em praça pública o “livro” O Código Da Vinci, não tenho mais sossego: todo dia alguém acha aquele post através de mecanismos de busca e, sem conhecer este blog e muito menos seu autor, faz algum comentário imbecil partindo do pressuposto de que eu teria me sentido ofendido como cristão ao ler a excrescência expelida por Dan Brown. Eu não aprovo tais comentários, é claro, mas vocês podem acreditar em mim quando eu digo que TODOS os que vêem defender o livro são analfabetos funcionais: não sabem pontuar, desconhecem acentuação, fogem da ortografia, ignoram a semântica. Um exemplo bem ilustrativo que acaba de chegar:

ow

u povu q mete pau(tipo vc) so pod ser catolico roxo…pq u livro eh mtu bom,bem elaboradu i tals,o livro naum quis simplesmente contar um assasinatooo,sim a historia d q jesus cristo foi um homem qualquer capaz d amar e ter filhos!! e que leonardo da vinci foi um seuper cabeca…ants d falar mal du q os outros fazem pq vc naum iscreve um livro!? facu questao d ler…=] abracos =]

A autora dessa pérola (uma ostra, claro) assina como Loirinhaa. E aí eu penso: se a maior parte das pessoas que defendem apaixonadamente o tal “livro” escreve assim, isso só demonstra que eu estou certo em odiá-lo. Por que é que pessoas que defendem Doistoiévski, ou Machado de Assis, ou Gabriel Garcia Márquez, sabem fazê-lo de forma clara, escrevendo com elegância?

Ok, a pergunta é retórica (aprendi que preciso explicar isso).

Velório 27

Você alimenta um sentimento, ou a outra pessoa alimenta um sentimento por você, ou, com muita sorte, vocês o fazem simultaneamente. Não importa: todos os amores vão para o caralho, e um dia esse de vocês também irá. E isso nem é pior: que um sentimento morra, tudo bem, estamos acostumados. O ruim mesmo é agüentar o velório.
Porque aí não há mais possibilidade de convivência normal entre você e o outro. Vocês até tentam emendar uma conversa qualquer, mas o sujeito deitado no meio da sala com algodão nas narinas os impede com o peso de sua presença defunta. Você tenta dizer algo casual e besta, mas é forçado a se interromper no meio da frase, porque o finado começa a cheirar mal, o maior dos embaraços. E você tem que tapar o nariz e exclamar “Que horror!”.
Até que o morto é enfim levado para sua sepultura, as janelas são abertas e o chão, varrido. Você olha para a outra pessoa e vê em seus olhos o mesmo alívio que você experimenta. “Quer café?”, você pergunta, e vão para a cozinha, já conversando animadamente sobre o tempo, ou fofocando a respeito da vizinha gorda, ou contando piadinhas. Porque, sem a presença opressiva daquele amor que morreu, vocês enfim são livres.
Sentimentos morrem todos os dias: são assassinados, suicidam-se, morrem de velhice ou nalgum acidente estúpido. Vem o velório em seguida, e esta é a pior parte. E é uma sensação e tanto quando ele acaba, e nos vemos livres daquele cadáver atravancando a sala.