Davi derrota os filisteus
Enquanto era rei apenas em Judá, Davi contava com o total beneplácito dos filisteus — afinal, ele era homem de confiança de Aquis, rei de Gate. No entanto, quando viram sua marionete criar vida própria e subir ao trono israelita, os filisteus não entenderam nada. E quando Davi tomou Jerusalém, os vizinhos resolveram que era hora de botar o pastorzinho ruivo em seu devido lugar. Então sitiaram Jerusalém, acampando no vale de Refaim (dos gigantes), que fica entre Jerusalém e Belém. Quando soube do sítio, Davi botou a todos de guarda e chamou seu sacerdote:
— Abiatar! Ô, ABIATAR!
— Já sei, já sei: você quer o cachecol das pedrinhas, né?
— Cachecol? Pedrinhas? Mas que porra de sacerdote é você, Abiatar? É assim que você chama a estola sacerdotal, o Urim e o Tumim? Que vergonha!
— Mas… Mas…
— Mas é um cacete! Vai logo, preciso fazer uma consulta a Javé.
— Tá na mão.
— Beleza. Pergunta aí se eu devo ir e atacar os filisteus.
— Hmmmm… Peraí… Pronto. Javé diz que sim.
— Maravilha!
Então Davi juntou seus homens e foi atacar seus antigos protetores em Baal-Perazim, onde os venceu. O nome Baal-Perazim, aliás, vem de baal (senhor) e do verbo peraz, que quer dizer abrir uma brecha. Recebeu esse nome estranho (senhor abridor de brechas) porque Davi, espantado com a facilidade com que derrotara os filisteus naquele lugar, só pôde atribuí-la a interferência divina, dizendo que Javé abrira uma brecha entre seus inimigos, como uma enchente que sai derrubando tudo. Muito poético, o Davi, como sempre.
A batalha de Baal-Perazim, no entanto, não definiu a situação: os filisteus eram muitos, e voltaram a cercar a Cidade de Davi assim que se recuperaram da primeira derrota. Então o rei quis consultar a vontade de Javé mais uma vez. Perguntou se deveria atacar os filisteus mais uma vez e a resposta foi “não”. O rei já ia começar a resmungar, decepcionado, quando ouviu uma voz em sua cabeça:
— Não vai atacar os caras assim, feito um doido. Você não tem chance.
— Epa, quem tá falando comigo?
— Sou eu, Davi. Javé, o Senhor dos Exércitos.
— PUTA QUE PARIU! Esse negócio de ser rei de Israel deixa a gente doido de verdade! Primeiro foi o Saul, agora eu estou ficando maluco também.
— MALUCO O CACETE! EU SOU É DEUS, TÁ ME OUVINDO? DEUS!
— Sei, sei… Mas então, o que é que o senhor propõe?
— Não ataque de frente. Dê a volta, vá até as amoreiras e ataque por trás deles, de surpresa.
— Hum… Até que você é bem esperta, voz na minha cabeça.
— EU SOU É D…
— Tá, tá, tô sabendo. Então o negócio é esse? Atacar os caras por trás?
— É. E com uma mãozinha minha, é claro. Mas não ataque logo: fique ali atrás das amoreiras, prestando atenção. Quando ouvir o som de passos por cima das árvores, ataque, porque eu já terei ido na sua frente.
— Peraí, peraí… Deus vai atacar os filisteus? Pessoalmente?
— Isso aí.
— Por quê?
— Estou cansado de não fazer nada. Tchau.
Davi não levou muito a sério essa segunda parte, claro. Interferência divina nos assuntos dos homens era algo que só acontecia nas histórias contadas para as crianças. De qualquer forma, a idéia de atacar os filisteus por trás, aproveitando a penumbra do bosque de amoreiras, era bem interessante.
De madrugada, Davi convocou seus homens para a batalha. Saíram em silêncio pelos portões de Jerusalém, marcharam em arco até o bosque das amoreiras e ficaram lá, de tocaia, esperando a ordem de Davi para o ataque. O rei só esperava o momento certo, mas levou um susto quando ouviu distintamente o som de passos sobre a copa das árvores. Era incrível, era impossível. Mas estava acontecendo e, olhando para seus soldados, ele viu em seus rostos o mesmo espanto que sentia. Que Davi se lembrasse, a história mais recente de Deus agindo para ajudar os homens era aquela do poço que ele cavara para matar a sede de Sansão, e isso acontecera já fazia alguns séculos. Então Javé viera mesmo lutar ao lado de seu povo, depois de tanto tempo de ausência? Animado pela ajuda inesperada, Davi deu a ordem de ataque, e o exército israelita marchou contra os filisteus. Os inimigos foram derrotados, e expulsos de volta para suas terras costeiras. Nunca mais eles viriam a ocupar o interior de Israel.
Com essa vitória rápida, Davi firmava-se de vez no trono. A expulsão dos filisteus das tribos do sul, esperada havia tantos anos, dava ao rei inquestionável autoridade.




