Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em

Davi derrota os filisteus

(II Samuel 5:17-25)

Enquanto era rei apenas em Judá, Davi contava com o total beneplácito dos filisteus — afinal, ele era homem de confiança de Aquis, rei de Gate. No entanto, quando viram sua marionete criar vida própria e subir ao trono israelita, os filisteus não entenderam nada. E quando Davi tomou Jerusalém, os vizinhos resolveram que era hora de botar o pastorzinho ruivo em seu devido lugar. Então sitiaram Jerusalém, acampando no vale de Refaim (dos gigantes), que fica entre Jerusalém e Belém. Quando soube do sítio, Davi botou a todos de guarda e chamou seu sacerdote:
— Abiatar! Ô, ABIATAR!
— Já sei, já sei: você quer o cachecol das pedrinhas, né?
— Cachecol? Pedrinhas? Mas que porra de sacerdote é você, Abiatar? É assim que você chama a estola sacerdotal, o Urim e o Tumim? Que vergonha!
— Mas… Mas…
— Mas é um cacete! Vai logo, preciso fazer uma consulta a Javé.
— Tá na mão.
— Beleza. Pergunta aí se eu devo ir e atacar os filisteus.
— Hmmmm… Peraí… Pronto. Javé diz que sim.
— Maravilha!
Então Davi juntou seus homens e foi atacar seus antigos protetores em Baal-Perazim, onde os venceu. O nome Baal-Perazim, aliás, vem de baal (senhor) e do verbo peraz, que quer dizer abrir uma brecha. Recebeu esse nome estranho (senhor abridor de brechas) porque Davi, espantado com a facilidade com que derrotara os filisteus naquele lugar, só pôde atribuí-la a interferência divina, dizendo que Javé abrira uma brecha entre seus inimigos, como uma enchente que sai derrubando tudo. Muito poético, o Davi, como sempre.
A batalha de Baal-Perazim, no entanto, não definiu a situação: os filisteus eram muitos, e voltaram a cercar a Cidade de Davi assim que se recuperaram da primeira derrota. Então o rei quis consultar a vontade de Javé mais uma vez. Perguntou se deveria atacar os filisteus mais uma vez e a resposta foi “não”. O rei já ia começar a resmungar, decepcionado, quando ouviu uma voz em sua cabeça:
— Não vai atacar os caras assim, feito um doido. Você não tem chance.
— Epa, quem tá falando comigo?
— Sou eu, Davi. Javé, o Senhor dos Exércitos.
— PUTA QUE PARIU! Esse negócio de ser rei de Israel deixa a gente doido de verdade! Primeiro foi o Saul, agora eu estou ficando maluco também.
— MALUCO O CACETE! EU SOU É DEUS, TÁ ME OUVINDO? DEUS!
— Sei, sei… Mas então, o que é que o senhor propõe?
— Não ataque de frente. Dê a volta, vá até as amoreiras e ataque por trás deles, de surpresa.
— Hum… Até que você é bem esperta, voz na minha cabeça.
— EU SOU É D…
— Tá, tá, tô sabendo. Então o negócio é esse? Atacar os caras por trás?
— É. E com uma mãozinha minha, é claro. Mas não ataque logo: fique ali atrás das amoreiras, prestando atenção. Quando ouvir o som de passos por cima das árvores, ataque, porque eu já terei ido na sua frente.
— Peraí, peraí… Deus vai atacar os filisteus? Pessoalmente?
— Isso aí.
— Por quê?
— Estou cansado de não fazer nada. Tchau.
Davi não levou muito a sério essa segunda parte, claro. Interferência divina nos assuntos dos homens era algo que só acontecia nas histórias contadas para as crianças. De qualquer forma, a idéia de atacar os filisteus por trás, aproveitando a penumbra do bosque de amoreiras, era bem interessante.
De madrugada, Davi convocou seus homens para a batalha. Saíram em silêncio pelos portões de Jerusalém, marcharam em arco até o bosque das amoreiras e ficaram lá, de tocaia, esperando a ordem de Davi para o ataque. O rei só esperava o momento certo, mas levou um susto quando ouviu distintamente o som de passos sobre a copa das árvores. Era incrível, era impossível. Mas estava acontecendo e, olhando para seus soldados, ele viu em seus rostos o mesmo espanto que sentia. Que Davi se lembrasse, a história mais recente de Deus agindo para ajudar os homens era aquela do poço que ele cavara para matar a sede de Sansão, e isso acontecera já fazia alguns séculos. Então Javé viera mesmo lutar ao lado de seu povo, depois de tanto tempo de ausência? Animado pela ajuda inesperada, Davi deu a ordem de ataque, e o exército israelita marchou contra os filisteus. Os inimigos foram derrotados, e expulsos de volta para suas terras costeiras. Nunca mais eles viriam a ocupar o interior de Israel.
Com essa vitória rápida, Davi firmava-se de vez no trono. A expulsão dos filisteus das tribos do sul, esperada havia tantos anos, dava ao rei inquestionável autoridade.

Recado

She’d like to put you in her zoo,
Right between the canaries and the cockatoos.
She’ll pull out your feathers
For her brand new hat,
And when she’s done that
She’ll feed you to her cat.
So watch out:
She ain’t no good for you.

(Cake – Ain’t No Good)

Davi reina sobre todo o Israel

(II Samuel 5:1-16)

Com a morte do rei, as autoridades israelitas precisavam providenciar logo um substituto. A tarefa, que seria das mais ingratas fossem outras as circunstâncias, era então bem leve: os líderes já haviam concordado com Abner que Davi era a melhor alternativa; a morte de Isbosete apenas acelerara o processo. Então os líderes foram até Hebrom, fizeram aquela rasgação de seda com Davi — dizendo que mesmo na época de Saul ele já se mostrava um líder nato, e que Javé o escolhera e todo esse blablablá — e terminaram convidando-o para ocupar o trono unificado de Israel. Davi, que não queria outra coisa, aceitou de bom grado, e ali mesmo foi aclamado rei de todo o Israel. Sete anos e meio depois de ter subido ao trono de Judá, Davi, aos 37 anos, finalmente unificava a nação da qual seria rei por mais 33 anos. Nada mal para quem começara como mero pastor de ovelhas.
Agora que era rei, Davi precisava estabelecer sua capital. Hebrom, embora fosse cidade importante, era demasiadamente identificada com o reino de Judá. Se continuasse a dirigir o país a partir de lá, Davi corria o sério risco de não ter sua autoridade reconhecida pelas tribos do norte, o que poderia levar Israel de volta à cisão. Gibeá, capital de Saul, estava muito ligada ao nome do antigo rei. Maanaim, na Transjordânia, de onde reinara o desastrado Isbosete, fora uma escolha baseada mais na distância segura que havia entre a cidade e os filisteus do que em qualquer importância que a cidade tivesse. Enfim: Davi precisava de uma capital, e nenhuma cidade de Israel parecia adequada. Até que, durante uma passada de olhos pelo mapa do país, o pontinho representando uma cidade pareceu saltar aos olhos do rei. Era perfeita: ficava exatamente na fronteira entre Israel e Judá, o que faria dela um bom símbolo da união definitiva entre os dois reinos. Era uma cidade fortificada, tendo um trecho murado no alto de um monte, o que a tornava segura para a moradia do rei. E, finalmente, estava ocupada por estrangeiros — os jebuseus — e sua tomada seria uma vitória nacional. Davi bateu na testa: como não pensara nisso antes? A cidade era perfeita, perfeita! Que cidade era essa? Oras, vocês sabem. Vejam no mapa:

Sim, sim! Jerusalém — cujo nome hebraico, Ir-shalom, significa cidade de paz — já então era cenário de guerras.
Feliz com sua idéia brilhante, Davi tratou logo de juntar seus homens e partir para perto a fronteira entre Benjamim e Judá. Lá eles sitiaram a cidade, esperando que os jebuseus se entregassem. Nesse intento, Davi se aproximou da muralha e gritou:
— Jebu! Ô, jebu!
— Jebu teu rabo! Mais respeito, ô ruiva!
— Ruiva é um cacete! Eu sou é rei de Israel, tão me ouvindo?
— Rei de Israel, pffff… O que cê quer aqui, majestade?
— Bom, eu preciso de uma capital. Escolhi Jerusalém.
— Ah! Escolheu, foi? E me diga, como é que vossa ruiveminência pretende entrar aqui? Metendo o pé na porta?
— Se for preciso…
Nhenhenhenhé… Pois venha, vossa baitolescência, venha! Não vamos nem perder tempo com você: só os cegos e os aleijados aqui de Jerusalém já bastam pra botar vocês pra correr de volta para Hebrom.
— É o que veremos…
Davi voltou ao acampamento e combinou o ataque com seus comandantes. Deram contra a cidade com força, e logo a tomaram, para espanto dos jebuseus. O rei e seus homens entraram em Sião, a tal fortaleza alta, que passou a se chamar Cidade de Davi.
Embora vitorioso, Davi não se esquecera da provocação feita pelos jebuseus, e disse a seus homens:
— Eu odeio essa raça, os jebuseus! Não diziam que para nos derrotar bastavam os cegos e os aleijados? Pois sim! Onde estarão os safados? Eu tenho um palpite: subam pelo canal de água que entra na cidade, aposto que os filhos-da-puta estão escondidos lá.
Os soldados israelitas assim fizeram, terminando assim a tomada fulminante de Jerusalém.

Já estabelecido em sua capital, Davi firmava-se no trono. Como se isso não fosse suficiente, Hirão, rei de Tiro — mais importante cidade da Fenícia — mandou de presente ao novo rei de Israel toras de cedro, carpinteiros e pedreiros, para que lhe construíssem um palácio. O primeiro palácio da monarquia israelita digno desse nome foi construído em Sião. Além dele, Davi ordenou que se construíssem mais muralhas, reforçando assim a segurança de sua cidade.
Em paz e segurança, morando num palácio construído com o melhor cedro do Líbano, Davi encontrou tempo para entregar-se a seu esporte favorito. Arrumou mais algumas mulheres, e em Jerusalém lhe nasceram mais filhos: Samua, Sobabe, Natã, Salomão, Ibar, Elisua, Nefegue, Jafia, Elisama, Eliada e Elifelete.
Epa, alguém falou em Salomão? Sim, sim. Mas foi só uma lista. Salomão ainda demora para surgir na nossa história. Antes, entre outras coisas, Davi devia explicações aos seus protetores filisteus.

A parte alta de Jerusalém era chamada Sião por causa do nome do monte que a abrigava. A palavra hebraica significava um sinal. Mais tarde, os israelitas passaram a se referir a toda a Jerusalém pelo nome de Sião. Já no exílio, quando diziam Sião estavam se referindo a todo o Israel. A idéia de Sião como símbolo maior de Israel ficou tão incutida na mente do povo que o movimento que reivindicava o reestabelecimento de uma nação israelita na Palestina (objetivo alcançado em 1948, com a criação do Estado de Israel) chamava-se Sionismo.
Outra curiosidade: na trilogia de Matrix, Zion (nome inglês de Sião) é a cidade dos humanos, a “casa” para a qual todos querem voltar. A reverência que os personagens do filme demonstram ao falarem de Zion reflete a mesma atitude dos judeus em relação a Jerusalém.