Davi é avisado e lamenta a morte de Saul e Jônatas

(II Samuel 1)

O homem corre entre corpos em decomposição, vestígios da batalha recente. Tropeça num braço decepado e logo se levanta. Não tem tempo para sentir-se horrorizado: precisa chegar logo a Ziclague. Sabe que suas chances são mínimas, mas confia em sua boa sorte, que lhe permitiu ser um dos poucos sobreviventes do ataque filisteu. O homem que corre nem mesmo é israelita: sua família, amalequita de origem, mudou-se para Israel quando ele era ainda criança. Morou em Israel a vida toda, sempre sofrendo por ser estrangeiro. Mas estava no lugar certo na hora certa, de modo que agora tem em seu poder alguns souvenirs muito preciosos. Então corre para Ziclague, precisa encontrar-se com Davi. Sabe que o líder dos rebeldes é o único capaz de restaurar a nação, agora que Israel está mutilada, com todas as tribos a oeste do Jordão (inclusive Judá) sob domínio filisteu. O amalequita sabe que, se sua idéia der certo, ele pode adquirir a confiança de Davi, e vir a ser personagem importante na montagem do futuro reino.
Procura não pensar muito nisso, porém: concentra-se na corrida. Precisa, mais que tudo, chegar a Ziclague.

Três dias depois de derrotar os amalequitas que haviam saqueado a cidade, Davi e seus homens ainda comemoravam. A festa foi interrompida, porém, pela chegada de um homem esfarrapado e sujo. Dizia ter notícias importantes para o chefe, e foi trazido à presença de Davi.
— Ô, rapaz. Que acontece com você? De onde você saiu desse jeito?
— Fugi do acampamento de Israel.
— Epa. O que aconteceu?
— Os filisteus, seu Davi. Atacaram a gente e não teve como resistir. Saiu todo mundo correndo, e eles não deixaram quase ninguém vivo. O rei Saul e seu filho Jônatas também morreram.
Davi sentiu uma súbita vertigem e sentou-se. Não podia ser verdade. Jônatas não podia estar morto.
— Peraí. Como é que você sabe que Saul e Jônatas estão mortos?
— Pois então… Eu passava por acaso pelo monte Gilboa quando vi a cavalaria dos filisteus cercando o rei. Ele me viu e me chamou. Cheguei perto, mas não muito. Não sou besta. Ele perguntou quem eu era, e eu respondi do jeito de sempre: “Sou amalequita”. Sabe como são as coisas, seu Davi, se a gente é estrangeiro em Israel, nego não quer nem saber nosso nome. Amalequita é tudo igual pra eles, não é mesmo? Certa feita, um tio meu…
— O QUE ACONTECEU COM SAUL, PORRA?
— Ah, é. Então. Eu falei que era amalequita, já esperando que ele fosse me desprezar e tal. Mas que nada! Ele me olhou de um jeito muito, muito triste e disse: “Vem aqui e me mata, porque estou muito ferido, e não quero morrer nas mãos desses incircuncisos”.
— E aí, e aí???
— Bom, veja o senhor: ele estava cercado, não ia durar muito. Estava muito machucado mesmo, já começando a delirar e tal. Então eu fiz a vontade dele…
— HEIN???
— É, ué. Fui lá e matei ele. Depois peguei a coroa e o bracelete dele, e trouxe aqui para o senhor, chefe.
— Não… Você… Você… Espera. Espera.
Em sinal de luto, Davi rasgou suas vestes, no que foi acompanhado por seus homens. Eles choraram e ficaram em jejum até a tarde. Havia motivo de sobra para o luto: o rei estava morto, o herdeiro do trono e melhor amigo de Davi também. O povo de Deus, Israel, passava pela pior crise de sua história. Sim, havia motivo para pranto.

Assistindo às demonstrações de tristeza de Davi e seu exército rebelde, o amalequita apenas espera pelo momento em que será chamado para receber seu merecido prêmio. À tarde, depois de comer um pedaço de pão e beber um pouco d’água, finalmente Davi o convoca à sua presença. Ele vai radiante, agradecendo a seus deuses e ao deus dos israelitas por ter permitido que ele passasse pelo monte Gilboa no exato momento em que Saul se suicidou. Assim ele pôde pegar a coroa e o bracelete, e forjar a historinha que o transformaria de amalequita malvisto em autoridade sobre Israel. É com surpresa, portanto, que nota o tom seco de Davi quando se dirige a ele:
— De onde você é?
— Er… Eu disse, senhor. Sou filho de um estrangeiro. Amalequita.
— Como é que você teve coragem de matar o rei ungido por Javé? Como?
— Hein? Hum? Hã? Não, veja bem… Eu… Eu…
O amalequita nota que Davi faz sinal a um dos soldados. Continua tentando desculpar-se:
— Eu não matei, veja bem… Eu só… Eu…
É interrompido, porém, pela ordem dada ao soldado:
— Mata esse filho da puta.
— SEU DAVI! Queisso, seu Davi??? Peraí, vamos conversar. Não foi bem assim, eu posso explicar. Olha só…
— Você é o único culpado pela sua morte, amalequita. Você veio até aqui e confessou de boca cheia que matou Saul, o rei escolhido por Deus, e achou o quê? Que eu ia ficar feliz?
— Hum… É, ué! É isso! Mas eu posso expl…
Nesse momento o amalequita é rudemente interrompido. Ainda quer continuar falando, mas percebe que fica difícil assim, com a cabeça separada do corpo.

Depois de mandar matar o amalequita que lhe trouxera a terrível notícia, Davi compôs uma de suas mais belas canções. Sim, sim: para quem não sabe, dentro do corpo de guerreiro sanguinário escondia-se uma alma sensível e dada à poesia. Como diz Chico Buarque em A Bela e a Fera, “Tórax de Superman e coração de poeta”. Boa parte dos Salmos foi composta por ele. Esta canção, no entanto, não é contada entre os Salmos, visto que, em vez de um hino de louvor, era uma canção de lamentação pela morte de Saul e Jônatas. O versículo 18 deste capítulo diz que a letra da canção está no Livro de Jasar (“O Justo”). Tal livro, embora citado aqui e também em Josué 10, foi excluído do cânon sagrado por cotradizer os outros livros da Bíblia em certas passagens, e noutras narrar histórias um tanto absurdas demais, mesmo para os padrões bíblicos.
Mas eu falava sobre o lamento de Davi pela morte de Saul e Jônatas: trata-se de um dos mais belos poemas da Bíblia, e eu recomendo enfaticamente a leitura. Tanto recomendo, na verdade, que pela primeira vez transcrevo literalmente um trecho da Bíblia:

A tua glória, ó Israel, foi morta sobre os teus altos!
Como caíram os valentes!
Não o noticieis em Gate, nem o publiqueis nas ruas de Ascalom,
para que não se alegrem as filhas dos filisteus,
para que não saltem de contentamento as fihas dos incircuncisos.

Vós, montes de Gilboa,
nem orvalho, nem chuva caia sobre vós,
nem tenhais campos que produzam ofertas.
Pois aí foi profanado o escudo dos valentes,
o escudo de Saul, que jamais será ungido com óleo.

Do sangue dos feridos, da carne dos valentes,
nunca se retirou o arco de Jônatas,
nem voltou vazia a espada de Saul.
Saul e Jônatas, tão amados e queridos em vida,
também na sua morte não se separaram.
Eram mais ligeiros do que as águias,
mais fortes do que os leões.

Vós, filhas de Israel, chorai por Saul,
que vos vestia de escarlata e de delícias,
que adornava os vossos vestidos com ornamentos de ouro.

Como caíram os valentes no meio da peleja!
Jônatas foi morto nos teus montes.

Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas;
quão querido me eras!
Maravilhoso me era o teu amor,
mais maravilhoso do que o amor das mulheres.

Como caíram os valentes,
e pereceram as armas de guerra!

(II Samuel 1:17-27, Tradução João Ferreira de Almeida, Edição Contemporânea)

Belíssimo, não? Pois é, nem tudo na Bíblia é desgraça: aqui e ali encontramos poemas lindos, é só procurar.
Destaquei em itálico um trecho da canção. Esse trecho faz a alegria daqueles que gostam de dizer que Davi e Jônatas tinham um relacionamento homossexual. Oras, só mesmo um militante de grupo gay desses bem xiitas, ou um pobre homem que ainda não tenha percebido que seus amigos são muito mais preciosos que as mulheres, pode dizer uma asneira dessas.
Humpf.

Diga aí

20 comentários

  1. Quantas vezes nós já tivemos a certeza de que tínhamos encontrado nossa “alma gemea” e tantas vezes, pouco tempo depois dessa nossa maior-de-todas-as-certezas, percebemos que ela não era tão certa quanto imaginávamos…

    Paixões vêm e vão, as vezes até numa velocidade maior que a da luz (ai! sempre exagero… mas tudo bem). Entretanto, quem segura a onda quando a gente leva um tôco, tem saco pra nos ouvir à la Peninha e ainda é mui paciente pra nos aturar quando ficamos insuportavelmente insuportável xingando até a oitava geração da então “maldita ex-alma gemea” é o amigo.

    Depois de tudo isso ele merece ou não nosso amor?

    Acho que o Davi sacou isso… Jônatas deu a Davi um grande motivo para ser amado: Foi amigo!

    Só os seguidores de Freud, que vêem sexo até entre defuntos, ( mais um exagero!) pra “homossexualizar” o relacionamento dos dois. Eu einh!!!

  2. E complementando, pq tu complementou o post depois do comentário (caralho!): o poema é bom mesmo. Lembra muito os poemas épicos como Beowulf e os Edas.

    E sobre o itálico, acho que comentários sobre homossexualismo partem mais da boca de idiotas que tem medo de valorizar os amigos.

  3. Cara, vc não acredita. Eu tava fazendo uma pesquisa sobre Psicose e acabei caindo em vc…rsrsrs….e não é que eu gostei da porcaria que vc escreve?!…tô com uma sensação de que blasfemei terrivelmente enquanto lia suas insinuantes palavras….Vô vortá aqui sempre pra dar uma olhadinha nas suas engenhosas palhaçadas, tá…Até mais!!!

  4. Muito bacana o Post… O espertão se fudeu, adoro quando isso acontece… Quanto aos amigos, sei não heim!!!

  5. Gosto bem mais desse trecho:

    L’amour est enfant de Bohême,

    Il n’a jamais, jamais connu de loi,

    Si tu ne m’aime pas, je t’aime,

    Si je t’aime, prend garde à toi!

    Mas a música é muito mais legal em:

    Toreador, en garde, Toreador, Toreador!

    Et songe bien, oui, songe en combattant

    Qu’un oeil noir te regarde,

    Et que l’amour t’attend,

    Toreador, L’amour t’attend!

  6. Ótimo!! Incrível! Onde é que vocês (Janelas Abertas, Homem Chavão)aprenderam a escrever tão bem, e com tanta criatividade??? Putz! Muuuito bom!Pronto! Chicoteei!!!

  7. sou e cristão da assembreia de Deus,sempre entro nesse site apesar dessa visão um tanto distorcida da palavra percebe-se q vc entende muito de biblia,e nos mostra essas historias de uma maneira diferente.

  8. ok!! concordo com vcs, irmãos ; josé carlos e carlos cezar, essa história tem profundidade, e inspiração , não se pode misturar coisas sagradas com palavras torpes, ou se escolhem falar inspiradamente por deus ou vai contar piadas para um teatro, mas mesmo assim, eu peço k deus abençoe esse amigo que querendo ou não falou algumas coisas verdadeira. obgdo!!!!! deus o abençoe….

Diga aí!