Ontem assisti finalmente ao filme The Pianist, de Roman Polanski. Aquele mesmo, do cara que até os judeus chamam de narigudo. Não vou falar do filme: é excelente, se alguém aí ainda não viu, trate de ver. Só quero falar de uma cena.

Logo no começo do filme, dá-se o confinamento dos judeus a um gueto em Varsóvia. Acontece que uma rua da cidade corta o bairro judeu (“Por que temos uma rua de gentios passando pela nossa área? Por que eles não dão a volta? Os alemães se dizem inteligentes, mas sabe o que eu acho? Eu acho que são uns completos idiotas”). Quando há movimento, cancelas são fechadas, e os guardas cuidam para que nenhum judeu atravesse. Nessa cena, alguns músicos de rua tocam enquanto as pessoas esperam. Os guardas nazistas, entediados, começam a espezinhar um velho:
— O que há com você? Está com pressa? Faça alguma coisa, oras! Dance! A música é pra vocês, dance!
Os dois guardas se aproximam e obrigam o velho a dançar. Chamam outra pessoa para dançar com ele. Em pouco tempo, formam vários pares de judeus, que dançam para o divertimento dos guardas. A cena é revoltante pela dimensão da humilhação a que são expostas aquelas pessoas.
Vendo isso, lembrei-me desse post do Alexandre Soares Silva e meu comentário subseqüente por aqui. A pergunta que me veio à mente de imediato foi: Se não há nada de errado na dança, se ela é tão inocente quanto comer ou jogar xadrez, porque essa cena é tão horrível?

Nah, cansei de política. Fico espantado, até meio escandalizado, quando lembro que um dia escrevi:

Fico espantado, até meio escandalizado, quando ouço nego dizendo que não gosta de política. Como pode??? Como é possível alguém preferir acompanhar novelas, seriados, campeonatos de futebol ou gamão, se temos a política, meu deus do céu?

Que feio, Marcurélio, que feio… Só resolvi falar em política hoje porque vi um outdoor de campanha da Dona Marta. Dizia o outdoor: MARTA FAZ BEM FEITO. Agora, se eu fosse um cara maldoso, faria um comentário ferino. Algo como “Abílio Diniz que o diga…”.
Mas como sou bonzinho, calo-me.