Saul consulta uma médium

(I Samuel 28:3-25)

Como vimos no último capítulo, o rei Aquis havia decidido invadir Israel. Não perdeu tempo: no dia seguinte o exército filisteu marchou e acampou na cidade de Suném. Sabendo disso, Saul reuniu seus homens no monte Gilboa, uns dezoito quilômetros a sudeste de onde se concentravam os filisteus. Assim que chegou, o rei subiu ao monte para ver o exército inimigo. Ficou apavorado: nunca antes os filisteus tinham vindo contra Israel em tão grande quantidade. Saul perguntou a Deus o que devia fazer, mas não obteve resposta por sonhos nem através de profetas. O Urim e o Tumim, a maneira mais fácil e direta de se conhecer a vontade divina, estavam em poder de Abiatar, último remanescente do clã dos sacerdotes, que bandeara-se para o lado de Davi depois do massacre dos seus. Desesperado com o silêncio de Javé, Saul chamou seus oficiais e ordenou:
— Busquem para mim uma necromante.
— Uma o quê, majestade?
— Uma necromante! Uma pitonisa!
— Ah, sim…
— Entenderam agora?
— Não…
— Ai, meu saco… Uma médium, uma mãe-de-santo, qualquer coisa!
— Ah! Mas, majestade, o senhor mesmo expulsou todos os médiuns e adivinhos de Israel.
— Puta merda! Onde é que eu estava com a cabeça? Não sobrou nem unzinho?
— Hum… Olha, tem uma mulher lá em En-Dor que dizem que é médium.
— Pois está muito bem. Tragam a bruxa aqui.
— Ih, acho que não vai dar. A mulher está entrevada, não sai de casa.
— Puta que pariu, que sorte eu tenho! Arrumem o endereço dela, eu vou até lá.
Assim determinado, Saul se disfarçou e saiu acompanhado de dois de seus oficiais. As precauções não eram exageradas: para chegar a En-Dor era necessário que o rei passasse perigosamente perto de Suném, onde estavam os filisteus. No entanto, o rei e seus seguranças chegaram à cidadezinha sem maiores problemas naquela mesma noite. Depois de andar um pouco e pedir informações a um peixeiro, pararam em frente a uma casa com uma tabuleta na porta:

MÃE PITONISA DE EN-DOR
Búzios, Tarô, Runas
Trago a pessoa amada em sete dias

“Deve ser aqui”, pensou Saul, brilhante como sempre. Chamou:
— Ó de casa!
— Pode entrar — respondeu lá uma voz muito fraca. O rei entrou e viu a velha feiticeira. Sentada numa poltrona velha em frente a uma urupema de búzios, fumava um charuto, usava lenço na cabeça e repousava o queixo ossudo nas mãos cruzadas sobre o cabo de um guarda-chuva velho e esgarçado. — Ô, mizifio. O fio tá cum pobrema, mãe pode vê. Pobrema dos grande, né coisa pôca não. Que que mãe pode fazê pra mode ajudá o fio, hum?
— Er… Então. Eu preciso que a senhora faça subir um espírito aí pra me responder umas coisas.
— Epa! Mas o fio num sabe que rei Saú proibiu sas coisa de apurrinhá os morto? Se rei fica sabeno dum negóço desse, mãe vai pro saco! O fio qué que mãe vai pro saco, é?
— De forma alguma, senhora, de forma alguma! Juro por Deus que nada de mal há de ocorrer à senhora.
— Hum. HUM! Tá bão, tá bão. Quem é o esprito que o fio qué que mãe faiz subi?
— Samuel.
— Pois tá muito bão. Evém o ôme! Ó, mo fio, do jeito que suncê tá, só o ôme que pode te ajudá.
— Que homem?
— Samué, fio! Cê num pediu Samué? Pois tá vindo aí e… EPA! Suncê tá enganano a véia!
— Eu?
— Suncê! Suncê é rei Saú, Samué tá me dizeno aqui. Veio pra me matá, foi?
— Longe de mim, minha senhora! Fique tranqüila, já disse. É Samuel mesmo que a senhora tá vendo?
— É um véio rabujento, resmunga que só o cão, e tá todo enrolado numa capa.
— É ele mesmo! — excitado com a possibilidade de poder consultar Samuel, Saul caiu de rosto no chão, em sinal de respeito. — O que é que ele diz?
— HUM!… Ele tá priguntano o que o fio qué com ele, por que foi que tirô ele do repouso lá embaixo.
— Ah! Sim, sim. Diga a ele que estou muito angustiado. Os filisteus invadiram Israel mais uma vez. Pedi orientação divina, mas Javé não me responde por sonhos nem pelos profetas. Fiquei desesperado, então me lembrei do tempo em que Samuel ainda vivia, como me orientava e aconselhava. Então resolvi vir aqui pra pedir conselho a ele.
— Já tô falano pra Samué, viu, fio? E ele já tá respondeno, óia! HUM!… Samué diz que rei Saú tinha nada que vim pertubá ele. Se nem Deus responde, ele que num vai si metê nisso.
— Ô, dona Pitonisa. Vê se consegue arrancar mais alguma coisa dele!
— HUM!… Ele tá dizeno que rei Saú foi desobediente. Que Deus mandô matá tudo os amalequita, mas rei Saú num bedeceu. Por isso que agora Deus vai entregá Israel nas mão dos filisteu, e amanhã rei Saú e seus fio vai tá tudo lá embaixo, junto com Samué. O minino Davi é que vai sê rei dispois disso. HUM!…
A mensagem tenebrosa de Samuel, diretamente do Mundo dos Mortos, era demais para Saul. Então por causa do velho episódio da guerra contra os Amalequitas, Javé o faria pagar junto com seus filhos, entregando o reino a Davi? Castigo demasiado só por ter poupado a vida do gado amalequita. Esmagado pelo peso de notícia tão ruim, e já enfraquecido por ter passado o dia sem comer nada, Saul caiu desmaiado. Voltou a si com a feiticeira batendo de leve em seu rosto.
— Epa! Achei que o fio num fosse vortá mais. Rei Saú tá muito fraco, precisa cumê.
— Não estou com fome.
— A véia confiô em suncê, agora é hora de suncê confiá na véia: mizifio precisa cumê.
Saul continuou dizendo que não queria comer. Mas a mulher e os oficiais que o acompanhavam insistiram, e o rei acabou cedendo. Feliz por ser útil, a pitonisa matou um bezerro e o assou, servindo-o a Saul com uns pães. Saul e seus oficiais comeram, pagaram à mulher o preço combinado mais o valor do bezerro, e pegaram a estrada de volta para o Monte Gibeá. O rei ia cabisbaixo e pensativo: aparentemente chegara a hora de ter o reino rasgado de suas mãos.