Fascinação
Lying here asleep on a sunbeam
I wonder if you realise you fascinate me so”
(Belle & Sebastian – Asleep On A Sunbeam)
Por mais que eu viva, nunca esquecerei essa cena: sentado numa cadeira e usando roupas adequadas a uma sala de cirurgia, meu cunhado segura o pacotinho delicado que é sua filha recém-nascida. Deitada, com uma expressão entre exausta e eufórica (não me peçam para explicar), minha irmã olha para os dois. O casal troca olhares de incredulidade. Está ali. É de verdade, e é um amálgama perfeito dos dois. Nunca vi nada que se aproximasse tanto do ideal do Sagrado. Aquela cena merecia uma pintura, uma escultura, uma sinfonia. Não contávamos, porém, com nenhum artista, e o Hospital-Maternidade Albert Einstein não os fornece às mães. Paciência, usamos o que havia a mão: o tio babão aqui, que filmava a cena com mãos trêmulas.
Passaram-se dezessete dias desde então, e a cada vez que olho para Ana Julia, minha sobrinha, é como se anjos descessem do céu entoando hosanas e jogando pétalas de rosas. Bem bichonas, os anjos. Agora mesmo estava com ela nos braços cantando Asleep On A Sunbeam. Enquanto eu cantava, ela me olhava com seus grandes olhos verdes. Essa música já foi plena de sentidos para mim, mas nunca antes o trecho que botei como epígrafe teve tamanho significado.
Fico pensando se você percebe o quanto me fascina, Ana Julia.



