Davi em Queila e no deserto de Zife

(I Samuel 23)

Davi ainda estava escondido nos bosques de Judá quando um de seus homens veio trazer a novidade:
— Davi, os filisteus estão atacando Queila, e saqueando o trigo recém-colhido.
— E eu com isso? Nem conheço essa tal Queila…
— Não, Davi. A cidade de Queila.
— Ah, essa Queila… Hum. Isso muda tudo.
Intervir poderia ser vantajoso. Além dos agora seiscentos párias que o acompanhavam, era possível que Davi contasse com o apoio de toda uma cidade. Além do mais, Queila era cercada por muralhas, e daria um excelente quartel-general. A tentação de largar a vida de fugitivo para se estabelecer de vez como guerrilheiro revolucionário era muito forte. Havia um obstáculo, no entanto: Davi contava apenas com seus seiscentos companheiros, e atacar os filisteus era sempre um perigo. Os seguidores de Davi eram meros aventureiros; os inimigos eram soldados treinados para o combate desde a adolescência. Por outro lado, esse sempre fora o problema de Israel nos embates com a Filistia, e nunca impedira vitórias espetaculares.
Davi tinha uma decisão difícil a tomar. Para sua sorte, porém, contava com um trunfo: Abiatar, o único sobrevivente do clã sacerdotal. Ele viera munido da estola sacerdotal (ou éfode) com seu respectivo peitoral. E no peitoral, se vocês não se lembram, estavam incrustados o Urim e o Tumim, as duas pedrinhas usadas para consultar a vontade de Javé.
— Abiatar!
— Sim, Davi.
— Preciso da sua ajuda, rapaz.
— Opa. Pode falar.
— Preciso consultar a vontade de Deus para um negócio aí.
— Ih, acho que não vai dar…
— Como não???
— Consultar a vontade de Javé assim, fora do Tabernáculo? Sei não, sei não…
— Pô, Abiatar, não fode.
— É sério. Não sei se vai funcionar. Além do mais, fora da Tenda Sagrada é possível que eu responda querendo te agradar, e não segundo o Urim e o Tumim. É complicado.
— Hum. Ah, podemos evitar isso.
— Como?
— Você tapa os ouvidos e vira de costas quando eu fizer a pergunta. Quando eu te cutucar, você joga as pedrinhas e só me responde “SIM!” ou “NÃO!”.
— Tá parecendo aquele quadro do Domingo no Parque
— Eu precisava me inspirar em alguma coisa. E aí, o que você acha?
— Podemos tentar.
— Legal. Então vai lá pegar a estola, eu espero aqui.
— Tá bom.
Abiatar foi até sua tenda e voltou cingido com a estola.
— Preparado?
— Sim.
— Então vira de costas aí e tapa os ouvidos.
— Tá.
— Pronto?
— …
— Beleza, não tá me ouvindo. Arram… SENHOR! DEVO IR ATÉ QUEILA COMBATER OS FILISTEUS? — perguntou Davi, cutucando Abiatar em seguida.
— SIIIIIIIM!
— Beleza!
— Er… Davi?
— Sim, Abiatar?
— Eu sei que você ainda vai ser rei e tal, mas não abuse.
— Hã?
— CUTUCA MAIS PRA CIMA, PORRA!
— Ah, sim. Foi mal. Peraí, vou anunciar a novidade aos homens. EI! PESSOAL! TODO MUNDO SE PREPARANDO AÍ! VAMOS ATÉ QUEILA CHUTAR UNS RABOS FILISTEUS!
Em vez dos brados de alegria que esperava, Davi só ouviu murmúrios de parte de seus guerrilheiros.
— Pô, que há com vocês? Não querem sair um pouco desse marasmo?
— Claro, seu Davi, Claro. Mas, pensa: se escondidos aqui a gente já se caga de medo, imagine indo combater os filisteus!
— Hum. Bando de bunda-mole. Mas Javé disse que podemos ir!
— Fora do Tabernáculo? Bah.
— Ai meu saco… Peraí, vou confirmar. Abiatar, de costas, mãos nos ouvidos.
— Vê lá, hein?
— Pode deixar. Aham… SENHOR! TEM CERTEZA? — e deu um piparote na orelha de Abiatar.
— PORRA, DAVI!
— Desculpa, não resisti. Fala aí, sim ou não?
— SIIIIM!
— Tão vendo, seus mequetrefes? Bora lá, Javé entregou aqueles filisteus de merda nas nossas mãos.
Ainda céticos, porém sabendo que qualquer coisa era melhor do que discutir com Javé, os homens se prepararam e já no dia seguinte partiram para Queila. Lá combateram contra os filisteus, matando muitos deles e tomando seu gado. A paz voltou à cidade, e seus moradores ficaram muito gratos a Davi, como era natural.
Aparentemente o plano de Davi funcionara às mil maravilhas. No entanto, o serviço de espionagem de Saul continuava eficiente como sempre, e o rei logo soube o que seu grande inimigo andava aprontando.
— Arrá! Agora aquele filho-da-puta está na minha mão. Que burro, foi se enfiar logo numa cidade murada! Caiu sozinho numa armadilha, o mané. De hoje ele não passa.
Davi, porém, também tinha seus espiões, e ficou sabendo logo que Saul marchava contra Queila.
— Puta que pariu, esse desgraçado não dá um tempo! ABIATAR!
— Sim, Davi.
— Preciso fazer mais uma consulta.
— Sei não, sei não…
— Ai ai ai… Que foi agora?
— Sem piparote?
— Sem piparote.
— Sem dedada?
— Sem dedada.
— …
— JURO!
— Tá bom, vai. Manda.
— Tapou bem os ouvidos? Beleza. SENHOR! SAUL VAI VIR MESMO PRA CÁ? — cutucão.
— SIIIIIIIIIM!
— E os homens de Queila vão me entregar nas mãos dele? — cutucão.
— SIIIIIIIIIM!
— Peraí, Senhor, pega leve. Está dizendo que os homens desta cidade que eu acabei de livrar dos filisteus, devolvendo a eles toda a colheita de trigo, vão me trair e me entregar a Saul? — cutucão.
— SIIIIIIIIIM!
— MAS SÃO UNS FILHOS DA PUTA! — e deu um tapa na nuca de Abiatar.
— SIIIIIIIIIM! E, porra, cê tava indo bem…
— Desculpa, Abiatar. Fiquei nervoso.
— Que houve?
— Eu perguntei se Saul vai mesmo vir pra cá, e se os homens de Queila vão me entregar a ele.
— Putz, e Javé respondeu sim nas duas vezes. MAS QUE CAMBADA DE FILHOS DA PUTA!
— SIIIIIIIIIM!
— Grunf. E aí?
— E aí que o melhor que temos a fazer é picar a mula.
— Concordo.
— Me ajuda a reunir os homens.
Davi, seu sacerdote particular e seu exército de párias fugiram de Queila sem rumo certo. Quando Saul soube disso, abortou seu plano e voltou para o palácio com seus homens.

Depois de muito vagarem, os guerrilheiros se estabeleceram na região de Zife, um lugar desértico e montanhoso, cheio de fortalezas naturais. Saul continuou com a perseguição, mas nunca conseguiu seu intento, o que o deixava mais e mais frustrado. Mesmo assim, o cerco se fechava e Davi se enfurnava cada vez mais no deserto, acabando por se estabelecer em Horesa, na parte de acesso mais difícil. Passava os dias ali com pouca água e comida, na companhia apenas de homens, com saudades de Mical, sua esposa, e dos amigos. E foi num dia particularmente triste que ele teve a surpresa de receber uma visita.
— Jônatas!
— Ei, Davi. Dessa vez você se enfiou num buraco mesmo, hein?
— Pois é, rapaz. Seu pai não me dá descanso. Mas, puxa, estou muito feliz em te ver! Pensei que nunca mais nos encontraríamos.
— Pois pensou errado. Estou aqui, não estou? Quanto ao meu pai, não se preocupe. Ele tem lá seu serviço de inteligência, mas eu sempre dou um jeito de contaminar as informações que ele recebe.
— Ah! Bem que eu estava estranhando ele ainda não ter botado as mãos em mim. Obrigado, meu irmão.
— Agradeça a Deus, Davi. Ele te protege, e vai te fazer rei de Israel.
— Que é isso…
— Bah, você sabe muito bem que está destinado a ser rei.
— Mas se o herdeiro do trono é você!
— Eu me contento com um ministério, um cargo de confiança qualquer…
— Tá pensando o quê, pilantra? Que meu governo será um trem da alegria?
— Mas é claro!
— Hehehe.
Os dois passaram o dia conversando. Quando anoitecia, despediram-se renovando suas promessas de lealdade eterna.
Com a visita do amigo, Davi recobrou ânimo. Mas o sossego não duraria muito, porque alguns dedos-duros de Zife foram até Gibeá falar com Saul:
— Majestade! Ficamos sabendo que o senhor quer muito pegar o Davi.
— Oras, quem é que não sabe?
— Pois então… Acontece que ele está em Horesa, no alto do monte Haquila, ao sul de Jesimon, logo depois daquela hospedaria amarela que pertence ao Zimoneu, filho de Zimon, aquele que tinha um cavalo baio que certa vez pulou a cerca e…
— PÁRA!
— Opa. Desculpe, majestade.
— Quanto vocês querem como recompensa?
— Nada.
— Nada?
— Nada. Sabemos o quanto o senhor quer pegá-lo, então o levaremos até ele.
— Ah, que beleza! Que Javé os abençoe por serem tão bondosos comigo.
— Amém.
— Mas então… Eu já vasculhei Israel de Dã até Berseba atrás de Davi, sem sucesso. O danado é esperto como o capeta. Então peço a vocês o seguinte: voltem a Zife e se assegurem de onde ele está. Descubram onde ele se esconde, onde compra mantimentos, essas coisas, e me informem. Dessa vez vai dar certo, nem que eu tenha que palmilhar toda a tribo de Judá atrás daquele sacripanta.
Então os alcagüetes voltaram a Zife e descobriram que Davi saíra de Horesa e agora estava com seus homens em Maom, num vale seco ao sul de Jesimon, perto daquele carvalho que foi plantando por Minâncora, a filha de Maizena, aquela que tinha umas… Enfim, Davi estava em Maom. Sabedor disso, Saul se apressou naquela direção com seus soldados. Davi ficou sabendo, e fugiu para o alto de uma montanha rochosa em Maom. Saul foi informado e logo subiu ao monte. Acontece que as informações eram desencontradas — obra de Jônatas, provavelmente —, de modo que Davi ficou de um lado do monte e Saul do outro, com um precipício entre eles. Os guerrilheiros eram em menor número, e fugiram do exército oficial, que já havia descido e subido novamente, agora do lado certo. Saul cercava Davi, e dessa vez a captura seria inevitável.
Seria, eu disse. Porque justo quando o rei já cantava vitória, recebeu a mensagem preocupante:

VOLTE IMEDIATAMENTE PT
FILISTEUS ATACANDO SUL DO PAIS PT

Saul podia ser maluco, e estar sedento do sangue de Davi, mas ainda tinha consciência de seus deveres de rei. Então reuniu seus homens e voltou a Gibeá, para de lá coordenar a resistência a mais essa invasão.
O montanha em que os dois exércitos se separaram passou a ser chamada de Selá-Hamalecote, que em hebraico é Rocha da Separação. Davi fora mais uma vez salvo pela sorte. Começava a preocupar-se: é notório que a sorte não acompanha ninguém por muito tempo.

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14 comentários

  1. Pô, Marco, valeu a espera, até. Muito bom o capítulo. Mas vê se pára com essa mania de ficar trocentos dias sem escrever! Essa Bíblia versão Jesus, me chicoteia! precisa chegar ao mercado rápido!

  2. Hum… estratégias de batalha e aliança muito interessantes… A boa tática do “uma mão lava a outra” (também conhecida como “tática pós-bronha”). Será que Deus jogava Suikoden 2 naquela época do velho testamento???

    Não… acho que não, Deus não deve gostar dos games de RPG do Playstation. Afinal, Ele é Deus, se quisesse uma coisa boa, fazia o PS2 logo e jogava o Suikoden 4 mesmo!!!

  3. PUTA QUE O PARIU … QUE CAPETA DE TEXTO GRANDE… SEUS TEXTOS SÃO ATÉ MANEIROS,MAS,PORRA NEM DÁ PRA LER NO SERVIÇO PORQUE SEMPRE UM FILHO DA PUTA ME ATRAPALHA.

  4. Todo dia é dia de se aprender alguma coisa… Eu hoje aprendi que minâncora vem de Maizena… que coisa!

  5. Muto bom, mas fiquei esperando a piada óbvia de comparar os espiões do rei Saul a Mossad, dizendo que eles já eram os melhores do mundo desde aquela época. :o(

    Quem sabe na versão em PDF vc não faz essa revisão né ?

  6. Abiatar com as mãos nos ouvidos tomou um piparote de Davi??? só por milagre de Javé mesmo….

    (eu entro aqui faz tempo e sou chato ao ponto de comentar só pra apontar o erro de continuidade….)

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