Quero falar sobre o filme, mas antes vou arriscar aqui um palpite do que seja, por definição, a Boa Arte, com maiúsculas e tudo. Tirem as crianças da sala, portanto. Pronto? Ok, vamos lá.
Acho que todo mundo conhece a situação: o sujeito arruma um violãozinho de segunda mão, aprende a fazer três ou quatro acordes, ensaia lá uma batida canhestra e — oh, terror! — resolve mostrar seus dotes musicais aos amigos. Ah, como é triste! Eu sei porque passei por isso aos dezesseis anos, quando comecei a tocar. O coitado está ali, instrumento na mão, achando que está fazendo uma demonstração de virtuosismo nunca visto. Enquanto isso, o que os outros vêem é algo que parece um sacrifício e tanto: os dedos da mão esquerda do pretenso músico parecem que vão arrebentar a qualquer momento, de tão esticados. As pontas dos dedos estão brancas devido à pressão excessiva sobre as cordas. Enquanto isso, a mão direita se movimenta de modo desastrado, como se tivesse raiva do violão. O som que sai é abafado, as cordas trastejam. Quem vê esse triste espetáculo pensa: “Puxa, tocar violão deve ser muito, muito difícil”.
Eu percebi que estava começando a aprender numa ocasião em que tocava Chega de Saudade (eu sempre toco Chega de Saudade) quieto no meu canto enquanto outras pessoas conversavam. Uma dessas pessoas começou a me observar, e depois de um momento comentou: “Olha só, parece que ele não está fazendo nada”.
Nesse dia eu compreendi que, em qualquer tipo de arte que você se meta a fazer, terá atingido algo próximo à perfeição quando extrair dos outros a exclamação “Bah, isso aí eu também faço!”. Porque só então você estará comprometido com a sua arte a ponto de praticá-la de forma tão suave e precisa que parecerá fácil aos olhos alheios.
Gabriel Garcia Márquez, por exemplo. Lendo os contos dele, eu tenho vontade de fechar o livro, abrir meu Word e começar a escrever. “Bah, isso aí eu também faço!”, penso. Mas cadê que eu faço? De que cartola tirar coisas como “O vestido amarelo-pálido acentuava sua timidez”, uma frase simples ao extremo, mas que já diz tudo que é necessário dizer sobre uma personagem? Desisto de escrever e volto à leitura, na esperança de talvez aprender alguma coisa.
E então chegamos ao filme:

Não sabia nada sobre o filme, exceto que tinha o Pedro Almodóvar por produtor executivo. A resenha do GuiaSP não me animou muito:
A faxineira Ann, de 23 anos, tem uma vida financeira difícil, mas, apesar de tudo, é feliz. Ela mora com o marido e duas filhas num trailer no quintal da casa de sua mãe e é plenamente realizada no casamento. O pouco que ela conseguiu construir com muito esforço cai por terra quando uma notícia terrível muda sua vida: ela tem câncer no ovário e a expectativa é que viva somente mais alguns meses.
A surpresa é que em vez de contar pelo menos às pessoas próximas sobre o que está acontecendo, Ann esconde tudo. O segredo, no entanto, a atormenta e ela começa a fazer planos e uma lista de coisas que quer fazer antes de morrer. Entre os itens da relação, está dormir com outro homem, apesar de amar o marido, seu único amante desde os 17 anos. E é nessa situação que ela acaba se apaixonando por Lee. No meio de todos os acontecimentos, ainda prepara o terreno em sua casa para sua morte.
Se me dessem essa resenha e dissessem que se tratava do próximo filme a ser apresentado no SuperCine (ainda existe isso?), eu acreditaria. Mulher jovem que leva uma vida difícil porém feliz descobre que tem câncer e resolve viver intensamente o tempo de vida que lhe resta. Creio em Deus Padre!
Fui assistir ainda assim. Quando vi Sarah Polley, a protagonista, fazer um biquinho ao receber a má notícia e depois perguntar ao médico se ele tinha uma bala, minha vontade foi dizer “Bah, isso eu também faço!”. A interpretação dela é na medida exata, sem arroubos melodramáticos, sem grandes lições de vida, nada dessas coisas chatas e de mau gosto.
O filme não se resume ao talento de Polley, porém: há o texto excelente, a direção inventiva, os personagens muito bem moldados (com destaque para a cabeleireira fã de Milli Vanilli, interpretada pela portuguesa Maria de Medeiros). E há a belíssima cena do supermercado. Ah, o filme é bom, muito bom. Você assiste e parece fácil. É arte, meus filhos. Arte!
A propósito, nunca mais ouvi nada parecido sobre minhas habilidades ao violão. Até hoje, quando toco, as pessoas olham com aquela cara de “Nossa Senhora, isso deve ser difícil”.