Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em

Pegando no tranco

Os leitores mais atentos já devem ter percebido que eu venho tentando compensar com quantidade a falta de qualidade dos meus textos. Fiquei um tempo sem vontade de escrever, e me forcei a voltar para não enferrujar de vez. Entendam esses últimos posts como um exercício, nada mais. Estou tentando fazer meu cérebro pegar no tranco. Desculpem o mau jeito.

(Além do mais ultimamente eu ando triste pra caralho e com muita, muita raiva. Eu não durmo e ouço No Surprises, do Radiohead, umas quinhentas vezes por dia. Mas não é de vossa conta.)

My Life Without Me

Quero falar sobre o filme, mas antes vou arriscar aqui um palpite do que seja, por definição, a Boa Arte, com maiúsculas e tudo. Tirem as crianças da sala, portanto. Pronto? Ok, vamos lá.
Acho que todo mundo conhece a situação: o sujeito arruma um violãozinho de segunda mão, aprende a fazer três ou quatro acordes, ensaia lá uma batida canhestra e — oh, terror! — resolve mostrar seus dotes musicais aos amigos. Ah, como é triste! Eu sei porque passei por isso aos dezesseis anos, quando comecei a tocar. O coitado está ali, instrumento na mão, achando que está fazendo uma demonstração de virtuosismo nunca visto. Enquanto isso, o que os outros vêem é algo que parece um sacrifício e tanto: os dedos da mão esquerda do pretenso músico parecem que vão arrebentar a qualquer momento, de tão esticados. As pontas dos dedos estão brancas devido à pressão excessiva sobre as cordas. Enquanto isso, a mão direita se movimenta de modo desastrado, como se tivesse raiva do violão. O som que sai é abafado, as cordas trastejam. Quem vê esse triste espetáculo pensa: “Puxa, tocar violão deve ser muito, muito difícil”.
Eu percebi que estava começando a aprender numa ocasião em que tocava Chega de Saudade (eu sempre toco Chega de Saudade) quieto no meu canto enquanto outras pessoas conversavam. Uma dessas pessoas começou a me observar, e depois de um momento comentou: “Olha só, parece que ele não está fazendo nada”.
Nesse dia eu compreendi que, em qualquer tipo de arte que você se meta a fazer, terá atingido algo próximo à perfeição quando extrair dos outros a exclamação “Bah, isso aí eu também faço!”. Porque só então você estará comprometido com a sua arte a ponto de praticá-la de forma tão suave e precisa que parecerá fácil aos olhos alheios.
Gabriel Garcia Márquez, por exemplo. Lendo os contos dele, eu tenho vontade de fechar o livro, abrir meu Word e começar a escrever. “Bah, isso aí eu também faço!”, penso. Mas cadê que eu faço? De que cartola tirar coisas como “O vestido amarelo-pálido acentuava sua timidez”, uma frase simples ao extremo, mas que já diz tudo que é necessário dizer sobre uma personagem? Desisto de escrever e volto à leitura, na esperança de talvez aprender alguma coisa.
E então chegamos ao filme:

Não sabia nada sobre o filme, exceto que tinha o Pedro Almodóvar por produtor executivo. A resenha do GuiaSP não me animou muito:

A faxineira Ann, de 23 anos, tem uma vida financeira difícil, mas, apesar de tudo, é feliz. Ela mora com o marido e duas filhas num trailer no quintal da casa de sua mãe e é plenamente realizada no casamento. O pouco que ela conseguiu construir com muito esforço cai por terra quando uma notícia terrível muda sua vida: ela tem câncer no ovário e a expectativa é que viva somente mais alguns meses.
A surpresa é que em vez de contar pelo menos às pessoas próximas sobre o que está acontecendo, Ann esconde tudo. O segredo, no entanto, a atormenta e ela começa a fazer planos e uma lista de coisas que quer fazer antes de morrer. Entre os itens da relação, está dormir com outro homem, apesar de amar o marido, seu único amante desde os 17 anos. E é nessa situação que ela acaba se apaixonando por Lee. No meio de todos os acontecimentos, ainda prepara o terreno em sua casa para sua morte.

Se me dessem essa resenha e dissessem que se tratava do próximo filme a ser apresentado no SuperCine (ainda existe isso?), eu acreditaria. Mulher jovem que leva uma vida difícil porém feliz descobre que tem câncer e resolve viver intensamente o tempo de vida que lhe resta. Creio em Deus Padre!
Fui assistir ainda assim. Quando vi Sarah Polley, a protagonista, fazer um biquinho ao receber a má notícia e depois perguntar ao médico se ele tinha uma bala, minha vontade foi dizer “Bah, isso eu também faço!”. A interpretação dela é na medida exata, sem arroubos melodramáticos, sem grandes lições de vida, nada dessas coisas chatas e de mau gosto.
O filme não se resume ao talento de Polley, porém: há o texto excelente, a direção inventiva, os personagens muito bem moldados (com destaque para a cabeleireira fã de Milli Vanilli, interpretada pela portuguesa Maria de Medeiros). E há a belíssima cena do supermercado. Ah, o filme é bom, muito bom. Você assiste e parece fácil. É arte, meus filhos. Arte!

A propósito, nunca mais ouvi nada parecido sobre minhas habilidades ao violão. Até hoje, quando toco, as pessoas olham com aquela cara de “Nossa Senhora, isso deve ser difícil”.

Papai voltou!

Em fevereiro de 2002 a Bárbara me mandou um e-mail. Havia algum tempo que não nos falávamos, então estranhei um pouco. E mais estranho ainda achei quando vi que o e-mail era sobre algo que eu desconhecia: alguma coisa chamada blog. Ela tinha feito lá um blog (fosse o que fosse aquilo), e estava divulgando para alguns amigos.
Entrei na URL indicada e a princípio não entendi nada. Era um site pessoal, mas com textos que se empilhavam. E pior: empilhavam-se em ordem cronológica inversa. Que o que estava escrito era de excelente qualidade eu já sabia antes mesmo de clicar no link: conhecia muito bem o talento de minha ex-namorada. Então disse a ela que havia gostado, mesmo sem entender direito que negócio era aquele de blog.
— É legal. Você deveria fazer um.
— Não deveria não.
— DEVERIA SIM!
— Eu nem sei HTML, Bárbara.
— Não precisa! Tem tudo pronto lá!
— E que porra eu vou escrever?
— Ué, você sempre escreveu. Que que custa?
— Bah.
Eu costumo dizer que ela insistiu muito, mas é só para fazer charme. Na verdade ela só me deu a idéia, e depois mencionou o assunto de passagem uma ou duas vezes. Uma semana depois, entrei no site do Blogger, disposto a criar meu próprio negócio-de-nome-esquisito (eu demorei algum tempo para descobrir que o nome vinha de weblog, que faz muito mais sentido). Primeiro obstáculo: o Blogger pedia que eu desse um nome para meu diário virtual. Eu sempre fui péssimo para nomes. Mas acontece que eu estava com uma mania um tanto irritante de exclamar “Jesus, me chicoteia!” a torto e a direito, por influência de uma colega de trabalho. Dei esse nome, portanto, e segui em frente. Escolhi o template que me pareceu menos pior, estalei os dedos e…
— E aí, Bárbara? Que eu faço agora?
— Agora você escreve, ué.
— Ah. E depois?
Ela me explicou a coisa toda, e daí surgiu meu primeiro post, onde eu já deixava claro:

De um modo ou de outro, sejam quais forem as conseqüências, a culpa é da Bárbara, que tanto insistiu para que eu me tornasse essa abjeção, um fazedor de blog. Humpf!

E por que eu estou dizendo isso, se não é aniversário do JMC nem nada? Explico: depois de um tempão, Bárbara resolveu ressuscitar o seu Modo de Usar, agora com um dos novos templates do Blogger e com comentários. Estou feliz: o pai do meu blog voltou pra casa.